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Grande sertão

24 set

Ao ler minha matéria “Cinquentões em 2015”, um amigo me perguntou por que, no parágrafo dedicado aos filmes brasileiros, não incluí “Grande Sertão” (1965), a adaptação do romance de João Guimarães Rosa.

Minha justificativa foi simples: não conhecia o filme.

Não sei em que plagas o amigo viu “Grande sertão”, mas, que eu saiba não foi exibido localmente, e não aparece como referência na bibliografia de cinema da época. Sequer está citado no fundamental “História do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos. Em suma não creio que essa realização dos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira tenha sido importante no contexto do seu tempo, o do Cinema Novo Brasileiro.

De todo jeito, depois do toque do amigo, fiquei atento a sua existência, até porque “Grande sertão: veredas” é um dos meus romances prediletos, sobre o qual, aliás, escrevi longo ensaio, analisando o seu uso curioso de foco narrativo, ensaio publicado no suplemento “Augusto”, do Jornal da Paraiba, com o título de “O narrador incauto” (2006).

Cena de "Grande sertão" (1965).

Cena de “Grande sertão” (1965).

Agora, afinal me deparo com cópia em DVD do filme “Grande sertão” e vejo a chance de, se fosse o caso, reparar uma lacuna.

Ora, depois de assistir ao filme, dou-me conta de que, ainda que já o conhecesse quando redigi a matéria sobre os cinquentões de 2015, não o teria incluído.

Irrisória é o mínimo que pode ser dito dessa adaptação, que tenta pegar duas caronas ao mesmo tempo: na força de um romance publicado havia apenas nove anos (o livro de Guimarães Rosa é de 1956), e no tema do cangaço que chamava a atenção para o cinema brasileiro, desde “O cangaceiro” de Lima Barreto (1953), passando por “Deus e o diabo na terra do Sol” de Glauber Rocha (1963), e outros mais.

Para casar as duas coisas, digo, importância literária do romance e apelo popular do tema, os roteiristas bolaram um enredo que só nos nomes dos protagonistas lembra o original adaptado.

Todo mundo sabe que o melhor do romance rosiano está na ambiguidade da situação Riobaldo/Diadorim, sustentada até o desenlace. Pois, no filme, essa ambiguidade se evapora no ar, junto com a poeira das muitas cavalgadas dos muitos jagunços que enchem a tela o tempo todo.

Vocês não vão acreditar, mas, bem antes da metade da projeção, Diadorim, ferido, (a atriz Sônia Clara) é socorrido por Riobaldo (Maurício do Valle) que, abrindo sua camisa para tratar do ferimento, lhe descobre os belos seios. E em todo o restante da estória – mais da metade do filme! – o par vira o casal comum, homem e mulher, como em qualquer filme de amor. Apenas Diadorim pede ao amado que não revele o seu sexo aos outros jagunços, e o segredinho é mantido até o final.

Final que é um pouco mais ridículo, quando a luta para vingar o pai de Diadorim, como num faroeste americano, toma o formato de um duelo: Diadorim e o rival mor se digladiam em praça pública em mal encenada luta de faca, enquanto Riobaldo, desfalecido, nada pode fazer para salvar a amada.

As cavalgadas intermináveis...

As cavalgadas intermináveis…

Eu sei, eu sei: em adaptação cinematográfica fidelidade não garante nada. Mesmo infiel ao livro, o filme poderia ter sido bem sucedido esteticamente. O problema é que não foi.

Uma curiosidade sobre o filme de Geraldo e Renato Santos Pereira: hoje quem lê os créditos de “Grande sertão” se intriga com o fato de que, rodado e lançado – não esqueçamos – em 1965, apresenta-se como uma produção da Vera Cruz, quando se sabe que a famosa companhia paulista estava aposentada, e supostamente de portas fechadas, desde 1954.

Pois esse dado termina sendo sintomático para entender o filme e, eventualmente, julgá-lo. Sua estética é, sim, em tudo uma “estética vera cruz”, o que significa dizer que, como o fez a companhia paulista, imitava de modo subserviente, o estilo hollywoodiano de fazer cinema.

Daí o seu ar meio démodé – certamente já notado na estreia – , que não deu certo com o espírito pretensamente revolucionário do Cinema Novo, e muito menos ainda com o espírito mágico e imaginativo do romance adaptado.

Para não dizer que não haja lucro no consumo do filme “Grande sertão”, digamos que consiste numa “curiosidade”.

Interessante para historiógrafos, mas um aborrecimento para o espectador comum.

Em tempo: na recente edição em DVD, o filme de Geraldo e Renato Santos Pereira foi reintitulado como o romance adaptado: “Grande sertão: veredas”.

A capa do DVD, com ênfase em

A capa do DVD, com ênfase em “Veredas”, palavra inexistente no título original do filme.

Walesa

19 fev

Quem ainda lembra Lech Walesa, o líder polonês que, nos anos setenta e oitenta, revolucionou o país com o movimento operário “Solidariadade” e, pela coragem de desafiar o regime soviético, ficou conhecido no mundo inteiro?

Pois é, ironicamente, depois do prêmio Nobel e da presidência, Walesa saiu da berlinda e dele não temos tido notícias há anos.

Agora o vejo biografado no filme de um cineasta tão “desaparecido” quanto ele. Introduzido à programação da televisão paga, o filme é “Walesa” (2013) e o diretor é o grande Andrzej Wajda, considerado pela crítica o maior cineasta da Polônia em todos os tempos.

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Pelo roteiro, algum tempo depois do sucesso do “Solidariedade”, Walesa relata a uma jornalista italiana a sua vida de operário, desde o tempo em que não passava de um pobre pai de família, empregado nos estaleiros de Gdansk, até a liderança do movimento.

Na medida em que Walesa fala, as imagens substituem sua voz e aí passamos a ver os fatos como supostamente teriam acontecido: as muitas prisões, as seguidas demissões, os problemas domésticos, a querela com os poderosos, o catolicismo, a ascensão vertiginosa como líder em Gdansk e no país, etc…

Se o retrato fílmico do personagem for fiel, Walesa foi um líder inato, um pai de família dedicado, um cidadão consciente, mas, um pensador simplório, empírico, avesso a conceituações, e às vezes autoritário e arrogante por trás de seu cigarro sempre aceso.

Uma cena recorrente costura bem o lado privado do personagem com o público: nas muitas vezes em que a polícia batia em sua porta, Walesa, sabendo que o paradeiro de um prisioneiro era sempre incerto, tinha sempre, antes de entregar-se, o cuidado de deixar com a esposa, Danuta, seus pertences de mais valor, um relógio e um anel, para que ela vendesse, no caso de ele não mais voltar.

Cena do filme: as repetidas prisões.

Cena do filme: as repetidas prisões.

Numa dessas vezes em que é procurado pelos agentes, a família inteira, e mais a vizinhança, assiste na televisão caseira, o seriado americano que fez sucesso nos lares europeus da época, “Rich man, poor man”, com, entre vários outros astros de Holllywood, Dorothy Malone e Ray Miland – um pequeno sintoma de que o capitalismo exercia sua atração num país comunista.

Com o sucesso do movimento operário, quando Walesa retorna daquele que seria seu último cárcere, a cena em que a esposa, orgulhosa de si mesma e dele, lhe devolve o relógio e lhe põe no dedo de volta o anel de casamento… é quase um happy ending de seriado americano…

Trata-se de um filme importante por reconstituir uma parte da história do Século XX, porém, para dizer a verdade, nele não há novidades. Mesmo para quem não conhecia de perto a carreira de Walesa, o filme soa como algo previsível, conferindo com o que se imaginava da vida de um grande líder político, e pronto; não há choques, nem surpresas, nem impactos, muito menos arrebatamentos.

No fundo, é só uma homenagem – mais que merecida, é verdade – ao líder polonês que fez história… mas é só isso. Um filme que se vê por curiosidade (meu caso) e depois – suponho – se esquece.

A previsibilidade de “Walesa” incomoda mais ainda a quem conhece a brilhante carreira do diretor Andrzej Wajda. Hoje com 88 anos de idade, Wajda foi o representante do cinema polonês no mundo, bem antes de Polanski e Kielowski.

Um pôster que mostra Walesa e a esposa, Danuta.

Um pôster que mostra Walesa e a esposa, Danuta.

Sem dúvida nenhuma, o filme em questão está longe de ter a força e a beleza que marcaram os filmes que Wajda rodou no passado, começando nos anos cinquenta, primeiramente sob a influência do neo-realismo italiano, e mais tarde, encontrando o seu particular caminho estilístico, onde temário e plástica se confundiam de modo genial. Refiro-me a filmes belos e fortes como “Canal” (1957), “Cinzas e diamantes” (1958), “Terra prometida” (1975), “O homem de mármore” (1977), “O homem de ferro” (1981), “Um amor na Alemanha” (1983)…

Lembro que, no meu primeiro texto publicado sobre cinema, (Revista Oficina, 1981) incluí “O homem de Ferro” no rol dos filmes que cabiam no paradigma de, sendo disfóricos, terminarem com uma cena “de esperança”, no caso, a primeira pedra lançada pelos trabalhadores contra a janela envidraçada dos patrões – uma promessa de mudança num filme que mostrava o desabrochar das lutas operárias no país. Outros filmes com final de alguma forma “esperançoso”, mutatis mutandis, eram: “A fonte da donzela” (Bergman), “Noites de Cabíria” (Fellini) e “Deus e o diabo na terra do sol” (Glauber Rocha).

Enfim, depois disso, a filmografia de Wajda parece ter perdido o vigor; ao menos é o que sugere esse simpático mas burocrático “Walesa”.

O Walesa verídico, no tempo do "Solidariedade"

O Walesa verídico, no tempo do “Solidariedade”