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“Eu, Daniel Blake”: pobres no Primeiro Mundo

2 maio

Na Inglaterra de hoje, o viúvo Daniel Blake, marceneiro de 59 anos, residente em Newcastle, foi acometido de um problema cardíaco e, segundo seu médico, não poderia trabalhar. Legalmente como fica a sua situação profissional?

Ao ir atrás de seus direitos de cidadão que paga impostos, Daniel vê-se metido em um sistema mais confuso e perverso do que aquele que está descrito em certo livro de Franz Kafka – situação agravada pelo fato de pertencer ele a uma geração que não se familiarizou com computadores, celulares e demais recursos eletrônicos.

A frieza dos atendentes nas repartições públicas, só comparadas às das vozes gravadas nos telefones, ou às das páginas virtuais nos computadores, vai minando sua paciência, até um ponto insuportável para um homem de idade e doente. Ninguém o ajuda e quem tenta – como uma certa funcionária, também idosa, que dele se compadece – é admoestado pelos superiores.

Ninguém ajuda Daniel, e, no entanto, ele ajuda outros, aparentemente mais desesperados que ele, caso dessa jovem que perdera o teste para emprego porque, arrastando dois filhos pequenos, chegara atrasada. Mãe solteira, Katie já vem de Londres onde morava num albergue público insalubre. Agora em Newcastle, a situação de penúria continua, mas, o encontro casual com Daniel lhe sugere que nem tudo está perdido. Pelo menos que ainda existe solidariedade humana.

Apesar da solidariedade recíproca, os casos de Daniel e Katie, cada um a seu modo, vão se agravando até um ponto… Bem, não conto o resto para não estragar o prazer de quem ainda não viu o filme do veterano diretor inglês Ken Loach “Eu, Daniel Blake” (2016)

Como vivem os pobres no Primeiro Mundo? Claro, um dos aspectos interessantes do filme de Ken Loach é que estamos num país supostamente rico, e, mais, numa das democracias mais consolidadas do planeta. Para o espectador desavisado, constatar como os sem teto e, sobretudo, os idosos, são tratados pelo sistema inglês pode ser estarrecedor. Se a estória se passasse no Brasil…

À parte esse tom, aliás, bastante forte, de denúncia, o filme convence como cinema, envolve e empolga. Ainda que de modo simples e direto, o enredo é efetivo em desenvolver a estória por etapas, cada nova etapa com uma pitada de gravidade acrescentada, e, isto feito em paralelo: de um lado, o drama de Daniel (um atrapalho no uso do computador, um não recebido de um funcionário…), do outro, o de Katie e seus filhos (um azulejo quebrado, um sapato puído…). Naturalmente, com pontos de toque em momentos sintomáticos, para indiciar bem a construção de uma amizade.

Os personagens são desenvolvidos com inspirada competência, e nos passam com naturalidade a verdade humana que encarnam. Novato no cinema, o ator Dave Johns está excelente no papel-título, e a atriz Hayley Squires não fica a dever como a sofrida mãe Katie. Até dos atores mirins se conseguem bons desempenhos.

Dois momentos particularmente dramáticos constituem turning points que, na mão de um cineasta menos experiente, se tornariam, um piegas, o outro, ridículo. Refiro-me primeiramente àquela cena em que Daniel, descobrindo, indignado, a opção de Katie pela prostituição, a visita no bordel e os dois, constrangidos entre as quatro paredes de um quarto, mal falam oprimidos pelas lágrimas.

O segundo momento é quando Daniel, completamente desiludido com relação à (im)possibilidade de resolver seu caso burocraticamente, e insanamente movido por puro desespero, toma a atitude drástica de pichar a parede do prédio da repartição com palavras de ordem, entre as quais a que intitula o filme.

A ninguém escapa o jeito documental de “Eu, Daniel Blake”. Consta que, bem antes da concepção do argumento, Ken Loach e o seu comparsa de sempre, o roteirista Paul Laverty, procuraram o auxílio de empregados do Sindicato de pensão e trabalho. As entrevistas e as informações fornecidas por esses empregados – cujos nomes, evidentemente, não puderam aparecer nos créditos – é que serviram de base para a estrutura narrativa ficcional do filme. Algumas cenas foram mais ou menos improvisadas, caso da visita de uma Katie faminta ao Banco de alimentos: a senhora que a atende sabia que estava sendo filmada, mas não sabia o que ia acontecer com Katie logo em seguida: o gesto extremo de abrir a lata de conservas, engolir o conteúdo e desesperar-se, envergonhada.

Em Cannes, 2016, “Eu, Daniel Blake” foi ovacionado durante quinze minutos. Levou a Palma de Ouro, aliás, a segunda na carreira brilhante de Ken Loach, cineasta idoso ele mesmo (81 anos) que sempre soube resistir aos encantos de Hollywood. E convites não lhe faltaram.

Um filme comovente, sobre vários tópicos que se tocam: a terceira idade, a exclusão social, o desemprego, a desigualdade, a miséria, a humilhação, o desespero, a perda da dignidade, o protesto impotente, mas, sobretudo, a solidariedade.

Recomendo.

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Sr. Sherlock Holmes

21 abr

Quem iria querer imaginar o seu ídolo idoso e doente? Por exemplo, Tarzan velhinho sem poder trepar em seus cipós? Ou Roy Roger alquebrado sem conseguir montar o seu cavalo?

O escritor inglês Mitch Cullin fez isso com Sherlock Holmes. No seu livro “A slight trick of the mind” (´Um ligeiro truque da mente´), imaginou-o aos noventa e dois anos, já no final dos anos 1940, atacado de demência, vivendo quase isolado no condado de Sussex, tentando desesperadamente lembrar-se de seu último caso… e sem conseguir. E isto, sem a ajuda de seu amigo Watson, já falecido havia anos.

O diretor americano Bill Condon gostou tanto da estória desse Holmes gagá que resolveu filmar.

mr holmes 1

O filme “Sr Sherlock Holmes” (2015), no original “Mr Holmes”, acaba de ser lançado em DVD e pode ser uma boa pedida para um confronto com as outras tantas versões cinematográficas sobre a vida do personagem de Conan Doyle.

Seguindo o livro, o filme mostra um protagonista com perda constante de memória e seu mundo mental é, portanto, um tanto e quanto nebuloso, com retrocessos e avanços temporais que nem sempre se encaixam.

Quem é aquela mulher de comportamento estranho e hostil? Por que faz túmulos para filhos inexistentes? Por que o marido contrata os serviços de um detetive? Por que uma vidente é procurada? O que faz ela sozinha, sentada num banco de praça? O que significa a imagem de uma abelha sobre sua luva branca?

De alguma maneira, essa nebulosidade é transferida para o filme, e, ao espectador, dá trabalho juntar as peças e entender o que de fato aconteceu no misterioso último caso do Sr Sherlock Holmes. Sabemos apenas – e isto é um agravante sério, do ponto de vista dramático – que este caso foi decisivo para o nosso personagem isolar-se do mundo, cheio de remorso e culpa, sentimentos que ele, amargurado, curte sem conhecer a causa.

mr holmes 2

“Doença e morte são banais: raro mesmo é a lógica” – ensina o velho Holmes ao seu companheiro infantil e fã, o filho da empregada na casa de campo de Sussex. Só que a lógica teima em não funcionar e, quando funciona, no desenlace, é só para provar que, mais que ela, valem os sentimentos.

Sim, é que, ao contrário dos muitos casos investigados pelo famoso detetive, este último o envolveu, emocionalmente, com a mulher casada que ele investigava a pedido do marido. Não vou contar a estória para não estragar o prazer de quem quer ver o filme de Condon.

Permitam-me apenas citar o próprio Holmes, naquele momento em que, achando-se satisfeito com a solução que encontrou para o seu enigma, filosofa: “One shouldn´t leave this life without a sense of completion” / “Ninguém devia deixar esta vida sem um sentido de compleição”.

Com ou sem compleição, o filme é, plasticamente falando, uma delícia para os olhos, cenário limpo e elegante como uma fleumática casa inglesa. Se, obedecendo à temática, a montagem é confusa, a fotografia, ao contrário, é límpida, nítida, clara, como um cartão postal.

As interpretações são ótimas e o velho e enrugado Ian McKellen oferece um desempenho magnífico. Não fica atrás Laura Linney, como Mrs Munro, a empregada sempre desconfiada de seu patrão; como também o garoto Milo Parker, no papel de Roger, o filho da empregada, apaixonado pelas teorias de Holmes e cuidador de seu apiário.

mr holmes pro face 1

A trilha sonora de Carter Burwell (músico de “Fargo”, “Quero ser John Malkovich” e “Crepúsculo”) desempenha um papel fundamental, lembrando às vezes – e com motivo justificável – o tema musical de Bernard Herrman em “Um corpo que cai”. Aliás, outras referências hitchcockianas são visíveis, por exemplo, quando a misteriosa investigada Ann Kelmot se detém na frente de uma loja de couros que se chama Ambrose Chapel, o mesmo nome – vocês lembram – que está em “O homem que sabia demais”.

Do jovem cineasta novaioquino Bill Condon, eu conhecia apenas dois filmes que, aliás, tive o prazer de comentar nesta coluna. “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), de 1998, ficcionalizava a vida do diretor americano James Whale, autor de alguns bons horror movies dos anos trinta; e “Kinsey – vamos falar de sexo”, de 2004, sobre o sexólogo americano que, nos anos cinquenta, lançou um livro que mudaria o comportamento de gerações.

Mas, voltando ao filme em questão, se porventura você é um leitor entusiasta de Conan Doyle e não está a fim de ver o seu ídolo decadente, veja outra coisa. “Sr Sherlock Holmes” não é obrigatório.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

Quatro homens em uma jangada

10 dez

 

Esta semana o Canal Brasil mostrou uma raridade cinematográfica: “É tudo verdade”, documentário sobre o filme que, em 1942, o cineasta americano Orson Welles veio rodar em solo brasileiro.

Já escrevi várias vezes sobre o assunto, mas, creio que vale a pena relembrar o caso dessa filmagem conturbada e seu resultado surpreendente.

Sob os auspícios do governo americano, o autor de “Cidadão Kane” (1941) é enviado ao país do carnaval, para, de alguma forma, influir na política da boa vizinhança: na ocasião, Getúlio Vargas pendia para o lado nazista e isso precisava ser evitado.

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A idéia era filmar o carnaval carioca, e o Wonder Boy recebeu apoio de muita gente boa do meio cultural carioca, entre outros, Vinicius de Moraes, Grande Otelo, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, e até o então criança Pery Ribeiro, filho do casal citado, participou das filmagens.

Filmagens à parte, porém, o jovem Welles meteu-se em farras homéricas no Rio de Janeiro e comeu, entre outras coisas, o orçamento do projeto. Somente depois de pressionado pela Fundação Rockfeller (fomentadora do projeto) é que Welles resolveu dar uma trégua a suas farras cariocas e trabalhar. De repente, como um náufrago desesperado, agarrou-se à ideia de recontar a viagem verídica, noticiada em jornal, que quatro jangadeiros cearenses haviam feito, do Ceará ao Rio, para exigir do presidente os direitos trabalhistas que não tinham.

Welles mandou-se para o Ceará e, com um roteiro improvisado, poucos recursos técnicos, e atores não profissionais, rodou o filme possível, que chamou de “Four men on a raft” (´quatro homens em uma jangada´). Por azar, ao chegar ao mar bravio de Copacabana, um dos jangadeiros, o “Jacaré”, morre afogado… A morte de Jacaré termina de consumar o desastre que foi a estada de Welles entre nós. O filme é engavetado pela RKO e fica o assunto encerrado.

A jangada cearense e sua viagem

A jangada cearense e sua viagem

Muito tempo depois, anos noventa, o cineasta já falecido, três pesquisadores americanos, Richard Wilson, Myron Meisel e Bill Khron, vasculham os arquivos hollywoodianos e encontram os rolos do trabalho brasileiro de Welles. Acrescentam filmagens documentais de sua aventura brasileira, e montam o filme a que dão o mesmo título do projeto original “It´s all true” (1993).

Mas, claro, o mais interessante no filme do trio Wilson, Meisel e Khron é o filme que Welles conseguiu fazer com os jangadeiros cearenses, em si mesmo inteiro e autônomo.

Em belo preto-e-branco, a estória começa em uma aldeia de pescadores, numa praia do litoral cearense. Nessa aldeia, dois jovens – ela, filha de pescador, ele, também pescador – iniciam uma amizade que se transforma em amor e, com o consentimento dos pais, decidem casar. Toda a cerimônia de casamento é mostrada, da qual, naturalmente, participa a aldeia inteira, todos habitantes do lugar que, como os dois protagonistas, desempenham papéis ficcionais.

Welles em ação

Welles em ação

Pouco tempo após a lua de mel, vem o desastre. Pescando em alto mar, o rapaz desaparece, e mais tarde, à beira-mar, entre pedras, areia e ondas fortes, uma garotinha encontra o cadáver.

Belíssimas são as tomadas que mostram o cortejo do enterro, subindo, em fila, as dunas, até o cemitério. Belíssimos são os closes que mostram os rostos enrugados dos habitantes do lugar, entristecidos com a morte do jangadeiro e com a situação da jovem viúva que, sem direitos legais, nada tem a herdar, só a dor e a solidão.

É então que a comunidade decide que quatro jangadeiros deveriam navegar mar afora até a capital federal, para exigir de Getúlio o direito à pensão e à aposentadoria. E mais beleza se tem com a encenação da viagem por mar, a precária jangada com sua vela ao vento contornando a costa brasileira.

Rostos brasileiros na tela de Welles

Rostos brasileiros na tela de Welles

Se o projeto como um todo, digo, o da estada de Orson Welles no Brasil, foi um fracasso, o mesmo não pode ser dito de “Quatro homens em uma jangada”, filme emocionante que atesta o talento de um gênio do cinema.

A propósito de fracasso, em “É tudo verdade” está incluído um depoimento curioso de Orson Welles. Conta ele que, já estourado o orçamento do projeto, recebe a visita de um grupo de favelados que trabalhavam com “Voodoo” (ele quis dizer ´umbanda´), a quem ele havia prometido uma ampla participação no filme a ser feito. Explica-lhes que não havia mais dinheiro para a produção, quando o telefone toca. Vai atender e ao retornar à sala, o pessoal da umbanda, irritadíssimo, tinha ido embora, mas não sem antes perfurar com agulhas o roteiro do filme, que estava sobre a mesa. Segundo Welles, amaldiçoado pelo “voodoo” brasileiro, o projeto jamais poderia ter dado certo.

Ora, é o gênio do cinema fazendo ficção. Mais uma…

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.