Tag Archives: O intrépido General Custer

Adeus, reprise

28 nov

Hoje em dia é assim: se você vai ao cinema, gosta muito do filme e quer rever, tem que aproveitar para assistir a uma outra sessão enquanto o filme estiver em cartaz, porque, depois disso, não haverá mais chance de você rever o tal filme. Pelo menos, em tela grande, não.

Poderá revê-lo, mais tarde, na telinha (TV ou DVD), porém em tela grande, nunca mais. Em outras palavras: hoje em dia não existe mais uma prática exibidora que foi tão curtida antigamente, a saber, a REPRISE – dos anos sessenta ou setenta para trás, algo quase tão comum quanto as estreias.

E, vejam bem, não estou me referindo a sessões e/ou programas especiais, como as dos antigos Cineclubes. Estou, ao contrário, me referindo à programação exibidora comercial, aquela que não tinha nenhum compromisso com cultura ou arte.

Foi dentro dessa programação estritamente comercial que tive a oportunidade de ver, ao longo da década de cinqüenta, quando era garoto, toda uma gama de filmes realizados nos velhos anos 20/30/40. Por exemplo: nas poltronas do Cine Sto Antônio, vi quase todo o Chaplin mudo, assim como vi um monte de “O gordo e o magro” nas matinées do Cinema Bela Vista.

Hoje não teríamos a mínima chance de rever, no circuito comercial, um filme já exibido – digamos – vinte ou trinta anos atrás, por maior que tenha sido o seu sucesso de público. Rever “Cinema Paradiso” (1989)? Só se for na telinha…

Pois é, conheço espectadores, que ninguém tacharia de idosos, que tiveram a chance de ver “Casablanca” na tela do cinema (provavelmente na década de setenta), quando o filme de Michael Curtiz é de 1942 e, por causa dos Oscar, sua estréia em território brasileiro ocorreu logo depois de rodado. No mesmo sentido, conheço espectadores idosos que assistiram a “A ponte do rio Kwai” (1957) ainda na década de cinqüenta, ao passo que vi o filme de Lean no ano de 1966.

Nos velhos tempos, quando o filme fazia muito sucesso, era comum que ganhasse recorrentes reprises locais. Não conto as vezes em que vi o mesmo “Suplício de uma saudade” (1955) nas matinais do Plaza, alguns meses depois do dia de sua estréia local. Posso dizer que, estourando, até os anos oitenta a reprise ainda pôde ser praticada, talvez em caráter mais ou menos excepcional. Acho que os freqüentadores do Cine Tambaú recordam as inúmeras reprises teimosas de “Retratos da vida” (1981), aliás, com a sala sempre lotada, às vezes com os mesmos espectadores. Sei disso porque estive em todas elas.

Para a comprovação dessa verdade – a de que, nos velhos tempos, a reprise era prática corriqueira – relato uma leitura que fiz há pouco, particularmente instrutiva. Tive em mãos um documento precioso, que são os cadernos de anotação de Ivan Cineminha (o paraibano Ivan Araújo Costa) onde estão registrados à mão (!) mais de 15 mil filmes, com os devidos créditos e – um detalhe providencial – as datas em que os filmes foram vistos/revistos pelo autor – isso desde 1952.

Na impossibilidade de citar tudo que consultei, menciono alguns exemplos, bem típicos. Vejam o caso de “Capitão Blood” (Michael Curtiz) que, sendo de um ano tão remoto quanto 1935, foi (re)visto por Cineminha em 1966, cerca de trinta anos depois, ou seja, em   indiscutível REPRISE. Eis outros casos (após o ano de realização, cito a data da reprise, anotada por Cineminha):

 “Suspeita” (Alfred Hitchcock, 1941/1964), “O intrépido General Custer” (Raoul Walsh, 1941/1965); “Legião de heróis” (DeMille, 1940/1966); “A patrulha de Bataan” (Tay Garnett, 1943/1967); “Sua única saída” (Walsh, 1947/1965); “Sansão e Dalila” (Cecil B DeMille, 1949/1963); “O invencível” (Mark Robson, 1949/1965); “O preço da glória” (William Wellman, 1949/1967); “O crime não compensa” (Nicholas Ray, 1949/1964); “Espíritos indômitos” (Fred Zinnemann, 1950/1965); “Um preço para cada crime” (Bretagne Winddust, 1951/1965); “Chaga de fogo” (William Wyler, 1951/1965); “Mogambo” (John Ford, 1953/1964).

 Estes são apenas alguns exemplos, mas a lista é surpreendentemente extensa, dando até a impressão de que as reprises, naqueles tempos, eram mais frequentes que as astreias. Quem quiser checar, que procure Ivan Cineminha.

Por que não se reprisa mais hoje em dia, digo, por que os circuitos comerciais de exibição não re-apresentam filmes já apresentados? Uma resposta possível deve estar no advento dos meios eletrônicos, que já proporcionam acessos paralelos à tela grande (DVD, televisão, computador), logo que o filme sai de cartaz, às vezes até antes.

O que não equivale a dizer, de modo algum, que nós, espectadores apaixonados pelo cinema de todos os tempos, tenhamos perdido a vontade de ver ou rever em TELA GRANDE clássicos como – digamos – “…E o vento levou”, ou “Cantando na chuva” ou “Os brutos também amam”…

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O contador de filmes

14 dez

Quem foi que disse que Picuí só dá carne de sol? Essa pequena cidade do interior paraibano, incrustada no seio seco do Curimataú tem outros tantos valores…

Um deles se chama Ivan Araújo Costa, que todos conhecem como Ivan Cineminha, e o apelido não é nada gratuito.

Fã de cinema desde tenra idade, e possuidor de uma memória fabulosa, Ivan é capaz de lhe dar, assim de chofre, a ficha técnica de uma quantidade absurda de filmes, filmes que ele viu ao longo da vida, desde o tempo em que o seu pai era proprietário do “Cine Guarani”, em Picuí.

Por causa desse raro dom mnemônico, Ivan já esteve duas vezes no programa de Jô Soares, e até convidado para o Fantástico já foi.

Mas, estou chovendo no molhado, porque, em João Pessoa e mesmo na Paraíba, todo mundo conhece (ou ouviu falar de) Ivan Cineminha. E se você é cinéfilo, então! Quem é que não já consultou Ivan para tirar uma duvidazinha sobre o elenco de um certo filme antigo, visto 20, 30 ou 40 anos atrás? Eu mesmo já fiz isso várias vezes.

Pois bem, de tanto ir ao cinema, o cinema veio a Ivan.

É que acaba de estrear, no último Fest-Aruanda, o curta-metragem “O contador de filmes”, que tem por assunto ninguém menos que o nosso herói de Picuí.

Realizado pelo cineasta Elinaldo Rodrigues, a partir de um projeto submetido e premiado pelo MEC, o filme “conta”, em breve quinze minutos, a estória de Ivan e sua paixão pelo cinema.

Trata-se de um documentário que não se importa de ser ficcional. Abre-se com uma encenação da infância de Ivan, quando ele vai ao cinema com o irmão menor. Com atores infantis, o filme mostra Ivan criança, de lápis e caderno na mão, anotando, do cartaz na parede, o título do filme que vai ver, enquanto o seu irmão, Tonheco, o apressa que “o filme já vai começar”.

A cena toda é mostrada em pedaços, entre os quais se intercalam momentos do tempo presente: Ivan hoje, com seus 65 anos de curtição cinematográfica e seus cabelos brancos, comprando ingresso no Cine Box Manaíra para ver o filme do dia.

O filme do dia ninguém sabe qual seja, mas, aquele a que Ivan assiste na infância só podia ser “O intrépido General Custer” (“They died with their boots on”, de Raoul Walsh, 1941) e por que? Porque foi este o primeiro filme a que o menino Ivan assistiu. O primeiro a que assistiu e o primeiro que anotou, hábito que nunca perdeu, até hoje.

A partir daí tem-se um longo depoimento do próprio Ivan que, à vontade como sempre está – na telona, na telinha ou na vida real – relata os momentos importantes de sua trajetória de fã.

Quem não sabe fica sabendo como nasceu o apelido, começo dos anos sessenta, nos bancos do Lyceu Paraibano, que Ivan mal freqüentou porque, na hora das aulas, estava sempre no cinema. Ao ponto de uma professora de desenho solicitar uma reunião discente, exclusivamente para conhecê-lo, já que, às quartas-feiras, dia da aula dela, ele nunca comparecia ao colégio.

Na garupa de uma moto (veículo predileto de Ivan), o espectador é transportado ao Picuí de hoje, onde Ivan nos mostra o prédio do antigo cinema do pai, atualmente um prosaico depósito de mercadorias. Com ele, entramos no prédio e somos informados de como era o cinema por dentro, onde ficava a tela, e, curioso, medido com três passos do próprio Ivan, o lugar onde ele sentava porque “queria se sentir perto dos atores, dentro do filme”. Ou seja, somos, desta forma, transportados ao Picuí de ontem.

Ainda nesse Picuí de hoje/ontem, outro momento comovente é quando a produção do filme leva Ivan à casa onde ele nasceu, hoje pertencente a outras pessoas, e que ele não visitava havia mais de cinqüenta anos. Com ele, entramos no imóvel e Ivan, remontando ao passado saudoso, nos aponta, entre outras nostalgias, o local onde dormiam ele e os irmãos, os resquícios desses leitos sendo os armadores das redes, por sorte ainda existentes nas paredes da residência.

Falando de sua vida presente, Ivan nos conta uma prática curiosa. Um grupo de amigos costuma com ele se reunir em algum restaurante da cidade, e um deles, sempre leva uma sabatina, preparada com antecedência, para testar a sua memória cinematográfica. Ele não diz, mas o grupo referido são os “cinéfilos do Ponto de Cem Réis”, academia fundada pelo professor e intelectual Silvino Espínola.

“Em que filmes trabalhou a grande coadjuvante do cinema americano Thelma Ritter, nos seguintes anos?” Ivan vai respondendo e os presentes, com as respostas nas mãos, vão conferindo, deslumbrados.

Um detalhe dessas reuniões de cinéfilos é que um dos membros, o juiz Gustavo Urquiza, sempre brinda os presentes com belas execuções, ao piano, de músicas de cinema, e a escolhida para constar de “O contador de filmes” foi a deslumbrante “Por una cabeza”, do filme “Perfume de mulher”.

Tudo isso e um pouco mais está no filme de Elinaldo Rodrigues. Digo um pouco porque não deve ter sido fácil para a direção imprensar em 15 minutos toda a estória de Ivan Cineminha.

Na verdade, o hábil diretor quis fazer caber pelo menos três temas entrecruzados e interdependentes: a figura ímpar de Ivan, a estória dos velhos cinemas de interior, e a força do cinema sobre o espectador de qualquer tempo. Para tanto, o filme está repleto de colagens onde se misturam as três temáticas.

Exemplos: quando o antigo operador do cinema picuiense se refere à preferência do público pelos filmes de Tarzan, vemos o próprio articulando o seu grito famoso. Para cada resposta correta de Ivan à sabatina, temos uma cena do filme em questão. Quando, em Picuí, Ivan nos mostra a fachada do antigo Cine Guarani, esta imagem, em sobreimpressão, se mistura a imagens cinematográficas que trazemos na memória: Carlitos manipulando talheres, Janet Leigh sendo morta no banheiro de “Psicose”, os motoqueiros de “Easy Rider” em plena estrada, o garoto de “Cinema Paradiso” de carona na bicicleta do padre… E claro, tudo isso ao som do “Danúbio Azul” de Strauss que, segundo Ivan, era a música que tocava no cinema de seu pai, antes de a projeção começar.

“Nunca passou pela minha cabeça me formar em cinema, ou ser cineasta, ou montador, ou mesmo ator, mas, um simples espectador, que ama o cinema” – nos confessa um Ivan comovido na sua fala final. O que ele não disse é o que sabemos: que ele não é um simples espectador, mas um especialíssimo.

Em suma, o mal do filme de Elinaldo Rodrigues é ser curto, e, pela dimensão, não corresponder à incomensurável memória cinematográfica de Ivan Cineminha.