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Sessenta anos de “OS INCOMPREENDIDOS”

22 abr

Quem, este ano, vira sessentão é “Os Incompreendidos (“Les 400 coups”, 1959), filme do cineasta francês François Truffaut, sobre o qual já escrevi outras vezes e não me canso de a ele retornar.

Aqui em João Pessoa acho que foi exibido em 1961 – ou por aí – e me lembro de tê-lo visto, não nos cinemas lançadores (Rex e Plaza), mas no modesto Cine Brasil que, para quem não alcançou, ficava na subida da Rua Guedes Pereira, quase em frente ao Grupo Escolar Tomás Mindelo.

Para mim, garoto de catorze anos, foi uma experiência e tanto acompanhar a estória – tão singela e direta – desse menino quase da minha idade que não se entendia com os pais e, muito menos, com os professores da Escola. Falta de entendimento que terminaria por levá-lo à marginalidade.

Vocês lembram, não é? Depois de fugir de casa e cometer um pequeno furto, Antoine Doinel vai parar num Reformatório Juvenil, de onde mais uma vez foge e, em carreira desembalada, vai dar no mar. E o filme é cruel com o espectador ao deixar o garoto ali, sozinho, perdido e desamparado naquela praia deserta e fria, sem saída, sem rumo, seu rosto triste congelado na tela, imagem seguida do implacável FIN. Por que nos afeiçoar ao garoto, se iríamos no final, cruelmente, abandoná-lo? Acho que foi com perguntas assim que saí das dependências do Cine Brasil, naquela tarde quente de 1961.

É que, até então, eu estava habituado ao cinema americano, e, no cinema americano, não se abandonava uma criança assim. Lembrar que a palavra chave em “O mágico de Oz” (1939) era LAR: a garota de “De ilusão também se vive” (1947), por exemplo, tem o seu, e até os órfãos do melodrama “Em cada coração uma saudade” (1957) encontram guarida em lares alheios. Vejam – mais um exemplo – que o garoto de “Os brutos também amam” (1953) perde seu amigo Shane no final do filme, porém, a gente sabe que, após o desaparecimento do misterioso cavaleiro solitário por trás das montanhas, Joey vai correr de volta à casa, onde terá, com certeza, o consolo e o afeto dos pais. A sua mãe estará tão triste quanto ele, mas, tudo bem.

Voltando a “Os Incompreendidos”, depois da sessão ocorreu-me ler sobre o filme nos jornais locais. Os críticos, que eu tanto admirava, me diziam que aquele era o primeiro filme de um jovem cineasta francês que, junto com outros igualmente jovens, estava inaugurando uma nova maneira de fazer cinema, e nisso, fundando um verdadeiro movimento cinematográfico que levava o nome sonoro de “Nouvelle Vague”.

Esses artigos nos jornais locais me inquietavam e, se não me ajudavam a entender o filme, me deixavam com a impressão de que, na minha ingenuidade e ignorância, eu estava tendo o privilégio de testemunhar o surgimento de uma nova era, porventura repleta de novas ideias e novas formas…

Assim, o preto-e-branco triste de “Os Incompreendidos”, de repente, passava a fazer contraste com o technicolor comercial do cinema hollywoodiano; um preto-e-branco que eu já vinha vendo em outros filmes europeus, como “Hiroshima meu amor”, “Ascensor para o cadafalso”, “A fonte da donzela”, “A aventura”, “A doce vida”, “Rocco e seus irmãos”, etc. Não que preto-e-branco fosse sinônimo de qualidade, mas, bem, acho que vocês entendem o que quero dizer.

Enfim, o cinema amadurecia… e eu, com ele.

Mais tarde, menos ingênuo e mais antenado, eu acompanharia a trajetória cinematográfica de Truffaut, até o seu último filme. Vibrei com sua obra prima “Jules et Jim” (1962) e com sua brincadeira metalinguística em “A noite americana” (1973), porém, nenhuma reação a seus filmes marcou meu espírito tanto quanto a que tive a “Os Incompreendidos”.

Para fazer referência ao título original do filme, foi um golpe.

Aliás, “Os 400 golpes” desse título original foram lidos por mim como uma hipérbole numérica, referente às muitas dores impingidas às crianças pelos adultos. Era a leitura que Truffaut queria, só que essa escolha titular – só vim a saber muito tempo depois – era profundamente irônica, pois, segundo a língua e a civilização francesas, os tais ´golpes´ são os pais que recebem, e os recebem dos filhos. Truffaut, um apaixonado por crianças, inverteu a relação algozes/vítimas e aumentou a gravidade da intitulação. E do filme!

Em tempo: esta crônica é dedicada a truffautiana Glória Gama.

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De menor

20 set

 

 

Em vista do crescimento da violência urbana em todo o país, um tópico que se tem feito assíduo, na imprensa e alhures, é o da redução, ou não, da maioridade para crimes hediondos.

Favorável ou desfavoravelmente, deve ter sido esse tópico o que inspirou os roteiristas do filme “De menor” (2013), em cartaz na cidade. O seu enredo conta o drama de Helena (Rita Batata), essa jovem defensora pública de menores infratores que faz seu trabalho, na Vara da Infância e Adolescência de Santos, com dedicação extrema e mesmo com carinho. Um de seus gestos habituais é afagar, na cabeça, no ombro ou na mão, os adolescentes a quem atende, como costuma fazer com o seu irmão menor, Caio (Giovanni Gallo), com quem mora sozinha, desde que perderam os pais.

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Helena divide seu cotidiano entre as dores do trabalho e a paz em casa, até descobrir as dores de casa: de repente, do irmão caçula revela-se uma segunda vida – para Helena, impensada e impensável – a mesma dos delinquentes que ela defende no Fórum. Com o andamento do processo, fica-se sabendo que o caso de Caio é bem mais grave do que ele alegava ser, e que o adolescente – como tantos outros com quem Helena se depara no dia a dia – mentira para esconder a responsabilidade de um crime.

O que fazer? Helena não sabe… e o filme tampouco. Aliás, o filme não só não sabe, como diz que não sabe, o que é ostensivo em sua cena final: depois de toda a dura verdade desvendada, mostra-se Helena chorando dentro de uma banheira … e vêm os créditos.

Por que certos adolescentes, por mais afeto que tenham em casa, se envolvem com o crime? E como agir depois de o mal consumado? Curto, o filme ainda teria, se quisesse, tempo para algum encaminhamento de roteiro, mas não: ele quer mesmo que as suas indagações sejam repassadas ao espectador, o qual sai do cinema com a problemática nas costas.

Rita Batata faz a protagonista Helena

Rita Batata faz a protagonista Helena

Bem dirigido e bem interpretado “De menor” vem recebendo prêmios nacionais (Mostra Première Brasil, no Rio de Janeiro) e mesmo internacionais (Festival de San Sebastián, na Espanha) que endossam a sua qualidade, e, por tabela, a seriedade da companhia produtora, a paulistana “Tangerina”, encabeçada por duas mulheres: Tatá Amaral e Caru Alves de Souza, esta assinando a direção do filme em questão.

No meu entender, uma das pequenas falhas de “De menor” está em alguns momentos da roteirização.

Pareceu-me que, na primeira metade da estória, as brincadeiras entre os irmãos, Helena e Caio, são infantis demais para suas faixas etárias, aquele lance de, na praia, esmagar as pessoas distantes com os dedos, ou engolir o navio com a boca aberta. São ilusões de ótica poéticas que os dois devem ter praticado quando crianças, mas que, agora, parecem tolice para enganar espectador buchudo. A intenção deve ter sido a de descrever a felicidade fraterna, para, mais tarde, fazer o contraste com o drama criminal, mas…

Um outro lance que não funciona muito bem está na segunda metade da estória, quando Helena começa a descobrir os podres do irmão. Aquela cena em que ela, aos gritos, lê para ele, os documentos atinentes ao falecimento dos pais, é inadequada e pouco verossímil. Notamos que se trata de uma maneira de o roteiro informar ao espectador o que houve (a perda dos pais, a guarda do irmão menor, etc), mas, como dramaturgia é algo manjado e dispensável. Haveria outras formas de passar a informação sobre o passado dos personagens, não sei qual, porém, mais convincente e mais fácil de engolir.

Giovanni Gallo é o irmão infrator

Giovanni Gallo é o irmão infrator

Não será exigência demais dizer que o filme, desde o primeiro fotograma, é absolutamente previsível: uma advogada que lida com adolescentes infratores tem, em casa, um adolescente… Parece-me, contudo, que essa previsibilidade é assumida e, como tal, talvez não devesse ser marcada como ponto negativo. O fato é que, realmente, ela não incomoda.

Não sei como os jovens espectadores estão recebendo este filme, mas, os mais coroas como eu vão, inevitavelmente, compará-lo a clássicos do passado que abordaram a mesma temática da delinquência juvenil.

De minha parte, lembrei-me de duas películas de 1955: “Sementes da violência” (Richard Brooks) e “Juventude transviada” (Nicholas Ray). Mas, claro, a grande referência vai ser mesmo o belo e poético “Os incompreendidos” (1959) do francês François Truffaut que não tem só a mesma temática, mas o mesmo sentido de irresolução. O foco em “De menor” é na irmã mais velha, mas, de todo jeito, a sua busca do mar depois de ficar sabendo sobre o crime do irmão, lembra o garoto Antoine Doinel diante do oceano no final aberto do filme de Truffaut. Ouve influência? Não creio, mas deixo feita a anotação.

Cena dramática em "De menor" (2013).

Cena dramática em “De menor” (2013).