Tag Archives: Paralepse

No reino da paralepse

11 abr

Paralepse, o que é isso? Já escrevi sobre o assunto, mas vale a pena a ele retornar. É um item importante para a compreensão de como funciona a linguagem cinematográfica.

Vamos por etapas. Ficcional ou documental, o cinema é uma arte narrativa – o que significa dizer que todo filme conta uma estória. Se há uma estória contada, há inescapavelmente, um contador. Quem é esse contador da estória do filme? Em outros termos, mais específicos, quem é o narrador da narrativa cinematográfica?

Grosso modo, a teoria da linguagem, distingue dois tipos de narrador: o narrador onisciente e o narrador limitado. Como o nome diz, o narrador onisciente é aquele que sabe tudo e, eventualmente, conta tudo. Só não conta tudo se não quiser. Seu papel se assemelha ao de Deus, e por isso mesmo, ele nunca está presente na estória contada, ou seja, ele narra, mas não faz parte da narrativa. Seu estatuto é o de uma instância abstrata, que o espectador pode, equivocadamente, confundir com a câmera, ou com o cineasta. Já o narrador limitado faz, sim, parte da narrativa: é um dos personagens envolvidos na estória e, ao contrário do onisciente, tem um nome. E se é um personagem, não é Deus, e, portanto, não sabe tudo: só o que foi capaz de, pessoalmente, testemunhar.

Cena de “O amanhã que não virá”, filme aqui discutido.

Tudo muito simples, se a coisa terminasse nesse esquema dual e mais ou menos dicotômico. Infelizmente, não termina. No âmbito do cinema, os estudiosos da sua linguagem há muito tempo detectaram um terceiro tipo de narrador, e é deste que vamos tratar aqui – o narrador paraléptico.

Pois é, na narração paraléptica vão se confundir os dois tipos de narradores acima mencionados. Como isto é possível? Para ilustrar, imaginemos um filme em que um personagem conta a estória. Ele vai contando tudo o que viu e ouviu e o espectador acompanha sua narração com interesse. De repente, ele começa a contar o que não pode ter visto nem ouvido, pois o que aconteceu, aconteceu fora de seu alcance físico. Em termos técnicos, ele, que é “limitado”, passa a agir circunstancialmente como “onisciente”. Não vem ao caso se ele está mentindo ou não, até porque, geralmente, ele não está mentindo. Mas o que concede validade à sua “onisciência” é que este tipo de narrativa é aceita pelo espectador como normal, entre outros motivos, porque o cinema a pratica com sistematização desde sua origem. Com tanta sistematização, que, na verdade, o espectador sequer a nota. É a esta narração, limitada mas com ingerências oniscientes, que se dá o nome de paralepse.

Acima imaginamos um filme hipotético, mas se você lembrar os filmes a que já assistiu, e cujas estórias foram contadas por um dos personagens, vai se dar conta de que o procedimento da paralepse, ao invés de excepcional, é uma regra no cinema universal, consistindo em um de seus recursos mais específicos. Em matéria que publiquei sobre o assunto (“Viva a paralepse”), analisei a estrutura paraléptica de filmes como “Cidadão Kane”, “Janela indiscreta”, “Desencanto” e outros, mas aqui gostaria de mencionar um caso que é, de alguma forma, extremado.

Ralph Cotter (James Cagney) e um de seus muitos crimes.

Em “O amanhã que não virá” (“Kiss tomorrow goodbye”, 1950) estamos num júri onde sete réus estão sendo julgados, todos envolvidos numa mesma estória de violência e crimes. O cabeça da coisa toda, o psicopata Ralph Cotter está morto, vítima de suas próprias loucuras, mas, os seus cúmplices estão todos presentes.

E como chegamos, nós espectadores, a conhecer a estória toda dessa gangue em seus mínimos detalhes? De nenhuma outra forma, se não pelos testemunhos que três dos réus nos prestam, e só três. Ora, dentro dos três testemunhos, mostrados em longos flashbacks, vemos coisas que, em cada caso, nenhum dos três poderia ter visto. Não tenho espaço para muito, mas um exemplo sintomático é o da vida íntima, digo, entre quatro paredes, do casal Ralph Cotter e sua companheira Holiday, vida íntima a que nenhum dos três depoentes teve acesso.

O que torna o filme de Gordon Douglas extremado e, assim, especial, é justamente o fato de se tratar de um júri, ocasião, como se sabe, em que o julgamento final dependerá da veracidade dos testemunhos relatados. Se levássemos a sério a máxima “a verdade, só a verdade, e nada mais que a verdade”, os relatos dados ganhariam foros quase surreais; não que os depoentes estivessem inventando fatos, mas, simplesmente porque agiram como deuses, relatando sistematicamente, bem “mais que a verdade”. E, claro (para manter a regra da paralepse), o advogado e os jurados, em nenhum momento, questionam suas onisciências. Muito menos nós, espectadores.

A gangue de Cotter, vista em flashback…

Anúncios

Ninguém dirigiu

5 nov

Nos anos cinquenta e sessenta, o pessoal da Nouvelle Vague lutou, com unhas e dentes, para instituir e defender o conceito de ´autor´ no cinema. E quem seria o autor de um filme? Obviamente o diretor, aquele cujo nome aparece no final da lista de créditos do filme, assim como, na capa de um livro de poesia, aparece o nome do poeta.

A briga de Truffaut, Godard e Chabrol era contra o cinema de estúdios, onde, na realização de um filme, todo mundo (principalmente o produtor) dava pitacos e o resultado saía impessoal e sem estilo próprio. A crítica recaía sobre o cinema clássico francês e, claro, também sobre Hollywood.

Pois bem, espécie de cúmulo do literal apagamento da direção está em um filme hollywoodiano dos anos quarenta que fico pensando se os nouvellevaguistas conheceram. Refiro-me a “Sagrado e profano” (“Desire me”, 1947), em cujos créditos (pasmem!) sequer consta o nome do diretor.

Ninguém dirigiu “Sagrado e profano”? Como seria isso possível?

Na verdade, George Cukor foi o contratado para dirigir essa estória sobre uma dona de casa francesa que, levada pelas circunstâncias da guerra, vem a cometer bigamia, uma realização da MGM, aos encargos do produtor Arthur Hornblow. Cukor dirigiu as primeiras sequências e, insatisfeito com o andamento das filmagens, desistiu de continuar no projeto, que foi passado para Melvyn Leroy. Do mesmo modo, depois de várias cenas completadas, Leroy desentendeu-se com a produção de Hornblow e foi descartado. No seu lugar entrou Jack Conway, que dirigiu outro tanto e, com problemas semelhantes, cedeu seu lugar a Victor Saville. Dizem que nem Saville foi o último a fechar as filmagens de “Sagrado e profano”, mas o fato é que, na hora H de lançar o filme ao público, a produção optou por fazer tabula rasa da direção e – quebrando uma regra cinematográfica universal – deixar o filme sem o crédito mais importante.

Algo parecido havia acontecido oito anos atrás, com as filmagens de “E o vento levou…” (1939) que, com o mesmo caos, também consumiu vários diretores, um após o outro. No final das contas, foi Victor Fleming – o último contratado – quem ganhou o crédito de direção, mas quem acredita que o sucesso do filme tenha dependido dele? No caso presente, parece que a lógica prevalecente foi a seguinte: um filme dirigido por muitos, equivale a não ter sido dirigido por ninguém.

Eu disse acima que “Sagrado e profano” é um caso exemplar de apagamento literal da direção, mas, ora, o mais interessante – e a razão de ser deste ensaio – é que, apesar disso, ele está muito longe de ser um caso de apagamento da qualidade. Muito pelo contrário.

Tive a oportunidade de vê-lo recentemente e o filme, muito bem dirigido e – incrível! – dirigido com grande coerência, é envolvente, até mesmo empolgante, e enriqueceria o currículo de qualquer um dos diretores apagados dos seus créditos, ou o de outros diretores.

Livremente baseado em uma velha peça de origem germânica, conta a estória de dois soldados franceses, presos em um campo de concentração, durante a Segunda Guerra. Um, casado (Robert Mitchum), recebe cartas da esposa e o outro, solteiro (Richard Hart), ouve essas cartas que o amigo lê para ele; além disso, o amigo lhe mostra as fotos da esposa e muito lhe fala dela, como era bela, carinhosa, forte, firme, uma mulher fascinante (Greer Garson).

Não dá noutra: o amigo solteiro vai se apaixonando pela mulher do casado e no dia em que aparece a oportunidade de fuga e o outro é baleado, ele, ao invés de socorrê-lo, o deixa morrer e escapa sozinho. Finda a guerra, esse soldado procura a esposa do amigo, na costa rochosa da Normandia onde ela, solitária e enlutada, reside e… Dá para imaginar o resto do roteiro?

Sim, crente que o marido está morto e enterrado nos campos de batalha, a mulher vai sendo, aos poucos, conquistada por esse desconhecido, que não é propriamente um desconhecido, já que sabe tudo sobre ela, e pior, ou melhor, o sabe porque ouviu da boca do seu esposo, como se tudo não passasse de um prévio consentimento. Em confiança, esse marido contara ao colega toda uma gama de pequenos segredos conjugais que, ironicamente, vão facilitar a conquista, mas um há que é sintomático: contara-lhe como a mulher tinha o hábito de manter a porta da casa sem chave, alegando ela que as pessoas pudessem entrar quando quisessem – se amigas, seriam bem-vindas, se não, também o seriam, pois haveria a oportunidade de se tornarem. Ora, não vai ser esta a situação do soldado que chega? E, claro, a porta da casa sem chave é uma metáfora para a porta do coração!

Quando a situação está mais ou menos firme entre a suposta viúva e o seu novo companheiro, eis que reaparece o marido, que, evidentemente, não tinha morrido coisa nenhuma. E o filme termina com um duelo entre os dois homens, no qual um deles perece, nem precisa dizer qual, não é?

Toda a sequencia do retorno do marido é impressionante. A morada do casal ficava no topo de uma colina rochosa, batida pelas ondas do mar e logo que o marido reaparece, a paisagem inteira, antes ensolarada, é tomada por uma névoa que torna tudo embaçado. O embate dos dois rivais se dá ao meio dessa névoa e ao som de um repetido e langoroso apito de navio que mais parece um som de agouro. Quando a luta se consuma, ninguém sabe, por um tempo, quem venceu, quem morreu, até…

Aliás, não apenas essa sequência é impressionante em “Sagrado e profano”.

O filme quase inteiro é narrado em flashback e o uso do recurso é feito com extrema competência. Na primeira sequência, e começando pelo fim, vê-se Marise (a mulher) no consultório do médico, achando que está doente, e o médico lhe explicando que o seu mal é emocional. É que, depois do duelo, Marise ficara com certa dificuldade em aceitar Paul (o marido), que matara Jean (o outro). E é aí que ela começa a rememorar os eventos para o médico, e só então ficamos conhecendo a estória toda, desde o início e na ordem dos acontecimentos.

Embora na ordem dos fatos, essa recapitulação mnemônica está cheia do que os teóricos da linguagem chamam de paralepse – o que equivale a dizer que Marise tanto conta ao seu médico o que viu como o que não pôde ter visto. Como já coloquei em outros ensaios, este é talvez o mais cinematográfico dos recursos narrativos de todos os tempos.

Por exemplo, as primeiras cenas desse flashback já são paralépticas – nelas mostram-se Paul e Jean no campo de concentração, aquele falando sobre a esposa, este segundo, ouvindo, embevecido, inclusive, escutando a música preferida do casal, solfejada pelo marido – fato que Marise não poderia ter testemunhado. Mas, vai mais além: em dado momento, Paul, meio delirante, começa a descrever ao amigo como será provavelmente o seu retorno ao lar, na Normandia, e sua fala passa a narrar a sua própria chegada, hipotética e futura, nos mínimos detalhes, logo que desce do caminhão na estrada até a entrada nessa casa de porta aberta, passando pela praia, suas areias e suas rochas. Neste instante, a câmera reconstitui em imagens o seu percurso, só que o personagem que se vê chegando não é ele, e sim, o amigo. E a cena não é mais premonitória e delirante, mas real. Um recurso narrativo genial, na medida em que coloca o gesto de Paul dentro daquele paradigma de ´dádiva ao inimigo´, como conhecido em lendas e histórias em quadrinho.

Outro recurso narrativo muito bem usado é a “construção em abismo” (aqui flashback dentro de flashback), por exemplo, quando Marise retrocede um passo dentro de sua recapitulação do passado, para reconstituir, em sua memória, a cena de seu casamento com Paul, e depois disso, retornar ao “presente” da sua vida cotidiana com Jean, agora já seu novo companheiro – vida esta, por sua vez, também uma recordação.

Sem contar que o “flashback dentro do flashbac”, mais ousadamente, pode ser alheio, no que se misturam as duas técnicas referidas, paralepse e “construção em abismo”. Um pouco mais adiante, quando já devidamente instalado na residência de Marise, e depois de lhe ter narrado a (falsa) morte de Paul, Jean é deixado a sós em seu quarto e, de si para si, recorda o real acontecido na hora da fuga dos dois, Paul lhe implorando socorro e ele fugindo, deixando o amigo à mercê de sua sorte. Ora, fazendo parte do longo flashback de Marise como faz, esta cena é paraléptica em grau elevado, no sentido em que Marise – ao contrário de nós, espectadores – não sabe a verdade: que Jean tentou matar o seu esposo para um dia poder tê-la.

Outro elemento de destaque são os diálogos, sempre expressivos do drama. Para citar apenas um exemplo, lembro quando Jean, na cidade, é informado por alguém de que Paul estava de volta e se dirigia à casa. “Melhor enfrentar um homem que um fantasma” afirma ele, decidido, com isso sugerindo não apenas que vai resolver o problema de modo prático (com um revólver), mas também que, enquanto Paul estava “morto” (como acreditava Marise), o seu fantasma já vivia entre eles, Jean e Marise.

As interpretações são ótimas, principalmente do trio de protagonistas. Houve problemas de bastidores, sim, mas qual a produção de cinema que não os tem? Robert Mitchum não gostava do filme e Richard Hart entrou no elenco substituindo Robert Montgomery. Consta que Greer Garson sofreu, em uma cena de barco com Mitchum, acidente feio: quase morre afogada e feriu-se ao ser jogada pelas ondas fortes contra as pedras, passando meses hospitalizada. Nada disso impediu de se ter um bom resultado, os três parecendo incrivelmente convincentes em seus respectivos papéis.

Outro ponto alto é a fotografia do mestre Joseph Ruttenberg, que banha o filme de sombras misteriosas e luzes oblíquas, para sublinhar sua atmosfera noir, quase expressionista. Do ponto de vista plástico, o máximo é retirado da casa inscrustada na colina, de onde se avista a paisagem rochosa e, no fundo, o mar bravio, tudo filmado, claro, não na França, mas em Monterey, costa da Califórnia. Já mencionei o efeito da névoa no retorno do marido Paul, com certeza, escolha ao mesmo tempo plástica e temática de Ruttenberg, para uma cena decisiva, em vários sentidos da palavra.

Homologando fotografia e interpretações, e nisso, também contribuindo para a mistura de gêneros (drama, romance, noir, thriller) a trilha sonora do maestro Herbert Stothart vem a calhar. Como parte dela, destaca-se a bela composição para piano que funciona, no enredo, como tema amoroso do casal Paul-Marise, sim, aquela mesma solfejada por Paul no campo de concentração, para os ouvidos do colega. Imagino que os espectadores da época devem ter saído do cinema com essa música na mente, tantas vezes tocada ao longo do filme, em cenas diegéticas (no piano caseiro) ou não (em cenas mnemônicas idílicas entre Paul e Marise). Saber executá-la no piano da casa é um dos trunfos de Jean, e um investimento especial na conquista de Marise, embora ela, no momento, tenha se recusado a escutá-la, ao que Jean argúi, mais para si que para ela, que “é só uma questão de tempo”. E era.

 Apesar de suas qualidades, “Sagrado e profano” nunca recebeu elogios da crítica. Creio que ninguém quis arriscar-se a elogiar um filme que ninguém dirigiu, ou, pior, que muitos dirigiram.

Sobre esta questão, de minha parte, me ocorre aquela brincadeira que vi tantas vezes feita por amigos poetas – cinco, seis ou sete -, geralmente em mesas de bar: uma mesma folha de papel circula no grupo e cada um escreve um verso; a folha corre de mão em mão, até o poema se completar… de autoria múltipla, porém, ele mesmo inteiriço e íntegro. Nem sempre o resultado é um bom poema, mas, se todos os participantes da brincadeira tiverem talento, quem sabe?

Acho que foi o que aconteceu com “Sagrado e profano”.

Viva a paralepse!

18 jul

Neste 2011 o filme mais perfeito já feito está completando setenta anos. E uma das provas da perfeição estaria, aparentemente, na posição que ocupa na lista dos dez melhores da crítica internacional. Sim, há mais de meio século, “Cidadão Kane” (“Citizen Kane”, 1941) não perde para ninguém o primeiro lugar nessa lista, e tudo indica que assim será, provavelmente para sempre.

É claro que tal unanimidade incomoda e muita gente boa não hesita quando tem a oportunidade de apontar defeitos.

Quem recentemente fez referência a um suposto “defeito” no filme de Orson Welles foi o jornalista Ruy Castro, ao registrar os setenta anos do filme em sua coluna de “A Folha”. Em artigo de 27 de maio, Castro comenta (cito):

“Desde então, uma dúvida intriga os fãs do filme. Bem no começo, conta-se que a última palavra que o magnata Charles Foster Kane pronunciou antes de morrer foi “Rosebud”, botão de rosa. Vê-se a boca de Kane em close dizendo a palavra. Corta para a enfermeira entrando no quarto, encontrando-o morto e o cobrindo. A pergunta era: se Kane estava sozinho ao morrer, quem o ouviu dizer “Rosbebud”?”

Ora, a essência da narrativa cinematográfica consiste nisso: em doar onisciência a narradores (personagens) que detêm, sobre a estória narrada, pontos de vista limitados. Esse procedimento narrativo já foi devidamente conceituado, entre outros, pelo teórico da linguagem Gérard Genette e chama-se paralepse. A palavra é feia, mas, em vista da premência, o jeito é usá-la.

Explicando em detalhes: ficcional ou não-ficcional, literária, poética ou cinematográfica, toda narrativa se processa a partir da voz de um narrador, o que se chama de ponto de vista, ou foco narrativo. Os dois pontos de vista mais comuns são: o onisciente e o limitado. No caso do ponto de vista onisciente, o narrador – feito Deus – sabe tudo e tem a liberdade de contar o que o meramente humano não contaria. Já no ponto de vista chamado de limitado, como o nome diz, a narração é feita por uma pessoa (na ficção, um personagem) e, portanto, só pode relatar o que foi testemunhado.

Estes são os dois focos narrativos comuns, só que, há muito tempo, a ficção moderna introduziu um terceiro, a nossa paralepse, que, como dito, consiste em misturar as duas coisas, ou seja, doar onisciência a um ponto de vista tecnicamente limitado. Com relativa moderação, a literatura (em romances, contos e poemas narrativos) tem feito isso, porém, foi justamente o cinema quem generalizou e normatizou o uso da paralepse, tomando-o como o seu procedimento narrativo mais fundamental, ao ponto de se tornar indissociável de sua conceituação.

Para voltar ao filme de Orson Welles, quem faz a pergunta acima deveria, pela lógica, fazer inúmeras outras, da mesma natureza, referentes ao filme inteiro. Se você prestar bem atenção a cada uma das quatro entrevistas que o jornalista faz durante o filme, vai notar que, em todas elas, embora o foco narrativo seja obrigatoriamente limitado (trata-se, de cada vez, de uma pessoa falando de sua convivência com Kane), a tela nos mostra mais do que cada um dos entrevistados poderia haver testemunhado a olho nu. Revejam o filme e constatem: ultrapassando as vozes do empregado Bernstein, do amigo Leland, da esposa Susan Alexander, e do mordomo Raymond, a câmera mostra, em cada caso, mais do que eles poderiam haver testemunhado, e – repito – isto é aceito como algo perfeitamente normal.

Portanto, não importa (ou importa, no sentido inverso) se os personagens em “Cidadão Kane” sabem, sem terem estado no seu leito de morte, qual foi a última palavra pronunciada pelo protagonista – e questão mais crucial – esse naco de onisciência em mentes limitadas não é um erro: é um recurso narrativo banalizado pela sétima arte ao longo do século XX.

Em seu artigo, Castro ainda adianta a hipótese de que o mordomo poderia ter estado, off-screen, no quarto com Kane – uma conjetura interessante no sentido de corrigir a “imperfeição” do filme, mas, convenhamos, dispensável.

A esse propósito, deixem “Cidadão Kane” de lado e procedam a uma pesquisa extensiva e sistemática sobre o emprego do ponto de vista no cinema, desde sua invenção. De Griffith ao cineasta mais recente, prestem atenção a como se comporta o foco narrativo em filmes de todas as épocas e de todos os gêneros – especialmente aqueles narrados, inteira ou parcialmente, por personagens, ou seja, filmes com foco narrativo limitado. Não tenho nenhuma dúvida de que a paralepse vai, de longe, ganhar para os outros dois tipos de ponto de vista.

Sem espaço para muito, aqui menciono ao menos três exemplos que nos ajudam a entender o exposto:

Das lembranças de Laura (“Desencanto”, 1945), que ela conta a si mesma, faz parte uma cena-chave, aquela da discussão entre o amante dela e o amigo que a ele emprestara o apartamento, cena que ela não viu, simplesmente porque não estava lá na hora do ocorrido. Erro? Não, paralepse.

No longo sonho do professor Wanley (“Um retrato de mulher”, 1944), em princípio estamos sempre, e inevitavelmente, na companhia do sonhador, e, no entanto, às vezes nos é mostrado o que ele, ausente, não poderia ter visto: todos os embates entre a moça do retrato e o chantagista, na casa dela… Erro? Não, paralepse.

Do ângulo espacialmente restrito do jornalista de perna quebrada (“Janela indiscreta”, 1954), só se avista o que os olhos dele alcançam, porém, num instante noturno em que ele cochila, deslumbramos o vizinho sair e voltar com sua mala sinistra. Erro? Não, paralepse.

Linguagem verbal e por isso mesmo relativamente cartorial, a literatura sempre foi tímica em fazer uso da paralepse. Não é nada incomum que, num romance, um personagem-narrador de primeira pessoa, ao contar o que não testemunhou, se justifique com expressões do tipo: “suponho que…”, “é provável que…”, “mais tarde soube que…”

Já o cinema não precisa de tais desculpas e, simplesmente, mostra o que o personagem não viu, e pronto, ou, como no caso em questão, diz (“rosebud” nas bocas dos personagens, depois da morte de Kane) o que não mostrou (alguém no quarto com Kane). Por sua própria natureza semiótica, o cinema assumiu o procedimento paraléptico como natural, de alguma maneira solicitado pela objetividade do olho da câmera que, em sua obsessão escópica, quer sempre ver/saber mais do que, lógica e/ou realisticamente falando, seria permitido, e estende esse dom aos personagens de qualquer filme.

O engraçado, nisso tudo, é que os espectadores comuns aceitaram, desde os primórdios do século, a narração paraléptica, com muito mais tranqüilidade do que os pensadores do cinema. Estes precisaram de tempo e energia para percorrer um longo caminho teórico e chegar à conclusão de que, se era algo que parecia inverossímil, tratava-se de uma enorme conquista semiótica da sétima arte, que entrava como ingrediente de sua especificidade. Infelizmente, os que ficaram no meio do caminho continuam falando em erro ou imperfeição.

Portanto: viva a paralepse! O que é o mesmo que dizer: viva o cinema, onde se inclui, sim, a perfeição de “Cidadão Kane”.