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Há oitenta anos

30 abr

Alguns críticos e historiadores defendem a ideia de que 1939 teria sido o ano dourado do cinema clássico. Será que foi mesmo? Vamos revisar os filmes e então decidir.

Se for pelos doze mais conhecidos, aqueles de que ainda hoje – oitenta anos depois – a gente se lembra, parece que a resposta é afirmativa.

Seguindo este critério da memorabilidade, me parece que o primeiro a ser citado deve ser “E o vento levou”, superprodução de David Selznick para a MGM, adaptando o best-seller de Margareth Mitchell sobre a Guerra de Secessão, com Clarke Gable, Vivien Leigh, e Olivia de Havilland no elenco. Ganhou o Oscar do ano, mas aqui destaco a deslumbrante fotografia colorida de Ernest Haller, quando fazia apenas três anos que a cor aparecera no cinema.

O segundo a mencionar só pode ser “O mágico de Oz” (“The wizard of Oz”), que o mesmo Victor Fleming dirigiu, com Judy Garland no papel da jovem sonhadora Dorothy Gale: com seus estranhos companheiros, ela viaja a Oz só pra aprender que “não lugar como o lar”. Musical infanto-juvenil, muito lembrado pela trilha sonora, em especial por “Over the rainbow”.

Suponho que o terceiro a merecer o conceito de memorável seja “No tempo das diligências” (“Stagecoach”) do mestre John Ford, com John Wayne na pele do herói Ringo Kid e Claire Trevor, na da prostituta Dallas. O filme que Orson Welles confessaria, mais tarde, ter visto mais de 40 vezes, antes de rodar a primeira tomada de “Cidadão Kane”.

O quarto seria, acho, “O morro dos ventos uivantes” (“Wuthering Heights”), dirigido por William Wyler, com Merle Oberon e Laurence Olivier nos papéis de Cathy e Heathcliff, nesta adaptação fílmica do romance vitoriano de Emily Brontë.

O quinto lugar dou a “A mulher faz o homem” (“Mr Smith goes to Washington”), emocionante drama político de Frank Capra, com direito a lição de ética e tudo mais. James Stewart é o Mr Smith do título e Jean Arthur, a secretária que “o faz”.

Penso que vocês concordam se eu der o sexto lugar para o “Beau Geste”, de William Wellman, aventura dramática no Oriente, onde Gary Cooper, Ray Milland e Robert Preston desempenham papéis de soldados encurralados num Forte.

Que o sétimo mais lembrado de 1939 seja “O corcunda de Notre-Dame” (“The hunchback of Notre-Dame”), direção de William Dieterle, com Charles Laughton e Maureen O´Hara, nos papéis chave. Outras adaptações do romance de Victor Hugo haveria, mas esta foi a mais marcante.

“Ninotchka”, de Ernst Lubitsch, pode muito bem ser o oitavo mencionado. Com Greta Garbo no papel da soviética que Paris corrompe, e Melvyn Douglas, no do playboy conquistador, a comédia romântica e política ainda hoje arranca gargalhadas.

Vamos dar o nono lugar ao faroeste “Jesse James”, de Henry King, sobre esse mito do Oeste, supostamente injustiçado. No elenco, os galãs da época, Tyrone Power, Henry Fonda e Randolph Scott.

O décimo que seja o melodrama “Duas vidas” (“Love affair”) de Leo McCarey, com Charles Boyer e Irene Dunne como os amantes que se desencontram, ao tentar chegar ao terraço do Empire State Building em data marcada. Estória de amor que o mesmo McCarey refilmaria, em 1957, como “Tarde demais para esquecer”.

Ainda devo citar “Aliança de aço” (“Union Pacific”), de Cecil B. DeMille, com Barbara Stanwyck e Joel McCrea, em meio à luta para ligar as costas Leste e Oeste americanas com a providencial linha de trem.

Fecho em doze com “Juarez”, de William Dieterle, filme baseado em fatos históricos em que, com a força interpretativa de sempre, Paul Muni vive o poderoso líder mexicano.

Suponho que estes doze filmes são suficientes para confirmar a ideia de que 1939 foi mesmo o ano dourado do cinema clássico americano.

Mas, se me for dado mais espaço, cito rapidamente, uns outros tantos:

“Heróis esquecidos” (“The roaring twenties”) de Raoul Wash; “Carícia fatal” (“Of mice and men”) de Lewis Milestone; “A morte me persegue” (“Each down I die”) de William Keighley; “Vitória amarga” (“Dark victory”) de Edmund Goulding; “Gunga Din”, de George Stevens; “O cão dos Baskervilles” (“The hound of the Baskervilles”) de Sidney Lanfield; “Adeus, Mr Chips” (“Goodbye Mr Chips”) de Sam Wood; “Meu reino por um amor” (“The private lives of Elizabeth of Essex”) de Michael Curtiz.

Esqueci algum? Se esqueci é porque não era assim tão memorável…

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Um instante de amor

21 jun

Dúvida não há de que o Varilux deste 2017 veio um pouco mais fraco. De todo jeito, assisti com certo prazer a este “Um instante de amor” (“Mal de pierres”, 2016) da diretora Nicole Garcia.

Nada de extraordinário, mas um drama relativamente bem feito sobre uma mulher que estima o amor de um modo tal a perder o limite entre a sanidade e a loucura, sobretudo quando esse amor ansiado lhe escapa.

Posta diante de uma imagem de Cristo na cruz, depois de uma decepção amorosa, Gabrielle implora pelo principal, e esse “principal”, é o amor que a vida teima em lhe negar. Poderia ter sido algo no nível de “O morro dos ventos uivantes”, livro que o seu professor particular lhe emprestara, mas – como diz o frio professor – isto é só literatura.

A estória de “Um instante de amor” se passa no Sul da França, algum tempo após a II Guerra, e os pais de Gabrielle são fazendeiros tradicionais, com certo poder sobre toda uma gama de trabalhadores rurais, entre os quais se encontra esse espanhol José, empregado competente e responsável.

Considerada moça velha “nervosa” – para não dizer desequilibrada – Gabrielle é oferecida a esse José, que a aceita como parte de um negócio de família. Ela logo lhe avisa que não o ama, ao que ele retruca, sincero, que tampouco a ama. Fica, assim, combinado entre os noivos que não farão sexo, e que ele procurará prostitutas quando precisar. Isto, até o dia em que ela, por alguma razão não muito clara, veste-se de prostituta e ele paga pelo ato. “Ponha o dinheiro na mesa”, lhe diz ela.

Esse casamento sem amor segue assim, até o dia em que, acometida do “mal de pedras” (conferir título original do filme), Gabrielle é interna num hospital nas montanhas suíças. Lá ela conhece outro enfermo, um jovem tenente, ferido na guerra da Indochina, um André Sauvage, de sobrenome sintomático. Esse ex-combatente fragilizado desperta nela “o principal” e com uma intensidade nunca sentida.

Um dia, porém, a ambulância vem pegá-lo e, para completo desespero de Gabrielle, o seu quarto de enfermo fica vazio. Ela se arrasa, mas, eis que logo ele retorna, são e salvo, lhe dizendo que fez isso por causa dela… Ou será que não retorna?

Para não contar o resto da estória, deixo a pergunta no ar.

Gabrielle lendo “O morro dos ventos uivantes”.

Digamos apenas que o filme tem uma estrutura narrativa bifurcada, parecida, se vocês lembram bem, com a daquele filme dos anos oitenta com Kathleen Turner, “Júlia e Júlia” (Peter Del Monte, 1987), em que realidade e delírio se intercalavam, formando como que universos paralelos, cada um com sua lógica rigorosa e sua compleição.

Como, tal qual no filme de Del Monte, a estória é narrada no ponto de vista da protagonista Gabrielle, somos tão vítimas de suas ilusões quanto ela, ilusões que só serão esclarecidas no desenlace.

Lembro-me bem que em “Júlia e Júlia” havia, na cena final, uma fotografia que deveria ser esclarecedora, mas não era (Júlia, o marido e o filho: uma família que nunca existiu). Ao contrário do esperado, essa fotografia enfatizava o universo delirante. Em “Um instante de amor” (título brasileiro que não deixa de ser curioso), diferentemente, a fotografia do final (Gabrielle recostada sobre uma cadeira vazia, ou seja, sem o seu tenente Sauvage,) é francamente esclarecedora… O que, para o bem ou para o mal estético, retira do filme parte da sua ambiguidade.

Uma foto decisiva…

Uma coisa é certa: “Um instante de amor” é um filme de mulher, em vários sentidos. Vejam bem: trata-se de uma estória sobre mulher, adaptada de um livro de autoria feminina, dirigida por mulher, com referência literária feminina (“O morro dos ventos uivantes”) e, como se não bastasse, com um desempenho feminino de primeira linha, dado pela sempre ótima Marion Cotillard, aqui mais instigante que nunca.

Penso que, sem pompa nem circunstância, a personagem de Gabrielle vem somar-se à galeria de mulheres apaixonadas que o cinema, desde a era clássica, vem sabendo retratar.

Com relação à diretora Nicole Garcia, não conhecia seus filmes, mas, lembro bem dela como atriz, especialmente do seu papel dramático e decisivo em “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”, 1981, de Claude Lelouch), na pele daquela violinista judia que, para salvar o filho bebê, é forçada a deixá-lo numa linha de trem que se dirige a campo de concentração, e só vem a revê-lo já velha, num asilo para idosos.

Não me surpreenderia se alguém me dissesse que os muitos papéis dramáticos que Nicole Garcia desempenhou nos filmes em que foi atriz, ajudaram a construir a figura cativante da Gabrielle de “Um instante de amor”.

Marion Cotillard, em excelente interpretação.