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O futuro não se vê

9 nov

Com o filho de dez anos, Hank, o casal McKenna está de férias em Marrocos. Residentes em Indiana, Estados Unidos, ele é médico e ela, ex-cantora, hoje dona de casa.

A viagem teria sido ótima, se não tivesse havido aquele pequeno incidente, no ônibus. Num movimento brusco do veículo, Hank, sem querer, arrancou de uma passageira árabe, o seu intocável véu facial, e isso deu confusão, que foi contornada por um desconhecido de sotaque francês, o qual se fez amigo do casal americano.

À noite, no quarto do hotel, enquanto o pai se apronta, a mãe e o garoto solfejam e dançam, juntos, aquela cançãozinha cuja letra faz perguntas sobre o tempo por vir, com o refrão “Que será, será…”. E tudo parecia normal. Parecia mas não estava. Saberemos no dia seguinte, quando o casal e o garoto vão passear no mercado árabe e presenciam um assassinato. Antes de morrer, a vítima agonizante confidencia uma informação no ouvido do Sr McKenna, e…

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Não vou contar o resto da estória, mas, é claro que o leitor, homem ou mulher, sabe demais de que filme estou falando. Sim, é isso mesmo: “O homem que sabia demais” (“The man who knew too much”, 1956, de Alfred Hitchcock).

No elenco estão James Stewart (o pai), Doris Day (a mãe), e Daniel Gélin (o homem morto no mercado) mas – pergunta de gaveta que faço ao leitor cinéfilo – quem é o ator que desempenha o papel do garotinho Hank? Faço a pergunta porque esta matéria pretende ser sobre ele.

Se você não sabe, não se preocupe. Pouco tempo depois de atuar nesse filme inesquecível, esse ator mirim desaparecia do cenário cinematográfico… E nunca mais ninguém ouviu falar dele.

Christopher Olsen – este é o seu nome – nasceu em 1946, em Los Angeles, e aos dois anos de idade já aparecia na tela. Era o bebê, filho de Dana Andrews, no sombrio noir sobre a guerra fria “Cortina de ferro” (William Wellman, 1948).

Entre 1948 e 1958, Olsen apareceu na tela várias vezes, na maior parte dos casos em pontas não creditadas, em filmes menores.

Mãe e filho cantando "Que será, será".

Mãe e filho cantando “Que será, será”.

Eventualmente, também esteve em alguns poucos filmes de mais destaque, por exemplo: em 1952 foi o filho de Barry Sullivan no drama “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli); em 1956 esteve no faroeste de Russell Rouse “Gatilho relâmpago”; no mesmo ano foi o filho de James Mason em “Delírios de loucura”, de Nicholas Ray; e em 1957 foi o filho de Robert Stack em “Almas maculadas”, de Douglas Sirk.

Mas nada que lhe tenha dado a visibilidade que conseguiu em “O homem que sabia demais”. É verdade que a canção “Que será, será” ajudou, até porque é com ela que o desenlace se organiza para o ansiado final feliz, mas, além disso, a figura de Olsen é cativante, com seu cabelo louro, seus olhos azuis, e seu jeito despachado de garoto típico americano.

Ora, com essa visibilidade toda, o esperado era que sua carreira ascendesse e ele viesse, mais tarde, com mais idade, a se tornar um galã das décadas seguintes.

Tal não aconteceu. Seu último filme, “Return to Warbow”, um faroeste de segunda categoria, não exibido entre nós, foi rodado e lançado em 1958, e, depois disso, nunca mais o mundo cinematográfico teve notícia de Christopher Olsen.

Perto do desenlace ansiado em "O homem que sabia demais".

Perto do desenlace ansiado em “O homem que sabia demais”.

No seu país, foi ator infantil de televisão e esteve em vários seriados, como “Cheyenne”, “Lassie”, “The millionaire”, mas, em 1960 também encerrou sua carreira na telinha… definitivamente.

Depois dessa data, o que é feito de Christopher Olsen? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem o Google dá conta do seu paradeiro. Nos muitos sites de cinema da internet, o único dado sobre ele é que está vivo, já que, em nenhum deles, consta data de sua morte. Se é vivo, estaria, portanto, com setenta anos de idade, completados no dia 09 de setembro deste ano.

Por que esse vazio de informação sobre sua vida, mesmo que fora das telas? Não assumiu porventura uma outra profissão que fizesse constar seu nome nas enciclopédia eletrônicas de hoje em dia? Ou teria havido um recolhimento de ordem ideológica, desejado e assumido?

E vejam que dois irmãos de Olsen estiveram no show business. Seu irmão mais velho, nascido em 38, Larry Olsen foi ator de cinema, normalmente coadjuvante, com 25 filmes rodados, carreira também bruscamente encerrada em 1954, no filme “A lenda dos beijos perdidos”. Sua irmã mais nova, nascida em 61, Susan Olsen, foi atriz de televisão.

A canção do filme de Hitchcock – vocês lembram – afirma que ´o futuro não se vê´. No caso particular de Christopher Olsen, a frase ganha contornos semânticos adicionais.

Christopher Olsen em "Delírios de loucura", 1956, com James Mason.

Christopher Olsen em “Delírios de loucura”, 1956, com James Mason.

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Esquinas de Jaguaribe

29 nov

Tinha doze anos de idade e já trabalhava. Seus pais possuíam uma pequena padaria, na verdade, uma “gangorra”, como se chamava padaria de pobre, e a ele cabia entregar o pão em mercearias e em algumas residências do bairro.

Bem cedo da manhã, quase madrugada, o pão tinha que ser entregue, e isto, em sacolas de pano branco, o amontoado de sacolas pendurado em torno de seu corpo franzino lhe dando um jeitão ridículo de Papai Noel, apelido que lhe jogavam os meninos do bairro.

Esse cansativo ofício matinal tinha, naturalmente, uma compensação: a mesada semanal, que lhe garantia o acesso aos três – sim, três! – cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Situado na Av Primeiro de Maio, número 146, esquina com a Vasco da Gama, o Sto Antônio, era vizinho ao Grupo Escolar onde estudava e todo dia podia ver a programação da semana e fazer seus planos. Um pouco mais longe, o São José ficava na Rua Senador João Lira, número 697, esquina com a Floriano Peixoto, e o Cine Jaguaribe, s/n, por sua vez, estava na Capitão José Pessoa, esquina com a Aderbal Piragibe.

Três esquinas, três cinemas… Para tantos filmes a ver, a sua mesada não bastava, mas assistia ao que podia, e também, ao que a censura permitia.

Seu pai não aprovava de bom grado esse vício de cinema, mas, por outro lado, não punha objeções, talvez pelo fato de ele ser aplicado na escola e tirar boas notas. Logo que percebeu isso, ele mais se aplicou, não porque gostasse de estudar, mas para consolidar o seu direito de ir a cinema quando quisesse. Sua mãe era neutra, e seus irmãos – também eventuais frequentadores – eram coniventes, de modo que não encontrava impedimentos de circular em torno daquelas três esquinas cinematográficas, a não ser na eventual falta dos 500 ou 800 réis que pagavam o ingresso.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

Uma sessão imperdível no Cine Sto Antônio era a matinal de domingo, sempre às nove e trinta, horário conveniente, pois a missa da Igreja do Rosário, obrigatória para os alunos do Grupo, era nesse dia, mas, às sete, terminando cerca das oito: depois do “amém”, era só correr para casa, tomar café com o pão quentinho de fabricação própria, e se mandar para o Sto Antônio, a ver o que estivesse em exibição: algum faroeste, um Tarzan qualquer, filmes de aventura, reprises de Chaplin, fosse o que fosse, que tudo dentro daquele enorme templo de imagens era encantamento.

A rigor, todas as sessões, em qualquer horário, diurno ou noturno, naquelas três esquinas do bairro eram imperdíveis, só perdidas quando não havia jeito.

Uma circunstância toda especial acontecia quando lhe incumbiam o doce papel de acompanhar as irmãs mais velhas que – a ordem paterna era clara – não tinham permissão de irem ao cinema à sós com o namorado ou o noivo, e, no caso, o acompanhante obrigatório geralmente era ele, que – privilégio dos privilégios – usufruía dessa chance de ver filmes sem pagar, pois o namorado, claro, não abria mão da elegância de ser o patrocinador. Geralmente, o casal, a fim de carícias não permitidas em casa, sentava lá atrás, nas últimas filas, enquanto ele, ávido de meter-se tela adentro, procurava as poltronas da frente, indiferente ao seu papel de fiscal da moralidade familiar.

Mas essa era uma circunstância especial. No geral, o ingresso lhe custava o peso das sacolas carregadas.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

Naquele dia, 28 de maio de 1958, quarta-feira, estava completando doze anos de idade. No seio de sua modesta família – residente à Rua Alberto de Brito, uma casa humilde não muito distante da Praça Onze – não havia o hábito de se comemorar aniversários, porém, sua irmã mais velha, casada e residente em Sta Rita, aparecera e lhe pusera na palma da mão um dinheirinho extra, que dava para algumas pequenas extravagâncias.

Já tinha visto que o Cine Sto Antônio estava anunciando para o fim de semana “Orgulho e paixão”, um filme histórico, em cujo cartaz um enorme canhão, sobreposto aos rostos de atores afamados, Cary Grant, Frank Sinatra e Sophia Loren, definia o seu gênero, guerra. No São José estava programada a exibição de “O homem que sabia demais”, e no Jaguaribe, o grande épico “Alexandre Magno”. Até então estava pensando em escolher só um deles, e esperar pela possível reprise dos outros dois. Agora, com o agrado da irmã, considerava a possibilidade de ir aos três.

Circos, lapinhas, festas de ruas, o bairro de Jaguaribe não era desprovido de diversões, porém, para ele, não havia nada que superasse a magia escondida naquelas três esquinas.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Martinho Moreira Franco.

O cartaz de "Orgulho e paixão",

O cartaz de “Orgulho e paixão”,

Os quatrocentos golpes

18 abr

1O melhor na programação do Festival Varilux de Cinema Francês foi, com certeza, a exibição da cópia restaurada do clássico de François Truffaut, “Os incompreendidos” (“Les quatre cents coups”, 1959), filme que historicamente inaugurou o movimento de cinema a que se deu o nome de Nouvelle Vague.

Achei ótimo que a sessão tenha sido no domingo à tarde, pois foi numa tarde de domingo que vi o filme de Truffaut pela primeira vez… meio século atrás, puxa vida, e é dessa primeira sessão que guardo minhas melhores impressões. Em que cinema o vi? No Cine Brasil, ali na Guedes Pereira, em frente ao antigo Grupo Tomás Mindelo.

Lembro que saí do cinema perturbado. Primeiramente era algo diferente do modelo hollywoodiano a que eu estava acostumando, na maior parte dos casos, filmes de finais felizes, principalmente se o assunto fosse crianças. Em segundo lugar, eu era o próprio Antoine Doinel da estória contada. Bem entendido: nunca fugi de casa, nem roubei máquinas de datilografia, mas, como não me identificar com esse garoto que quase tinha a minha idade, e não tinha a compreensão (Conferir título brasileiro) de ninguém ao redor de si? Esse garoto que dava menos golpes (Conferir título original: ´Os quatrocentos golpes´) do que os recebia, na escola, na família e na sociedade.

Hoje todo mundo sabe que Truffaut foi biográfico ao rodar “Os incompreendidos”, porém, o que interessa é que fez um dos primeiros filmes, na história do cinema, a enfrentar o problema da adolescência (quase infância) sem dourar a pílula.

Furtando uma máquina de datilografia

Furtando uma máquina de datilografia

Vejam a tocante cena final, que, aliás, nunca saiu de minha cabeça, desde a sessão do Brasil. Fugido da Casa de Reabilitação, o garoto corre sem destino pelos arredores, até se deparar com o mar que ele nunca tinha visto. Diante da imensidão das águas, ele pára e, sem saber para onde ir mais, se desloca de novo, agora em nossa direção, quando a câmera congela a imagem do seu rosto desencantado e… FIN. O que vai ser de Antoine Doinel? Será que vai, como Truffaut, encontrar o pai num estranho (André Bazin, a quem o filme é dedicado) e assumir a vida de cinéfilo brilhante? Ou vai voltar à prisão e seguir uma carreira de marginal? Num miniconto brincalhão que escrevi para homenagear o filme (Cf o livro “Um beijo é só um beijo”) imagino, esperançoso, a primeira hipótese.

Para quem não conhece, reproduzo um trecho do miniconto, como se perceberá, todo narrado em primeira pessoa verbal, a voz do protagonista Doinel:

Morávamos num apartamento modesto, sem elevador e com três lances de escada que eu era, toda noite, obrigado a descer e subir para depositar o lixo lá embaixo, e, imposta por minha mãe, essa obrigação era uma das formas que ela tinha de expressar seu desamor. E então, depois daquele dia em que a avistei se beijando com seu amante, em recinto público… De início, temeu que eu fosse contar a meu pai e ficou uns tempos se desdobrando em amabilidades comigo, para depois retornar a uma hostilidade ainda mais dura.

Não sei se era esse clima ruim em casa que atrapalhava o meu desempenho na escola. Não me entendia com os professores e, logo cedo, passei a gazear aulas para vagabundear pelas ruas. Quando tinha grana, me metia no escurinho de algum cinema e via um filme atrás do outro. Foi nessa época que criei o hábito de furtar as fotos dos filmes, expostas nas paredes dos cinemas, e colecioná-las.

Em fuga e sem destino

Em fuga e sem destino

Uma vez disse na escola que tinha faltado porque minha mãe havia falecido, e quando ela apareceu lá, vivinha da silva, foi um horror. Essas escapadas foram se tornando cada vez mais freqüentes, até que fugi de casa de vez e passei a morar, às escondidas, na casa de um colega de turma tão desajustado quanto eu. Um dia roubamos – nem lembro mais para quê – uma máquina de datilografia da repartição de meu pai e, ao tentar devolvê-la, fui pego. Por causa desse roubo, fui parar no Reformatório de Menores, de onde um dia fugi e, sem saída, concluí o itinerário de minha fuga no mar. Quando não tinha mais para onde correr, fui capturado e cumpri a pena.

Hoje, já de maior, subempregado, vivo me enfiando, toda vez que posso, numa sala de projeção. Nunca parei de furtar fotos de filmes, e minha coleção já é enorme. Dei em freqüentar cineclubes, pois não há nada que ame mais que o cinema. Na verdade, meu sonho secreto é ser cineasta. Bem que já é tempo de minha sorte mudar. Cinéfilo como sou, fico imaginando que eu seria descoberto por algum figurão do mundo do cinema, que me daria apoio e chance de desenvolver meus potenciais. E, aí, eu lutaria por recursos para fazer um filme. Poria tanto amor em cada tomada, em cada plano, em cada posição de câmera… Não iria querer ganhar o Festival de Cannes, nem fundar um novo movimento de cinema em meu país; iria só querer expressar meu amor pelo cinema e contar uma estória, a minha.

Seria talvez um filme triste, mas honesto e humano, profundamente humano.

Por trás das grades

Por trás das grades

Antes da televisão

20 out

O rádio foi sempre um elemento presente no cinema, mas, duvido que homenagem maior lhe tenha sido feita do que a que recebe no filme de Woody Allen, “Radio Days” (1987), no Brasil chamado de “A era do rádio”.

Entre saudosista e irônico, biográfico e imaginativo, o filme conta, não tanto uma estória, mas um apanhado de episódios que giram em torno de uma família pobre do bairro judeu de Rockaway, Nova York, mais ou menos num périplo que vai de 38 a 44. Todo narrado em voz over pelo próprio Allen, “Radio Days” tem estatuto de flashback, e um roteiro que é todo cerzido pelas muitas canções da época. De Cole Porter a Glenn Miller, passando por Ary Barroso e Carmem Miranda, a trilha, sempre diegética e determinante dos episódios narrados, concede ao filme um certo jeitão de musical.

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 Mas, claro, nem só de música vive o filme – uma força decisiva vem da capacidade de persuasão da palavra oral, no caso, aquela que se escuta no rádio caseiro, seja o assunto as incríveis aventuras do Vingador Mascarado, ou o diário show do café da manhã das socialites, ou porventura a reportagem sobre uma catástrofe local, como aquela da menina soterrada. O personagem central é esse garoto (de 8 a 12 anos), filho único, cuja mãe abomina a vida que leva, cujo pai esconde a profissão que tem, e há ainda uma tia solteirona especialmente infeliz nas relações amorosas. Aliás, os dois únicos personagens a ganharem um relativo desenvolvimento narrativo são essa Tia Bea (Dianne Wiest), com seus inúmeros pretendentes, e Sally, a vendedora de cigarro (Mia Farrow) que, depois de quebradas de cara, alcança, por vias improváveis, um certo estrelado no rádio. Os episódios narrados teriam sido testemunhados pelo garoto,- uma espécie de alterego de Allen – que os viu de perto, dentro de casa, ou no bairro, ou que simplesmente deles ouviu falar, ou melhor ainda, com a ajuda de Allen, os inventou, caso bem óbvio da narração radiofônica do jogador de beisebol que, por acidente, foi perdendo partes do corpo.

Em muitos casos esses “episódios” estão possuídos de uma certa autonomia narrativa, como se valessem por “curtas” dentro de um longa, como se dá com o acidente que abre o filme: dois ladrões em ação atendem o telefone e – surpresa – tratava-se de um programa de rádio para os ouvintes dizerem qual música está sendo executada no momento: o ladrão conhece as três músicas, dá as respostas e deixa o enorme prêmio para a família roubada. Outro episódio completo que vem ao caso é o dos garotos que espiam a vizinha nua, e na semana seguinte, a belezona lhes aparece como professora da escola, e um deles, acometido de culpa judaica, deduz que eles e seus colegas vão todos para o inferno.

Patéticos ou líricos, alguns desses episódios também servem para demarcar a época, como o incidente com o namorado de Bea (a tia solteirona), que a abandona dentro do carro num lugar ermo, com medo da invasão de ETs, transmitida pelo rádio – a gente sabe – na voz fake de Orson Welles em 1938. Outra marcação evidente é a do anúncio radiofônico do ataque a Pearl Harbor, interrompendo um número musical. Vejam que o filme termina com a comemoração do ano novo de 1944, e o faz muito bem, pois – também sabemos – logo depois disso um novo meio, a televisão, começaria a tomar conta dos lares americanos, empurrando o rádio para uma posição secundária.

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Um mérito especial está no modo como, na concepção dos episódios, o roteiro combina o público e o privado; é o caso da surra que o pai está dando no garoto, no exato momento em que uma rádio local transmite o triste caso da menina que caiu numa cratera e, depois de muitos esforços dos bombeiros, não pôde ser salva e morreu: é a comoção com o fato que vai transformando aos poucos as pancadas paternas no corpo do menino em gestos de extremo carinho.

Uma coisa a notar é como, sendo o rádio o tema, o filme tem o cuidado de não tratar de cinema, quando se sabe que a época enfocada era também a áurea da sétima arte. Para não misturar as bolas, os personagens quase não falam de cinema, uma das poucas exceções sendo aquela cena na praia em que os três garotos, falando de suas musas da tela, ouvem um deles mencionar Dana Andrews, como se se tratasse de uma mulher. Resta observar a força da imagem num filme sobre uma mídia oral como o rádio, com o detalhe de, às vezes, a imagem chegar a substituir a oralidade desse meio, conforme acontece no relato do jogador de beisebol, por exemplo. No mais, a fotografia em si mesma, tanto fiel à época quanto criativa, é um item todo especial, com os tons frios (tendentes a azul) escolhidos para a paisagem e os quentes (inclinados ao vermelho) para os interiores.

Enfim, “A era do rádio” pode não ser um Woody Allen maior, mas, com certeza, é um dos mais saborosos.

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Poesia

8 ago

A crítica é cheia de paradoxos. Ou seria o crítico? Às vezes filmes ruins me instigam a escrever, e, às vezes, um filme ótimo me sugere ficar calado.

Uma sugestão de silêncio – mas de silêncio respeitoso – me deu esse excelente “Poesia” (“Shi”, 2010) do sul coreano Chang-dong Lee, que tive a sorte de ver nesse novo Canal Arte-1 da televisão paga.

Sim, alimento a sensação de que escrever sobre esse doce e terno filme é como maculá-lo. E, paradoxalmente, escrevo, pois me vejo no afã de divulgá-lo. Se pudesse, ao invés de escrever, tiraria cópias, e carinhosamente distribuiria entre os amigos.

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Devo começar dizendo que, neste cinema do terceiro milênio que me chega, poucas vezes vi um personagem, cativante e verdadeiro, tão bem construído como essa Sra Misha, de sessenta e seis anos de idade que, acometida de lapsos de memória, se matricula num curso de poesia. Caminhando devagar pelas calçadas de Seul, Misha destoa da pressa reinante, com sua elegância e sua delicadeza – seu rosto de sessentona ainda é bonito, seu corpo ainda é esguio e o chapéu branco, ligeiramente antiquado, que teima em usar, lhe concede um ar vagamente aristocrático.

Não sei se vou conseguir passar a sua beleza interior, mas começo com o óbvio, o que o enredo me fornece, até porque o enredo é outro enorme mérito do filme.

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Viúva há muito, Misha viveria sozinha, não fosse por esse neto, filho de pais separados, que ela praticamente é obrigada a hospedar – um adolescente hostil, com quem não consegue se entender, embora faça todos os esforços.

Um dia Misha ouve a notícia de que uma jovem de dezesseis anos cometera suicídio, jogando-se da ponte no rio que banha Seul. Não apenas tem a notícia como, indo ao hospital para exames, testemunha uma cena terrível: a mãe da moça morta, enfurecida pelo desespero, gritando e se arrastando pelo chão como uma louca.

Logo depois, vem o pior: Misha é secretamente procurada por uma comitiva de pais, cujos filhos haviam estuprado a jovem, e o neto de Misha estava entre eles. Os pais a procuram porque, juntos, estão – sem que a polícia ou a imprensa o saiba – coletando dinheiro para uma indenização.

Sem maiores recursos, Misha não tem como levantar a quantia pedida. Vive de pensão, e de um eventual trabalho de cuidadora – cuida de um senhor idoso que, acometido de AVC, mora só em seu apartamento de classe média.

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Todos esses problemas – inclusive os lapsos de memória, diagnosticados como início de Alzheimer – não impedem Misha de continuar freqüentando o curso de poesia, onde o professor afirma que todo mundo é capaz de fazer poemas, pois a poesia está dentro de nós. Misha sempre gostou de flores e de palavras estranhas e isso lhe dá a ilusão de que possa vir um dia a escrever um poema. Gasta tempo fitando a natureza em busca de uma inspiração, que nunca vem. Ou (devo contar o resto da estória?) vem tarde.

Enquanto isso, impressionada com a morte da jovem, Misha vai até o local do suicídio, a ponte sobre o rio, e – triste prolepse – o vento arranca-lhe o chapéu, que cai nas águas sombrias.

Incumbida pela equipe dos pais, visita a mãe da jovem, no campo, porém, a visita não dá frutos, salvo um, literal, que Misha apanha do chão e mastiga. As duas mulheres conversam sobre frutas maduras e Misha volta como foi, sem soluções. Uma única, precária, é que furta o retrato da garota morta e o leva para casa, pondo-o à mesa, diante do neto delinqüente.

Ainda que por meios nada edificantes – espécie de estupro consentido – Misha consegue, com o senhor de quem cuida, enfim, o dinheiro para a cota indenizadora, o que não impede que, um dia, a polícia apareça em sua rua e leve o neto preso.

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No fim do curso, nenhum aluno cumpriu a tarefa do professor, a de escrever um poema, salvo Misha, que não comparece a essa aula final, e, com um buquê de flores, envia o poema – o seu primeiro e (lembremos o chapéu no rio) último.

Enquanto se ouve a voz que lê o poema de Misha (primeiramente a do professor, depois a dela, depois a da adolescente morta), a câmera vai se deslocando na direção da ponte do suicídio e nós, espectadores, entendemos que houve outro. Não apenas as águas turvas do rio, filmadas assustadoramente de perto, nos dizem isto, como também as palavras estranhas e belas do poema que se escuta.

Desliguei a tv meio engasgado, me lembrando de outra vítima feminina do mundo dos homens, que a cada revisitação, me faz chorar, a Cabíria de Fellini.

Comecei esta matéria falando dos paradoxos da crítica. Um a mais é não atingir, na composição do texto, o nível de qualidade do filme, como é o caso aqui.

Portanto, vejam o filme e esqueçam a crítica.

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