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NOMES DE PERSONAGENS

21 maio

Quando me ocorre ler a crítica de cinema dos velhos tempos – anos 60 para trás – sempre presto atenção especial ao modo como os personagens dos filmes comentados estão referidos.

Não é raro que estejam esses personagens referidos, não pelos nomes, mas com palavras ou expressões genéricas, do tipo: o homem, o dono do bar, o banqueiro, a moça, o detetive, o policial, o assassino, a amante, e por aí vai.

Por que isso? Para quem lembra a época, a razão é simples. É que, naqueles tempos, o crítico cinematográfico assistia aos filmes nas sessões comerciais, junto com todo mundo, e nem sempre tinha condição de memorizar os nomes desses personagens. Uns levavam uma cadernetinha; outros não.

Como se chamavam os dois pretendentes de Sabrina?

E pior, o comentário do filme tinha que ser redigido para o jornal às pressas, do contrário ficaria sem função, com o filme já fora de cartaz. Diferentemente de hoje em dia, um filme de mais chamariz dificilmente era exibido por mais de três dias, o equivalente ao fim de semana. Se fossem aqueles filmes menores, que só passavam um dia ou dois, então, o problema era maior ainda.

Claro, quando o filme já trazia na sua intitulação (a original ou a brasileira) o nome de um dos protagonistas, a coisa ficava mais fácil. Filmes intitulados “Laura”, “Stella Dallas”, “Gilda”, “Irma la douce” já garantiam ao comentarista a referência tranquila a/ao protagonista, embora o problema mnemônico persistisse para os personagens restantes. Por exemplo: “Sabrina” (Billy Wilder, 1955) era o nome da filha do motorista nessa mansão burguesa, mas, como se chamavam os dois irmãos, filhos da casa, que a disputavam no terreno amoroso?

Pois é. Naqueles tempos remotos não havia Internet, Google, e muito menos esse providencial – para quem escreve sobre cinema – IMDB, que nos oferece todas as possíveis informações sobre todos os filmes, com fichas técnicas que relacionam os nomes de todos os atores e atrizes aos nomes de todos os personagens.

O pobretão de UM LUGAR AO SOL tem um sobrenome de rico…

Mesmo resguardadas as compreensíveis limitações da atividade jornalística, obviamente era embaraçoso referir-se aos personagens daquele faroeste de John Ford (1939) como, digamos, o cowboy, a prostituta, a parturiente, o médico, o cocheiro… Principalmente, se você tinha a intenção de realizar um sério, ainda que breve, trabalho de análise.

Para comparar com uma área análoga, na crítica literária seria ridículo se você  escrevesse um ensaio sobre um romance qualquer, e não lembrasse – e portanto não citasse – os nomes dos protagonistas. No mínimo, você precisaria recorrer a perífrases inconvenientes que tornariam seu texto confuso e adiposo. E, afinal de contas, você não faria isso, simplesmente porque o livro a comentar estaria no seu colo.

Redigindo esta matéria, fiz um teste comigo mesmo: tentei lembrar os nomes dos personagens de alguns filmes clássicos importantes, sem consulta aos bancos virtuais de dados. Veja se acertei.

Catherine Deneuve é A BELA DA TARDE, ou…

No clássico de Orson Welles “Cidadão Kane” (1941), como é o nome completo do protagonista? Resposta: Charles Foster Kane.

Em “Casablanca” (1942) como é o nome do casal feito por Ingrid Bergman e Humphrey Bogart? Resposta: Ilsa Lund e Rick Blaine.

No filme de Frank Capra “A felicidade não se compra” (1946), como se chama o pai de família que tenta suicídio no Natal e é salvo por um anjo? Resposta: George Bailey. (E, a propósito, o anjo também tem nome: Clarence)

Em “Crepúsculo dos deuses” (1950), como se chama a atriz decadente interpretada por Gloria Swanson? Resposta: Norma Desmond.

Quando o pobretão George (Montgomery Clift) chega a Chicago, no começo de “Um lugar ao sol” (1951), ele vê seu sobrenome estampado num outdoor, o mesmo da família rica com quem tem laços sanguíneos. Qual? Resposta: Eastman.

No hitchcockiano “Intriga internacional” (1959), o empresário feito por Cary Grant é confundido com um espião estrangeiro que se chama… Resposta: Kaplan.

Não sei o nome do advogado que defende um rapaz negro, acusado de estupro, em “O sol é para todos” (1962), mas lembro que a filha pequena a ele se dirige como… Resposta: “Atticus”.

No perturbador “A bela da tarde” de Luis Buñuel (1966), como é o nome da protagonista, feita por Catherine Deneuve? Resposta: Séverine.

Louca por cinema, a empregada de lanchonete que vive namorando com a tela, em “A rosa púrpura do Cairo” (1985), se chama – este eu nunca esqueceria – … Cecília.

Cecília… esse nome ninguém esquece.

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