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Documentários brasileiros

21 mar

A lista sugestiva dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos você já conhece do livro que a ABRACCINE e a Editora Letramento publicaram e lançaram o ano passado (2016), onde os filmes estão devidamente comentados, cada um por um especialista da área.

Agora é a vez dos documentários.

Previsto para estar pronto ainda este ano de 2017, o livro vai se chamar “Documentário brasileiro – 100 filmes essenciais”, e a lista dos títulos eleitos já está sendo divulgada na imprensa.

“Cabra marcado para morrer”, o melhor documentário brasileiro.

Sem surpresa, o cineasta mais assíduo é Eduardo Coutinho, com nove filmes contemplados, dos quais dois estão no topo da lista, em primeiro e segundo lugares, e um outro, no quarto. Vejamos, por enquanto, quais foram os dez mais votados:

 

Cabra marcado para morrer, Eduardo Coutinho, 1984

Jogo de cena, Eduardo Coutinho, 2007

Santiago, João Moreira Salles, 2007

Edifício Master, Eduardo Coutinho, 2002

Serras da desordem, Andrea  Tonacci, 2006

Ilha das flores, Jorge Furtado, 1989

Notícias de uma guerra particular, João Moreira Salles e Katia Lund, 1999

Ônibus 174, José Padilha e Felipe Lacerda, 2002

Di, Glauber Rocha, 1977

Aruanda, Linduarte Noronha, 1960

“Aruanda”, de Linduarte Noronha, em décimo lugar.

 

Com relação à lista completa (veja adiante), nota-se a diversidade de propostas, quando curtas e longas se revezam, com temáticas e enfoques os mais variados. Um fato a ser notado é – contraditoriamente – a presença do elemento ficcional. Alguns dos documentários listados contêm esse elemento, mas o protótipo dessa mistura de realidade com ficção é, com certeza, o filme “Jogo de Cena”, de Coutinho.

Chama também atenção o número enorme de documentários realizados no Novo Milênio. Curiosamente, entre estes “novos” estão os muitos filmes sobre música, enfocando movimentos, cantores, compositores, ou outros aspectos da atividade musical. São tantos que não resisto em citá-los em conjunto: “Uma noite em 67”, “A música segundo Tom Jobim”, “Loki – Arnaldo Batista”, “Dzi Croquetes”, Simonal – ninguém sabe o duro que dei”, “Cássia Eller”, “Nelson Cavaquinho”, “Vinicius”, “As canções”, “Os doces bárbaros”, Raul – o início, o fim e o meio”, e “Bethânia bem de perto”.

De minha parte, não posso deixar de observar que a Paraíba está bem representada. Com certeza é honroso para nós constatar que o “Aruanda” de Linduarte Noronha se encontra entre os dez mais. Um outro paraibano bem situado é Vladimir Carvalho: o seu “O país de São Saruê” (1971) ocupa o décimo segundo lugar na lista, e “Conterrâneos velhos de guerra” (1991), o vigésimo primeiro. Não nos passa despercebido tampouco que o documentário do topo da lista trata de assunto paraibano, com cenário e personagens paraibanos.

“Uma noite em 67”, um dos muitos musicais da lista.

Enfim, confira a lista completa, e veja se seus documentários preferidos foram contemplados:

  1. Cabra Marcado para Morrer
    2. Jogo de Cena
    3. Santiago
    4. Edifício Master
    5. Serras da Desordem
    6. Ilha das Flores
    7. Notícias de uma Guerra Particular
    8. Ônibus 174
    9. Di
    10. Aruanda
    11. O Prisioneiro da Grade de Ferro
    12. O País de São Saruê
    13. Viramundo
    14. ABC da Greve
    15. Jango
    16. Garrincha, Alegria do Povo
    17. Imagens do Inconsciente
    18. Estamira
    19. Santo Forte
    20. Janela da Alma
    21. Conterrâneos Velhos de Guerra
    22. A Opinião Pública
    23. Martírio
    24. Cidadão Boilensen
    25. Entreatos
    26. Maioria Absoluta
    27. Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos
    28. São Paulo – Sinfonia da Metrópole
    29. Uma Noite em 67
    30. Corumbiara
    31. Elena
    32. Justiça
    33. Peões
    34. Cinema Novo (2016)
    35. A Música Segundo Tom Jobim
    36. Memória do Cangaço
    37. Arraial do Cabo
    38. O Poeta do Castelo
    39. Que Bom Te Ver Viva
    40. A Paixão de JL
    41. Terra Deu, Terra Come
    42. Carro de Bois
    43. Socorro Nobre
    44. Mato Eles?
    45. Lixo Extraordinário
    46. A Cidade É uma Só?
    47. Soy Cuba, o Mamute Siberiano
    48. Os Anos JK – Uma Trajetória Política
    49. Tudo É Brasil
    50. Iracema, uma Transa Amazônica
    51. Loki – Arnaldo Baptista
    52. O Fim e o Princípio
    53. Nelson Freire
    54. Doméstica
    55. Braços Cruzados, Máquinas Paradas
    56. Dzi Croquettes
    57. Brasília – Contradições de uma Cidade Nova
    58. Triste Trópico
    59. O Dia que Durou 21 Anos
    60. Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei
    61. Pan Cinema Permanente
    62. Diário de uma Busca
    63. Theodorico, o Imperador do Sertão
    64. Os Dias com Ele
    65. Um Passaporte Húngaro
    66. Mataram Meu Irmão
    67. Juízo
    68. Pacific
  2. 69. Branco Sai, Preto Fica
    70. Maranhão 66
    71. No Paiz das Amazonas
    72. Cássia Eller
    73. Linha de Montagem
    74. Nelson Cavaquinho
    75. O Porto de Santos
    76. O Mercado de Notícias
    77. Vinícius
    78. Orestes
    79. Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil
    80. Moscou
  3. 81. Andarilho
    O Céu sobre os Ombros
    83. 33
    84. As Canções
    85. Os Doces Bárbaros
    86. Já Visto Jamais Visto
    87. Esta Não É a Sua Vida
    88. Raul – O Início, o Fim e o Meio
    89. Subterrâneos do Futebol
    90. Wilsinho Galileia
    91. O Tigre e a Gazela
    92. A Alma do Osso
    93. Hércules 56
    94. Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz
    95. Homem Comum
    96. As Hiper Mulheres
    97. Lacrimosa
    98. Imagens do Estado Novo 1937-1945
    99. Nem Tudo É Verdade
    100. Bethânia Bem de Perto

Mistura de ficção e realidade em “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho.

Para Manfredo

30 nov

O cinema paraibano está de luto, com o falecimento, sexta-feira passada, dia 25, do cineasta e montador Manfredo Caldas (1947-2016).

A carreira de Manfredo Caldas eu acompanhei desde sempre, e admiro o seu cinema de cunho social, engajado, participativo. Escrevei sobre alguns de seus filmes, e aqui lhe presto homenagem póstuma, reproduzindo artigo que veiculei na imprensa, quando do lançamento local de seu filme “Romance do vaqueiro voador” (2007), sobre os efeitos colaterais da construção de Brasília.

A esse artigo dei o título intertextual de “CORPOS QUE CAEM”. Eis o texto, tal qual publicado, naquela ocasião, no jornal “O Norte”:

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Na canção de Chico Buarque, o operário que caía da construção atrapalhava o trânsito. Pois, no final dos anos cinquenta, na construção de Brasília, os corpos que caíam dos andaimes dos prédios em obra não atrapalhavam nada, nem ninguém. Conforme desejo do Presidente, a nova capital precisava ser inaugurada em 21 de abril de 1960, e não havia tempo para interrupções, fosse qual fosse o motivo.

Do Edifício 28, por exemplo, situado na área da Esplanada, era uma média diária de três operários que despencavam dos andaimes e se espatifavam lá embaixo. Como em um passe mágico, os corpos desapareciam. Aparentemente, eram enterrados ali mesmo, para que ninguém, além dos engenheiros e arquitetos, tomasse conhecimento.

Uma dessas vítimas da gênesis brasiliense ficou famosa. Era um candango de origem nordestina que, depois de desaparecido, ganhou a fama de ter sido “vaqueiro” e a estória de sua queda do 28 lhe deu o apelido eufemístico de “voador”.

Referência a esse “vaqueiro voador” aparece em imagens do americano Eugene Feldman, e depois no documentário de Vladimir Carvalho “Brasília segundo Feldman”. Mas a compleição da sua lenda vai surgir em forma de cordel no poema épico de João Bosco Bezerra Bonfim, com o título de “Romance do vaqueiro voador”.

Dirigindo Luis Carlos Vasconcelos na filmagem de "Romance do vaqueiro voador"

Dirigindo Luis Carlos Vasconcelos na filmagem de “Romance do vaqueiro voador”

“Quem em noite de lua, / Da Esplanada dos Ministérios / Se aproxima há de ouvir u`a / Voz que ecoa, entre blocos, / E um aboio assim sentido / De onde vem? Mistério…” Como se percebe do trecho citado, o folheto de Bonfim é, na verdade, um longo poema indagativo, com mais hipóteses do que respostas sobre a existência, o ofício, a sina e a morte “misteriosa” desse mito que – sente-se – quer representar todos os candangos cujos corpos caíram no mesmo “mistério”.

Fascinado com o potencial poético e social do folheto, o cineasta Manfredo Caldas resolveu roteirizá-lo, ganhando com isso, o prêmio que lhe permitiu a realização do filme homônimo, “Romance do vaqueiro voador” (2008) que estreou em João Pessoa, quinta-feira, dia 31 de julho.

Sobre o filme, digamos que tem o mesmo potencial do folheto e que deixa o espectador com a mesma vontade de fazer perguntas, uma das quais poderia muito bem ser sobre ele mesmo: trata-se de um documentário com poesia, ou de cinema poético com cenas documentais? Ou as duas coisas, de modo inconsútil? Ou outra coisa, ainda inominada?

Conhecido como documentarista, na linha nada ficcional que deriva do “Aruanda” de Linduarte Noronha, Caldas agora se exercita em um gênero livre, solto, híbrido e intertextual, onde até a metalinguagem é permita. Em certo trecho do filme, qual Hitchcock brasileiro, ele próprio aparece na tela, indo buscar no aeroporto de Brasília o ator Luiz Carlos Vasconcelos.

Manfredo em ação.

Manfredo em ação.

Compósito de muitos textos, verbais ou não-verbais, fotográficos ou cinematográficos, próprios ou alheios, e de muitos recursos, documentais e ficcionais, o filme mantém no geral a postura imaginária e misteriosa do folheto e, com isso, consegue um efeito mais perturbador do que se tivesse se limitado à denúncia explícita de um documentário tradicional. Um contributo chave para tal efeito é, com certeza, a bela e grave música de Marcus Vinicius, permeando com intervalos estratégicos a metragem, desde os créditos “voadores” (notaram?), até o final.

Para fechar com um exemplo de ousadia e criatividade, aponto o uso disso que é praticamente proibitivo em cinema, a saber, a repetição, recurso que aparece em “Romance do vaqueiro voador” de forma sistemática e, felizmente, positiva.

Refiro-me à estrofe que descreve a morte liricamente idealizada do protagonista (“Peitoral, perneira, gibão, chapéu passado o barbichado, voou no rabo da rês, mas só chão havia embaixo”), repetida por Luiz Carlos em instâncias simétricas, ora como ele próprio, ora como o Vaqueiro Voador, ora em off, só que cada vez com uma entonação diferente, até, no final, atingir um efeito de clímax dramático e poético.

Nesse momento, mesmo sem esquecer o lado estritamente documental do filme, o espectador sente que não precisa (mais) de conceitos: o impacto lhe veio via estesis e isso lhe basta.

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Fest-Aruanda

13 dez

Começa hoje, dia 13, sexta-feira, o Fest-Aruanda, em sua oitava versão, e se estende até o dia 19, com uma rica e vasta programação, a acontecer, desta vez, nas salas de cinema do Mag Shopping, (João Pessoa, Paraíba) e – cuidado para não errar o endereço! – não mais no Hotel Tambaú.

Apesar do lapso do ano passado, quando não foi possível realizá-lo, o FestAruanda é um festival de cinema paraibano que vem crescendo a passos largos, inclusive, desta vez com dois dias a mais de atividade.

Não vou especificar a programação, que está devidamente divulgada na imprensa, escrita, falada e virtual, mas gostaria, sim de dar uns destaques.

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

Parece-me que a versão deste ano tem um certo peso político especial, com o tema recorrente “50 anos de ditadura militar no Brasil pelo olhar do cinema brasileiro”, com mostra retroativa de filmes que trataram do assunto, como PRA FRENTE BRASIL (Roberto Farias, 81), JANGO (Silvio Tendler, 88), BARRA 68 (Vladimir Carvalho, 2000), BOILESEN (Chaim Litewski, 2009) e O DIA QUE DUROU 21 ANOS (Camilo Tavares, 2012). Este último, em apoio ao Festival, é assunto da minha coluna semanal no jornal CONTRAPONTO.

O mesmo tema, digo A ditadura militar brasileira, será assunto de uma mesa redonda, com presença de alguns dos autores dos filmes mostrados e de outros documentaristas, além de jornalistas paraibanos e brasileiros, com mediação de Maria do Rosário Caetano.

Como é de praxe, o FestAruanda costuma prestar homenagens a figuras proeminentes do mundo cinematográfico ou cultural do país. Este ano os homenageados especiais serão o cantor Ney Matogrosso, o ator Lázaro Ramos, o documentarista Sílvio Tendler e o crítico Jean-Claude Bernardet, homenagens mais que merecidas.

E fecho este meu comentário com um pouquinho de Paraíba. Na primeira noite do Fest-Aruanda, hoje, portanto, logo após a solenidade de abertura, e em homenagem à memória do cinema paraibano, será exibido um curta-metragem curioso (12 min) que se chama O MURAL QUE O VENTO LEVOU, de autoria da dupla Wills Leal e Mirabeau Dias, sobre um certo encontro de cineastas paraibanos no dia 28 de dezembro de 1995, dia em que o Cinema completou 100 anos. O encontro foi na famosa e desejada casa de Leal, em Manaíra, João Pessoa, em cuja parede externa pintores paraibanos pintaram cenas cinematográficas, tudo seguido de uma monumental farra. Eu, claro, estava lá.

No mais, leitores deste blog que gostam de cinema, é ficar atento à programação e comparecer, que o FestAruanda é gratuito.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

A filmar

28 nov

`Dá um filme!`. Quantas vezes já não se disse esta frase, depois de se ouvir certas estórias da vida real. Eu mesmo já disse, pois muitas estórias ouvi, algumas boas, que nunca vi filmadas. Uma pena.

A mais recente, e das mais fortes e impressionantes, não a ouvi, mas foi como se tivesse ouvido, pois, embora rigorosamente verídica, está narrada em papel com a desenvoltura e a paixão de um autêntico contador de histórias.

Refiro-me ao livro “A morte do fotógrafo” (Casa da Memória, 2006) do historiador paraibano Humberto Fonseca, que devorei de um só fôlego, como se estivesse escutando tudo da boca do autor.

Ao terminar, fechei o livro com pena de ter chegado à última página, e, “no cinema dos meus olhos” (obrigado, Vinicius) passei a reconstituir o filme inteiro, com direito a flashback e tudo mais.

Araruna, PB, cenário do drama

Araruna, PB, cenário do drama

Na pequena Araruna de 1958 um crime é cometido, que abala a cidade. Numa traiçoeira emboscada de estrada, um cidadão mata outro, simulando acidente. O automóvel do criminoso teria se chocado com a motocicleta da vítima, e o choque foi fatal. Residentes em Araruna, ambos eram fotógrafos, mas, claro, não houve foto do acidente.

O criminoso é preso e o seu genro, co-autor do crime e presente na ocasião, foge. A partir daí, vamos acompanhar as descrições dos muitos júris, com as transcrições fiéis dos documentos processuais, em todos os seus detalhes, com nomes completos de juízes, promotores, advogados, jurados e demais envolvidos.

Nas primeiras sessões, o réu é condenado a vinte e quatro anos de reclusão, porém, depois disso os julgamentos seguintes vão tomando contornos diferentes. Lá para o quarto júri, o réu é, surpreendentemente, isentado de culpa, embora ainda vá permanecer preso por muitos anos, sem que a justiça alcance uma unanimidade.

Na prisão, definha a olhos vistos e o seu estado debilitado comove os habitantes do lugar, e, parece, também os membros dos júris seguintes. A família do réu se muda para uma casa perto da cadeia, de modo a dar melhor assistência ao parente.

Outra vista de Araruna

Outra vista de Araruna

Quanto à família da vítima, esta, sem recursos nem amparo depois dessa perda irreparável, deixa a cidade quando do acontecido: vai embora para Recife, e, com a ajuda de uma parenta, passa a viver nas dependências de uma casa de praia distante, praticamente como mendigos, sem ter o que comer, não fosse pela iniciativa de um dos garotos de ir ao centro de Recife, vender folhetos de cordel onde, em versos, relata a morte do pai. Mais tarde é que um militar encontra o cordelista na rua, faz amizade, se compadece e termina por ajudar a família toda.

Não vou contar o resto da história, para não tirar a graça de quem ainda não leu “A morte do fotógrafo”, mas devo apenas dizer que o autor – como é costume acontecer em um filme – a inicia pelo final, quando ele e a esposa, passando dias em um hotel em Recife, não muito tempo atrás, vem a conhecer um garçom – surpresa para todos! – que era casado com uma das filhas do fotógrafo assassinado em Araruna.

Segundo o próprio Fonseca, foi esse encontro casual e tardio (quase cinqüenta anos depois do episódio) que o instigou a ir atrás dos documentos do processo jurídico e, enfim, relatar imparcial e objetivamente, a história completa do crime e seus desdobramentos dramáticos, coisas de que ele só se recordava parcialmente, por ser, na época dos tristes acontecimentos, um adolescente em Araruna.

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Finda a leitura do livro de Fonseca, foi inevitável que me lembrasse de filmes que vi ao longo da vida e que marcaram minha imaginação de cinéfilo. Três pelo menos me vieram à mente, a saber, o francês “Dois são culpados” (André Cayatte, 1962), o americano “A visita da velha senhora” (Bernard Vicki, 1964) e o brasileiro “O caso dos irmãos Nave (Luis Sérgio Person, 1967).

Bem entendido, os enredos destes filmes sombrios são diferentes, tanto entre si, como em relação à estória de Araruna narrada por Fonseca, porém, o que os une no meu imaginário privado é o fato de, até certo ponto, possuírem, junto com “A morte do fotógrafo”, ao menos três ingredientes essenciais: (1) uma análoga situação diegética – crime e castigo em uma cidade pequena; (2) uma semelhança temática – a ambiguidade da lei na sua relação direta com os cidadãos de carne e osso; e (3) mais que qualquer outra coisa, uma mesma pesada atmosfera de disforia, desperdício e tragédia.

Fica, assim, feito o registro.

Se você é porventura um cineasta à cata de argumento, que se habilite. Não garanto que o autor do livro o queira filmado, mas, de todo jeito, não custa a tentativa.

De minha parte, eu adoraria ver esse livro na tela.

A capa do livro, que nos promete outras histórias

A capa do livro, que nos promete outras histórias

Estreia de “O homem que vê no escuro”: um registro verbo-visual

2 jan

 Faço aqui o registro verbo-visual da estréia do filme O homem que vê no escuro (Mirabeau Dias, 2012), para quem não pôde comparecer, e também para quem compareceu, os muitos amigos, colegas e conhecidos que ocuparam as 150 cadeiras do recém fundado Cine Linduarte Noronha, nas dependências do prédio da Funjope, rua Duque de Caxias, 352, em João Pessoa, na noite de 28 de dezembro de 2012, dia Mundial do Cinema.

Cena do filme

Cena do filme

O homem que vê no escuro é um longa documental (101 minutos) sobre a minha pessoa, meu trabalho, minha militância na crítica cinematográfica e minha vida.

Concebido, roteirizado, dirigido, editado e produzido por Mirabeau Dias, o filme faz um passeio por minha linha existencial, a partir de entrevistas que, em momentos diferentes, concedo ao professor Luiz Antônio Mousinho, aos jornalistas Renato Felix e Astier Basílio e ao próprio Mirabeau Dias.

Cena do filme

Cena do filme

Nessas entrevistas fica delineada a minha trajetória de ser humano, de escritor e de pensador do cinema, os dados pessoais (o primeiro filme que vi, por exemplo) se misturando ao embate conceitual (livros que li, pessoas que me influenciaram, etc) que me conduziu à posição teórica que caracteriza meus escritos e minha maneira de interpretar o cinema. Naturalmente, toda a minha fala é emoldurada por cenas de filmes, imagens amadas de nós todos.

Do filme também fazem parte lances criativos, nada documentais – evidentemente, todos soluções expressionais do diretor – que ilustram a minha paixão pelo cinema de várias formas, em alguns casos de forma brincalhona. James Stewart enredando de mim por telefone a Hitchcock em “Janela indiscreta”, ou, eu, na pele de Gary Cooper, dando meia volta na carroça para ir pegar o livro “Imagens amadas” (começo de “Matar ou morrer”) são dois lances que vêm ao caso. Cito mais dois: uma dramatização que, a pedido do diretor, faço do mini-conto “Flor de Cacto” (conferir neste blog meu livro “Um beijo é só um beijo”) e minha enxerida ingerência no ato de desenhar, um hobby secreto que sempre escondi de todos.

Cena do filme

Cena do filme

A exibição do filme fez parte do evento que celebra o Dia Mundial do Cinema, evento este organizado pela Academia Paraibana de Cinema, sob a presidência do jornalista e historiador Wills Leal. Na ocasião, foram entregues prêmios aos melhores filmes paraibanos realizados em 2012, que passo a citar em suas respectivas categorias:

Presidente da APC, Wills Leal

Presidente da APC, Wills Leal

“Tudo que Deus criou” de André da Costa Pinto (Longa metragem de ficção); “Radegundis Feitosa” de Anthur Lins e Niu Batista (Longa metragem documental); “Ato instituicional” de Helton Paulino (curta de ficção); “Fogo pagou” de Ramon Batista (curta documental).

A atriz Marcélia Cartaxo

A atriz Marcélia Cartaxo

Houve ainda a entrega dos troféus do Festcine Digital do Semiárido, para: “A Ninhada” de Nivaldo Miranda (ficção) e “Quebra quilos” de Haroldo Vidal. O produtor e realizador Durval Leal recebeu um prêmio especial pelo conjunto de sua obra, e a atriz Marcélia Cartaxo fez o anúncio oficial do prêmio Walfredo Rodriguez, recém instituído pela Funjope.

Após a exibição de O homem que vê no escuro foi servido um coquetel aos presentes. (Confira fotos).

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigas

JBBrito entre amigas

JBBrito, Sérgio de Castro Pinto, Mirabeau Dias e Suely

JBBrito, Sérgio de Castro Pinto, Mirabeau Dias e Suely

Silvino Espínola, JBBrito e o diretor Mirabeau Dias e esposa, Suely.

Silvino Espínola, JBBrito e o diretor Mirabeau Dias e esposa, Suely.

Coquetel

Coquetel

Coquetel, vendo Wills Leal à direita, de costas

Coquetel, vendo-se Wills Leal à direita, de costas

O contador de filmes

14 dez

Quem foi que disse que Picuí só dá carne de sol? Essa pequena cidade do interior paraibano, incrustada no seio seco do Curimataú tem outros tantos valores…

Um deles se chama Ivan Araújo Costa, que todos conhecem como Ivan Cineminha, e o apelido não é nada gratuito.

Fã de cinema desde tenra idade, e possuidor de uma memória fabulosa, Ivan é capaz de lhe dar, assim de chofre, a ficha técnica de uma quantidade absurda de filmes, filmes que ele viu ao longo da vida, desde o tempo em que o seu pai era proprietário do “Cine Guarani”, em Picuí.

Por causa desse raro dom mnemônico, Ivan já esteve duas vezes no programa de Jô Soares, e até convidado para o Fantástico já foi.

Mas, estou chovendo no molhado, porque, em João Pessoa e mesmo na Paraíba, todo mundo conhece (ou ouviu falar de) Ivan Cineminha. E se você é cinéfilo, então! Quem é que não já consultou Ivan para tirar uma duvidazinha sobre o elenco de um certo filme antigo, visto 20, 30 ou 40 anos atrás? Eu mesmo já fiz isso várias vezes.

Pois bem, de tanto ir ao cinema, o cinema veio a Ivan.

É que acaba de estrear, no último Fest-Aruanda, o curta-metragem “O contador de filmes”, que tem por assunto ninguém menos que o nosso herói de Picuí.

Realizado pelo cineasta Elinaldo Rodrigues, a partir de um projeto submetido e premiado pelo MEC, o filme “conta”, em breve quinze minutos, a estória de Ivan e sua paixão pelo cinema.

Trata-se de um documentário que não se importa de ser ficcional. Abre-se com uma encenação da infância de Ivan, quando ele vai ao cinema com o irmão menor. Com atores infantis, o filme mostra Ivan criança, de lápis e caderno na mão, anotando, do cartaz na parede, o título do filme que vai ver, enquanto o seu irmão, Tonheco, o apressa que “o filme já vai começar”.

A cena toda é mostrada em pedaços, entre os quais se intercalam momentos do tempo presente: Ivan hoje, com seus 65 anos de curtição cinematográfica e seus cabelos brancos, comprando ingresso no Cine Box Manaíra para ver o filme do dia.

O filme do dia ninguém sabe qual seja, mas, aquele a que Ivan assiste na infância só podia ser “O intrépido General Custer” (“They died with their boots on”, de Raoul Walsh, 1941) e por que? Porque foi este o primeiro filme a que o menino Ivan assistiu. O primeiro a que assistiu e o primeiro que anotou, hábito que nunca perdeu, até hoje.

A partir daí tem-se um longo depoimento do próprio Ivan que, à vontade como sempre está – na telona, na telinha ou na vida real – relata os momentos importantes de sua trajetória de fã.

Quem não sabe fica sabendo como nasceu o apelido, começo dos anos sessenta, nos bancos do Lyceu Paraibano, que Ivan mal freqüentou porque, na hora das aulas, estava sempre no cinema. Ao ponto de uma professora de desenho solicitar uma reunião discente, exclusivamente para conhecê-lo, já que, às quartas-feiras, dia da aula dela, ele nunca comparecia ao colégio.

Na garupa de uma moto (veículo predileto de Ivan), o espectador é transportado ao Picuí de hoje, onde Ivan nos mostra o prédio do antigo cinema do pai, atualmente um prosaico depósito de mercadorias. Com ele, entramos no prédio e somos informados de como era o cinema por dentro, onde ficava a tela, e, curioso, medido com três passos do próprio Ivan, o lugar onde ele sentava porque “queria se sentir perto dos atores, dentro do filme”. Ou seja, somos, desta forma, transportados ao Picuí de ontem.

Ainda nesse Picuí de hoje/ontem, outro momento comovente é quando a produção do filme leva Ivan à casa onde ele nasceu, hoje pertencente a outras pessoas, e que ele não visitava havia mais de cinqüenta anos. Com ele, entramos no imóvel e Ivan, remontando ao passado saudoso, nos aponta, entre outras nostalgias, o local onde dormiam ele e os irmãos, os resquícios desses leitos sendo os armadores das redes, por sorte ainda existentes nas paredes da residência.

Falando de sua vida presente, Ivan nos conta uma prática curiosa. Um grupo de amigos costuma com ele se reunir em algum restaurante da cidade, e um deles, sempre leva uma sabatina, preparada com antecedência, para testar a sua memória cinematográfica. Ele não diz, mas o grupo referido são os “cinéfilos do Ponto de Cem Réis”, academia fundada pelo professor e intelectual Silvino Espínola.

“Em que filmes trabalhou a grande coadjuvante do cinema americano Thelma Ritter, nos seguintes anos?” Ivan vai respondendo e os presentes, com as respostas nas mãos, vão conferindo, deslumbrados.

Um detalhe dessas reuniões de cinéfilos é que um dos membros, o juiz Gustavo Urquiza, sempre brinda os presentes com belas execuções, ao piano, de músicas de cinema, e a escolhida para constar de “O contador de filmes” foi a deslumbrante “Por una cabeza”, do filme “Perfume de mulher”.

Tudo isso e um pouco mais está no filme de Elinaldo Rodrigues. Digo um pouco porque não deve ter sido fácil para a direção imprensar em 15 minutos toda a estória de Ivan Cineminha.

Na verdade, o hábil diretor quis fazer caber pelo menos três temas entrecruzados e interdependentes: a figura ímpar de Ivan, a estória dos velhos cinemas de interior, e a força do cinema sobre o espectador de qualquer tempo. Para tanto, o filme está repleto de colagens onde se misturam as três temáticas.

Exemplos: quando o antigo operador do cinema picuiense se refere à preferência do público pelos filmes de Tarzan, vemos o próprio articulando o seu grito famoso. Para cada resposta correta de Ivan à sabatina, temos uma cena do filme em questão. Quando, em Picuí, Ivan nos mostra a fachada do antigo Cine Guarani, esta imagem, em sobreimpressão, se mistura a imagens cinematográficas que trazemos na memória: Carlitos manipulando talheres, Janet Leigh sendo morta no banheiro de “Psicose”, os motoqueiros de “Easy Rider” em plena estrada, o garoto de “Cinema Paradiso” de carona na bicicleta do padre… E claro, tudo isso ao som do “Danúbio Azul” de Strauss que, segundo Ivan, era a música que tocava no cinema de seu pai, antes de a projeção começar.

“Nunca passou pela minha cabeça me formar em cinema, ou ser cineasta, ou montador, ou mesmo ator, mas, um simples espectador, que ama o cinema” – nos confessa um Ivan comovido na sua fala final. O que ele não disse é o que sabemos: que ele não é um simples espectador, mas um especialíssimo.

Em suma, o mal do filme de Elinaldo Rodrigues é ser curto, e, pela dimensão, não corresponder à incomensurável memória cinematográfica de Ivan Cineminha.