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PARCERIAS

27 out

Nos velhos tempos da Hollywood clássica, o elenco de um filme era escolhido a partir de decisões dos estúdios, e essas decisões, claro, eram sempre de natureza mercadológica. De forma que qualquer diretor podia, de repente, se ver trabalhando com qualquer ator ou atriz, independente da vontade dos dois. E pior, diretor e ator/atriz podiam não alimentar simpatias recíprocas.

O que era um problema, por uma razão simples: a rigor, o diretor não faz só uma coisa; faz duas coisas, parecidas mas não iguais: dirige o filme e dirige os atores. Tanto é que a expressão “direção de atores” é um item do cardápio fílmico a considerar em qualquer julgamento. Um filme pode estar bem dirigido, com um elenco eventualmente mal dirigido. Ou ter um elenco bem dirigido e estar mal dirigido no todo.

Como se sabe, um acidente bem conhecido na história da produção cinematográfica é o do “miscasting”, termo que define a situação nada interessante de um ator/atriz, talentoso ou não, que foi escalado para o elenco de um filme, sem ter o “physique du rôle”, isto é, o perfil para o papel.

Bem conhecidos são certos casos em que atores ou atrizes impostos ao elenco de um filme, querendo ou não, criaram, ou tiveram, problemas no andamento das filmagens. Ou então era o diretor insatisfeito quem criava, ou tinha, os problemas. Para dar um único exemplo, nos bastidores de “Um corpo que cai”, Kim Novak e Hitchcock se suportaram como puderam.

Kim Novak e Alfred Hitchcock, filmando Um corpo que cai.

Houve, porém, as exceções, tantas, aliás, que quando revistas parecem a regra. Até porque quando um ator ou atriz dava certo com o diretor, e o filme porventura se saía bem na bilheteria, os próprios estúdios investiam naquele par, digo, diretor + ator ou atriz. Um caso assim foi com Errol Flynn, que, nos anos trinta deu tão certo com o diretor Michael Curtiz que, com o endosso dos produtores, os dois passaram a rodar toda uma série de filmes de aventura, doze ao todo. Lembrando que à dupla juntou-se um terceiro elemento, a atriz Olivia de Havilland.

Para a formação da dupla diretor + ator/atriz, outro fator ocorria quando o diretor, pelo seu talento ou conquista de Oscars, adquiria cacife e, assim, podia mandar na escolha do elenco. Neste caso, se formavam as “parcerias”, fenômeno de que pretendo tratar nesta matéria.

Espontâneas ou forçadas, o fato é que as parecerias sempre aconteceram ao longo de toda a história do cinema, desde seus primórdios, ao tempo em que o cinema ainda era mudo, e não apenas em Hollywood.

A parceria mais antiga a ser citada é a de um dos primeiros cineastas do mundo, o francês George Méliès, que, entre os anos de 1904 e 1911, usou em seus filmes nada menos que treze vezes a então jovem atriz Fernande Albany. Outro pioneiro, o americano D. W. Griffith, aliás, considerado o fundador da linguagem cinematográfica, trabalhou onze vezes com a bela atriz Lillian Gish. Ainda na fase muda, não se pode deixar de mencionar o “casamento” entre o diretor Clarence G. Badger e a atriz Gloria Swanson, que juntos fizeram pelo menos dez filmes.

Jean-Luc Godard e Anna Karina, oito filmes…

Estes são exemplos do cinema mudo, quando sequer o Oscar existia, mas, o fenômeno do “casamento” entre diretor e ator/atriz atravessou as décadas do século XX e ainda hoje perdura.

A partir do início dos anos trinta, um fato que passou a ocorrer na produção cinematográfica foi a formação de verdadeiras equipes perenes (atores, atrizes, roteiristas, e técnicos em geral) trabalhando para um mesmo cineasta. E nestes casos, mais ou menos raros, a repetição das parcerias no elenco podia ir muito além do número dois. Acho que John Ford foi o primeiro grande cineasta a trabalhar, por anos a fio, com uma mesma equipe. Dele a parceria que se cita é, geralmente, com John Wayne, porém, este está longe de ser o único ator repetido em sua filmografia. Com efeito, Wayne fez com ele 21 filmes, ao passo que o menos conhecido Ward Bond fez 24.

Evidentemente, a repetição de um ator/atriz nos filmes de um mesmo diretor é algo mais profundo do que uma questão de produção. Nos casos conhecidos, e porventura de melhor resultado estético, o que se observa é que o ator/atriz “repetido” passa a integrar o estilo do cineasta, estilo que passa, por sua vez, a dele/dela depender.

Não é sempre assim, mas, em muitos casos, quando o par formado é diretor e atriz, o “casamento” (termo que tenho usado entre aspas) consiste mesmo em laço amoroso.

Frank Capra e James Stewart, nove filmes…

Vejam os casos de Antonioni e Monica Vitti (cinco filmes juntos), Jean-Luc Godard e Anna Karina (oito filmes juntos), Roberto Rosselini e Ingrid Bergman (cinco filmes); Frederico Fellini e Giulieta Masina (sete filmes), Ingmar Bergman e Liv Ullman (nove filmes), John Cassavetes e Gena Rowlands (sete filmes), Jules Dassin e Melina Mercouri (nove filmes), Woody Allen e Mia Farrow (catorze filmes), um dos irmãos Coen e Frances McDormand (oito filmes)… e tantos outros que no momento me escapam. Obviamente, o termo “casamento” permanece em sentido figurado quando o diretor é, assumidamente ou não, homossexual, casos de George Cukor, que rodou dez filmes com a atriz Katherine Hepburn; e Rainer Werner Fassbinder que rodou nada menos que dezoito, com a atriz Hanna Schygulla.

Mantendo figurada a acepção do termo “casamento”, vejamos mais alguns casos de parcerias no cinema mundial. Cito, na ordem, o nome do cineasta e o do ator ou atriz, seguidos, nos parênteses, do número de filmes que fizeram juntos.

Josef von Sternberg e Marlene Dietrich (7); Clarence Brown e Greta Garbo (7); Roger Corman e Vincent Price (7); Stanley Donen e Gene Kelly (5); Terence Fisher e Peter Cushing (13); Henry King e Tyrone Power (11); David Lean e Alex Guiness (6); Jerry Lewis e Kathleen Freeman (7); Frank Tashlin e Jerry Lewis (8); Anthony Mann e James Stewart (8); Satyajit Ray e Soumitra Chatterjee (15); John Huston e Humphrey Bogart (6); Frank Capra e James Stewart (9); Kenji Mizoguchi e Kinuyo Tanaka (15); Billy Wilder e Jack Lemmon (7); Fellini e Marcelo Mastroiani (6); Ingmar Bergman e Max von Sydow (12); Akira Kurosawa e Toshiro Mifune (16); Pedro Almodovar e Antonio Banderas (8); Ettore Scola e Vittorio Gassman (8); Norman Taurog e Elvis Presley (9); David Zucker e Leslie Nielsen (7); Manoel de Oliveria e Leonor Silveira (20); Martin Scorsese e Robert DeNiro (9); Tim Burton e Johnny Depp  (8)…

Os mencionados são estrangeiros, mas claro que também houve, ou tem havido, parcerias de diretores e atores/atrizes no cinema brasileiro. Aqui lembro Mazzaropi que, sendo também ator, não dirigiu todos os filmes em que atuou, porém, nos oito que chegou a dirigir esteve sempre a atriz Geny Prado.

Existe um recorde de parceria entre diretor e ator? Existe, sim, infelizmente em uma filmografia pouco conhecida no Brasil: o ator japonês Kiyuoshi Atsumi trabalhou nos filmes do cineasta também japonês Yoji Yamada nada menos que 55 vezes. A conferir.

Em tempo: esta matéria também foi realizada “em parceria”, no caso, com o amigo e cinéfilo Joaquim Inácio Brito, que, não só sugeriu o tema, como auxiliou grandemente no trabalho de pesquisa.

O relatório Kinsey

8 ago

 Acho que poucos séculos foram tão simetricamente duais quanto o século XX. Pelo menos do ponto de vista comportamental, as suas duas metades não poderiam ser mais antitéticas.

E, claro a “dobradiça” que mudou tudo foi a década de 60. No terreno sexual, por exemplo, se porventura na primeira metade já se pintava e bordava, era tudo por debaixo do pano. Quem levantou o pano foi sessenta, com sua badalada “revolução sexual”.

Obviamente, a coisa toda não aconteceu de supetão e houve fatores bem específicos, anteriores no tempo, que contribuíram de modo particular para o “levantamento do pano”.

Universidade de Indiana: portal de entrada

Universidade de Indiana: portal de entrada

Um dos mais decisivos foi a publicação, em 1948 e 1953, de dois livros nos Estados Unidos, que eu saiba sem tradução no Brasil, respectivamente: “Sexual behavior in the human male” (`Comportamento sexual no homem´) e “Sexual behavior in the human female” (´Comportamento sexual na mulher´).

Publicações da Universidade de Indiana, de autoria do professor e pesquisador Alfred Kinsey, os livros viraram imediatos best-sellers que, de início causaram escândalos, mas, com o tempo, foram sendo entendidos e aceitos como um trabalho científico, afinal de contas fundamentado em extensiva e séria pesquisa de campo, tudo financiado pela poderosa Fundação Rockefeller.

Dentro do maior rigor, as pesquisas de Kinsey e seu grupo de estudos entrevistavam milhares de homens e mulheres de diversas faixas etárias sobre os seus hábitos sexuais e as constatações e dados estatísticos derrubavam tabus.

Residência típica em Bloomington, cidade onde fica a Indiana University.

Residência típica em Bloomington, cidade onde fica a Indiana University.

Hoje, decorrida a segunda metade do século e um pouco mais, não seria novidade, mas, na época foi certamente constrangedor ver revelado, por exemplo, que a masturbação, em homens e mulheres, era uma prática generalizada, mesmo entre casados e/ou idosos. Que a relação sexual antes do casamento já era, na época, comum… Que um número significativo de pessoas casadas haviam tido experiências amorosas fora do casamento, etc…

Um dos pontos mais polêmicos foi, certamente, o das diversidades sexuais, quando, a partir dos relatos de seus depoentes, Kinsey desenvolveu sua famosa tabela hetero/homoerótica, segundo a qual, ao invés da polaridade conhecida e aceita, haveria uma variação de preferências que ia de 1 (heterossexualidade exclusiva) a 7 (homossexualidade exclusiva), os números intermediários indicando, com surpreendente frequência, a gradação entre os dois extremos. Numa sociedade machista, essa quebra dos limites entre as duas práticas era um problema e um escândalo.

Com uma pequena ironia: as pesquisas de campo de Kinsey foram predominantemente realizadas numa das regiões mais conservadoras dos Estados Unidos, o Meio Oeste americano, onde estava situada a Universidade de Indiana.

Cena do filme "Kinsey - vamos falar de sexo" (2004)

Cena do filme “Kinsey – vamos falar de sexo” (2004)

Cientista sério, Kinsey não queria a fama e muito menos os seus efeitos deletérios. Não queria, mas teve os dois, a fama e os efeitos.

Quem relata a difícil vida profissional e privada de Kinsey é o diretor americano Bill Condon no seu filme “Kinsey – vamos falar de sexo” (2004), ainda hoje em cartaz nas redes de televisão paga.

Nele Liam Neeson faz muito bem o puritano zoólogo e sexólogo Kinsey: sua ousadia em fundar o departamento de pesquisas sexuais na Universidade de Indiana; sua determinação em conceber e executar o projeto que resultaria nos livros; as objeções e os obstáculos que enfrentou, e, pior, os muitos mal-entendidos decorrentes de seu sucesso.

E vejam que os problemas não vinham só dos oponentes, mas também dos concordantes, como foi o caso daquele senhor de meia idade, um dos seus depoentes, que o colocou em impasse, profissional e ético, ao relatar os seus numerosos casos de prática pedófila.

Uma depoente confessa ter sido salva por Kinsey.

Uma depoente confessa ter sido salva por Kinsey.

Uma cena comovente no filme mostra Kinsey já idoso, doente e desanimado com a falta de apoio financeiro para novos projetos. Nessa ocasião, ele recebe a visita de uma senhora que, emocionada, lhe confessa ter sido salva por ele: descobrindo-se lésbica ainda jovem, estivera à beira do suicídio, quando leu seus livros e pôde constatar que, no país, milhares de mulheres tinham as suas mesmas preferências sexuais e não eram monstros, mas seres tão humanos quanto quaisquer outros.

De minha parte, assisti a “Kinsey” com interesse particular. É que, por coincidência, fui, nos anos oitenta, bolsista-pesquisador Fulbright na Universidade de Indiana, em Bloomington, onde cheguei a fazer amizade com duas ou três pessoas de certa idade que haviam sido depoentes no hoje chamado “Relatório Kinsey”.

Fazendo gracejo, um deles me garantiu que seu relato ficou com certeza na categoria da “normalidade”, mas, ora, o que o trabalho de Kinsey pergunta é isto: no terreno sexual, o que é normal?

Liam Neeson faz bem o papel de Alfred Kinsey

Liam Neeson faz bem o papel de Alfred Kinsey