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Livre

29 abr

Aos vinte e quatro anos de idade, Cheryl Strayed estava à beira de um ataque de nervos: seu casamento acabara, sua mãe falecera e ela estava entregue a uma promiscuidade meio suicida.

Como sair da crise?

Ao invés de procurar o divã, ela decidiu que caminhar seria a solução. Botou nas costas o matulão e foi fazer o percurso do Pacific Crest Trail, a famosa trilha americana dos picos do Pacífico.

Caminhar é bom, se você está perto de casa. Acontece que a trilha do Pacific Crest recobre mais de quatro mil e duzentos quilômetros, começando no extremo sul dos Estados Unidos (limite com o México), até o extremo norte (limite com o Canadá), tudo isso através de área selvagem, entre desertos, montanhas, rios e florestas. Na geografia brasileira seria mais ou menos como você ir, a pé, de Porto Alegre até Boa Vista, em Roraima.

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Para completar, Cheryl não era nenhuma atleta: não tinha conhecimento da técnica de caminhar, nem qualquer treino físico. Por exemplo: o matulão que levava, com vários elementos supérfluos, pesava tanto que seu corpo franzino mal conseguia se equilibrar na vertical.

Mas foi, viu e venceu. Venceu a distância e a crise existencial. Tanto que juntou seus dotes literários e descreveu a experiência num livro que logo virou bestseller.

Inevitavelmente, o livro virou filme. Concorrendo ao Oscar em duas categorias, “Wild” (2014) foi denominado no Brasil de “Livre”, e já está disponível em DVD.

São quase cem dias de marcha e, naturalmente, fez-se necessário, na roteirização do percurso, uma seleção. Tentando ser fiel ao livro, o diretor Jean-Marc Vallée descreve a caminhada de Cheryl nos seus momentos mais dramáticos, que são de duas ordens: os problemas práticos, pertinentes à marcha em si, e os problemas emotivos, relativos a sua crise pessoal.

Citando exemplos ao leu: um deles é uma temida possibilidade de estupro por dois caminhantes de má fé que ela encontra na floresta; outro, é a lembrança dos maltratos que a mãe recebia do marido. Evidentemente, o roteiro tenta, quando pode, estabelecer algum tipo de relação entre as duas ordens.

Reese Witherspoon no papel de Cheryl Strayed.

Reese Witherspoon no papel de Cheryl Strayed.

Para dizer a verdade, ouso imaginar que “Livre”, a depender do tipo de espectador que o vê, permite duas leituras: como um filme de aventura e como um filme psicológico.

Na primeira hipótese, ele lembra – espero não estar sendo maldoso – uma gincana escolar, árdua e difícil, mas de todo jeito gincana; e aí, os muitos flashbacks mnemônicos da jovem viajante funcionariam como interrupções que retardam e põem em perigo o cumprimento da tarefa.

Na outra hipótese, são as relações familiares e suas dores o que mais interessa, ou mais que isso, a tentativa de superação e de crescimento pessoal da protagonista, tudo isso “interrompido” pelos muitos episódios da aventura pedestre, esta sempre duvidosa no seu suposto efeito de sanar os sofrimentos da alma.

Naturalmente, o grande lance é supor que aventura e psicologia se tocam e que, no toque, operam o milagre desejado – missão para um terceiro tipo de espectador, mais sutil e mais exigente.

Escolhida pela própria autora do livro, a atriz Reese Witherspoon faz muito bem a jovem desesperada que, ao meio de muitas dúvidas e ímpetos de desistir, no fundo acredita na “terapia Pacific Crest Trail” e – para sua própria surpresa – tem a coragem suprema de testá-la até o fim. Também convincente é Laura Dern no papel da mãe lembrada, só vista em flashbacks, mas de imagem marcante. Como atrizes, principal e coadjuvante, as duas tiveram indicação ao Oscar 2015.

Laura Dern faz a mãe de Cheryl.

Laura Dern faz a mãe de Cheryl.

Há, contudo, algo em “Livre” que o faz não funcionar bem, e que deixa o espectador, finda a projeção, um tanto e quanto insatisfeito.

O que seria? me pergunto. Ao drama familiar faltou força? A associação aventura versus psicologia não funcionou a contento? Ou o problema estaria no desenlace – digo, a breve e lacônica cena do término da jornada e do filme, não suficientemente expressiva em seu papel de simbolizar a redenção da personagem, aquela que, entre muitas outras coisas, justificaria, por exemplo, a interpretativa intitulação brasileira: “Livre”?

Enfim, mais um filme baseado em fatos reais, esse filão temático que o cinema anglo-americano atual descobriu, tão visível na lista dos indicados ao Oscar deste ano.

Realidade e ficção lado a lado: Cheryl e Reese.

Realidade e ficção lado a lado: Cheryl e Reese.

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O Hitchcock de nossos dias

6 abr

Entediado com a pasmaceira da sua época, a Era Vitoriana, o idoso poeta Robert Browning lamentava a esterilidade de seu tempo e suspirava por um passado de ousadia criativa, aquele que os historiadores já estavam chamando de Romantismo.

Num de seus poemas, ele chegou a esboçar a figura de um poeta sem fôlego que, para mais ridicularizar, apelidou de “o Byron de nossos dias”, querendo dizer, com a expressão, que do grande poeta romântico esse poetinha atual não tinha nada.

Mudando século, país e assunto, – pergunto – não é o que acontece hoje com quem, com décadas e décadas de curtição cinéfila nas costas, conheceu de perto os bons tempos do cinema clássico e é obrigado a engolir os filmes irrisórios da atualidade?

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Pois é. Assisti a este “As duas faces de Janeiro” (“The two faces of January”, 2014) e, automaticamente, ocorreu-me adaptar a expressão pejorativa de Browning para o seu diretor: “o Hitchcock de nossos dias”.

E vejam que, em sua primeira experiência cinematográfica, o anglo-iraniano Hossein Amini bem que tentou. Digo, bem que tentou ser Hitchcock. O seu primeiro passo foi tomar como fonte uma escritora, Patricia Highsmith, que já fora adaptada por Hitchcock. (Dela o velho Hitch filmara “Strangers on a train” (“Pacto sinistro”, 1951).

Se você adaptar o que X adaptou, você fica igual a X: infelizmente a regra não funciona. O mestre Truffaut já tentara e não deu certo, com sua filmagem de “A noiva estava de preto” (1968).

Kirsten Dunst é Colette, a esposa.

Kirsten Dunst é Colette, a esposa.

De fato, pela trama “As duas faces de janeiro” tem traços hitchcockianos.

Nas belas paisagens da Grécia de hoje, esse jovem americano poliglota trabalha como guia turístico. Seu nome é Rydal (Oscar Isaac) e ele vive de pequenos golpes. Agora, de golpes grandes quem vive é o turista Chester (Viggo Mortensen), que Rydal vai conhecer por acaso, a ele e sua bela esposa (Kirsten Dunst).

Mas, por enquanto, Rydal – como nós – não sabe de nada… Até que, sem querer, avista, no corredor do hotel, Chester fazendo algo muito estranho: arrastando o corpo inerte de um homem que – logo ele saberá – acabou de matar, dentro do quarto do hotel.

Um homem arrastando um morto num corredor de hotel, avistado por um outro, cujo olhar voyeur coincide com o do espectador… A cena é bem htichcockiana, porém, infelizmente o restante do filme não segura o clima.

Oscar Isaac e Viggo Mortensen

Oscar Isaac e Viggo Mortensen

Chester é um alto negociante que vive de dar trambiques em investidores incautos, e Rydal, em parte fascinado pelo charme de sua esposa, o ajuda a driblar a enrascada em que, no momento, está metido, e, assim fazendo, se torna seu cúmplice. Como se vê, as linhas gerais do enredo também evocam Hitchcock, mas apenas evocam… Como aliás, o faz qualquer página de Highsmith.

Forçoso e demorado, o desenlace não interessa, mas vale uma alusão ao título do filme.  Janeiro é o mês de Janus, o deus romano de duas caras, porém, esse fundo mitológico não tem muita funcionalidade dentro do filme, que, muito pouco tem da dualidade esperada, e, menos ainda, de uma possível tensão gerada no contraste entre as duas faces.

Três perdidos na Grécia.

Três perdidos na Grécia.

O contraste poderia ser actancial, digo, relativo aos personagens, entre aparência e realidade, entre passado e futuro… e não é. Tanto Rydal quanto Chester são o que são, desde o começo e assim permanecem até o final, respectivamente, um pequeno escroque e um grande escroque.

Enfim, deixo para lá o filme e volto a Browning e seu saudosismo. Ou melhor, volto a Hitchcock, o próprio, e ponho no aparelho de DVD, para ver pela décima vez, “Pacto sinistro”: Patricia Highsmith nas mãos hábeis do mago do suspense.

De volta a Hitchcock: cena de "Pacto sinistro".

De volta a Hitchcock: cena de “Pacto sinistro”.

“Paris, Texas”: trinta anos

17 out

Fosse eu fazer a lista dos cem melhores filmes do Século XX, um que, sem dúvida, não faltaria seria “Paris, Texas” (Wim Wenders, 1984), que neste ano completa trinta anos.

Lembro quando o vi pela primeira vez e a emoção que senti. Foi em 86 e eu estava nos States. De férias da bolsa de estudos que a Fulbrihgt me dera, fui passar um fim de semana com um casal amigo, que morava numa cidadezinha deliciosa, Shrewsbury, nos arredores de Boston. Num lugar pequeno assim, as diversões eram poucas e a dona de casa ofereceu-se para pegar, na locadora, algum filme que eu quisesse ver. Sem saber se ela conseguiria, chutei “Paris, Texas”, pois o filme, de dois anos atrás, não viera às telas paraibanas.

Natassja Kinski na cena do peep show.

Natassja Kinski na cena do peep show.

Aliás, dou-me conta agora de que nunca vi o filme de Wim Wenders em tela grande, o que é lamentável, pois, olhar europeu sobre a vastidão da América, o filme investe grandemente na paisagem, que a câmera praticamente transforma em tema. Entre deslumbrado e chocado, o ponto de vista é o de um alemão que tenta entender a imensidão e o vazio de um país que lhe escapa.

Lembram o início? O desmemoriado Travis marchando sem rumo pelas terras áridas do Texas, debaixo de sol escaldante, observado de longe por abutres famintos que apostam no seu fim, e a música que se ouve (Ry Cooder) é lancinante como a aridez da paisagem. Se o irmão, que dele não tinha notícias havia anos, não o localizasse….

O final também é cheio de paisagens abertas, agora os viadutos, pistas e arranha-céus de Houston, tão impessoais e inóspitos quantos as terras desoladas do início.

Engraçado como “Paris, Texas” tem o esqueleto de um melodrama. Afinal de contas, é a estória de um lar desfeito, que, de alguma maneira, se refaz. É a estória estranha de um pai que, recuperado de uma crise que o conduziu à condição de anacoreta, luta para reconquistar o filho e, com esforço sobre-humano, encaminhá-lo à mãe, uma mãe que os dois, pai e filho, não viam havia muito tempo.

Harry Dean Stanton no papel de Travis

Harry Dean Stanton no papel de Travis

Nas várias vezes em que escrevi ou falei sobre o filme chamei a atenção para o ardil do roteiro em só promover a reconciliação entre os membros da família (o pai Travis, o filho Hunter, e a mãe Jane) através de mecanismos artificiais.

O primeiro deles é um projetor Super 8 em que o irmão de Travis, Walt (hoje em dia criando o menino Hunter como se fora seu filho) exibe cenas dos tempos em que a família vivia unida, digo, Travis, Jane e o pequenino Hunter. É vendo essas cenas do passado que Hunter começa a desejar aproximar-se de um pai de quem mal lembrava, figura esquisita que sequer admira.

O segundo é uma vitrine de peep show. Não vou contar detalhes, mas, o encontro entre Travis (Harry Dean Stanton) e Jane (Natassjia Kinski) – ela hoje uma stripper em Houston, – também ocorre através da artificial mediação dessa vitrine, que permite que ele a veja, sem que ela o veja. Vocês lembram a cena, não é? Ele paga para ver o show e, anônimo por trás da vidraça, vai contando, sem dizer nomes, uma longa estória, que é a deles dois, o começo da paixão, as crises de ciúme, o holocausto da separação… Naturalmente, o anonimato vai se esvaindo em cada nova frase enunciada.

O terceiro elemento artificial e mediador dos encontros é um walkie-talkie que pai e filho manuseiam… para localizar a esposa/mãe perdida na selva de pedra de Houston.

Travis e o pequeno Hunter, refazendo o passado.

Travis e o pequeno Hunter, refazendo o passado.

Se você quiser, acrescente um quarto elemento, o mapa do Estado, que vem à tona na cena em que Travis diz ao irmão que gostaria de ir a Paris. O irmão, cuja esposa é francesa, toma um susto, mas Travis estava se referindo (e é isto que intitula o filme) a uma cidade do estado do Texas onde a sua genitora nasceu, e que tinha o mesmo nome da capital francesa.

A rigor, “Paris, Texas” é um filme sobre buscas. Busca de lugares, busca de pessoas – num plano mais lato, busca de identificação entre culturas diferentes, a europeia e a americana. Mas, evidentemente, a busca maior é a interior, a de Travis, que, no decorrer do enredo, se reencontra consigo mesmo, embora isto não lhe traga propriamente felicidade pessoal.

Disse acima que “Paris, Texas” tem a estrutura de um melodrama. Não sei o que estava na cabeça dos roteiristas ao escreverem, porém, ele remete claramente a um outro filme, de diretor também alemão (F. W. Murnau), também rodado na América, e também um grande melodrama. Os cinéfilos que me leem sabem que estou falando do mudo “Aurora” (“Sunrise”, 1928) – estória da reconciliação de um casal que quase se afoga no lago tenebroso do crime e da culpa.

Aliás, outro que estaria entre os meus cem melhores do Século XX.

Quando a paisagem é personagem...

Quando a paisagem é personagem…

 

Liv e Ingmar

29 maio

Perdi no cinema, mas agora vejo na televisão paga este “Liv & Ingmar” (2012), documentário sobre os muitos anos de convívio entre a atriz de origem norueguesa Liv Ullman e o cineasta sueco Ingmar Bergman – um belo filme com algumas surpresas.

Creio que a primeira surpresa do espectador, sobretudo do fã de Bergman, é que, ao contrário do clima pesado da obra do diretor sueco, o filme é suave, leve a agradável – afinal de contas, apenas a estória de um caso de amor que, se teve os seus momentos difíceis, terminou em perene e tranqüila amizade. Como diz a sua epígrafe, ´a estória de dois amigos´.

"Liv & Ingmar: uma das belas cenas de arquivo

“Liv & Ingmar”: uma das belas cenas de arquivo

Em ordem mais ou menos cronológica, o relato todo é feito por uma Liv Ullman madura, serena e bastante divertida, que relembra os bons momentos do casal, o nascimento da filha, algum acidente de filmagem, e as eventuais crises, com algum senso de humor. Com extrema simplicidade e delicadeza, ela revisa, saudosa mas pacífica, o passado e a estória que nos conta, à parte as respectivas profissões dos dois, parece a de um casal comum, com os mesmos altos e baixos de qualquer relação amorosa.

Pois é, quem estiver pensando que vai mergulhar no obscuro e terrível fundo do poço do autor de “Persona” está enganado.

O filme está dividido em capítulos que se iniciam, cada um, com uma palavra-chave, e, de fato, um deles se chama “Ódio”, porém, Liv não vai a fundo no sentimento, sendo sempre metonímica no relato de agressões e violência, estas por sua vez, mostradas apenas na forma de ficção cinematográfica (veja adiante).

Talvez a segunda surpresa do cinéfilo bergmaniano seja a de que não há análises aprofundadas, semióticas e/ou filosóficas, dos filmes de Bergman, nem revelações preciosas sobre os processos criativos do cineasta, e muito menos da atriz. O que aliás, já está indicado no título original do filme, com os nomes dos dois protagonistas sozinhos, sem sobrenomes.

Um trio famoso: Bibi, Liv e Ingmar

Um trio famoso: Bibi, Liv e Ingmar

O que não quer dizer que não vejamos cenas dos filmes de Bergman. Além das esperadas fotos de arquivo, as cenas dos filmes costuram sempre a fala de Liv e, mais que isso, a comentam. Este é, na verdade, o lado mais criativo e menos documental do filme. Sim, quase sistematicamente, o diretor Dheeraj Alkokar faz com que o tópico momentaneamente tratado na fala da atriz seja “visto” em cenas dos filmes bergmanianos, estas naturalmente escolhidas a dedo. Convenhamos, uma boa saída para demonstrar o quanto de biográfico porventura houve/há na filmografia do autor de “Morangos silvestres”.

O resto são, em tomadas atuais, as belas paisagens da ilha de Faro – onde o casal residiu e onde lhes nasceu a filha – e do litoral sueco, espaços revisitados por Liv Ullman no final do filme, seguramente uma exigência do roteiro – e uma exigência que deu certo.

Em resumo, as informações novas para o espectador em “Liv e Ingmar” dizem respeito apenas ao lado pessoal do casal famoso, aquele mesmo tipo de informação que se acha em livros biográficos e em revistas do show business.

O cineasta Ingmar Bergman

O cineasta Ingmar Bergman

Quem salva tudo do puro mexerico é a própria Liv Ullman que narra sua estória de vida junto a Bergman com sabedoria, bom senso, amor e saudade, nisso ajudada, claro, pela mise-en-scène do diretor que soube escolher bem as cenas fílmicas certas para os episódios biográficos certos. E que, com certeza, soube cortar o que, no longo depoimento da protagonista, porventura não casasse com esse clima de homenagem lírica e saudosa.

Obviamente, o Bergman que vemos em “Liv & Ingmar” é o que Liv Ullman viu, ou o que ela e o diretor Akolkar viram juntos, mas, nem por isso, o filme é menos interessante. Ou, quem sabe, talvez por isso mesmo seja ainda mais interessante. Enfim, aquela estória da grande mulher por trás de todo grande homem.

No seu métier Ingmar Bergman foi um dos gênios do século XX, um dos cineastas que mais contribuíram para conceder ao cinema o estatuto definitivo de arte.

Ver um filme desses, simples, pessoal e afetuoso, sobre uma faceta de sua vida, é comovente e, inevitavelmente, nos enche de nostalgia dos bons tempos – anos cinquenta e sessenta – quando esperávamos ansiosos para assistir, nas telas locais, a cada uma das obras primas de Ingmar Bergman, algumas das quais com o desempenho magnífico e a beleza de sua companheira de vida e profissão, Liv Ullman.

Saudades.

A atriz Liv Ullman, relembrando o passado.

A atriz Liv Ullman, relembrando o passado.

A visita

3 abr

Imaginem uma cidade pequena, digamos, nos anos trinta ou quarenta. Vivendo uma aventura amorosa, essa mocinha pobre e ingênua engravida do rapaz que ama. Acontece que, já comprometido com uma garota mais abastada, o rapaz forja, com a ajuda de amigos, uma farsa para se livrar do problema. Sem meios e sem apoio, a mocinha pobre, coberta de vergonha e decepção, vai embora, para uma cidade maior, onde, depois de abortar, é forçada a abraçar a profissão de prostituta.

Por sorte, um dia conhece um senhor mais idoso, um magnata do petróleo que, fascinado com sua beleza, a pede em casamento, e ela vai viver uma vida de tranqüilidade e luxo. Ocorre, porém, que ela nunca esqueceu o passado.

Décadas mais tarde, o magnata morto, a viúva milionária retorna à cidadezinha de sua origem, com um só intento na cabeça: exterminar o homem que, trinta anos atrás, a engravidara e traíra, hoje um senhor respeitado.

Querem enredo cinematográfico mais arrebatante? Mais ainda se você considerar que quem faz a vingativa senhora Karla Zachanassian é ninguém menos que Ingrid Bergman, e que o seu algoz no passado e vítima no presente, Sr Serge Miller, é ninguém menos que Anthony Quinn.

the visit poster

Dirigido pelo alemão Bernard Wicki em 1964, o filme se chama “A visita” (“The visit”), ou, alternativamente, ´A visita da velha senhora´, título da peça adaptada. Coprodução internacional (Alemanha, França, Itália, Estados Unidos), distribuído pela Fox, ainda inclui no elenco a grande Valentina Cortese no papel da esposa perplexa de Miller.

Eu vi o filme no Plaza ao tempo de sua estreia local e nunca esqueci. Lembro que, com um entusiasmo sempre renovado, o contei e recontei a meus filhos e outras pessoas, em várias ocasiões. Agora ele me cai nas mãos em DVD.

Para tornar o drama mais lancinante, a rica Sra Zachanassian chega à pequena Golan com um plano bem definido – primeiro, promete aos habitantes locais uma quantia fabulosa de dinheiro que vai, uma parte para a prefeitura, e a outra, para cada cidadão; em segundo lugar, coloca suas condições: que, em tribunal popular, se leve o caso do Sr Miller a julgamento e que o resultado seja a condenação e sumária execução.

Ingrid Bergman como a Senhora idosa em A Visita

Ingrid Bergman como a Senhora idosa em A Visita

De início os habitantes do lugar protestam, mas, quem é que não quer dinheiro, sobretudo se for muito? Aos poucos, os amigos vão hostilizando Miller, e no final… bem não vou contar o final.

Digo apenas que a estória (que começa com a chegada da ´visita´) nos é narrada como se fôssemos um dos habitantes do lugar, mas um não identificado. De modo que ´a visita da velha senhora´ permanecerá, por algum tempo de projeção, como um mistério. Segundo os comentários locais, ela vivera aqui, mas, por que retorna, por que tão rica e o que pretende?

A instância narradora tem o cuidado de sonegar as informações diegéticas que ´matariam a charada´ antes do tempo, e de só as fornecer em doses compassadas, sempre em ritmo geométrico. Ao vermos, por exemplo, a Sra Zachanassian e Miller juntos, em cenas quase íntimas, um pouco antes de ela formular suas intenções para a cidade, supomos alternativas para o desenvolvimento da estória bem diferentes das que vão se seguir.

Anthony Quinn, o alvo da vingança em A Vsita

Anthony Quinn, o alvo da vingança em A Vsita

Quando esse desenvolvimento vai despontando, o que mais dói é acompanhar a derrocada moral de Miller, que começa com os fregueses de sua loja descaradamente comprando fiado… porque sabem que não vão ter a quem pagar: afinal de contas, muito brevemente, o proprietário vai estar morto. Sua primeira crise explícita é quando ele se dá conta disso e, emocionalmente descontrolado, lança as mercadorias na rua… Aquele momento em que confessa à esposa que casara com ela por interesse é um clímax de desespero. Em outras palavras, trata-se de um filme sobre vingança, mas também de um filme sobre culpa. Insisto em não contar o que ocorre pós-tribunal, mas, garanto, esse último turning point confirma a duplicidade da temática.

Confesso, porém, que gostei mais de “A visita” quando o vi pela primeira vez. Hoje o acho meio arrastado, sem o nível de suspense que, com o passar do tempo, minha memória de cinéfilo lhe atribuíra. Sem dúvida nenhuma, o filme que – visto quase cinquenta anos atrás – tantas vezes contei aos amigos e parentes tinha mais impacto e mais vigor.

Em outras ocasiões já tratei do fato de certos filmes serem, em termos qualitativos, menores que elementos de sua própria constituição, como: uma cena, uma sequência, a música, o elenco, a fotografia, etc. De “A visita” suponho poder dizer que ele é menor que seu enredo. Não muito, mas é.

Bergman e Quinn em cena de A Visita

Bergman e Quinn em cena de A Visita