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Antes da televisão

20 out

O rádio foi sempre um elemento presente no cinema, mas, duvido que homenagem maior lhe tenha sido feita do que a que recebe no filme de Woody Allen, “Radio Days” (1987), no Brasil chamado de “A era do rádio”.

Entre saudosista e irônico, biográfico e imaginativo, o filme conta, não tanto uma estória, mas um apanhado de episódios que giram em torno de uma família pobre do bairro judeu de Rockaway, Nova York, mais ou menos num périplo que vai de 38 a 44. Todo narrado em voz over pelo próprio Allen, “Radio Days” tem estatuto de flashback, e um roteiro que é todo cerzido pelas muitas canções da época. De Cole Porter a Glenn Miller, passando por Ary Barroso e Carmem Miranda, a trilha, sempre diegética e determinante dos episódios narrados, concede ao filme um certo jeitão de musical.

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 Mas, claro, nem só de música vive o filme – uma força decisiva vem da capacidade de persuasão da palavra oral, no caso, aquela que se escuta no rádio caseiro, seja o assunto as incríveis aventuras do Vingador Mascarado, ou o diário show do café da manhã das socialites, ou porventura a reportagem sobre uma catástrofe local, como aquela da menina soterrada. O personagem central é esse garoto (de 8 a 12 anos), filho único, cuja mãe abomina a vida que leva, cujo pai esconde a profissão que tem, e há ainda uma tia solteirona especialmente infeliz nas relações amorosas. Aliás, os dois únicos personagens a ganharem um relativo desenvolvimento narrativo são essa Tia Bea (Dianne Wiest), com seus inúmeros pretendentes, e Sally, a vendedora de cigarro (Mia Farrow) que, depois de quebradas de cara, alcança, por vias improváveis, um certo estrelado no rádio. Os episódios narrados teriam sido testemunhados pelo garoto,- uma espécie de alterego de Allen – que os viu de perto, dentro de casa, ou no bairro, ou que simplesmente deles ouviu falar, ou melhor ainda, com a ajuda de Allen, os inventou, caso bem óbvio da narração radiofônica do jogador de beisebol que, por acidente, foi perdendo partes do corpo.

Em muitos casos esses “episódios” estão possuídos de uma certa autonomia narrativa, como se valessem por “curtas” dentro de um longa, como se dá com o acidente que abre o filme: dois ladrões em ação atendem o telefone e – surpresa – tratava-se de um programa de rádio para os ouvintes dizerem qual música está sendo executada no momento: o ladrão conhece as três músicas, dá as respostas e deixa o enorme prêmio para a família roubada. Outro episódio completo que vem ao caso é o dos garotos que espiam a vizinha nua, e na semana seguinte, a belezona lhes aparece como professora da escola, e um deles, acometido de culpa judaica, deduz que eles e seus colegas vão todos para o inferno.

Patéticos ou líricos, alguns desses episódios também servem para demarcar a época, como o incidente com o namorado de Bea (a tia solteirona), que a abandona dentro do carro num lugar ermo, com medo da invasão de ETs, transmitida pelo rádio – a gente sabe – na voz fake de Orson Welles em 1938. Outra marcação evidente é a do anúncio radiofônico do ataque a Pearl Harbor, interrompendo um número musical. Vejam que o filme termina com a comemoração do ano novo de 1944, e o faz muito bem, pois – também sabemos – logo depois disso um novo meio, a televisão, começaria a tomar conta dos lares americanos, empurrando o rádio para uma posição secundária.

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Um mérito especial está no modo como, na concepção dos episódios, o roteiro combina o público e o privado; é o caso da surra que o pai está dando no garoto, no exato momento em que uma rádio local transmite o triste caso da menina que caiu numa cratera e, depois de muitos esforços dos bombeiros, não pôde ser salva e morreu: é a comoção com o fato que vai transformando aos poucos as pancadas paternas no corpo do menino em gestos de extremo carinho.

Uma coisa a notar é como, sendo o rádio o tema, o filme tem o cuidado de não tratar de cinema, quando se sabe que a época enfocada era também a áurea da sétima arte. Para não misturar as bolas, os personagens quase não falam de cinema, uma das poucas exceções sendo aquela cena na praia em que os três garotos, falando de suas musas da tela, ouvem um deles mencionar Dana Andrews, como se se tratasse de uma mulher. Resta observar a força da imagem num filme sobre uma mídia oral como o rádio, com o detalhe de, às vezes, a imagem chegar a substituir a oralidade desse meio, conforme acontece no relato do jogador de beisebol, por exemplo. No mais, a fotografia em si mesma, tanto fiel à época quanto criativa, é um item todo especial, com os tons frios (tendentes a azul) escolhidos para a paisagem e os quentes (inclinados ao vermelho) para os interiores.

Enfim, “A era do rádio” pode não ser um Woody Allen maior, mas, com certeza, é um dos mais saborosos.

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Por volta da meia noite

18 out

Um jovem negro cuidando de um branco idoso é o que temos em “Intocáveis” (Olivier Nakache e Eric Toledano, 2011), mas, que tal um jovem branco cuidando de um negro idoso? E se eu disser que o ator que faz os personagens brancos nos dois filmes é o mesmo, o francês François Cluzet?

Pois é, estou falando de um filme de 26 anos atrás, quando Cluzet era ainda relativamente jovem.

Co-produção franco-americana dirigida por Bertrand Tavernier, o filme é “Por volta da meia noite” (“Round midnight, 1986) e, situado nos anos cinquenta, conta a estória da fase final de um decadente saxofonista americano que, sem mais chances em seu país, aceita um emprego em uma boate de segunda em Paris, a “Blue Note”, e, nos arredores, termina fazendo amizade com um fã deslumbrado que passa a ser, para ele, uma espécie de protetor à toda prova.

Mas, o que pode fazer um sub-empregado parisiense por um negro idoso e alcoólatra, que mal dá conta da tarefa noturna de tocar o seu sax? Divorciado e com uma filha pequena, esse Francis Borler (François Cluzet) precisa passar pela humilhação de pedir dinheiro emprestado à ex-esposa, e a alegação de que era para ajudar um gênio da música, Dale Turner, que um dia mudara sua vida, só serve de mais um motivo para o rancor conjugal.

Problemas familiares e financeiros à parte, o músico Turner é resgatado da pensão onde está hospedado e é “adotado” pelo fã ardoroso e sua filha pequena. Nesse precário novo lar, o músico vai encontrar carinho, adoração e alguma tranqüilidade para ´tocar´ (!) a vida adiante.

O protagonista Dale Turner é feito pelo legendário jazzman Dexter Gordon que, não apenas toca divinamente o seu sax, como, com sua voz mansa e seus gestos vagarosos, desempenha muito bem o papel desse músico viciado em álcool, em fim de carreira e de vida. Baseado em fatos biográficos, dizem que o personagem é um amálgama de duas figuras reais, os músicos Bud Powell e Lester Young, os dois, aliás, referidos no diálogo várias vezes.

Como esperado, a trilha musical é um dos pontos altos do filme, a começar pela deliciosa execução instrumental de “As time goes by”, ótimo lance inicial para situar o espectador em Paris, sem precisar mostrar a Torre Eiffel. Na verdade, o filme ganhou o Oscar do ano de música original, para Herbie Hancock, que, genialmente, recriou jazzisticamente vários clássicos: além do “As time goes by” de Herman Hupfeld, o “How long has this been going on?” dos irmãos Gershwin, “Una noche com Francis” de Bud Powell, “Watermelon Man”, dele mesmo, e claro, o belo “Round midnight” de Thelonious Monk, que intitula o filme.

Outras performances, por Dexter Gordon ou outros cantores ou instrumentistas, são composições de craques como: Chet Baker, Charles Parker, Vermon Duke, Cole Porter, Johnny Green, etc… Algumas são do próprio Dexter Gordon, que, diga-se de passagem, também concorreu ao Oscar de melhor ator principal, perdendo para o Paul Newman de “A cor do dinheiro”.

Claro, um filme para quem gosta de jazz, mas também para quem gosta de cinema. Para dar certo com a temática e a época, o ritmo é lento, compassado, e a atmosfera, melancólica e sombria, com muitas cenas em ambientes fechados. Sintomático que a direção tenha caído para o francês Tavernier, na medida em que o roteiro gira em torno da tradicional paixão francesa pelo jazz americano.

O espectador comum deve achar que ao filme falta roteiro, e falta mesmo – só que aqui não se trata propriamente de um defeito, pois o filme se assume (e precisamos aceitar o seu código interno) como “um filme de situação”. Nada de turning points ou peripécias surpreendentes. A postura recepcional esperada é a de quem escuta jazz, com suas improvisações que sempre retornam ao cerne da questão.

No ano da estréia de “Por volta da meia noite” eu estava nos Estados Unidos e ainda me lembro dos cartazes do filme, na cidade onde estava e noutras que visitei, com a exposição de seu título original sugestivo, “Round midnight”, em enormes outdoors, com uma discreta chamada para a figura de Martin Scorsese, que, barbudo e tagarela, faz uma ponta na estória, como um empresário novaiorquino. Mas claro que o destaque tinha a ver mesmo com as duas indicações à estatueta da Academia, de música e de ator.

Não sei por que, não assisti a “Por volta da meia noite” enquanto estava nos States, aliás, nem depois. Vê-lo agora, na TV paga, foi uma viagem ao passado, como se, em 1986, eu tivessse comprado o ingresso e guardado… para ver o filme no futuro.

Conhecê-lo logo em seguida a “Intocáveis” foi, com certeza, uma coincidência curiosa.