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Do diário de um beberrão milionário

2 dez

Quando foi que vi Richard Burton (1925-1984) na tela pela primeira vez? Só pode ter sido no velho Cinema São José, em Jaguaribe, bairro de João Pessoa, no filme “O manto sagrado” (Henry Koster, 1953), porém, nesse tempo eu era criança e não gravei seu nome ou seu rosto, acho que sequer lhe prestei atenção. Muito mais ostensivo, nesse primeiro cinemascope da história do cinema era, com certeza, o corpão musculoso de Victor Mature.

Uns três ou quatro aos depois é que estreou por aqui, no Cine Jaguaribe, “Alexandre Magno” (Robert Rossen, 1956) e lembro que fiquei numa fila enorme, que tomava as calçadas das ruas Aderbal Piragibe e Capitão José Pessoa, para ver essa produção da United Artists sobre o grande conquistador macedônio. Aí já notei sua cara e sua pose no papel-título, embora, confesso, o seu nome ainda me escapasse. Afinal, ainda não estava na lista badalada dos astros da época, como Tyrone Power, Alan Ladd ou Robert Taylor.

Depois disso só fui encontrá-lo quase cinco anos adiante, em “O mais longo dos dias” (Vários diretores, 1962), e mesmo assim, fazendo apenas uma ponta, como, aliás, todos os demais atores nesse filme de guerra overcrowded.

Richard Burton em cena de "Cleópatra".

Richard Burton em cena de “Cleópatra”.

No ano seguinte, 1963, foi que Richard Burton entrou, com rosto e com nome, para a minha galeria de grandes atores do cinema. O filme, “Gente muito importante” (Anthony Asquith) pode não ter sido lá muito importante (preciso rever), mas sua estreia em João Pessoa foi: acontece que ele inaugurou o moderno e confortável Cinema Municipal e o fez com muita pompa e circunstância. Junto com Liz Taylor eles faziam um casal em crise, espécie de prolepse do que viveriam na vida real.

E, claro, nesse mesmo ano foi a vez de “Cleópatra” (Joseph Mankiewicz), essa superprodução que, hoje todo mundo sabe, quase destruiu de vez a Twentieth Century Fox.

Logo se seguiriam “Becket, o favorito do rei” (Peter Glenville, 1964) e “A noite do iguana” (John Huston, 1964) e, a partir de então, eu nunca mais esqueceria Richard Burton. Nos seus filmes seguintes, eu já contava de antemão com excelentes desempenhos, fosse em melodramas com música bonita (“Adeus às ilusões”, Vincente Minnelli, 1965), fosse em thrillers sombrios (“O espião que veio do frio”, Martin Ritt, 1965), fosse em dramas intelectualizados (“Quem tem medo de Virginia Woolf?”, Mike Nichols, 1966), fosse em adaptações shakespearianas (“A megera do domada”, Franco Zeffirelli, 1967)…

Mas, por que estou tratando de Richard Burton? É que, por acaso, me caiu nas mãos um dos últimos números da “Revista Piauí”, onde consta a publicação de parte de um longo diário privado que o ator britânico escreveu ao longo da vida e deixou para a posteridade. Enquanto o escrevia era secreto, porém, admitiu que viesse a ser editado “daqui a uns cem anos, quando estivermos todos mortos”. Bem antes de um século depois de sua morte, foi publicado em forma de livro e a Piauí pegou a carona.

Como Alexandro magno, no filme de Robert Rossen

Como Alexandro magno, no filme de Robert Rossen

Pelo que se espera, o diário de um astro do cinema vai conter um amontoado de fofocas do show business, ou fatos biográficos irrelevantes que só interessam aos fãs… e não muito mais que isso. Pois aqui é exatamente o contrário, e foi esse contrário que me atraiu e motivou esta matéria.

Confesso que para mim, no terreno privado, Richard Burton era só o marido de Elizabeth Taylor, e a descoberta desse outro Richard Burton foi emocionante.

Sim, o diário de Burton revela uma mente altamente sofisticada, um verdadeiro intelectual, culto, refinado, exigente no gosto, apaixonado por literatura, poesia, arte, música e cultura de um modo geral, e indiferente a quase tudo que gira em torno de dinheiro e fama. Como mantém o título da matéria na “Piauí”, uma fala extraída do diário: “eu não me interessava por nada comum”.

Seus interesses eram Auden, Yeats, Eliot, McLeish, poetas que ele discute com assombroso conhecimento de causa. A sua narração da descoberta e conseqüente curtição de Baudelaire, por exemplo, é comovente. Você pode até discordar do que ele opina sobre o poeta e teórico mexicano Octavio Paz, porém, é forçado a admitir que ele o lia com profundidade.

Em "Quem tem medo de Virginia Woolf?"

Em “Quem tem medo de Virginia Woolf?”

Até quando se limita aos bastidores do cinema, suas opiniões são verdadeiras, perspicazes, reveladoras, sem nenhum tom de fofoca, até porque, como já posto, escrevia de si para si, a única leitora permitida desse diário escondido sendo Liz, que, aliás, às vezes nele também metia a caneta. Como não queria publicar o diário, Burton escrevia com sinceridade, liberdade e imparcialidade absolutas, às vezes com revelações que hoje parecem constrangedoras sobre os amigos mais queridos.

Por exemplo: Sinatra aparece como “aquele pobre homenzinho da Máfia”; Grace Kelly em Mônaco está visivelmente consciente da farsa que vive; e Paul Newman, sem se dar conta, vive “interpretando sua beleza” o tempo todo, na tela e fora dela. E uma coisa que Burton detestava era a “pura beleza” (sic). Nem o amigo Marlon Brando escapa, quando Burton lhe aponta a única falha nos desempenhos desse ator magnífico, a saber, a dicção fanhosa que às vezes tornava suas palavras inaudíveis.

Uma coisa que, pessoalmente, adorei saber foi o que ele pensava de Laurence Olivier, como todos os outros, seu amigo. O grande ator dos palcos ingleses e da tela era – o que eu sempre desconfiei – superficial, medíocre e afetado.

Evidentemente, há um espaço do diário para o lado autobiográfico, onde Burton conta todo o seu começo de carreira, o encontro com o produtor inglês Alexander Korda e seus primeiros filmes, sem deixar de fazer referência a “uma monstruosidade chamada O Manto Sagrado” (sic), por causa da qual a Fox lhe ofereceu um contrato por sete anos de um milhão de dólares.

O que saiu na “Revista Piauí” foi só uma parte da estória: os diários completos foram publicados, em 2012, pela Universidade de Yale. Uma pena não terem chegado por aqui: eu, e acho que muita gente boa além de mim, adoraria ter acesso a essas páginas íntimas de um “beberrão milionário” – expressão que Richard Burton usa em relação a si mesmo.

Burton e Liz: muitos filmes e dois casamentos

Burton e Liz: muitos filmes e dois casamentos

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Obrigado, Mr Allen

25 mar

Depois da estréia de “Meia noite em Paris”, de Woody Allen, muita gente boa se viu no direito de ter o seu sonho nostálgico e relatá-lo.

Pois eu, que também sou filho de Deus, tive o meu e, vejam lá, nem era meia noite, nem a cidade era Paris.

Era João Pessoa mesmo, entre tarde e noite, só que em alguma data indefinida na década de cinqüenta, e, como o personagem de “Morangos silvestres”, eu não sabia se, nessa dimensão mágica do passado, estava velho ou se ainda era criança.

Quem me tomou pela mão e me guiou por esse tempo antigo não sei se foi o Virgílio de Dante, ou os três espíritos de Charles Dickens, ou o anjo Clarence de Frank Capra.

Só sei que, de repente, lá estava eu às portas do Cinema Astória, ali no comecinho da Rua da República, quase vizinho à extinta Fábrica Sanhauá, não muito longe da ponte do mesmo nome, aquela que liga João Pessoa a Bayeux. O filme que estava em cartaz era “Beau Geste”, mas nem comprei ingresso.

Certificado de que eu contemplara a fachada do velho Astória, o meu guia, fosse quem fosse, me fez subir a rua em direção à Praça da Pedra, e lá, dobrou comigo para o lado direito, e seguimos por aquela rua estreita e curva, a São Miguel, até o Cinema São Pedro, que estava exibindo – vi logo – o “Fantasia” de Walt Disney.

Olhamos o cartaz, cubamos o movimento da garotada trocando gibis na calçada do cinema, e nos mandamos, não em direção ao cemitério – graças a Deus – mas, de volta à Praça da Pedra, de onde continuamos subindo a Rua da República, até o seu final. No encontro desta rua com a General Osório, lá estava o que eu já sabia que ia encontrar – a fachada do Cine Filipéia, cheia de cartazes vistosos, dos quais o maior era o de “Paixão dos fortes”, o filme do dia.

Pensam que ficamos para a matinée com Henry Fonda? Que nada, o meu guia me arrastou Beaurepaire Rouhen abaixo, até a esquina dos antigos Correios, onde dobramos e fomos subindo a calçada da Guedes Pereira até o Cine Brasil.

Fiquei louco para ver o filme do dia, o hitchcockiano “A sombra de uma dúvida”, mas, de novo, o meu guia não permitiu. Demos alguns passos subindo a rua e dobramos à esquerda, General Osório acima. Na primeira esquina, o guia nem precisou sinalizar: tomamos a Peregrino de Carvalho e logo estávamos na frente do belo e grandioso Cine Rex que, com algum alarde, exibia naquele dia “Sansão e Dalila”.

Mal deu tempo de me embevecer com, no cartaz, o rosto perfeito de Hedy Lamarr e os peitos estufados de Victor Mature, descemos a rua Duque de Caxias, viramos à esquerda no Ponto de Cem Réis, e eis-nos diante do não menos belo e grandioso Cine Plaza, onde uma fila enorme se estendia até a calçada do vizinho Pronto Socorro, esperando para ver nada menos que “Gilda”.

Com certa impaciência perante o meu demorado deslumbramento com a pose audaciosa de Rita Hayworth, o meu guia me puxou pelo braço e seguimos pela Praça 1817. Antes disso, eu supusera que prosseguiríamos pela Visconte de Pelotas, na direção do Cine Municipal, mas lembrei-me que, de fato, nesse tempo, esse cinema ainda não existia.

Cruzamos em diagonal a Praça João Pessoa, tomamos a rua das Trincheiras e fizemos uma longa caminhada, até encontrarmos a rua Capitão José Pessoa, já no bairro de Jaguaribe; aí dobramos e formos ter com o Cine Jaguaribe, que entre um seriado e outro, exibia “As minas do rei Salomão”, Deborah Kerr e Stuart Granger no cartaz.

Daí seguimos a Capitão José Pessoa e na próxima esquina, à esquerda, Rua Floriano Peixoto, dobramos e nos dirigimos – precisa dizer? – ao Cine São José, onde o filme do dia era “O manto sagrado”. Tratava-se, como se sabe, do primeiro cinemascope e muita gente esperava para ver a novidade.

Mas nós, não. Retornamos pela mesma Floriano Peixoto, e, sempre em linha reta, cruzamos várias esquinas do bairro de Jaguaribe, até chegar à Av. Primeiro de Maio, onde tomamos a direita e, ladeando o muro alto do imenso e imponente Clube Cabo Branco, atravessamos o calçamento da Vasco da Gama, e nos detivemos no pátio frontal do Cine Teatro Sto Antônio. Tive ânsias de me livrar do meu guia e entrar para ver Gene Kelly e Debbie Reynolds “Cantando na chuva”, mas não foi possível. Pela resistência que ofereceu, estava visível em seu rosto impaciente que ainda havia outros cinemas a visitar. Sim, eu saiba que havia pelo menos mais quatro, em Cruz das Armas, o Glória e o Bela Vista, e na Torre, o Metrópole e o Cine Torre.

Por que ver tantos cinemas sem entrar para o que interessava? Devo ter me oposto com certa veemência ao incompreensível propósito do guia, e, por certo, foi essa oposição que desfez o sonho.

Acordei nostálgico, me dando conta de que, havia décadas e décadas, nenhum desses cinemas existia mais. Nostálgico e um pouco perplexo, sem ter decifrado a mensagem do meu vago e misterioso guia.

 O poeta Dante, Scrooge, o velho sovina de Dickens, e George Bailey, o honesto pai de família de Capra, entenderam os seus respectivos guias e lucraram com isso: eu não.

De todo jeito, como os sonhos do personagem de “Meia noite em Paris” têm “continuações”, estou aguardando sonhar de novo. Se sonhar, prometo que relatarei. Enquanto isso, agradeço a Woody Allen pela motivação.