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Harry e Sally

8 nov

Quem é que não gosta de uma boa comédia romântica? Uma das minhas preferidas é “Harry e Sally – feitos um para o outro”, que revi há pouco, com um grupo de amigos cinéfilos. Foi bolada no final dos anos oitenta, a quatro mãos, masculinas e femininas (Rob Reiner dirige e Nora Ephron roteiriza), e tem a vantagem de resumir o gênero. E o faz muito, muito bem!

O velho argumento vem das muitas estórias de amor dos tempos clássicos, que é o seguinte: entre atropelos mil, rapaz e moça que se detestam terminam se apaixonando. A lista não caberia aqui, caso fosse citar todos os filmes com este argumento, e, por isso, me limito a mencionar apenas dois, emblemáticos: “Aconteceu naquela noite” (Frank Capra, 1934) e “Confidências à meia noite” (Michael Gordon, 1959).

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Para começo de conversa, o primeiro mérito de “Harry e Sally” é assumir a previsibilidade do argumento e segurar a barra até o fim. ´Quando Harry conhece Sally´ (título original do filme!), numa carona acidental, nós já sabemos o que vai acontecer: são antagonistas, e, portanto, vão brigar e, no final, ficar juntos. O ´ficar juntos´ está na própria rima vocálica de seus nomes, como também, claro, no elenco: afinal, quem está dando a carona forçada é Meg Ryan e quem a está recebendo de má vontade é Billy Chrystal.

Na conversa durante a longa e desagradável viagem de Chicago a Nova Iorque, a discordância sobre o final de “Casablanca” tem duas funções: reforçar o gênero assumido e indicar o antagonismo do casal. Ela acha que foi bom para Ilsa ir embora com Lazslo e – quem sabe? – vir a ser a primeira dama da Chekoslováquia; ao passo que ele acha que valeria a pena, sim, ter ficado em Casablanca como companheira de um beberrão dono de cassino, se o cara é Humphrey Bogart.

Um ótimo reforço, tanto ao gênero como ao argumento, está na trilha musical. Aquela canção sobre as duas formas de pronunciar “tomato” e “potato” (“Let´s call the whole thing off”) é um exemplo que vem ao caso, como também, mais tarde, o karaokê com “The surrey with the fringe on top”, a canção inicial do musical “Oklahoma” (Fred Zinnemann, 1955), filme que contava, justamente, os atropelos de antagonistas que se apaixonam. E só estou mencionando duas canções, quando a trilha toda é enorme.

Billy Chrytal e Meg Ryan como Harry e Sally

Billy Chrytal e Meg Ryan como Harry e Sally

É um filme sobre as diferenças entre ser homem (sexo?) e ser mulher (amor?), de modo que podemos afirmar que o problema de Harry é Sally, e o de Sally é Harry, mas, claro, também é viável dizer que o problema de Harry é Harry, e o de Sally é Sally. O nível de complicação da relação está ilustrado na noite em que os dois vão, meio acidentalmente, para cama: no dia seguinte, ela acha que ele vai achar que foi um erro, e decide dizer que foi, e ao dizer, ele, mais confuso que convicto, confirma.

Na construção dos personagens, há, sim, um pequeno detalhe, que pode ser atribuído talvez à presença da roteirista Ephron: olhando de perto, dá para perceber que Sally é uma personagem mais ou menos retilínea, igual a si mesma do começo ao fim; ao passo que Harry passa – nos quinze anos da estória narrada pelo filme – por uma transformação. No final, ele cresce e chega ao nível que a companheira parecia ter desde sempre. Ponto para as mulheres!

Um orgasmo simulado em pleno restaurante.

Um orgasmo simulado em pleno restaurante.

Imagino que um dos problemas dos autores de “Harry e Sally” foi Woody Allen. Como, em 1989, narrar uma estória de crise amorosa sem referência a um cineasta que teve tanto sucesso com o tema, e que, aparentemente, não bebeu tanto da fonte clássica, e muito mais do cinema europeu? Pois é, o intertexto alleniano está lá, sem problemas. Um deles é o tom documental que o filme propõe, com aqueles inúmeros parênteses na narração em que um casal, sempre idoso, conta para a câmera, como foi que se conheceram. Outro é a forma de aumentar a depressão dos protagonistas, fazendo com que tudo dê certo em torno deles, menos eles mesmos. Por exemplo, os dois amigos do casal (o escritor, amigo dele, e a moça, amiga dela) se juntam e casam; sem falar nos dois casuais e penosos reencontros com os respectivos ex-companheiros, estes muito bem resolvidos em seus novos relacionamentos.

Previsivelmente, como dito, o filme termina em happy end, mas, ao “eu te amo” das comédias de amor de antigamente, dito por Harry, segue-se uma longa e adversativa lista dos defeitos de Sally.

Intertextos clássicos e/ou contemporâneos à parte, um componente essencial a “Harry e Sally” é o humor. Tão essencial que às vezes não se importa de quebrar o código do realismo preponderante, caso – hoje clássico – daquela cena em que Sally, em implausível crise de despudor, simula um orgasmo no restaurante, para o constrangimento de Harry e espanto dos fregueses – depois do que uma respeitável senhora ao lado solicita ao garçom que lhe traga “o mesmo que aquela moça comeu”.

Enfim, uma das melhores comédias românticas do século XX – acho que posso dizer isto sem medo de errar.

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Um invento vibrante

3 jul

Nas ciências da alma, nada mais superado do que o conceito de histeria feminina. Houve, porém, uma época – século XIX – em que era considerado verdade científica incontestável. Nessa época atrasada, associava-se o nervosismo da mulher ao útero e um tratamento da “doença” devia, portanto, mexer com este órgão, ou com suas adjacências.

O Dr Robert Dalrymple, por exemplo, descobriu que a massagem vaginal podia aliviar, ou mesmo combater a histeria. No seu consultório, passou a usar essa massagem com suas pacientes, respeitáveis senhoras da sociedade vitoriana. A massagem era feita com a mão do médico, sem luvas e bem lubrificada. Deitada em leitor especial, a paciente abria bem as pernas e o médico começava de leve a massagem e ia aumentando o ritmo dos movimentos, até a paciente atingir o que o Dr Dalrymple chamava de paroxismo, depois do qual a paciente sentia um enorme relaxamento.

Na verdade, o paroxismo era – clinicamente falando – puro orgasmo, porém, o circunspecto médico, um senhor de certa idade, não pensava assim, nem nada na puritana Londres de 1880, o levaria a pensar coisa diferente.

Pensando assim, ou não, o fato é que, depois do método adotado, o consultório do Dr Dalrymple superlotou e as respeitáveis senhoras vitorianas, viúvas, solteironas ou bem casadas, em número cada vez maior, faziam fila para serem massageadas naquele lugar e experimentar o delicioso paroxismo.

Cartaz do filme "Histeria" (2011)

Cartaz do filme “Histeria” (2011)

Tudo isso está mostrado no filme “Histeria” (“Hysteria”, Tanya Wexler, 2011), que não veio ao circuito comercial, mas está disponível em DVD.

Na verdade, o filme vai mais além. Ocorre que o Dr Dalrymple (Jonathan Pryce), já idoso e cansando, resolveu empregar um jovem e charmoso assistente, por nome Mortimer Granville (Hugh Dancy), que, de dedo em riste, passou a aplicar a massagem com o mesmo rigor científico de seu mestre e patrão. Com o tempo, Granville começou a sentir câimbras na mão, naturalmente resultantes do movimento infinitamente repetido.

Por sorte, um amigo de Granville, um tal de Edmund Saint-John Smythe (Rupert Everett) aristocrata ocioso e inventor nas horas vagas, havia engendrado uma engenhoca que, movida à eletricidade, funcionava como uma espécie de espanador giratório. Preocupados com as câimbras, Granville e seu amigo conversaram um bocado sobre o invento que, com paulatinas modificações técnicas, de espanador virou um eficiente vibrador.

Depois de experimentarem o aparelho em uma jovem de reputação duvidosa (que teve três “paroxismos” seguidos), o jovem assistente apresentou ao seu patrão o vibrante invento que, na massagem, iria substituir a mão do médico e, testado e aceito o seu emprego, passou a ser um sucesso, aumentando mais ainda a clientela do Dr Dalrymple.

Experimentando o novo invento em uma voluntária

Experimentando o novo invento em uma voluntária

Para quem não acredita no que está vendo, a diretora Tanya Wexler, já na abertura do filme, fizera questão de apor a legenda “Uma estória verdadeira”, e logo após, achando que o espectador ainda pudesse ter dúvidas, acrescentara um adverbiozinho: “realmente”.

Mas, seria injustiça ao filme deixar sugerido que sua temática gire (!) em torno da invenção do vibrador. Não é o caso.

O filme é, a rigor, uma mistura de estória romântica e relato médico, com crítica à condição feminina no final do século XIX. Considerem, por exemplo, que o Dr Dalrymple tem duas filhas – uma, certinha e prendada para o matrimônio, a outra, independente e liberal. A primeira vive tocando piano, à espera de seu príncipe encantado, enquanto a segunda, de mangas arregaçadas, dedica-se a cuidar dos desvalidos em um asilo de mendicância, que o pai conservador não ajuda nem aprova.

O espanador que virou vibrador

O espanador que virou vibrador

É claro que o jovem assistente Mortimer Granville (na verdade o protagonista do filme) envolve-se com ambas, e, como é praxe acontecer numa velha comédia romântica de antigamente, ele se compromete com a primeira, Emily (Felicity Jones), e, para surpresa de todos – inclusive dele mesmo – se apaixona pela segunda, Charlotte (Maggie Gyllenhaal). Diga-se de passagem, sem que nada disso tenha a ver com vibrador ou coisa do gênero.

Aliás, talvez o problema principal de “Histeria” consista justamente nesse desequilíbrio entre fazer o relato de um fato histórico, a saber, a invenção do vibrador, e contar uma estória de amor entre dois jovens progressistas. Com o elemento complicador seguinte: o invento vibrante, que poderia porventura ser entendido como uma espécie de símbolo da vitória feminina sobre a moralidade da época, aqui aparece sempre do lado dos conservadores.

Enfim, uma questão para o espectador resolver. Ou não.

Dr Dalrymple e seu assistente em ação

Dr Dalrymple e seu assistente em ação