Tag Archives: O pagador de promessas

Cannes 2016

5 maio

Vamos falar de Cannes? Há pelo menos um bom motivo: é que este ano, na versão 2016 do famoso festival francês, um filme brasileiro está concorrendo à cobiçada “Palma de Ouro”.

O filme brasileiro é “Aquarius” (2016) do pernambucano Kleber Mendonça e tem no elenco, além de Sônia Braga, alguns paraibanos: Arly Arnaud, Daniel Porpino, Buda Lira e Fernando Teixeira. O filme compete com vinte outras realizações internacionais de peso e, evidentemente, as chances de ganhar são remotas, mas estar na competição já é muita coisa.

Fora da competição, os privilegiados frequentadores do Festival vão poder assistir a outro filme brasileiro, o documentário “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, este escolhido para uma mostra especial, chamada de “Cannes Classics”.

cannes2016

A versão deste ano estará acontecendo agora, de 11 a 22 de maio, e aqui aproveito para historiar um pouco o festival de cinema mais charmoso do mundo.

De guia me servirá o livro “Cannes et le cinéma” (Didier Roth-Bettoni, 2015) que acabo de ganhar de generosa amiga, recém chegada de Paris. Na verdade, trata-se de um luxuoso álbum, com todas as informações que se possa imaginar sobre o evento, desde sua criação até hoje, tudo ilustrado com belas fotografias. A cidade de Cannes, a organização do festival, o júri, os prêmios e os premiados, a política e o mercado, o passeio público, a Croisette, os hotéis, as cerimônias, as festas, o show business, os escândalos, a mídia,… está tudo lá. Não pretendo provocar inveja, mas, o álbum é tão chique que traz, na contracapa, um envelope com, entre outros artefatos, um pedacinho do tapete vermelho (juro!) da passarela pisada pelas estrelas e astros.

Mas vamos a informações mais gerais.

O Festival Internacional de Cannes teria começado em 1939. Teria. Estava tudo programado, toda a organização já montada, e, inclusive, o júri seria presidido por ninguém menos que Louis Lumière, como se sabe, um dos inventores do cinematógrafo. Eclodiu a guerra e… foi tudo desfeito. Os franceses teriam que esperar cerca de sete anos pelo nascimento de seu festival.

Cena de "Aquarius", o filme brasileiro concorrente.

Cena de “Aquarius”, o filme brasileiro concorrente.

Com muita pompa e circunstância, em setembro de 1946, acontece afinal o ansiado Festival, inaugurado naturalmente com execução estrondosa da Marseillaise. O filme “Quando fala o coração”, de Alfred Hitchcock, é escolhido para mostra especial, mas ocorre uma troca de bobinas e o efeito é desastroso. De qualquer forma, nesta primeira edição do festival, recebem prêmios de melhores atores a francesa Michèle Morgan por “Sinfonia pastoral”, e o americano Ray Milland, por “Farrapo humano”.

Desde então, o Festival de Cannes passou a ser uma data obrigatória na história do cinema mundial. Uma única interrupção aconteceu em 1968, quando os protestos no país inteiro levaram os cineastas participantes a suspender as atividades do Festival, o qual acabou não se concluindo.

Nos seus 69 anos de existência, o Festival foi sempre o mesmo, mas, claro, o tempo muda e as evoluções para acompanhá-lo são inevitáveis. Por exemplo, é interessante saber que a “Palma de Ouro” não existiu sempre: foi instituída em 1955, então desenhada pela artista Lucienne Lazon. Até então o prêmio máximo do festival chamava-se apenas ´grande prêmio´. Outro exemplo sintomático: na organização do Festival sempre estiveram os homens, porém, em 1965, pela primeira vez, uma mulher preside o júri, a veterana atriz americana Olivia de Havilland.

Sônia Braga e o diretor Kleber Mendonça nas filmagens de Aquarius

Sônia Braga e o diretor Kleber Mendonça nas filmagens de Aquarius

Nos primeiros tempos, o Festival ocorria em setembro; hoje – desde 1951 – em maio. Sua duração inicial era de quinze dias; hoje são doze. O número de filmes competindo caiu de quarenta e quatro, no início, para vinte, hoje. O júri dos primeiros tempos era constituído por pessoas dos países que competiam; hoje em dia, uma equipe especial de profissionais da área cinematográfica. No início, os filmes franceses eram escolhidos por membros do governo: hoje por profissionais da área. As atividades paralelas não existiam no início; hoje são pelo menos quatro: “Um certain régard” (´Um certo olhar´), “Quinzaine de réalisateurs” (´Quinzena dos cineastas´), “La semaine de la critique” (“A semana da crítica’) e “La cinéfondation” (´A cinefundação´). Até o local mudou: no início era o palácio La Croisette, hoje “Le palais des festivals”, ao pé da letra, ´o palácio dos festivais´. E o dado que talvez mais passe a idéia do crescimento do Festival de Cannes: o número de jornalistas credenciados para a cobertura: na origem, cerca de trinta; hoje em dia, mais de três mil.

Desde a criação do Festival, o Brasil concorreu várias vezes em Cannes, porém, nossa única Palma de Ouro foi “O pagador de promessas” (Anselmo Duarte, 1962). Vamos torcer para que o placar mude.

Em tempo: esta matéria vai para Cláudia Dias, a amiga que me permitiu tocar o tapete vermelho de Cannes.

A cidade de Cannes e La Croisette

A cidade de Cannes e La Croisette

 

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Cinema brasileiro: os 100 melhores

4 dez

Quais seriam os melhores filmes brasileiros de todos os tempos? A Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos (ABRACCINE) resolveu fazer a lista dos 100 mais, que foi recentemente divulgada na imprensa.

Para tanto, a respeitada Associação convocou os seus membros (cerca de 100), aos quais pediu uma primeira relação de 25 títulos, dispostos na ordem de preferência. Somadas todas as listas de todos os membros, a comissão organizadora, levantou os mais votados e chegou ao que seria, por enquanto, uma espécie de ´cânone brasileiro de cinema´.

A lista dos 100 eleitos recobre quase todas as décadas do século XX e mais a quinzena deste novo milênio. Digo quase porque, nos resultados da votação, ficaram de fora as duas primeiras décadas do século, quando o cinema brasileiro supostamente não teria chegado a produzir obras de peso. Outra década sem votos foi a de quarenta, auge das chanchadas brasileiras, cujo sucesso de público, como sabemos, estendeu-se à década seguinte, a de cinquenta, que, na lista da Abraccine, só conseguiu cinco votos, dos quais apenas um se enquadra no gênero chanchada: “O homem do Sputnik”.

Imagem de "Limite", o melhor de todos.

Imagem de “Limite”, o melhor de todos.

Duas outras décadas com poucos votos são também os anos trinta (2 filmes) e os noventa (6). Na década de trinta teríamos, aparentemente, uma cinematografia em formação, e quanto à de 90, está marcada pelo golpe de Collor, que deixou a produção brasileira inativa por um tempo considerável. Já a década com o maior número de realizações por ano, a de setenta, não teve um número tão elevado de votos, apenas 15. Ocorre que, em sua grande maioria, essas realizações eram – como lembramos – porno-chanchadas sem muita qualidade.

A década mais votada (com 28 filmes) foi a de sessenta, época do Cinema Novo Brasileiro, onde atuaram, sem coincidência, também os cineastas mais votados: Glauber Rocha (com 5 filmes) e Nelson Pereira dos Santos (com 4). Com esta década só concorre o novo milênio, com nada menos que 24 títulos, um dos quais o atualíssimo “Que horas ela volta”, filme de 2015.

Se os cineastas mais votados foram os cinemanovistas Glauber Rocha e Nelson Pereira, não o foram sempre por filmes dos anos sessenta, casos respectivos de “A idade da terra”, de 1981, e “Memórias do cárcere”, de 1984.  Assim como outros cineastas com maior número de votos não se encaixariam propriamente no conceito de Cinema Novo: Carlos Reichenbach, com 4 filmes e José Mojica Marins, com 3.

"O homem do Sputnik", a única chanchada eleita.

“O homem do Sputnik”, a única chanchada eleita.

Para nós, a pergunta que não quer calar: houve filme paraibano listado? Sim, dois: “Aruanda” de Linduarte Noronha (1960) aparece no nonagésimo quarto lugar, e “O país de São Saruê” de Vladimir Carvalho (1971) situa-se um pouco acima, no octogésimo segundo lugar. A esse propósito, é bom observar que um filme colocado no privilegiadíssimo quarto lugar na lista tem assunto paraibano: o documentário “Cabra marcado para morrer” de Eduardo Coutinho (1984).

A lista da Abraccine, como todas as listas, é bastante variada e polêmica. Com certeza, vai gerar controvérsias, mas acho que valeu a iniciativa de cogitar de um cânone brasileiro, quando muitos outros já foram cogitados para o cinema universal. E a Abraccine não fez só a lista. Em acordo comercial com a editora Letramento, deverá ser publicado, no próximo ano, um livro com ensaios sobre cada um dos 100 filmes eleitos, escritos, naturalmente, pelos críticos votantes.

O segundo lugar para "Deus e o diabo na terra do sol".

O segundo lugar para “Deus e o diabo na terra do sol”.

Devo dizer que sou membro da Abraccine e fui votante na referida lista. Muitos dos filmes que escolhi estão na lista (não necessariamente nas posições que lhes dei), outros não. Por exemplo, votei em “Desmundo” (2002), lhe dando um honroso quinto lugar, e o filme de Fresnot sequer apareceu na lista. Em compensação, concedi o primeiro lugar a “Limite” (1931) e lá está ele, sim, no topo da lista da Abraccine, como o melhor filme brasileiro de todos os tempos… do jeito que eu queria.

Como não disponho de espaço para arrolar a lista completa, cito ao menos os dez primeiros colocados, que são:

 

Limite (Mário Peixoto, 1031)

Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)

Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)

Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)

O bandido da luz vermelha (Rogerio Sganzerla, 1968)

São Paulo S/A (Luís Sérgio Person, 1965)

Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962)

Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

"O pagador de promessas" entre os dez mais.

“O pagador de promessas” entre os dez mais.

Cinquentões em 2012

4 abr

A imprensa adora datas e, com certeza, aqui e acolá, vão aparecer, ao longo deste ano de 2012, matérias sobre um ou outro filme famoso que esteja completando cinquenta anos.

Aqui nos adiantamos e damos uma lista de títulos de filmes que estrearam em 1962, alguns, exemplares do vanguardismo da época; outros, produtos do classicismo tardio de Hollywood; outros ainda, nem uma coisa nem outra.

Vamos começar com o Brasil? Desse ano são: “O pagador de promessa”, de Anselmo Duarte, adaptação bem sucedida da peça de Dias Gomes, com o mérito de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes; e “Os cafajestes”, de Ruy Guerra, que muita gente foi ver por causa da nudez de Norma Benghel, mas o filme tinha mais a mostrar. Ainda não era propriamente o Cinema Novo Brasileiro, mas, era quase…

Da América latina, não esqueçamos ainda: “O anjo exterminador” de Luis Buñuel, diretor espanhol em atuação no México. Surreal e inquietante, o filme mostrava um grupo de burgueses inexplicavelmente encurralados numa sala.

Das vanguardas europeias, lembremos “Jules et Jim” de François Truffaut, avatar da então efervescente Nouvelle Vague, sobre uma relação a três que termina em tragédia. Na Itália, devemos recordar “O eclipse” de Michelangelo Antonioni, o terceiro item de uma trilogia perturbadora sobre o tédio burguês (os outros foram: “A aventura” e “A noite”). Outros filmes importantes desse fértil ano italiano foram: o político “O bandido Giuliano” de Francesco Rosi, e o intimista “Dois destinos” de Valério Zurlini.

Ainda na Europa: da Grécia, “Electra” de Michael Cacoyannis, adaptando Eurípedes; da Inglaterra, não pode deixar de ser citada a superprodução de David Lean que levou quatro Oscar, “Lawrence da Arábia”, com Peter O´Toole no papel-título. E acrescentemos uma co-produção (vários países europeus) que Orson Welles dirigiu: “O processo”, com Anthony Perkins no papel do protagonista kafkiano.

Com isso, passamos a Hollywood, já não mais tão clássica, mas ainda dona do mercado mundial e lutando para assim permanecer. Dramas marcantes do ano são:

“O que aconteceu a Baby Jane?” de Robert Aldrich, filme que contrapunha duas atrizes rivais na vida real, Bette Davis e Joan Crawford, fazendo irmãs inimigas, numa situação de terror doméstico de arrepiar.

“O sol é para todos”, de Robert Mulligan, com Gregory Peck no papel do viúvo, com um casal de filhos pequenos, que é forçado a, profissionalmente, enfrentar o preconceito racial no sul americano – filme baseado no romance autobiográfico da escritora Harper Lee.

“Vício maldito”, de Blake Edwards, um dos filmes mais contundentes que se conhece sobre o tema do alcoolismo, com Jack Lemmon e Lee Remick como o casal que afunda de mãos dadas nos “dias de vinhos e rosas” (título original).

“Freud além da alma” de John Huston analisava uma certa fase da vida e carreira do psicanalista austríaco (Montgomery Clift), mostrando o percurso privado da descoberta do complexo de Édipo.

“Doce pássaro da juventude” de Richard Brooks, adaptação da peça de Tennessee Williams, uma estória de amor frustrado pelo preconceito social no Sul dos Estados Unidos, com Paul Newman e Geraldine Page.

“O milagre de Ana Sullivan” de Arthur Penn, narrava o caso verídico de uma menina autista que é curada por uma ousada fisioterapeuta (Anne Bancroft), quando, aos olhos dos pais, e de todos, tudo parecia perdido.

“O homem de Alcatraz” de John Frankenheimer descrevia a situação de um encarcerado (Burt Lancaster) que se redimia, na cela, criando pássaros e se tornando um célebre ornitólogo.

A esses dramas, acrescento dois westerns, o de um cineasta em começo de carreira, Sam Peckinpah, e outro em fim de carreira, John Ford. O filme de Peckinpah é “Pistoleiros ao entardecer”, e o de Ford, “O homem que matou o facínora”, ambos, sintomaticamente, estórias de cowboys maduros em vias de aposentadoria. Não esqueçamos que, em que pese ao surgimento de Peckinpah, nesses tempos, o western, enquanto gênero, já estava se encaminhando para os seus estertores.

E para fechar, um filme de guerra que teve grande aceitação de público: a superprodução de elenco monstruoso “O mais longo dos dias” (vários diretores), que reconstituía as operações aliadas de desembarque na Normandia, no fatídico dia D.

Evidentemente, a lista é bem maior, mas, fiquemos com estes vinte cinquentões que a gente não esquece.