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AH, ESSE STEVE MACQUEEN..

23 out

.Convenhamos: mesmo que não preste, não dá pra deixar de ver um filme que se chame “Procurando Steve McQueen”. Vi e, restrições guardadas, gostei.

Não. O filme não é a história do famoso ator americano. É a história, por sinal verídica, de um fã seu, mas não um fã qualquer. Sim, pois nem todo fã é ladrão, e nem todo ladrão é fã.

Harry Barber (Travis Fimmel) foi simplesmente um dos participantes de um famoso assalto a banco na California de 1972. Assalto famoso não apenas pela ousadia dos assaltantes, mas, sobretudo, porque o dinheiro roubado pertencia a uma conta suspeita do então candidato à presidência da república americana, Richard Nixon. Com um detalhe: toda a grana era ilegal, falcatruas de Nixon para subir na carreira política e pessoal.

Como o banco ficava em lugar afastado (Laguna Niguel, CA), usaram-se explosivos e o assalto, com truculências e tudo mais, durou três dias, um fim de semana inteiro, e rendeu doze milhões, parte dos trinta existentes.

Em filmes de assalto a banco, é comum que o espectador termine torcendo pelos assaltantes, como se deu em “O segredo das joias”, em “Rififi”, em “O grande golpe”, em “Onze homens e um segredo”… Aqui se tem uma razão a mais e o cabeça da operação enfatiza isso várias vezes, justificando tudo pelo mau-caratismo de Nixon.

E se o protagonista do filme mora no primeiro andar de um cinema fechado e cultua a imagem de Steve McQueen, mais razão há para a torcida do espectador. Na parede de seu quarto está um enorme pôster de “Bullit”, filme a que ele se refere sempre que pode. E não só isso: bonito como o ator adorado, Harry Barber assume, como pode, o comportamento dos personagens de McQueen e, ainda mais que isso, em certas ocasiões se faz passar por ele, ou ao menos, usa o seu nome.

Mas, claro, nem sempre é acreditado. Por exemplo: quando o policial que o multa por excesso de velocidade pergunta o seu nome e ouve ´Steve McQueen´ como resposta, retruca: “Então eu sou Ali McGraw”.

Travis Fimmel como o ladrão cinéfilo.

Mas “Finding Steve McQueen” (Mark Steven Johnson, 2019) não é só um ´bank heist movie´. Todo narrado em flashbacks que ligam o ano de 1980 ao de 1972, ele é também uma história de amor até certo ponto engraçada e tocante.

Oito anos depois do famoso assalto e procurado pelo FBI, um Harry Barber meio em crise de consciência resolve contar tudo à namorada que, durante todo esse tempo, ignorava seu lado malfeitor. Sentados os dois numa mesa de lanchonete, em Youngstown, Ohio, ele começa sua confissão: “eu não sou quem você pensa que eu sou”. E vêm, para o espectador, em imagens sequenciais, todo o esquema do assalto, em seus mínimos detalhes. E aí, naturalmente, a coisa engrossa entre o casal.

Na verdade, Barber já se entregara ao delegado local (coincidentemente, pai da namorada) e está só esperando ser preso. Ocorre que, se o mito dele era McQueen, o dela era Warren Beatty e Faye Dunnaway, ou seja, o casal de “Bonnie e Clyde”, de forma que, ao invés de aceitar a rendição pública do namorado-ladrão, ela… Bem não vou contar o desenlace, que seria spoiler.

Não se trata de nenhum grande filme, e, evidentemente, a gravidade de seu assunto (as falcatruas de Nixon, antes de Watergate) merecia uma obra de maior peso, porém, de qualquer forma, o bom humor da narração, a fluência da montagem (ligando os vários tempos da história, a partir de expressões nos diálogos), o desempenho dos atores, a trilha sonora dos anos setenta, e, last but not least, a cinefilia inveterada do protagonista, compensam a perda da hora e meia em que decorre.

Cadê Fellini?

19 dez

Um filme com um título desses, “Em busca de Fellini” (“In search of Fellini”, 2107), eu iria ver de todo jeito. Ainda que tivesse lido comentários desfavoráveis. Pois li e fui.

O argumento é igualmente convidativo: uma garota de uma pequena cidade interiorana de Ohio vai a Cleveland, e cai, por acaso, dentro de um Festival Fellini; apaixona-se subitamente pelo cineasta de “A estrada da vida” e, com o consentimento da mãe doente, se dana para a Itália no encalço dele.

Inspirado pela genial mistura felliniana entre realidade e fantasia, o filme do diretor novato Taron Lexton conta a história de Lucy (Ksenia Solo), apostando que pode fazer o mesmo: misturar realidade e fantasia. Ocorre que nem todo mundo é Fellini, e…

Lucy, a garota de Ohio, usa a camisa listrada de Gelsomina – personagem de “La Strada” – e quer ter a inocência da mesma, mas isso não ajuda muito. Literalmente, perde-se na Itália, e o filme junto com ela, também se perde. E vejam que, para o bem ou para o mal, é baseado “numa aventura real”… Pensando bem, talvez por isso mesmo se perca.

Que Fellini não será encontrado (vários sentidos para esta expressão!), a gente adivinha desde a chegada da moça a solo italiano. Onde posa o avião dela? Não em Roma, mas em Verona, a cidade de Romeu e Julieta. É, portanto, fácil prever o desenlace: a viagem vai lhe dar, não Fellini, mas, um amor. E é aí que o filme ganha a cara de “sessão da tarde”.

A sequência final, em que Lucy, já em Roma, tem, conosco, e por algum instante, a ilusão de estar na presença de Fellini, quando a figura masculina à sua frente é, na realidade, o namorado veronês, só não decepciona mais porque, como disse, já estava implícita desde sempre. Sintomática e convenientemente, a jornada de Lucy acontece em 1993, ano da morte de Fellini.

O filme é cheio de desperdícios, que os espectadores de maior boa vontade podem, se quiserem, chamar de ´pistas falsas´.

Um caso é o dos aparecimentos, em momentos e locais os mais variados, daquele rapaz forte com correntes amarradas no busto (para lembrar o Zampano de “La strada”)… aparecimentos que não vêm a dar em nada. Outro desperdício é a existência do segundo ´interessado´ em Lucy, aquele desconhecido que a conduz a uma orgia supostamente felliniana, e depois a maltrata…

Engraçado é que um problema que Lucy teve, também o teve o filme. Refiro-me ao fato de que não há um Fellini só: há muitos Fellinis, e aquele de “La strada” e “Noites de Cabiria” é bem diverso do de “A doce vida”, que por sua vez, é diverso do de “Satyricon” e “Roma”.

Mas, os atrapalhos semióticos do diretor Lexton, não ficam por aí.

Vejam bem: depois de meia hora de projeção, eu, pessoalmente, comecei a me indagar se um título mais apropriado ao filme não seria “Em busca de Capra”. Pois é, são tantas e tão enfáticas as cenas mostradas de “A felicidade não se compra” (1946) onde se veem a bela Donna Reed e James Stewart em conversas amorosas ou trocando beijos…

O que, aliás, me conduz a uma questão mais genérica, mas também pertinente ao filme de Lexton. Como casar o cinema clássico americano com o cinema de arte europeu? A dicotomia é um lugar teórico comum da crítica, mas que aqui, suponho, vem bem ao caso.

Lucy e a mãe doente, ainda em Ohio.

Em alguns momentos do filme, as personagens americanas tentam explicar aos outros o que é Fellini. Antes de viajar, Lucy faz isso para a tia, sem sucesso, e, mais tarde, essa mesma tia, tenta explicar à irmã, mãe de Lucy. O que ela diz é o seguinte: “Peitos, bundas, você sabe, arte”. Por sua vez, assistindo na televisão a “A doce vida”, a mãe de Lucy reclama: “Cadê o enredo?” E é consolada pela irmã: “Não há enredo”.

No momento em que redijo estas linhas me ocorre que a justificativa para a insistente presença intertextual de “A felicidade não se compra” seria para lembrar que o cinema clássico americano, ao contrário, tinha enredo e não tinha peitos e bundas… Será? Pode até ser, mas não melhora a impressão de confusão estilística e estrutural que “Em busca de Fellini” nos passa. Sem falar da impressão, mais grave, de inutilidade.

O cinema clássico americano, com suas regras e limites, e o cinema de arte europeu, com suas liberdades e ousadias, estão “casados”, e muito bem casados, nas obras concretas, consumadas e consumidas, de grandes diretores como Billy Wilder, Otto Preminger, Fritz Lang, William Wyler, e tantos outros.

Satisfaçamo-nos, portanto, com o que já foi feito.

Fellini, buscado, mas não encontrado…