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Brecht e o cinema

11 jun

Tenho sorte em ter amigos generosos. Venho de ganhar o precioso e chique pacote “Brecht no cinema”, contendo os filmes em que a obra do dramaturgo alemão foi levada às telas, e mais um longo documentário sobre o autor.

Um dos filmes no pacote é o clássico “A ópera dos três vinténs” (“Die Dreisgroschenoper”), que o cineasta G. W. Pabst dirigiu em 1931, claro, baseado na peça musical de Bertold Brecht e Kurt Weill.

O cenário é a Londres do começo do século XX, mas não o da realeza, e sim, o dos bandidos, dos mendigos e dos corruptos. Ali impera Mackie Navalha, o rei dos ladrões, que domina o mundo do crime, com sua tirania e sua pompa de mau. Em setor paralelo, impera J.J. Peachum, o rei dos mendigos, tão poderoso e mafioso na sua área quanto Mackie.

Ocorre que Mackie conhece Polly, a filha de Peachum, se ligam e se casam, sem que família da moça o saiba. Com a ajuda dos comparsas de Mackie e um padre relutante, o casamento tem lugar num prédio em ruinas, onde ratos e baratas são apressadamente substituídos por candelabros, champanhe e bolos.

Ao saber do evento, o chefe da polícia, Jackie Brown aparece no local, porém, comprometido com a bandidagem como está, nada pode fazer. Fora lá porque, ameaçado por um Peachum irritado e violento, ficara sabendo que, sob a ordem deste, toda a horda de mendigos de Londres pretendia mostrar a sua cara feia e a sua raiva, nas imediações do Palácio de Buckingham, no dia previsto para o desfile oficial da Rainha. E, para o chefe da polícia, isto significaria demissão sumária.

Como em sua poesia, o texto de Brecht é impiedoso com as classes poderosas e simpático com os pobres. A canção de abertura do filme, dirigida aos pregadores religiosos e aos políticos, já diz tudo “Primeiro comida, depois moral”. No dia da passeata dos mendigos, os cartazes e faixas são irônicos, para não dizer que são cínicos. Um cartaz grita “A miséria” (“Dem Elend”), um outro sugere “Dê para poder receber” (“Gib, so wir dir gegeben”). Quando Peachum, aos berros, ensina aos seus esfarrapados seguidores que “os ricos do mundo não têm pruridos em causar a miséria, mas não suportam a visão dela”, praticamente ouvimos aí a voz indignada de Brecht.

Polícia e bandido no mesmo saco…

No melhor estilo do “distanciamento brechtiano”, os pontos de virada na estória (os “turning points”) são marcados pelo aparecimento súbito de um personagem extra-diegético (isto é: que não faz parte da estória), o qual se dirige diretamente aos espectadores, comentando os fatos narrados, explicando certas questões e anunciando o que vem em seguida.

Trata-se de um filme extremamente irônico, para não dizer cínico, onde os maus (a polícia corrupta, os banqueiros, e a máfia dos mendigos) se saem bem no desenlace, todos unidos por um acordo nada cavalheiresco. O cenário é Londres, porém, os ecos são da Alemanha da época, como se sabe, devastada pela derrota na Primeira Guerra Mundial. Tanto é assim que o filme lembra, inevitavelmente, um outro filme do cinema alemão coetâneo, “O vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931), com suas hordas de marginais fazendo justiça, à revelia da polícia e das autoridades.

A diferença é que o gênero aqui é musical. A crítica sempre se refere à sensacional performance da atriz Lotte Lenya (esposa do músico Kurt Weill) na cena da festa de casamento, aqui já referida, cantando “Jenny a pirata”, mas a letra da canção – não seria inapropriado lembrar –  contém a mesma isotopia da torpeza e da maldade que Brecht denuncia. Com cinismo, sim, mas denuncia.

Sabe-se que Brecht não gostou da forma como a peça foi adaptada ao cinema. Curiosamente, não porque o filme tenha traído a peça, mas ao contrário, porque lhe foi fiel demais.

Um casamento entre ratos e baratas…

Meu contato com o teatro de Brecht nunca foi extenso, mas, tive o privilégio de ver no palco a sua peça “Mãe coragem e seus filhos”. Eu estava a passeio em Lisboa, em 1986, e a peça estava em cartaz no Teatro Nacional Dona Maria II, com Francisco Pestana e Irene Cruz no elenco, direção de João Lourenço. Confesso que foi uma sessão dolorosa, não apenas pela temática, mas pela duração. Lembro que, havendo começado às 21 horas, o espetáculo, contado o intervalo, terminou a uma hora da madrugada; não havíamos jantado e, vocês sabem, o centro de Lisboa depois da meia-noite é quase tão morto quanto o de João Pessoa…. Mas, enfim, esta é outra estória, que não cabe aqui desenvolver.

Volto ao meu “pacote Brecht”: o próximo filme, roteiro dele, é “Os carrascos também morrem” (1943), direção do imenso Fritz Lang.

Em tempo: esta matéria é dedicada ao amigo Romero Venâncio.

Bertold Brecht

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O teste Bechdel

1 ago

Em quase todos os setores da vida social ser politicamente correto é saudável. Eu disse ´quase´ porque um setor há em que a correção política parece não dar lá muito certo: este setor são as artes. Sim, no terreno em que a criação prevalece geralmente qualquer cobrança – externa ou interna – de correção tende a virar censura, e…

No cinema a censura foi praticamente abolida desde os anos 70, mas, aqui e acolá, aparecem manifestações pontuais de correção política que cheiram à censura.

Um caso que acho engraçado é o do chamado “Teste Bechdel”. Já ouviram falar dele?

Aplicado sobretudo ao cinema, consiste no seguinte: para ser viável, um filme precisa ter três coisas, a saber, (1) precisa ter duas mulheres na estória; (2) essas mulheres devem conversar entre si; (3) a conversa não pode ser sobre homens.

“Rashomon” é um dos filmes reprovados pelo Teste Bechdel.

Segundo os divulgadores do teste, isto denuncia ou evita o machismo que predomina na produção mundial de cinema. Para eles, ou melhor, para elas, o ideal seria que, antes de o filme ser rodado, o roteiro fosse submetido ao teste, o que garantiria um mínimo de protagonismo feminino, coisa tão rara no cinema.

Se o teste chega a ser aplicado nos bastidores do cinema, eu não sei, porém, que ele – desde os fins dos anos noventa – vem sendo amplamente utilizado para julgar filmes já consumados e consumidos,  disso não há dúvidas.

O maior site de cinema, o IMDB, traz uma lista de quase mil filmes submetidos ao Teste Bechdel, onde, naturalmente, poucos são os aprovados, digo, poucos cumprem os seus três pré-requesitos.

Mas, já é hora de perguntar, de onde surgiu o Teste Bechdel?

Foi em 1985, em uma coluna de humor da famosa cartunista americana Alison Bechdel. O nome da coluna era “Dykes to watch out for”, que se poderia traduzir livremente para “cuidado com os sapatões”. Uma engraçada charge da coluna, chamada de “The rule” (´a regra´) criava um diálogo entre duas lésbicas (Bechdel, aliás, é assumidamente lésbica) em que uma confessava à outra: de agora em diante, só assisto filmes que… (e colocava os três pré-requisitos citados acima).

A charge foi bolada em tom brincalhão e nada prescritivo, mas isto não impediu que uma certa ala mais radical do feminismo americano levasse a brincadeira a sério e a transformasse em teste para denunciar o machismo prevalecente nos filmes em geral. Inclusive, aproveitaram para associá-lo – gratuitamente ou não – ao conceituado ensaio “A room of one´s own”, da escritora inglesa Virginia Woolf, onde se reclama do papel secundário que sempre tiveram as mulheres na ficção literária.

Mais um reprovado pelo teste, “Ladrões de bicicleta”.

Nem precisa dizer, mas vou dizer assim mesmo: o problema do Teste Bechdel é que ele não mede qualidade.

Basta ver entre os filmes testados no rol do IMDB, a quantidade enorme de grandes obras primas internacionais sumariamente desaprovadas. Por exemplo: “Tempos modernos”, “Jezebel”, “O morro dos ventos uivantes”, “Casablanca”, “Cidadão Kane”, “Rashomon”, “Ladrões de bicicleta”, “Morangos silvestres”, “Um corpo que cai”, “Os incompreendidos”, “2001 – uma odisseia no espaço”, etc. Ironicamente, foi reprovado até o filme que traz, no título, o nome da escritora que teria inspirado o teste: “Quem tem medo de Virginia Woolf”.

Uma ironia engraçada é que filmes que depõem contra a natureza feminina passem no teste numa boa, caso – e um exemplo entre muitos – de “A malvada” (Joseph Mankiewicz, 1950). E, caso mais drástico ainda, é que um filme quase misógino, como “O vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931) seja plenamente aprovado com os três pontos do teste.

Enfim, se você pensa que o Teste Bechdel está fora de moda e devia ser esquecido, preste atenção ao programa de cinema do canal Futura. Vez ou outra, a apresentadora (nunca soube seu nome) aplica o Teste Bechdel ao filme mostrado e o faz na maior tranquilidade, com jeito de quem está sendo científica.

A semana passada foi a vez de “O grande golpe” (“The killing”, 1956) a obra prima noir de Stanley Kubrick, que tinha, sim, duas mulheres na estória, mas, falha grave, elas não conversavam entre si (como podiam, pergunto eu, se nem se conheciam?), o que, de chofre, tirou dois pontos do filme, e com um só, foi sumariamente reprovado.

Para mim, isto sim, foi um grande golpe.

“O grande golpe”, obra prima noir de Kubrick, reprovada no Futura.