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Alice Guy-Blaché, a primeira cineasta

27 jun

Hoje em dia o número de mulheres dirigindo cinema no mundo todo é tão grande que nem faz sentido ir atrás de estatísticas. Mas não foi sempre assim, muito pelo contrário. Nos primórdios da história do cinema, e mesmo ao longo da era clássica – toda a primeira metade do século XX – mulheres na direção era coisa rara, raríssima. Nos Estados Unidos, por exemplo, apontam-se três nomes: Lois Weber para as primeiras décadas do século; Dorothy Arzner para os anos 30/40; e Ida Lupino para os anos 50/60. E só.

Mas, quem foi mesmo a primeira diretora de cinema do mundo?

Pois é, hoje não há mais dúvidas: foi a francesa Alice Guy, mais tarde Alice Guy-Blaché (1873-1968), não só a primeira a dirigir, como a primeira a roteirizar e produzir filmes.

Nascida em Saint-Mandé, Alice era filha de um grande livreiro, com ramificações comerciais no Chile. Com a falência dos negócios e a morte do pai, Alice, muito nova, fez curso de datilografia e foi trabalhar na empresa fotográfica de Leon Gaumont. Quando Gaumont, depois da invenção dos irmãos Lumière, mudou da fotografia para a película cinematográfica, ela sentiu-se em casa. Com o apoio do patrão, roteirizou e rodou um filmezinho curto (naquela época, fins do século XIX, todo filme era curto, com duração de minutos), chamado “A fada do repolho” (1896) que contava a lenda de como os bebês nasciam desse vegetal. O filme foi muito bem aceito pelo público e Gaumont não teve outro jeito, a não ser lhe abrir caminho para mais e mais.

Daí a pouco Alice estava produzindo e dirigindo dezenas de filmes, com uma vantagem sobre o seu concorrente George Méliès: é que, menos descritivos que os dele, seus filmes introduziam, de forma mais ou menos sistemática, o elemento que seria essencial no que veio, mais tarde, a se chamar de Sétima Arte, a saber, a narratividade. Em outras palavras: eram filmes que contavam uma estória com começo, meio e fim.

Dos curtas de poucos minutos, Alice partiu para metragens mais longas e, em 1906, lançou “A vida de Cristo”, com mais de meia hora de duração, uma produção cara, cheia de requintes técnicos, com mais de 300 figurantes, cenários próprios e efeitos especiais.

A fada do repolho (1896)

Até então ela era Alice Guy, mas conheceu um colega de trabalho, apaixonou-se e casou com Herbert Blaché, que representava os negócios de Gaumont nos Estados Unidos. Mudaram-se para Nova Iorque e lá fundaram, em 1910, a Companhia cinematográfica Solax, e Alice foi, assim, a primeira mulher no mundo a dirigir um Estúdio de Cinema – isto antes de Hollywood sequer existir. O sucesso do empreendimento foi tamanho que, logo mais, gerou uma extensão, ainda maior, da Solax Company, em Fort Lee, Nova Jersey.

Bem no topo do sucesso profissional, de repente, a coisa começou a desandar. Envolvido com amantes, inclusive com uma das atrizes da Companhia, Blaché revelou-se um empresário inseguro e desastrado, fazendo transações que começaram a dar errado. Enfim, a competição com o agora emergente cinema do Oeste, e fatores de ordem familiar, levaram a Companhia cinematográfica à falência, e o casal, ao divórcio.

Leiloado o Estúdio da família, Alice voltou a seu país de origem, a França, e nunca mais fez cinema. Em 1927, viajou à América e fez uma tentativa de realização, que não vingou, retornando à França mais uma vez. Em 1964 é que foi morar, com uma das filhas nos Estados Unidos, onde terminaria os seus dias.

A vida de Cristo (1906)

O último filme de Alice data de 1920, mas, hoje sabe-se que o total de sua filmografia supera a casa dos mil, entre os quais estão 22 longas metragens. Sem os cuidados de preservação, e muito menos ainda os de direitos autorais, a maior parte dessa produção se perdeu, e hoje os seus títulos disponíveis estão em torno de trezentos e cinquenta.

Afastada do cinema desde então, e mal reconhecida pela historiografia, Alice veio a falecer em 1968, aos 94 anos de idade, num asilo para idosos, em Mahwah, Nova Jersey.

A autobiografia de Alice Guy-Blaché, publicada na França nos anos quarenta, foi traduzida para o inglês e editada nos Estados Unidos nos anos oitenta – fator que convenceu estudiosos do ramo a revisar a importância de seu papel na história do cinema mundial, e hoje algumas Fundações e Festivais de cinema oferecem prêmios que levam o seu nome.

Uma coisa é certa: a estória de Alice Guy-Blaché daria um belo filme, daqueles para ganhar Oscar.

Alice Guy-Blaché, a primeira cineasta.

 

Em tempo: alguns dos filmes de Alice Guy-Blaché estão disponíveis no Youtube, inclusive um belo documentário sobre sua vida e obra, “The lost garden – the life and cinema of Alice Guy-Blaché” (Marquise Lepage, 1995), narrado em inglês, sem legendas.

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Meio século sem Paul Muni (da série: Grandes atores do cinema clássico)

16 maio

Nascido no ano do cinema, 1895, ele tinha três meses de vida quando os irmãos Lumière fizeram sua primeira exibição pública do cinematógrafo, em Paris. Quem diria que, tão distante da Paris dos Lumière, aquele bebê, gerado na longínqua província da Galícia, região do então Império Austro-Húngaro – hoje Ucrânia – iria, no futuro, tornar-se um grande ator dessa arte nascente, a ser denominada mais tarde de sétima.

A família era judia, falava Yiddish, e a criança recebeu o nome de Meshilem Meier Weisenfreund. Aos sete anos, porém, em 1902, migraram para os Estados Unidos e o menino foi criado nas ruas de Chicago. Nas ruas? Até certo ponto: como os pais eram atores, o garoto, desde cedo, abraçou o métier, e daí a pouco, já se destacava na escola, e fora dela, pelo talento interpretativo, sendo cedo conduzido ao Teatro Yiddish de Chicago, como uma grande promessa.

A promessa cumpriu-se e não demorou para o jovem ator chegar à Broadway, agora já usando a língua inglesa no palco, em papéis da dramaturgia americana. E, claro, não com o seu impronunciável nome Yiddish, mas com um nome artístico mais digerível para as plateias americanas: Paul Muni. O primeiro nome pode ter sido gratuito, porém, o sobrenome teve uma motivação curiosa: é que, desde a adolescência, ele carregava o apelido, imputado pelos amigos, de “Moony” (mais ou menos: ´aluado´, ´distraído´, ´pensativo´), o que foi, graciosamente, transformado em “Muni”.

Paul Muni (1895-1967)

Consagrado no teatro, aos 36 anos Paul Muni (1895-1967) foi convidado a fazer cinema. Cedeu a Hollywood, mas seu primeiro filme, “The valiant” (1929), não fez grande sucesso, embora tenha lhe valido, já, uma indicação ao Oscar de melhor ator em papel principal. Prosseguiu atuando nas telas, e sua fama – junto com o prestígio crítico – não demoraria: estourou com dois filmes do mesmo ano, 1932, ambos envolvendo o submundo do crime: “Scarface, a vergonha de uma nação” (“Scarface”, de Howard Hawks) e “O fugitivo” (“I am a fugitive from a chain gang”, de Melvyn Leroy), filmes que alguns asseguram haver inaugurado o gênero noir.

No total, Paul Muni rodou 22 filmes, com seis indicações e um Oscar de melhor ator. Mas, sem sombra de dúvida, o auge de sua carreira acontece na segunda metade dos anos trinta quando, exigente com os papéis, escolhe interpretar três figuras históricas de grande envergadura moral, formando uma espécie de trilogia: “A história de Louis Pasteur” (1936), “A vida de Emile Zola” (1937) e “Juarez” (1939), este último sobre o grande líder revolucionário mexicano Benito Juarez. Foi por sua impressionante interpretação de Pasteur que recebeu o Oscar de melhor ator do ano.

O sucesso dessas cinebiografias levou Muni a querer filmar a vida de Alfred Nobel. Iniciou as pesquisas, mas, desistiu, depois de tomar conhecimento de que o cientista sueco que dá nome ao prêmio mais cobiçado do mundo, havia sido homossexual. Muni não era ingênuo e sabia que, naquela época – ainda final dos anos quarenta – nenhum produtor apoiaria um projeto fadado a ser descartado pelo Código Hays de Censura.

Ainda permeando a trilogia citada, há um grande desempenho de Muni, como o camponês Wang que, ao longo da vida, enfrenta penúrias, secas, revoluções e tempestades de gafanhoto, saga empolgante com base no romance da escritora Pearl S. Buck, “The good Earth”. No Brasil, o filme chamou-se “Terra dos deuses” (1937).

Muni como Scarface, 1932.

No final dos anos cinquenta Paul Muni abandona o cinema. Sua última película é “Rebeldia de um bravo” (“The last angry man”, 1959, de Daniel Mann), sobre um médico idealista que é absorvido pelo mundo da televisão.

Teria sido interessante vê-lo na tela como o advogado Henry Drummond da peça “Inherit the Wind” (“O vento será tua herança”), papel que ele fizera brilhantemente nos palcos da Broadway, entre 55 e 56, e que lhe dera o prêmio maior do teatro americano, o Tony Award. Esse papel, como vocês sabem, foi para Spencer Tracy, no filme homônimo de Stanley Kramer, de 1960.

Universalmente reconhecida é a sua capacidade camaleônica de transmudar-se nos personagens mais distintos, em muitos casos fazendo recurso ao uso de maquiagem que o envelhecia ou o rejuvenescia, a depender da estória narrada, mas sempre convencendo pela sua força dramática. Nem feio, nem bonito, Paul Muni nunca entrou na galeria dos astros de Hollywood, talvez por isso pouca gente o lembre hoje em dia.

Em “A história de Louis Pasteur”, 1936.

De minha parte, lamento não ter tido a chance de ver Paul Muni na tela grande. Devo ter assistido, lá pelos anos 50, à reprise de “À noite sonhamos” (“A song to remember”, 1945), mas aí ele foi apenas coadjuvante, no papel do professor de Chopin, compositor cuja vida é contada nesse filme de Charles Vidor.

Vim a conhecê-lo melhor já no tempo do VHS, quando saiu a selagem de “Scarface”. Achei o filme de Hawks tão empolgante que o incluí no vídeo que editei para a festa do Centenário do Cinema, em 1995. Dele escolhi a cena em que, caçado pela polícia, o protagonista comete seus últimos desatinos e é atingido, desabando sem vida no calçamento frio da rua.

Aos poucos é que fui me introduzindo a sua filmografia. Indicado por um amigo, “Terra dos deuses” foi uma surpresa agradável, por várias razões; uma delas é que conhecia o livro de Pearl Buck, leitura da juventude, feita quando ensaiava meus primeiros passos na língua inglesa. No filme de Sidney Franklyn, a tempestade de gafanhotos, com o velho camponês se arrastando ao meio, é coisa que nem Cecil B. DeMille faria tão bem.

Com relação à trilogia histórica (Pasteur, Zola, Juarez), que vejo e revejo sempre, não sei dizer onde Muni está melhor. E provavelmente não há como dizer, pois são desempenhos saídos do âmago. Só sei que são grandes filmes, infelizmente muito pouco referidos pelos cinéfilos da atualidade. Por isso mesmo é que redijo este texto, homenagem tardia a esse ator superior que foi Paul Muni, falecido exatamente meio século atrás, em 25 de agosto de 1967.

Muni na pele do escritor francês Émile Zola.

Cinegenia

28 out

Vamos aprender uma palavra nova? É um neologismo do mundo cinematográfico, mas, na verdade, tardio, pois já devia ter sido inventado há muito tempo. Hoje em dia usado por estudiosos da sétima arte, a palavra é “cinegenia”, com o seu adjetivo “cinegênico”.

É fácil de entender por comparação. De uma pessoa que se sai bem ao ser fotografada não se diz que é fotogênica? Pois cinegênica seria a pessoa que se sai bem ao ser filmada. E não esquecer que entre fotogenia e cinegenia está uma coisa essencial em cinema, que é o movimento.

A existência do termo (e do conceito, evidentemente) se justifica pelo fato de que – assim como no caso da fotografia – há pessoas que são cinegênicas e há outras que não o são. Além disso, vale lembrar que cinegenia não coincide, necessariamente, com beleza: nem todos os belos são cinegênicos e nem todos os cinegênicos são belos.

Giulietta Massina

Giulietta Masina

Exemplos? Um que me ocorre de chofre é o da atriz italiana Giulietta Masina. Ninguém diria que ela é bela, sequer bonita, e, no entanto, há rosto mais cinegênico? Lembrem sua carinha pintada de palhaço em “A estrada da vida” (La strada, 1954) ou borrada de lágrimas em “Noites de Cabíria” (Le Notte di Cabiria, 1957) e concordem comigo. E aqui – como, aliás, nos exemplos a seguir – não se trata só de rosto, mas do todo, corpo, poses e gesticulações.

Nos velhos tempos do Free Cinema inglês, começo dos anos sessenta, surgiu uma atriz que, por todos os critérios seria considerada feia: Rita Tushinham, lembram dela? Fazia parte daquele movimento cinematográfico colocar na tela ´gente comum como a gente´. O rosto comum de Rita, porém, é, independente de seu talento de atriz, extremamente expressivo na tela, ou seja, cinegênico. Para conferir revisite filmes como “Um gosto de mel” (“A taste of honey”, 1961), “Um amor sem esperanças (“Girl with green eyes, 1964), “A bossa da conquista” (“The nack and how to get it”, 1965).

No cinema brasileiro há casos assim, digo, de atrizes que, não sendo propriamente bonitas, são ou foram, cinegênicas ao extremo: Maria Ribeiro (de “Vidas secas”, 1963), Miriam Pires (“Chuvas de verão”, 1977), Dina Sfat (“Macunaíma”, 1969) e Isabel Ribeiro (“São Bernardo”, 1972), são exemplos que me ocorrem no momento em que escrevo.

A inglesa Rita Tushingham, atriz do Free Cinema.

A inglesa Rita Tushingham, atriz do Free Cinema.

No cinema americano mais recente me vêm pelo menos dois casos: Frances McDormand (revejam “Fargo”, 1996, ou “Mississipi em chamas”, 1988) e Kathy Bates (“Tomates verdes fritos”, 1991, “Louca obsessão”, 1990, etc). No passado talvez seja o caso de se falar em Joan Crawford. Ou Bette Davis seria um exemplo melhor?

Entre os homens, a mesma coisa. No cinema clássico americano ninguém deve ter sido mais feio que Karl Malden, com aquele narigão de bola, olhos apertados e boca miúda. E, no entanto, quando seu rosto aparecia na tela prendia a atenção, e os motivos eram cinegênicos. Lembrem dele como o padre angustiado de “Sindicato de ladrões, 1954, como o marido traído de “Boneca de carne”, 1956, ou como o mineiro mau caráter no western “A árvore dos enforcados”, 1958.

Outro feioso para quem a gente gostava de olhar era o sempre coadjuvante Peter Lorre, normalmente em papéis meio sórdidos, como foram os seus em “Casablanca” (1942), “Relíquia macabra” (1940), “Este mundo é um hospício” (1944), “Zona proibida” (1949), “Muralhas do pavor” (1962) e tantos outros.

O americano Karl Malden e seu nariz de bola

O americano Karl Malden e seu nariz de bola

Estou falando de pessoas, mas, o conceito de cinegenia, claro, também vale para outros seres: objetos, armas, edifícios, construções, paisagens, etc. – uns mais estáticos outros menos, mas todos sempre explorados pela mobilidade da câmera.

Entre os meios de transporte, por exemplo, não conheço um que seja mais cinegênico que o trem. Pensem em cenas fílmicas com trens e, mais uma vez, concordem comigo. E vejam que tudo começou com os irmãos Lumière, em 1895, com um trem chegando à estação e fazendo os espectadores correrem com receio de serem atropelados. Depois disso, os cineastas vindouros descobriram que a câmera cinematográfica era apaixonada por trens… E o resto da história vocês conhecem. Eu mesmo cheguei a redigir um longo ensaio, publicado neste Correio das Artes, em que analiso a presença do trem no cinema de todos os tempos.

Acho que um navio não é tão cinegênico, e muito menos um automóvel. Tudo bem, concordo em que a relação do objeto filmado com a câmera pode incrementar a cinegenia. As diligências de John Ford eram incrivelmente cinegênicas, é verdade.

O trem, personagem central de

O trem, personagem central de “A General”.

Na categoria das paisagens é fato que os desertos e colinas do Oeste americano ficavam muito bem nas mãos hábeis de diretores como Raoul Walsh, Anthony Mann e Howard Hawks, mas, a terra esturricada do nordeste brasileiro em “Vidas secas”, também é impressionantemente cinegênica.

O mar pode ser muito cinegênico, a depender do cineasta. Recordo – só para não deixar de dar exemplos – as ondas avassaladoras que quebram por cimas das rochas no documetário de Robert Flaherty “O homem de Aran” (1934) ou, no melodrama hollywoodiano “Sagrado e profano” (1947) ou no drama adúltero de David Lean “A filha de Ryan” (1970). Quanto ao deserto, ninguém tem mais dúvidas se é cinegênico depois de ter visto “Lawrence da Arábia” (1962).

Já com a paisagem citadina a coisa complica. Num filme noir, preto e branco, ruas estreitas, calçadas molhadas e becos mal iluminados são extremamente cinegênicos, porém, se o filme, nesse gênero, é colorido o efeito pode ser outro. Ainda hoje se discute, por exemplo, se o colorido gritante de “Amar foi minha ruína” (“Leave her to Heaven”, 1947) dá certo com sua temática sombria e criminosa.

A cor gritante de

A cor gritante de “Amar foi minha ruína” num filme noir.

Para não deixar de fora os objetos, lembremos o telefone, imagem recorrente no suspense de William Castle “Eu vi que foi você” (1965), ou seu efeito perturbador na  cena final de “Assim estava escrito” (1952), o drama de Vincente Minnelli sobre os feios bastidores de Hollywood. Outros objetos marcantes: a gravata em “Frenesi” (Alfred Hitchcock, 1972), ou os sapatos em “Pacto sinistro (1951) do mesmo diretor. Neste mesmo viés icônico, o relógio pode ser lembrado em dois westerns muitos parecidos: “O matador” (Henry King, 1950) e “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952). O chapéu, no caso feminino, tem uma significação especial em “Testemunha de acusação” (Billy Wilder, 1956) e “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1963). E por falar em moda, destaco os muitos vestidos que Madeleine/Judy Barton (ambas Kim Novak) usam em “Um corpo que cai” (1958). Mesmo se você não é ligado em indumentária, sai do cinema com a imagem na cabeça. Isto para não falar no coque de Carlotta Valdez, que tem os mesmos contornos centrípetos da vertigem de John Ferguson, o personagem de James Stewart.

Bem, como é possível que a cinegenia (tanto quanto a beleza em Platão) dependa dos olhos de quem vê, o jeito é conceder ao leitor o direito de duvidar dos meus exemplos… e escolher os seus.

Antes do cinematógrafo

20 nov

A historiografia cinematográfica há muito concorda em que a primeira exibição pública de cinema aconteceu em Paris, no salão indiano do Grand Café, rua Capucine, 69, em 28 de dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière projetaram, entre outros, filmes como “A chegada do trem à estação”.

Mas, será que esta foi mesmo a primeira exibição de cinema no mundo? Como se diz hoje em dia com assuntos polêmicos, há controvérsias. Ou não haveria?

O fato é que dois meses antes disso, em primeiro de novembro de 1895, em Berlim, mais precisamente no teatro Wintergarten, rua Martin Luther, outros irmãos, os inventores Max e Emil Skladanowsky, fizeram a exibição pública de oito pequenos filmes, num total de quinze minutos de projeção. “A dança serpentina”, por exemplo, mostrava na tela uma dançarina em movimento frenético, toda paramentada com uma roupa branca e frouxa, de longas mangas em estilo asas, que esvoaçavam no ritmo da dança e lhe concediam o ar de serpente enfurecida. Já “o canguru boxeur” exibia um rinque onde os lutadores era um atleta do boxe e o animal australiano, ou seja, um homem assim fantasiado, com uma enorme cauda que atrapalhava a contenda.

E aí, onde ficamos?

Cena de "Um truque de luz" (Wim Wenders, 1995)

Cena de “Um truque de luz” (Wim Wenders, 1995)

Bem, o que, segundo estudiosos do assunto, dá a razão histórica aos franceses, e não aos alemães, é que o aparelho – chamado Bioskop (bioscópio) – inventado pelos irmãos Skladanowsky não teve sustentação científica, o que significa dizer, o cinema consagrado não seguiu o esquema básico do seu funcionamento.

E em que consistia esse funcionamento? Indo por etapas, os irmãos Max e Emil Skladanowsky usavam máquinas fotográficas, com as quais batiam fotos seguidas, de um mesmo objeto ou pessoa, mudando ligeiramente as posições em cada tomada, e depois montavam os fotogramas numa fita Kodak, numa ordem tal que, ao ser rodada a fita e projetada em tela, desse a impressão de movimento. A rigor, portanto, não se tratava ainda da invenção de uma câmera que captasse o movimento do real.

Era só “Um truque de luz”, como está no título do semi-documentário que o cineasta alemão Wim Wenders rodou para a televisão, no ano do centenário do cinema, 1995.

Entrevistando uma das filhas dos inventores, a sra Lucie Skladanowsky, com noventa e um anos de idade, o filme se reporta à época e a reconstitui.

Um dos irmãos Skladanowsky testando seu material

Um dos irmãos Skladanowsky testando seu material

Bolado com humor e criatividade o filme de Wenders mistura documento com ficção, para recriar toda a fase em que os irmãos Max e Emil estão desenvolvendo a sua invenção, até o momento grandioso da exibição pública. A seção ficcional é toda filmada em preto e branco, com todas as características plásticas e técnicas das películas primitivas, e narrada em primeira pessoa, pelos personagens envolvidos, que às vezes se dirigem à câmera: primeiramente Gertrude, a filha mais velha de Max, na ocasião uma garota de dez anos de idade, extrovertida e brincalhona, mas ajudante dedicada do pai e do tio; em seguida, o próprio Max, que relata todos os atropelos de dois inventores, às vezes atrapalhados e truculentos. Para fazer o contraste temporal, a seção documental é toda colorida, com a Sr Lucie, respondendo a perguntas da equipe, relembrando a infância e nos mostrando souvenirs preciosos.

A filha pequena dos inventores ajuda no trabalho de filmagem

A filha pequena dos inventores ajuda no trabalho de filmagem

Como, na maior parte dos seus filmes, os irmãos Skladanowsky investiam fortemente no humor, Wim Wnders tenta fazer a mesma coisa e quase todas as cenas caseiras da família – baseadas em relato biográfico ou simplesmente inventadas – são engraçadas, lembrando gags dos filmes dessa fase do cinema. Um exemplo é aquela sequência em que o ator que fazia o canguru, no filme do ringue, um mulherengo incorrigível, leva, à noite e às escondidas, uma de suas conquistas amorosas aos ´estúdios´ dos irmãos Skladanowsky e, para não acenderem lâmpadas e assim serem notados, usam velas que, inadvertidamente, aproximam dos aparelhos de filmagem, consequentemente provocando um incêndio no local, que destroi metros e metros de imagens arduamente registradas.

Evidentemente, Wim Wenders não teve a pretensão de defender uma patente cinematográfica para seus compatriotas, e “Um truque de luz” (titulo original: “Die Gebrüder Skladanowsky” / ´os irmãos Skladanowsky´) foi feito como uma homenagem carinhosa a dois bravos criadores que quase chegaram lá, onde os irmãos Lumière haviam chegado. No filme há mesmo uma bem humorada admissão da inferioridade científica alemã, quando se mostram cenas da sessão no Grand Café de Paris, com a exibição de “A saída da fábrica Lumière”, e a voz de um dos Skladanowsky confessa sua admiração pelo filme estrangeiro.

Uma pena que, feito para televisão, “Um truque de luz” não nos tenha chegado na época própria, a do centenário do cinema. Vejo-o agora em cópia eletrônica e me reporto às tantas comemorações de 1995.

Wim Wenders filmando e sendo filmado em "Um truque de luz".

Wim Wenders filmando e sendo filmado em “Um truque de luz”.

Emoção à flor da tela – um livro ao seu dispor

28 dez

Não sou historiador, mas sempre quis escrever um livro que recobrisse a história do cinema.

Normalmente, meus textos são ensaios que abordam um único filme. Apaixonado pelo exercício da análise, nunca gostei de tratar de fases, escolas, épocas, ou períodos mais longos, e quando o fiz foi meio acidentalmente.

O meu grande prazer foi sempre deter-me em um dado filme e tentar, verticalmente, desvendar o que, no fundo de sua forma e na forma de seu fundo, ele tem a nos dizer, ou mais que isso, a nos fazer sentir.

Por outro lado, a história do cinema é feita de filmes, digo, de filmes individuais. Julguei, portanto, que se dispusesse de um número significativo de comentários críticos sobre filmes individuais e os distribuísse num mesmo espaço em ordem rigorosamente cronológica, ficaria implicitamente delineada uma “história”.

Foi o que andei fazendo nestes últimos quinze anos – fui catando e juntando ensaios já escritos, e escrevendo outros, organizando-os em ordem cronológica, até ter um número razoável para a confecção de um livro.

Ao chegar ao número 150, achei que o livro estava pronto. A escolha do título foi trabalhosa, mas creio que o escolhido, “Emoção à flor da tela – escritos sobre cinema”, se não sugere a perspectiva ´histórica´, ao menos tem a vantagem de ressaltar um dos aspectos mais fascinantes do consumo da sétima arte, que é o recepcional. Como já foi dito tantas vezes por tanta gente boa, sem espectador não há cinema.

capa de Emoção à flor da tela

O leitor desse livro poderá se indagar por que os filmes discutidos são estes, e não outros. Confesso que o acaso pode ter tido, até certo ponto, o seu papel. De fato, muitos são filmes sobre os quais escrevi porque estrearam nos cinemas locais, ou porque foram lançados em DVD, ou porque os vi, ou os revi, na TV paga, etc… Lembro ao leitor, porém, que na montagem do livro houve muitos ´cortes´, pois o número de textos a constar do livro superava em muito os 150 escolhidos. A rigor, portanto, nenhum filme está no livro gratuitamente.

Na seleção que fiz houve mesmo certo grau de intencionalidade. Achei que um livro desses não podia deixar de fora certos cineastas fundantes ou com propostas bem particulares, por exemplo, Orson Welles, Sergei Eisenstein, Jean Vigo, etc. Além disso, alguns ensaios foram escritos diretamente para o livro, como aqueles que tratam do cinema primitivo dos irmãos Lumière.

Tive, obviamente, o cuidado de não pular décadas, o que comprometeria o sentido “histórico” do livro. A questão era só decidir que filmes de tal década lhe seriam representativos. Espero ter sido, neste particular, sensato e pertinente no meu modo de enfocar.

Eis alguns exemplos, citados ao acaso: no século dezenove não poderia faltar: “O regador regado” dos irmãos Lumière; na década de dez, tinha que ter “O grande roubo de trem” de Porter; na de vinte, era necessário incluir “A última gargalhada” de Murnau; na de trinta, precisava ter o “King Kong” de Merien C Cooper (1933); na de quarenta, achei que era importante “O terceiro homem” de Carol Reed; na de cinqüenta, julguei essencial não descartar “Vidas amargas” de Elia Kazan; na de sessenta, impossível pular o “Easy Rider” de Denis Hooper; na de setenta, fiz questão de por o “Lacombe Lucien” de Louis Malle; na de oitenta, não quis passar ao largo de “A rosa púrpura do Cairo” de Woody Allen; na de noventa, achei conveniente resguardar “Tudo sobre minha mãe” de Pedro Almodovar; na 2000, fiz questão de incluir “Os sonhadores” de Bernardo Bertolucci.

Sei que ninguém lê um livro inteiro no computador, porém, não me preocupo com isso. Acho que, para o internauta cinéfilo, o grande lance é fuçar, de cima para baixo, de baixo para cima, e ler aos poucos, em momentos diferentes, de acordo com os seus próprios interesses. Aliás, apesar do sentido “histórico” que a cronologia concede ao livro – ele também foi concebido… para consulta.

Enfim, o livro está pronto, e, a partir desta data, a seu inteiro dispor. Para o acesso, tudo que você tem a fazer é clicar, acima, na categoria INÉDITOS, e, em seguida na imagem icônica da capa do livro. Divirta-se e, se for o caso, comente.