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A lenda impressa

8 dez

Em seu número de abril deste ano, a revista “Super Interessante” veiculou matéria que interessa de perto aos espectadores de cinema, especialmente aos que têm idade para haver consumido o gênero do Western, ou, em termos domésticos, o Faroeste.

Com o título de “O verdadeiro Velho Oeste”, a matéria contrapõe o mito criado pelo cinema ao verídico e bem diferente modo de vida no Oeste americano do século XIX. Baseados em livros de historiadores que estudaram a fundo o assunto, os autores da matéria, Andreas Müller e Ricardo Lacerda, fazem ver que praticamente todos os grandes esquemas ficcionais que sustentaram a semiótica do filme faroeste carecem de correspondentes na realidade.

O duelo na rua central do povoado - criação cinematográfica?

O duelo na rua central do povoado – criação cinematográfica?

Para dar o exemplo mais ostensivo, os famosos duelos na rua principal da cidade, onde, sob olhares ansiosos, vencia o pistoleiro que fosse mais rápido no gatilho, nunca aconteceram. Duelos eram raríssimos e quando aconteciam era em algum local ermo e distante, de madrugada, e devidamente supervisionado por padrinhos de ambas as partes. E pior: as armas eram precárias e os seus usuários eram geralmente ruins de pontaria; tão ruins que uma figura emblemática da época, o Bat Masterson real, aconselhava a quem quisesse acertar um eventual inimigo, que mirasse na virilha para ver se acertava no coração.

A verdade é que no Velho Oeste havia muito menos violência do que a dos filmes, ou, a esse propósito, a do Oeste americano de hoje em dia. Ao contrário do que está na expressão consagrada pelos próprios americanos, “wild West” (`oeste selvagem´), havia lá muito mais lei, ordem e civilidade do que se pensa, e as estatísticas demonstram que os crimes eram em número surpreendentemente menor do que o suposto. Naquele período histórico recoberto pelo grosso do gênero faroeste – mais ou menos de 1860 a 1890 – as cidades mais cinematograficamente afamadas pela desordem (Tombstone, Abelene, Dodge City) revelam médias criminais irrisórias. Em alguns casos, cerca de três a quatro assassinatos por ano.

Os saloons seriam mais pacíficos e ordeiros do que se pensa

Os saloons seriam mais pacíficos e ordeiros do que se pensa

Os assaltos a banco eram infinitamente mais raros do que os mostrados nos filmes, pois a segurança dos prédios e a presença da vigilância eram fortes. Os saloons tinham muito mais ordem e decência e as mulheres da vida fácil do lugar eram muito mais compostas e recatadas. Como a lei da segregação indígena já fora passada havia tempo, os índios do período enfocado pelos filmes já haviam sido devidamente domados e habitavam as suas reservas de modo mais ou menos pacífico.

Mas, se o “Oeste selvagem” era muito menos selvagem do que imaginamos, como se explica a brutalidade sem fim que fez o melhor do gênero western no cinema? Muito oportunamente, os autores da matéria lembram que a criação do mito já começou um pouco antes da existência do cinema. Nos primeiros anos da década de 1890 (e o cinema só foi inventado em 1895), figuras históricas, como Buffalo Bill e outros, criaram espetáculos circenses que percorriam o país inteiro, narrando as aventuras dos desbravadores do Oeste, sempre apresentados como grandes heróis, vencendo os obstáculos da conquista, entre os quais índios e bandidos.

O tiro no espectador de "O grande assalto de trem" (1903) foi o primeiro sintoma de violência

O tiro no espectador de “O grande assalto de trem” (1903) foi o primeiro sintoma de violência

Dos circos para o cinema foi um pulo. O filme que, segundo historiadores, inaugura o gênero do faroeste, “O grande assalto de trem” (“The great train robbery”, Edwin S. Porter, 1903) já diz tudo, até no título.

Ansiosos por aventura, os espectadores do cinema mudo não queriam, na tela, aulas de história, e sim, muita ação e muita briga, e se o Bem devia vencer no final, não teria muita graça se a vitória fosse fácil, daí a grande ênfase nos obstáculos e nas figuras do Mal, índios, bandidos, assaltantes, ladrões e quejandos.

O mito foi assim crescendo e quando o som chegou ao cinema, em 1927, o gênero western já estava mais ou menos configurado, com todos os seus traços essenciais: cenário, personagens, símbolos, conflitos e situações dramáticas basilares. Os grandes diretores de Hollywood, como John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh, Anthony Mann, Delmer Daves, John Sturges, investiram no mito e… o resto da estória vocês conhecem.

O cavaleiro solitário foi um dos mitos mais fortes do Western

O cavaleiro solitário foi um dos mitos mais fortes do Western

A matéria da “Super Interessante” é oportuna e instrutiva para os seus leitores – supostamente jovens curiosos – com, no entanto, um perigo. É que esses jovens leitores venham a deduzir que a fuga à verdade histórica nos grandes filmes faroeste comprometa a qualidade artística.

Quem dá uma resposta a isso é, por ironia, um filme faroeste: “O homem que matou o facínora” (1962) de John Ford. Não tenho espaço para reconstituir o seu empolgante enredo, mas fecho este meu comentário com a frase – hoje uma das mais famosas na história do cinema – que fecha o filme: “Quando a lenda supera o fato, imprima-se a lenda.”

E o que é o Western, se não a lenda impressa?

Monument Valley, a paisagem típica do Westerm, escolha do mestre John Ford.

Monument Valley, a paisagem típica do Westerm, escolha do mestre John Ford.

Quase “Shane”

14 nov

Lembremos a cena. Estamos no velho Oeste selvagem e a câmera nos mostra, numa paisagem desolada, um rancho modesto, com um pequeno lago onde um garoto brinca. Lá no fundo se veem as montanhas, de onde parece vir esse forasteiro que se aproxima, misterioso. Mas vamos além da cena: adiantemos que o forasteiro vai se hospedar no rancho por algum tempo; que vai ajudar no conflito com os outros habitantes do território; que o garoto vai tornar-se seu admirador e que a mãe do garoto vai ter uma queda pelo forasteiro, visivelmente correspondida.

Pela descrição, tenho certeza que você, leitor, está pensando em “Os brutos também amam” (“Shane”, George Stevens, 1953). Pois bem, até que poderia ser… se não se tratasse de um outro faroeste, por sinal, do mesmo ano, também colorido e também com trilha musical de fundo.

O forasteiro que chega no rancho

O forasteiro que chega no rancho

Estou falando de “Caminhos ásperos” (John Farrow, 1953), cujo título original – mais uma coincidência – também é uma única palavra, o nome do protagonista: “Hondo”.

Capciosamente, fiz a descrição acima de forma a que fossem levantados somente os pontos que os dois filmes têm em comum. Evidentemente, a partir daí as igualdades desaparecem. O que não nos impede de prosseguirmos com a comparação, agora de forma contrastiva.

Primeiro dado diferenciador: o forasteiro que se aproxima do rancho (John Wayne, e não Alan Ladd) não vem a cavalo, mas a pé, pois seu cavalo fora baleado em conflito pré-tela. Em sua companhia vem um cachorro, ao passo que em “Os brutos” o cachorro existente é da casa, companheiro do garoto Joey nos momentos mais críticos. Os inimigos do rancho não são os latifundiários do gado, e sim, os índios Apache. Diferentemente do enigmático personagem de Shane, o nosso Hondo exibe uma vida sem segredos: passou parte de sua existência entre os índios, foi casado com uma Apache, e hoje pertence à cavalaria dos Estados Unidos, que combate os mesmos índios.  E, um dado mais sintomático: em “Caminhos ásperos”, o dono da casa está ausente, desaparecido há algum tempo.

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Pois é, se porventura uma frustração do espectador em “Os brutos” consiste em que Shane, o forasteiro amado por todos, não fica com a esposa do rancheiro, “Caminhos ásperos” parece resolver o problema: a ausência do marido e, mais tarde, a sua morte, e mais que isso, a descoberta de seu mau caráter, possibilitam a união amorosa que não fora possível no filme de George Stevens. De tal modo que, em termos de desenlace, se “Os brutos” tem um final feliz parcial (a querela com os latifundiários do gado foi vencida, mas Shane vai embora sozinho…), em “Caminhos” a felicidade final é plena: os apaches foram dominados e o casal, Hondo e Angie (Geraldine Page) ficam juntos para sempre, o garoto sendo levado pelas circunstância a abraçar esse novo pai.

Fiz o cotejo entre “Hondo” e “Shane” (mantenhamos os títulos originais) com alguma culpa, pois, o filme de John Farrow não precisa de comparações: é um bom filme em si mesmo. Evidentemente, nunca teve a fama de seu semelhante, e o próprio John Wayne alegava que, sendo do mesmo ano e tão “parecido”, “Shane” atrapalhou a carreira crítica e recepcional do seu filme. Eu mesmo não o conhecia e só cheguei a ele por indicação de amigos cinéfilos.

Os inimigos agora são os índios Apache

Os inimigos agora são os índios Apache

Wayne deve ter razão, mas, vale lembrar que, com o passar do tempo, o filme reabilitou-se junto à crítica, pelo menos isso. Com efeito, “Hondo” tem méritos inegáveis que podem colocá-lo entre os bons westerns da sua década. Narrado com fluência e boas interpretações, amarra bem os conceitos de ´filme de amor´ e ´bang-bang´. Um ponto seu extremamente favorável é a fuga ao maniqueísmo, e o melhor exemplo está na construção do personagem-título, ao mesmo tempo grosseiro e violento, terno e compreensivo; astuto e ardiloso na luta, mas desprendido e entregue na amizade.

Num filme sobre o conflito entre brancos e índios, sua origem é sintomática, pois se diz mestiço, e faz questão de resguardar, em palavras e gestos, o que há de típico nas duas raças. Numa situação crítica, Hondo hesita, como o faria qualquer ser humano, como é o caso quando precisa (por questões morais) confessar à companheira Angie que foi ele quem – por legítima defesa – matou o esposo dela, pai de seu filho. E sua justificativa para a confissão é orientada pelos inimigos que o torturaram, os Apaches, gente que – segundo ele – não conhece o conceito de mentira.

Enfim, com ou sem comparações com “Shane”, uma raridade cinematográfica que merece ser conhecida e apreciada.

Em tempo (1): autor de vasta e diversificada filmografia, John Farrow também é lembrado por ser o pai da atriz Mia Farrow.

Em tempo (2): esta matéria é dedicada ao amigo Joaquim Inácio de Brito, que me apontou o caminho a “Hondo”.

Apaches por toda parte.

Apaches por toda parte.