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LEITURAS DE QUARENTENA (1)

22 abr

PAULO FRANCIS E EU

Nesta época de prisão domiciliar, estou lendo até o que não quero, como este “Paulo Francis – Diário da Corte”, que não sei dizer como veio parar aqui em casa, pois jamais compraria um livro desse “polemista da imprensa brasileira” (subtítulo do livro) que sempre achei arrogante e meio fascista. Mas, enfim, o livrão de 400 páginas estava aqui e não resisti, afinal, pra matar o tempo tudo vale.

E outra coisa, não sejamos ingênuos: maldoso ou de boa fé, equivocado ou correto, Paulo Francis tinha o que dizer. Sua cultura enciclopédica, sua rica experiência de vida, sua inteligência e sua boa escrita compensam a aventura de cobrir os 75 artigos constantes do livro, uma seleção de sua militância enfurecida entre os anos 70 e 80, na Folha de São Paulo.

De política a cinema, de literatura a show business, de teatro a gastronomia, de filosofia a questões pessoais – tudo entra nessa salada refinada e – atenção – se você não tiver cuidado, vai ficar fã (risos).

Claro, o melhor do livro é a franqueza, que, no geral, não faz concessões a nada e a ninguém, sequer a si mesmo. A esse propósito, cito logo uma confissão do autor, que adorei ler. Diz ele: “Meus contatos com celebridades internacionais nem sempre foram estimulantes. O egocentrismo dessa gente supera o meu. E o simples fato de que são internacionais – e eu não – provavelmente é outro fator irritante, dada a minha vaidade.”

Se você conseguir abstrair as suas próprias divergências com o autor, acho que vai lucrar com as análises e os insights nas áreas do seu interesse.

De minha parte, confesso que cheguei a me deleitar com seus comentários ferinos da literatura mundial, sobretudo da literatura anglo-americana disciplina que lecionei na Universidade por tanto tempo. Suas referências a Mark Twain, Eliot, Pound, Wallace Stevens, William Carlos Williams, Tennessee Williams, Arthur Miller, Sinclair Lewis, James Baldwin, Gore Vidal, etc, são originais e estimulantes pra qualquer leitor.

Não sou da área, mas o seu longo ensaio sobre a Revolução bolchevique e seus desdobramentos, com Lenin, Trotsky e Stalin me preencheu lacunas e me iluminou. Já pra suas críticas de cinema nem dei bolas: os seus comentários, por exemplo, do Woody Allen de “Noivo neurótico, noiva nervosa”, e mais adiante, de “Hanna e suas irmãs” não me acrescentaram nada.

Uma providência boa da parte de quem organizou a edição foi deixar bem visíveis as contradições do autor. Por exemplo, o seu pau permanente em Roberto Campos está em inúmeros dos textos selecionados, seguidos providencialmente de um outro, no final do livro, em ele se desdobra em elogios ao economista brasileiro.

Eu sei, eu sei, o percurso de Paulo Francis na vida foi da esquerda (trotskista na juventude) para a direita (“aristocrata convertido” – a expressão é dele mesmo), porém, a virada de casaca com Campos foi brusca e… misteriosa.

Não lia Francis desde os bons tempos do Pasquim, quando sua liberdade de expressão se confundia com a de todos os outros colaboradores do jornaleco.

Numa época sem internet, Francis cometeu erros de informação que seus desafetos – ou mesmo os colegas de trabalho, como a turma do Pasquim – aproveitavam para citar e fazer gozação. Um dos seus erros mais hilários foi colocar, em um de seus textos em que analisa o conflito de Pearl Harbor, o Almirante Yamamoto pra assistir à estreia do filme “Tora, tora, tora”, em 1971, quando o militar japonês havia falecido, ainda em batalha, no remoto 1943. Depois disso, o próprio pessoal do Pasquim ficou usando o termo “Yamamoto” como sinônimo de “merda” (“Deu Yamamoto em Brasilia”, por exemplo). Ofendido e irritado, com isto e com outras questões, Francis terminou abandonando, não só o Pasquim, mas o Brasil, pra ir residir, elegantemente, em área nobre de Manhattan.

Pois é, continuo achando Paulo Francis (1930-1997) arrogante e meio fascista, mas, que gostei de ler os seus “Diários da Corte”, gostei. Distração e instrução. Enfim.

“Green Book” – Conduzindo Dr. Shirley

1 abr

Falando-me, uma vez, sobre sua carreira de pianista, um conhecido meu (cujo nome não estou autorizado a mencionar), confessou-me que, na juventude, tocando para plateias de clubes da elite, passava pelo seguinte embaraço: o gerente do clube punha uma cortina redonda, circundando o pequeno palco onde ele fazia sua performance, para que a ilustre plateia presente não o visse. Motivo: a cor negra da sua pele. Isso eram anos sessenta, em certa capital nordestina.

Se naquela época, no Nordeste brasileiro, acontecia esse tipo de discriminação, imaginem nos Estados Unidos.

Pois é, lembrei a estória do meu amigo vendo o filme “Green Book” (“O guia”, 2018), ganhador do Oscar de melhor filme do ano.

Com ótimo roteiro, e baseado em caso real, o filme de Peter Farrelly parte de uma situação diegética bem propícia a explosões. Um branco pobre aceita ser o motorista de um negro rico, numa excursão pelo Sul racista dos Estados Unidos.

Leão de chácara de uma boate, Tony Lip, o branco, é um grosseiro descendente italiano que, no momento desempregado, ganha uns trocados apostando com outros brutamontes quem engole mais cachorros quentes de uma vez. Já o Dr Don Shirley, o negro, é um famoso e refinado pianista de música clássica que reside suntuosamente no Carnegie Hall, Sétima Avenida, Manhattan. Duas pessoas bem diferentes que terão de conviver por meses, no mesmo automóvel, ou hotéis, ou bares, e enfrentar conflitos internos – entre os dois – e externos – o racismo explícito do “deep South.

A longa e difícil viagem dos dois personagens, do Meio Oeste americano para o extremo Sul é mais ou menos previsível. Com o passar dos dias, as diferenças entre eles vão desaparecendo, ambos descobrindo o valor do outro, ambos se humanizando, e até se sacrificando pelo outro… e, no desenlace, terão se tornado grandes amigos, cada um admirando no outro suas particularidades, mesmo as menos contornáveis. Obviamente os embates com a hostilidade local, em cada cidade visitada, os aproxima, como não faria a frouxa libertinagem nova-iorquina.

Naturalmente, cada um dos dois tem que, em dadas circunstâncias, fazer concessões ao outro e eventualmente abrir mão de convicções ou hábitos. Exemplos: o refinado Dr Shirley termina comendo frango assado no carro e sujando seus dedos finos de pianista. E o grosseiro Tony termina por aceitar que o seu companheiro de viagem lhe dite as belas palavras poéticas, que ele não saberia colocar nas cartas que escreve à esposa.

No mesmo espírito de concessão ao diferente, estão: (1) o comparecimento do Dr Shirley a uma boate negra popular, e mais que isso, sua aplaudida performance no local. (2) a mais ou menos tranquila aceitação da homossexualidade do patrão negro por parte de Tony, que lhe diz, sem delongas: “não se preocupe: vivendo no mundo em que vivo, estou acostumado com o fato de que as pessoas são complicadas.”

Assim como as interpretações, o diálogo é primoroso e, como esperado, ajuda o espectador a ter, dos personagens, uma visão mais profunda, por exemplo, quando, no meio da estrada, os dois personagens discutem sobre o que é ser negro nos Estados Unidos, cada um se dando como mais “negro” que o outro. E, em ambos os casos, os argumentos são convincentes…

Mas, às vezes, o filme fica eloquente sem o emprego de palavras. Lembrem aquela cena, em plena rodovia, com o carro quebrado e Tony providenciando o conserto, enquanto, do banco de trás, o negro Dr Shirley observa os pobres trabalhadores rurais, também negros, na dura labuta de colher o algodão da plantation. Por um tempo, os olhares se cruzam e, de parte a parte, as expressões não são nada tranquilas. Bela cena, cheia de dores, que diz mais sobre o protagonista do que palavras poderiam dizer.

Um negro e um branco forçados a conviver por um tempo em situação hostil… Essa estória já foi contada em um clássico do cinema americano. Estou, cá com meus botões, me reportando aos anos cinquenta, quando o racismo era um pouco mais trágico. O filme que me vem à mente é “Acorrentados” (“The defiant ones”), o qual, com Tony Curtis e Sidney Poitier no elenco, o grande e corajoso Stanley Kramer dirigiu em 1958. Só que, na estória de Kramer, o problema era maior: os dois personagens são fugitivos do cárcere, e pior, estão algemados um ao outro… De todo jeito, não dá pra apreciar o filme de Farrelly sem pensar no de Kramer, ao qual, para fechar, remeto o meu leitor.

Roda gigante

9 jan

Está em cartaz “Roda gigante” (“Wonder wheel”, 2017), o filme mais recente de Woody Allen, que, aos 83 anos não para de trabalhar, e melhor, sustenta o nível de sempre.

Como esperado, o filme é a cara dele, e, ainda bem, nem na qualidade muda.

Praticamente todos os ingredientes de sua filmografia estão aqui, de forma tão sistemática, que até parece uma compilação: uma atendente de lanchonete sonhadora, um marido grosseiro, gangsteres, amor pelo cinema ou pelo teatro, infância problemática, romance, personagens neuróticos, discussões domésticas ou amorosas intermináveis, psicólogos, traição, crime, culpa, referências culturais (Tchekov, O´Neill) e fímicas (o cartaz de “Winchester 73” e a conversa sobre “Flying to Rio”), narração de primeira pessoa com olhar para a tela… etc. Tudo isso, claro, ao som de velhas canções que tocavam nos rádios de então.

O cenário desta vez é Coney Island nos anos cinquenta, que, como se sabe, não deixa de ser Nova Iorque.

A protagonista é essa mulher beirando os quarenta, Ginny (desempenho estupendo de Kate Winslet, que nunca trabalhara com Allen), em seu segundo casamento, com um filho de menor, Richie, advindo do primeiro. O marido grosseirão, Humptey (Jim Belushi), é o dono do carrossel no famoso Deno´s Amusement Park, que tanto tipifica o distrito periférico de Coney Island.

Ginny é obrigada a ajudar na lanchonete da família e a vida não lhe parece nada promissora, sobretudo para quem um dia sonhou em ser atriz de teatro. Melhora um pouco quando vem a conhecer esse salva-vidas bonitão, com pretensão de autor de peças, com quem inicia um caso amoroso. Piora quando vem morar com a família uma filha do marido, havia muito tempo desaparecida, e que agora retorna, pedindo socorro porque está sendo seguida pela máfia, à qual o marido marginal pertencia.

Kate Winslet e Justin Timberlane

Mas, a narração de primeira pessoa não é de Ginny, e sim, de Mickey (Justin Timberlane), o salva-vidas que, em seguida a Ginny, conquista a mais jovem e mais bonita enteada de Ginny, Carolina (Juno Temple)… Que confusão! Notando o clima de flerte entre Mickey e Carolina, Ginny vai aos poucos virando uma fera… até aquele ponto crítico emocional que apaga o tom de comédia romântica do filme e lhe concede aquelas cores de tragédia grega, sim, dos últimos filmes de Allen. Tragédia várias vezes referida no diálogo do filme, e em elementos da diegese: lembram o livro que Mickey empresta a Carolina, “Hamlet e Édipo” de Ernest Jones?

Neste aspecto, uma cena exemplar no filme é aquela, quase final, em que Ginny, sabendo que os gângsteres estão no encalço da enteada, num impulso francamente humanitário, corre a um aparelho de telefone público, no intento de ligar para a Pizzaria e salvar a vida da moça, e… no meio da ligação desiste. Desiste justamente no instante em que inicia a descrição da enteada que roubara seu amante. Ao pronunciar, para o dono da Pizzaria, a palavra “loura” (as próximas seriam provavelmente “jovem e bonita”) ela repõe o telefone no gancho e volta para casa… ninguém pode dizer que feliz.

O salva-vidas entre duas mulheres…

Somatório de culpas (houve uma anterior, por ter traído o primeiro marido…), a última vez que a vemos, vestida de “louca”  – como lhe joga na cara o marido atual, também traído – o que nos vem à mente (e deve ter sido intenção da direção) é uma vaga mas efetiva mistura de Blanche Dubois com Norma Desmond, nos finais respectivos de “Uma rua chamada pecado” e “Crepúsculo dos deuses”, sem coincidência, dois filmes dos anos cinquenta.

Mas, atenção, o derradeiro fotograma não é dela. É do filho Richie, o garoto cuja maior curtição, depois de cinema, é atear fogo em tudo que pode ser queimado. No fechamento do filme, ele ateia fogo a um monte de madeira, justamente no local onde ficava o posto do salva-vidas, ponto alto de onde esse narrador privilegiado via a praia inteira e de onde nos contava a estória, a do filme e a sua… Em dado momento do filme, a narração perguntara ´o que será que esse garoto vê no fogo ateado…?` Ninguém sabe, mas acho que o espectador tem direito – por que não? – de pensar em Bachelard e seus quatro elementos… Algum tipo de metáfora para a estória que nos é narrada?

Outro dado para o espectador devanear seria por que o filme se chama “Wonder wheel” (“Roda gigante”) e não “Merry go round” (“Carossel”), o brinquedo que era propriedade da família…

O idoso Woody Allen, em direção de atores.