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Cinquentões de 2014

30 mar

Em início de ano costumo fazer a lista dos filmes que completam cinquenta anos, e, desta vez não será diferente.

A lista pode ser levantada por temas, nacionalidades ou gêneros: fiquemos com este último tópico. Naturalmente, como a quantidade de filmes produzidos em um ano é enorme, sou forçado a fazer uma seleção, no caso de vinte e cinco títulos, seleção que baseio livremente nos critérios da repercussão que os filmes tiveram junto ao público e/ou junto à crítica.

Vamos lá?

Começando com os musicais, 1964 é o ano de três importantes.

"Minha bela dama": Audrey Hepburn em um dos musicais do ano.

“Minha bela dama”: Audrey Hepburn em um dos musicais do ano.

O veterano ´cineasta das mulheres´, George Cukor dirigiu “Minha bela dama” (´My fair lady´), adaptação livre da peça ´Pigmaleão´ de Bernard Shaw, em que a bela e suave Audrey Hepburn passa da pele suja de uma mendiga de Londres para a tez sofisticada da dama do título. O outro grande musical do ano vem da França, “Os guarda-chuvas do amor” (´Les parapluies de Cherboug´), com direção de Jacques Demy e Catherine Deneuve no elenco: como vocês talvez lembrem, um musical sem dança, com todo o diálogo cantado. O terceiro a citar é o infanto-juvenil “Mary Poppins” (Robert Stevenson) onde Julie Andrews como a protagonista, ao lado de Dick Van Dyke, faz os encantos da garotada e dos adultos também.

No gênero da comédia há três a mencionar.

“A pantera cor de rosa” (Blake Edwards), grande sucesso de bilheteria, infelizmente com continuações pouco dignas do original. “Beija-me idiota” (´Kiss me, stupid´) é um momento mais fraco do grande Billy Wilder, mas, de qualquer modo, engraçado e bom de ver. E da Itália, vem este “Casamento à italiana”, que o diretor e ator Vittorio De Sica dirigiu, infelizmente sem grande inspiração.

"Dr Fantástico": Peter Sellers em vários papéis.

“Dr Fantástico”: Peter Sellers em vários papéis.

A ficção científica do ano também pode ser dada como comédia, o hilário “Dr Fantástico” (`Dr Strangelove`, de Stanley Kubrick), em que Peter Sellers desempenha vários papéis.

Os policiais mais lembrados seriam: “Marnie, confissões de uma ladra”, um Hitchcock não tão louvável; “Topkapi”, de Jules Dassin, outro grande diretor pouco inspirado no momento; e o grande sucesso de bilheteria “007 contra Goldfinger” (Guy Hamilton).

Houve westerns? Houve: dois bem sintomáticos das transformações do gênero. Em “Crepúsculo de uma raça” (´Cheyenne Autunm´), o velho John Ford fazia, não apenas uma despedida, mas um mea culpa com relação aos maus tratos que os índios receberam em seus muitos faroestes. E o italiano Sérgio Leone, por sua vez, investia na renovação do gênero com o seu “Por um punhado de dólares”.

O gênero terror será lembrado por duas experiências com algum ponto coincidente, embora meramente casual. Nos Estados Unidos o mago do filme artesanal, Roger Corman, faz a sua aterrorizante adaptação de Edgar Allan Poe, em “The mask of the red death” (em português, ´A orgia da morte´), e, no Japão, o cineasta Shindo Kaneto comete esse curioso “Onibaba”, uma estória que, curiosamente, também envolvia máscaras.

Um dos mais prestigiados filmes do ano: "Zorba, o grego"

Um dos mais prestigiados filmes do ano: “Zorba, o grego”

Como esperado o drama foi o gênero mais numeroso.

O mais recordado de todos é, com certeza, “Zorba, o grego” (Michael Cacoyannis) onde, no papel-título, Anthony Quinn fez um de seus desempenhos mais geniais e mais queridos: quem não recorda a cena final, ele e o inglês Alan Bates dançando o inesquecível tema musical? Da Itália, veio “Seduzida e abandonada”, de Pietro Germi, filme cujo enredo já está no título; e do Japão esse impressionante “A mulher da areia (de Hiroshi Teshigahara), uma alegoria cruel sobre a relação a dois. Hollywood cooperou com “O homem do prego” (“The pawnbroker´ de Sidney Lumet), com Rod Steiger no papel de um comerciante judeu que não esquece o holocausto; “O trem” (´The train´, de John Frankenheimer), com Burt Lancaster com um maquinista francês que tenta evitar o furto nazista de obras primas da pintura francesa, e, finalmente, a adaptação da peça de Tennessee Williams, “A noite do iguana” (´The night of the iguana´) que o grande John Huston dirigiu para um elenco brilhante, Richard Burton, Ava Gardner e Deborah Kerr.

Históricos, ou filmes de época, há pelo menos três obrigatórios.

De Pier Paolo Pasolini: "O evangelho segundo São Mateus"

De Pier Paolo Pasolini: “O evangelho segundo São Mateus”

O primeiro é o inglês “Beckett, o favorito do rei”, com Richard Burton e Peter O´toole nos papéis titulares. O outro é a grande produção hollywoodiana “A queda do império romanco” (´the fall of the Roman empire´), dirigido pelo grande Anthony Mann. O terceiro não poderia deixar de ser o ousado e original “O evangelho segundo São Mateus” (Píer Paolo Pasolini) um ´bíblico´ na contramão dos bíblicos.

E fechamos com um documentário, o instigante “Eu sou Cuba” (´Soy Cuba´) do russo Mikhail Kalatozov, uma mais ou menos polêmica versão soviética do país de Fidel Castro.

Enfim outros há, mas, fiquemos com estes vinte e cinco cinqüentões. Para lembrar, rever, ou, se for o caso, checar.

Em tempo: esta matéria foi publicada no “Correio das Artes”, suplemento literário do jornal “A União”.

Cinema japonês: "Onibaba", impressionante terror de Shindo Kaneto.

Cinema japonês: “Onibaba”, impressionante terror de Shindo Kaneto.

Um trem para as estrelas

26 mar

Estava outro dia numa roda de amigos cinéfilos quando um deles se saiu com esta boutade extravagante: “todo filme com trem é um filme bom”. A colocação era absurda, mas, engraçado, logo o grupo a assumiu e, aí, passamos a citar filmes que mostravam imagens de trens, e de fato, a grande maioria eram filmes de qualidade.

Mais tarde, pensando no assunto, ocorreu-me que a boutade de nosso amigo não era assim tão absurda. A verdade é que a imagem do trem é, em si mesma, altamente cinematográfica. O trem num romance é só um dado diegético; na pintura, um objeto morto; no teatro, uma impossibilidade. No cinema, ao contrário, visto de fora ou de dentro, parado ou em movimento, o trem é uma coisa viva, como diria a crítica de língua inglesa, profundamente “watchable”, ou seja, boa de se ver.

Não é sem razão que, na história do cinema, o primeiro filme exibido exibiu o quê? Sim, um trem. Nos seus poucos minutos de duração, a película dos irmãos Lumière “Chegada do trem à estação” mostrava o que o título dizia. Um trem corria do fundo da tela para os seus lados e assustava os espectadores que supunham iam ser atropelados. Foi preciso que os exibidores explicassem que não havia perigo, mas, desde esse dia, 28 de dezembro de 1895, trem e tela formaram um par perfeito que rendeu, e vem rendendo, muitos momentos gratificantes.

Pouco tempo depois dos irmãos Lumière, o americano David Wark Griffith fundaria o específico fílmico, com a sua cena paradigmática, onde a imagem do trem era central. Em seus trilhos os bandidos haviam amarrado a mocinha, em cujo socorro corria o mocinho, enquanto, para a agonia dos espectadores, o trem se aproximava. Foi nesse mesmo tempo, primeiros anos do século, que outro pioneiro, Edwin S. Porter, rodaria o seu “The great train robbery” (“O grande roubo de trem”, 1903), onde o trem era tão graficamente importante quanto os outros atores.

Que o trem e o cinema teriam um grande destino comum ficou definitivamente claro em 1926 quando o ator e diretor Buster Keaton exibiu o seu “A general”, comédia absurda, situada na guerra de secessão, em que uma locomotiva era roubada dos confederados, pelos soldado da União, e um jovem sulista solitário se emprenhava em recuperá-la. Aqui, não havia mais dúvidas, o grande protagonista era o trem (chamado de “general”) e ninguém se incomodava com isso. Ao contrário, a crítica internacional gostou tanto que o filme, há muito tempo e ainda hoje, está na relação dos dez melhores do mundo, ao lado de “Cidadão Kane” e “O encouraçado Potenkim”.

Ao longo da história do cinema, os filmes que arrancaram parte de sua força dramática da imagem do trem são tantos que seria ocioso tentar recobri-los. Aqui recordo apenas uma ou outra instância, deixando para o leitor, se for o caso, a compleição da lista.

Os citados até agora são filmes da era muda, mas, o primeiro falado a ser mencionado suponho que deve ser o “Aliança de aço” (“Union Pacific”, 1939) de Cecil B DeMille que, sintomaticamente, narrava a construção da linha de ferro que, nos Estados Unidos, uniria a costa leste ao extremo Oeste, substituindo a precária diligência. O filme, como vocês lembram, é um épico do gênero – chamemo-lo assim – “western com trem”. Só depois de “Aliança de aço” Fred Zinnemann e John Sturges, por exemplo, poderiam fazer, respectivamente, “Matar ou morrer” (1952) e “Duelos de titãs” (1958), westerns clássicos onde o emprego do trem era essencialmente psicológico, o primeiro podendo ser subentitulado como ´um trem que chega´ e o segundo como ´um trem que parte´.

Contudo, desde Griffith, o trem nunca esteve atrelado a um gênero só: abrangia a todos. Aqui lembro o seu uso emotivo e poético no melodrama de David Lean “Desencanto” (1945) onde o trânsito na Estação inglesa unia e separava o casal apaixonado, cada apito ecoando uma alegria ou uma dor. No mesmo sentido de abrangência, vejam o tom sombrio, fatal ou lúdico, que Hitchcock deu a esse meio de transporte em filmes como “A dama oculta” (1938), “A sombra de uma dúvida” (1943), “Pacto sinistro” (1951), e “Intriga internacional” (1959). Ou vejam o que dele fez Billy Wilder em “Pacto de sangue” (1944).

Mas, claro, o filme que aqui não pode deixar de ser mencionado se chama justamente “O trem” (“The train”, de John Frankenheimer) e é de 1964. Situado ao tempo da Segunda Guerra, contava como os alemães se apropriaram das obras de arte dos museus parisienses, as quais seriam transportadas para a Alemanha em um trem especial que, naturalmente, a Resistência francesa faria o possível e o impossível para bloquear. “Assassinato no Expresso-Oriente” (Sidney Lumet, 1974) é outro filme a citar, porém, não sei se é enquanto “cenário” da ação que o trem é mais efetivo na tela. Quer me parecer que a sua imagem pode ser bem mais expressiva quando usada de modo pontual, como um índice dramático, ou de outra ordem. Com certeza, o leitor lembrará bons exemplos desse uso.

Para fechar, até o cinema nacional lidou com a imagem do trem, por exemplo, no hoje clássico “Assalto ao trem pagador” (1962), isto para não falar em “Central do Brasil” (1998) e no filme (Cacá Diegues, 1987) que empresta o seu título a esta matéria.

Em tempo: esta crônica é dedicada a Valdemir Alves de Medeiros.