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Poliana

20 set

Sabe o filme casual, aquele que pinta na sua telinha sem você querer, só porque o aparelho está ligado, ou simplesmente porque você mudou de canal? Pois é, esta semana a casualidade me levou a “Poliana” (“Pollyanna”, 1960, de David Swift) e, sem nada mais interessante a fazer, me deixei ficar por ficar.

Lembro que lá pelo começo dos anos sessenta “Poliana” fez meio mundo chorar e foi um sucesso de bilheteria, com Oscar especial para a garota Hayley Mills.

Eu o vi na época? Devo ter visto, mas – enfronhado nas idéias vanguardistas então vigentes – devo ter feito esforços mentais para esquecer. Salvo uma vaga imagem de uma casinha trepada no topo de uma árvore frondosa, não lembrava mais nada.

Fui, agora, assistindo sem muito entusiasmo, no começo achando a coisa – desculpem a expressão – “um tanto e quanto Walt Disney”… A cada instante, pensava em trocar de canal, porém, a cada instante, me deparava, no desenrolar da estória, com um ator ou atriz – geralmente coadjuvantes – que eu admirava e fui usando isto como pretexto para continuar.

Ora era Jane Wyman (de “Farrapo humano”), ora era Richard Egan (de “Amores clandestinos”), ou Karl Malden (de “A árvore dos enforcados”), ou Nancy Olson (de “Crepúsculo dos deuses”), ou Adolphe Menjou (de “Glória feita de sangue”), ou Donald Crisp (de “Como era verde o meu vale”), ou Agnes Moorehead (de “Cidadão Kane”)…

Puxa vida, que elenco, e a própria Hayley Mills, com sua carinha ariana, seu nariz de bola e seus lábios grossos, está ótima no papel principal da órfã criada a contragosto por uma tia abastada e antipática – essa menina de boa índole, que, em sua ingenuidade, ensina o pastor a pregar e, por aí, pacifica os ânimos belicosos dos membros da comunidade.

A personagem – todo mundo sabe – virou símbolo do espírito para cima, que não se abate com as agruras da vida, e vai adiante, acreditando que tudo, no final, dará certo, e se não der, há de haver sempre uma compensação, porém, esse otimismo renitente vem mais da (sub)literatura que a gerou do que do filme.

No filme pude constatar que ela não era assim tão otimista, ou pelo menos, que seu otimismo tinha fraturas. Sem dúvida, a construção do personagem foi menos maniqueísta do que se pensa e houve mesmo terreno para uma certa ambiguidade, que a torna satisfatoriamente verossímil. Por exemplo, depois de informada pelo médico das conseqüências do acidente que muda a sua vida (ela cai da tal árvore e vai ficar paraplégica!) Poliana, estendida na cama no quarto de sua tia, vira uma criaturinha amarga, que não quer ver mais ninguém e prefere ficar a sós com sua dor. Prestando bem atenção, não foi fácil para a sua tia, convencê-la de que deve receber visitas, e só depois de algum tempo e visível esforço, ela acede.

Como é a cidade inteira que, em fila indiana, aparece para visitá-la, com presentes e tudo mais, ela melhora um pouquinho o humor e esboça algum vago sorriso, mas esse sorrisozinho insosso é só uma sombra do espírito alegre que demonstrava antes de acidentada.

Por que uma menina tão boazinha, que operou o milagre de unir uma comunidade inteira, vai sofrer um acidente desses e ficar paraplégica? – pergunta a tia, indignada, ao pastor, mas, claro, como os velhos “ubi sunt” dos poemas antigos, a pergunta não tem resposta,. A esperança reside numa cirurgia que deverá ser tentada na cidade grande, e o filme, sabiamente, termina com o embarque de Poliana, num trem que a conduz a um destino incerto. The End.

Digo, sabiamente, porque o final assim, em aberto, foi melhor para todos. Ironicamente, o filme ficou com mais qualidade, os espectadores da época certamente choraram mais, e os estúdios da Disney ganharam mais dinheiro. Se nos fosse dado o resultado da operação e a resposta emotiva da protagonista (favorável/desfavorável e Poliana triste/alegre), o filme iria virar uma tese chata, empanturrada de, para cima ou para baixo, lição de vida. Neste sentido, a roteirização dos Estúdios Disney fez muito bem em se distanciar do romance original de Eleanor Porter (1913) e suas infindáveis “continuações”.

Do jeito que está – e não me refiro só ao final, mas ao filme inteiro, por sinal muito bem dirigido e muito bem interpretado – “Poliana” é, sim, um bom produto cinematográfico, que agradeço ao acaso a oportunidade de ter (re)visto e podido reavaliar.

Não conheço a versão original, de 1920, com Mary Pickford no papel-título, e me satisfaço com esta – boa pedida para quem esteja acostumado somente ao envidraçado mito “good girl” de Poliana.

Intocáveis

27 ago

Uma comédia sobre um rapaz negro que se faz de enfermeiro para cuidar de um paraplégico branco? Não se trata do filme de Billy Wilder, de 1963, “The fortune cookie” (“Uma loura por um milhão”)?

Não. Trata-se agora de “Intocáveis” (“Intouchables”, 2011), filme da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano, exibido entre nós no Festival Varilux do Cinema Francês, e tão procurado que entrou na programação comercial normal.

Vivendo na periferia de Paris, filho adotivo de uma família pobre, o jovem afro-descendente Driss vira, meio por acaso, acompanhante desse senhor rico, Philippe, que, em sua luxuosa mansão, vive entre cadeiras de rodas e camas, e cujo corpo só tem sensibilidade do pescoço para cima. Ganhando o emprego para candidatos competentes, ele mesmo inapto e truculento, Driss aproveita a oportunidade rara para usufruir de um luxo que nunca conhecera.

Entre muitos atropelos e alguns acertos, a dupla vai se afinando e, para surpresa de parentes e aderentes, tudo termina dando certo, embora de um modo nada fácil e nada convencional.

Para o espectador, talvez a pergunta venha a ser: por que esse tipo desajeitado, pouco sutil e comprovadamente incompetente foi o escolhido para o serviço? O filme quer nos fazer crer que, entediado com tratamentos clínicos, o paciente Philippe, conscientemente ou não, desejava uma companhia que lhe cheirasse à vida, e não a medicamentos, e, no seu contexto, ninguém cheirava mais à vida que esse jovem negro, lascivo, extrovertido e meio selvagem.

Embora baseado em caso real, “Intocáveis” parece ser um filme para muitas leituras. Numa instância mais óbvia, narra a estória do desabrochar de uma amizade improvável entre dois homens completamente diferentes: um negro, pobre, inculto, ingênuo e saudável; o outro, branco, rico, erudito, maduro e doente. Creio que do contraste entre cada par de adjetivos listados pode-se deduzir uma interpretação para o filme.

Fiquemos com um deles, aquele entre culto e inculto. Nesta perspectiva, Philippe poderia talvez ser entendido, de alguma maneira abstrata, como uma representação da França atual (e por extensão da Europa), empanturrada de cultura e arte, mas um tanto e quanto paralisada pelo peso mesmo dessa bagagem secular. Ao passo que, simetricamente, Driss simbolizaria o frescor do primitivo que vem de uma África inculta e cheia de vida. Se a isotopia escolhida for esta, é claro que os outros contrastes (saudável vs doente, por exemplo) se incorporam à leitura e a enriquecem.

Um contraste adicional está, naturalmente, no próprio gênero do filme, situado entre comédia e drama, terreno perigoso em que a direção transita com impressionante aisance.

Aqui lembro alguns exemplos de comicidade ao meio do drama, no caso, relativos ao meu par de adjetivos escolhido e à temática etno-cultural que ele implica. No teatro, assistindo a uma ópera moderna, Driss não consegue conter o riso diante de um ator vestido do que lhe lembra uma macieira, e sua interpretação da cena desmonta a autenticidade da peça, do mesmo jeito que aquela criança, na famosa lenda, desmontou a falsidade do rei nu. O mesmo se diga de sua leitura daquele quadro de pintura abstrata em que uma mancha de vermelho sobre um fundo branco parece só um gesto escatológico e nada mais. Idem para a sua sugestão do alegre ritmo dançante, no lugar da triste e pesada música clássica a que estava habituado o seu erudito paciente.

É claro que a mensagem do filme não pode ser reduzida a um descarte da cultura clássica em favor do absolutamente naif, porém, é esse viés – e o que ele trás consigo de vitalidade – que conquista o erudito Philippe e o faz aceitar de bom grado (para usar uma palavra da moda) a alteridade. E não esqueçamos que o processo é recíproco: mais tarde vamos ver o próprio Driss pintando e, no final, reconhecendo, na ante-sala de uma empresa, obras de pintores famosos.

Se, no início, “intocáveis” (vários sentidos) um para o outro, os dois personagens vão se tocando, até o nível das transformações interiores…

E vejam que a influência de Driss vai bem mais além, já que esse “Nature Boy” de carne e osso termina por desempenhar o papel de cupido, ao literalmente forçar o seu paciente a ligar para uma pretendente anônima que – sabe-se depois – virá a ser a namorada de um paraplégico que se dava por terminal. Que importa se a única zona erógena de Philippe são as orelhas?

No filme de Billy Wilder com que abro esta matéria a paraplegia do protagonista é só uma farsa para extorquir a companhia de seguros. Em “Intocáveis” não há lugar para falsidades e até o ovo de pedra preciosa um dia furtado por Driss será devolvido, num gesto de amizade verdadeira em que não entra o conceito de piedade, e muito menos o de afinidades obrigatórias, a não ser que a afinidade seja o desejo de viver.