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Risos, canções e tiroteios

28 jan

Não fui amigo pessoal de Múcio Leal Wanderley (1918 – 2009), mas, com ele bati bons papos em casuais encontros, muitas vezes nas entradas ou saídas de alguma sessão de cinema. Lembro que a última vez foi depois de uma sessão noturna de “Moulin Rouge – amor em vermelho” (2001), ele me confessando, tristonho, que a sua audição já fraca não lhe ajudava na curtição de um musical.

Seu trabalho de cinéfilo estudioso da sétima arte, no entanto, eu conheço bem. Tenho todos os seus livros e cheguei a fazer o prefácio de um deles, “Telas e palcos” (1999).

Pois há pouco me procura sua filha, Adette, e, em confiança, me põe nas mãos algo que eu nem sabia que existia: os originais de um livro que o pai deixara inédito. Segundo Adette, esse conjunto de textos foi escrito ao longo de muitos anos, sempre devagar, o autor voltando a eles de tempos em tempos, retomando e parando de acordo com a saúde e a disposição do momento. O material todo está datilografado, com várias correções à mão, feitas pelo autor, às vezes cortes de parágrafos inteiros, outras vezes, acréscimos manuscritos entre as linhas.

Múcio Wanderley (1918-2009)

Na verdade, o livro deveria ter sido publicado agora, digo, em janeiro de 2018, quando, no dia 17, se completariam 100 anos do nascimento do autor. Dificuldades de localizar os originais e outros percalços, porém, impediram esse feito e, em vista disso, combinamos que ao menos uma notícia sobre esses originais já constituiria uma forma de celebração, e é neste sentido, de homenagem respeitosa e afetiva, que redijo estas linhas.

Trata-se de um bem fornido trabalho sobre três gêneros que foram tão importantes na história do cinema e no desenvolvimento de sua linguagem e de seu imaginário, a saber, a comédia, o musical e o faroeste. Com o sugestivo título de “Risos, canções e tiroteios” – e o subtítulo “De Chaplin a Astaire e J. Wayne” – o trabalho reconta, em partes separadas, o surgimento e a formação de cada um desses gêneros.

Em cada uma dessas três seções estão abundantes informações sobre as origens do gênero, os primeiros filmes que codificaram sua semiótica e as muitas figuras que o praticaram, dos produtores aos roteiristas, passando, claro, pelos atores e atrizes que consolidaram sua mitologia. Em alguns casos, os filmes mais importantes do gênero tratado recebem comentários especiais. O périplo recoberto vai da invenção do cinema, em 1895, ao final dos anos cinquenta. Não há uma bibliografia citada no final, mas percebe-se que Múcio Wanderley estava bem familiarizado com os historiadores de seu tempo, como os eminentes Jean Louis Rieupeyrout, Angel Zuñiga, George Sadoul e outros, alguns deles mencionados no corpo do texto. No final de cada uma dessas partes vai-se encontrar uma providencial filmografia essencial do gênero.

Cine Rex, da Companhia Exibidora de Filmes, em João Pessoa, PB.

No caso da primeira seção do livro, “Risos”, por exemplo, parte-se de uma referência a “O jardineiro regado” dos irmãos Lumière – a primeira “comédia” da história do cinema – para avançar para a Companhia Keystone na Hollywood primitiva, e então, para Mack Sennett, Mabel Normand, Zuzu Pitts, Marion Davis, Chaplin, Lubitsch, Buster Keaton, os irmãos Marx, o Gordo e o Magro… Ninguém que fazia rir fica de fora.

A segunda seção do livro, “Canções”, dedicada ao musical, começa tratando da passagem do cinema mudo ao falado, formulando a pergunta: “Afinal, o que é um filmusical?”. E, fora de ordem, a resposta, ou melhor, as respostas, vêm na prática: primeiramente os tenores, barítonos e sopranos, de Dennis King a Lawrence Tibbett, e mais adiante, a lista criativa dos iniciadores René Clair, Rouben Mamoulien, King Vidor e Ernst Lubitsch. Um trecho é dedicado ao papel do produtor Zanuck e um outro faz uma interessante incursão na relação do musical com o thriller. Um outro ainda relata o desempenho do musical no período da Segunda Guerra. E claro, seguem-se os nomes e as performances pessoais dos muitos que, por trás ou na frente da câmera, fizeram o melhor do gênero na Hollywood clássica: Busby Berkeley, Fred Astaire, Ginger Rogers, Jeanette McDonald, Nelson Eddy, Bing Crosby, Judy Garland, Mickey Rooney, Arthur Freed, Vincente Minnelli, Stanley Donen, Gene Kelly… até Doris day e Frank Sinatra.

A mais longa das três, esta seção sobre a comédia ainda inclui um longo apanhado sobre a Chanchada brasileira, desde seus primórdios nos anos trinta, até o final da década de cinquenta. Enfocam-se aí os anos de glória da Atlântida e ainda há um espaço para a companhia Vera Cruz. Como seria de se esperar, esta seção do livro se fecha com a pergunta: por que o musical morreu?

Coisas de Cinema – um dos livros publicados de Múcio Wanderley.

Finalmente, a terceira seção do livro, “Tiroteiro”, vai atrás do background do western, suas histórias verídicas e seus mitos, como Buffalo Bill, Buck Jones, Durango Kid e tantos outros. Um estudo actancial comenta os personagens, os cenários e suas características: o mocinho, o bandido, os índios e o meio ambiente. Embora curto, um trecho essencial é com certeza o que tem o subtítulo de “Ascensão e queda do filme de mocinho”. Reais ou ficcionais, alguns dos fatos e fatores que marcaram a conquista do Oeste americano vêm à tona, como: a caravana de Oregon, a grande jornada dos carroções, a figura ímpar do cavaleiro solitário, a curiosidade dos “cowboys de saia” como Anne Oakley e Calanmity Jane, etc… A seção termina com uma breve revisão do filme faroeste nos anos cinquenta.

“Risos, canções e tiroteios” é dedicado, não aos pesquisadores e especialistas, mas aos espectadores comuns: “a todos aqueles que um dia ocuparam a primeira fila” reza a sua afetuosa dedicatória. O que não nos impede de afirmar que, se publicado, teremos em mãos um livro de História do Cinema. Outros há e muitos, mas este foi escrito com paixão por alguém que, na condição de exibidor e cinéfilo, testemunhou essa história, e que soube reconstituí-la com precisão, carinho e elegância.

No prefácio que fiz para “Telas e palcos” comparo Múcio Wanderley ao proprietário do cinema “Splendor” do filme de Ettore Scola (1989), aquele exibidor bem mais interessado na tela do que na bilheteria. Aqui, com mais convicção que antes, repito a comparação.

E vamos aguardar o livro.

Livro de Múcio Wanderley que prefaciei – “Telas e Palcos” (1999).

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