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Finais impostos

3 nov

Numa arte de feição industrial como o cinema, não é nada incomum que o autor de um filme seja obrigado a fazer concessões aos setores de produção. Foi sempre assim, desde os primórdios, e assim continua sendo.

 Uma concessão bem recorrente diz respeito ao modo como o filme termina. Final feliz? Final infeliz? A segunda opção pode até ganhar Oscar, porém, a primeira é uma garantia muito maior de bilheteria.

Aqui, junto com o leitor, repasso alguns casos em que grandes diretores, trabalhando em Hollywood, foram forçados a modificar os finais de seus filmes que, segundo os estúdios, se veiculados, pareceriam extremamente desagradáveis ao público pagante.

Suspicion-Poster

Começo em 1941 com “Suspeita” (“Suspicion”, Alfred Hitchcock), em que o final feliz imposto tem o efeito de, para o bem ou para o mal, redimensionar a significação do filme por inteiro. No roteiro original, conforme o livro adaptado “Before the fact” de Francis Iles, o marido (Cary Grant) está mesmo envenenando a esposa (Joan Fontaine) em doses compassadas e ela, ao perceber, aceita resignada a morte. Como vocês lembram, isto tudo foi distorcido para caber o final feliz em que todos os sintomas de envenenamento eram meras impressões errôneas, e o casal termina aos beijos.

Um segundo caso, do mesmo ano, se deu com “Adorável vagabundo” (“Meet John Doe”, Frank Capra) quando o anunciado suicídio do personagem de Gary Cooper – que está no roteiro original e faria toda a força dramática da estória – não acontece e o filme termina com uma “boa vontade” que nem sequer o otimista Capra aprovou. E considerem que Capra era um cara bastante otimista!

Joan Bennet, a tentação onírica de "Um retrato de mulher"

Joan Bennet, a tentação onírica de “Um retrato de mulher”

Um outro grande clássico modificado que lembro é “Um retrato de mulher” (“The woman in the window”, Friz Lang, 1944). Nesse filme, toda a desventura noturna desse homem casado que saiu dos trilhos, sofreu a queda e deveria pagar por isso com a morte… vira um sonho, e essa qualidade onírica da estória toda é inventada somente para podermos ter um final feliz.

Uma pequena mas significativa modificação de final foi operada no hitchcockiano “Os pássaros” (“The birds”, 1963) que termina – vocês lembram – com a família deixando a casa em Bodega Bay ao meio dos pássaros em estado de repouso, espalhados por toda parte, e pronto. Bem mais ameaçador, o último fotograma do filme deveria ter sido uma imagem da Golden Gate, a famosa ponte de São Francisco, superlotada de pássaros…

Como não disponho de muito espaço, pulo aos anos oitenta, com o hoje clássico science-fiction “Blade runner” (Ridley Scott, 1982) que – todo cinéfilo está cansado de saber – no original, não tinha o happy end que tem, um acréscimo dos produtores que, junto com a voz over explicativa, o diretor foi obrigado a engolir, depois de algumas sessões com as plateias cobaia do estúdio.

Glenn Close e Michael Douglas em "Atração fatal"

Glenn Close e Michael Douglas em “Atração fatal”

Um caso menos conhecido do grande público talvez seja o de “Atração fatal” (“Fatal attraction”, Adrian Lyne, 1987): na primeira cópia do filme, a amante neurótica feita por Glenn Close comete suicídio de uma forma tal que sua morte pudesse parecer um crime cometido pelo personagem de Michael Douglas, e este é incriminado e termina preso. Era um final que imitava o desenlace de um filme antigo, “Amar foi minha ruína” (“Leave her to heaven”, John M Stahl, 1945), porém, as platéias cobaia de Hollywood não gostaram e Lyne foi pressionado a inventar o final que conhecemos – vocês lembram – a esposa traída é que dispara o revolver contra a amante, quando a tentativa de afogamento na banheira não funciona.

Um estouro de bilheteria como “Uma linda mulher” (“Pretty woman”, Gary Marshall, 1990) talvez deva seu sucesso à modificação imposta pelos produtores: na estória original, a prostituta (Julia Roberts) terminava abandonada pelo seu amante rico (Richard Gere), derramando lágrimas amargas em cima de um pacote de dólares que, deixado em seu modesto apartamento, deveria pagar pelo divertimento que ela havia proporcionado ao companheiro de aventura amorosa… Nada de casamento, nada de príncipe encantado.

Evidentemente, a lista de finais impostos não termina aqui, e deixo ao leitor o esforço de lembrar, ou pesquisar, outros casos, talvez mais escandalosos.

Uma pergunta possível é se esses filmes modificados pelos produtores ficaram – qualitativamente falando – piores ou melhores, depois de refeitos, embora, claro, a comparação caso a caso só venha a ser viável se uma cópia original – com os finais dos diretores – tivesse sobrevivido aos filmes distribuídos. De qualquer forma, como os finais originais de que temos notícia eram sempre disfóricos e os impostos são eufóricos, cabe, de uma forma geral, ao menos refletir sobre a função mítica do “final feliz” no imaginário do cinema.

Richard Gere não dá o fora em Julia Roberts em "Uma linda mulher"

Richard Gere não dá o fora em Julia Roberts em “Uma linda mulher”

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Esperando “Hitchcock”

14 fev

A estreia brasileira do filme “Hitchcock” (Sacha Gervasi, 2012) está prevista para primeiro de março, e, com certeza, a expectativa é grande para toda uma gama de cinéfilos que – como eu – reverencia a obra do cineasta, não apenas o “Psicose” enfocado, mas praticamente tudo.

Enquanto o filme não chega, vamos tratar do livro que lhe deu origem?

Já nas livrarias brasileiras, “Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose” (Ed. Intrínseca, 2013), do jornalista americano Stephen Rebello, reconstitui, como sugere o título, todo o processo que deu origem a essa produção independente em que o mestre do suspense tanto investiu, do seu bolso e de sua mente.

Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose

Fruto de exaustiva pesquisa, o livro de Rebello começa com o fato real que gerou tudo e vai até as últimas repercussões do filme, passando por uma inumeridade de pequenos detalhes de produção, que vão encantar os fãs. O fato que gerou tudo foram os crimes do psicopata de Wisconsin, Ed Gein, que, ficcionalizados, viraram o romance do escritor Robert Bloch, “Psicose” (1959), logo comprado pelo velho Hitch.

Segundo Rebello, Hitchcock andava, havia anos, intrigado com um certo filme preto-e-branco francês que teria feito mais ´suspense´ que os seus e pensava revidar: “As diabólicas” de G H Clouzot (1955). Além do mais, vivia amargando o fracasso de público de “Um corpo que cai” (1958), e queria, agora, fazer um filme independente, barato e autoral, sem interferência dos estudos da Paramount. Quando a estória de “Psicose” lhe caiu nas mãos, achou que era o que procurava, e, imediatamente, deu ordens à secretária para comprar todo o estoque disponível do livro no país, pois queria que tudo nesse pequeno filme fosse secreto.

Os executivos da Paramount não gostaram, porém, ele não hesitou em fazer acordo: a despesa da produção seria sua, não receberia como diretor e sua renda seria um certo percentual da bilheteria. Barata, a equipe seria o pessoal da televisão, com quem já rodava a série ‘Hitchcock apresenta´.

Mas como por na tela um romance tão contundente, cheio de crimes hediondos, insanidade, travestimento, necrofilia, nudez, e uma cena sangrenta de chuveiro que dificilmente os censores de Hollywood aprovariam?

Os primeiros problemas já apareceram na roteirização. Por sorte, o roteirista Joseph Steffano, um novato sem experiência, convenceu o diretor de que tinha entendido ´o espírito da coisa´. À sua proposta, o diretor fez cortes, porém, em compensação, também aceitou sugestões que não lhe haviam ocorrido, por exemplo, a filmagem em plongée do assassinato do detetive Arbogast, desempenhado pelo ator Martin Balsam.

Aliás, escolhido pelos estúdios, o elenco terminou por, parcialmente, agradar ao velho Hitch, que achou Anthony Perkins perfeito para o papel do psicopata Norman Bates, e a loura Janet Leigh ideal para ser esfaqueada na famosa cena do banheiro. Tudo bem, teve que engolir o canastrão John Gavin e, pior, aturar Vera Miles a quem nunca perdoou por havê-lo “traído”, ao engravidar às vésperas de desempenhar o papel principal em “Um corpo que cai” (1958). (Kim Novak veio depois).

Stephen Rebello, o autor do livro.

Stephen Rebello, o autor do livro.

Apesar do baixo orçamento, Hitchcock conseguiu colaboradores de primeira grandeza, dois exemplos sendo Sal Bass, que fez o design dos letreiros e vários storyboards das filmagens, e George Tomasini, o genial montador, com quem também faria, mais tarde, “Os pássaros. Não largou o seu músico favorito, Bernard Herrman, colaborador precioso de tantos anos. Em depoimento, Herrman conta a Rebello que Hitchcock (puxa vida!) não queria música alguma na cena do chuveiro e só a pôs convencido pelo compositor.

Um capítulo do livro todo especial se refere à publicidade de “Psicose”, um investimento pessoal de Hitchcock, quase tão dispendioso quanto a produção. Em folhetos distribuídos pelos exibidores, pedia-se que, depois de visto o filme, ninguém contasse o seu final, e – medida mais autoritária – proibia-se sistematicamente que os espectadores entrassem nas salas de espetáculo depois da projeção começada.

Dentro desse espírito de surpresa, não aconteceram as obrigatórias estreias para a imprensa, e com isso, o diretor comprou uma briga com os críticos do país, que tiveram que assistir ao filme junto com os espectadores comuns. Segundo Rebello, esse fato motivou a maior parte das primeiras apreciações negativas da crítica americana a “Psicose”, só corrigidas com o tempo.

Claro, esse “amuo” da crítica americana fez contraste com a reação internacional. O mundo todo se dobrou ao filme, especialmente os intelectuais franceses que, na revista “Cahiers du cinéma”, já vinham defendendo Hitchcock como um crânio cinematográfico cujo aspecto comercial escondia uma genialidade insuperável.

Enfim, fiquemos por enquanto com o livro de Rebello, e aguardemos “Hitchcock”, o filme.

Hitchcock pedindo silêncio.

Hitchcock pedindo silêncio.