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Capra e Bergman

25 fev

Coisa esquisita é a natureza humana.

Tiro por mim. Há dias em que acordo de espírito leve, disposto a curtir a vida, acreditando que ela é maravilhosa. Outros dias há em que me levanto pesado, vendo tudo feio e crendo que a vida é um castigo que me foi imposto.

E mais estranho ainda é que, para esses estados de espírito antagônicos, que perduram pelo resto do dia, nem sempre existem motivações objetivas. Muitas vezes há problemas, sim, no dia em que acordo leve, e, eventualmente, problema nenhum, no dia em que me ergo da cama pesado.

Ao estado de espírito leve eu, cá comigo, dou o nome de “Capra”, e ao pesado, eu chamo de “Bergman”.

Pois é. No dia em que amanheço Capra nada me abala. Os problemas são tirados de letra, pois creio piamente que, para tudo, existe um happy end que nos aguarda em algum lugar, acolhedor e generoso. Estar vivo é um dom divino que deve ser preservado com júbilo e gratidão.

No dia em que amanheço Bergman tudo me derruba e me destrói. Nem precisa ser nada grande, nem grave. Uma torneira quebrada já é o suficiente para conjugar um monte de preocupações, que vão se somar a outras, mais severas e formar um caldo sujo e feio que desagua num oceano escuro e fundo.

Morangos silvestres - o idoso que aprende sobre a vida.

Morangos silvestres – o idoso que aprende sobre a vida.

Mas, não pensem que sou ciclo-tímico.

Não é nada disso. Na verdade, Capra e Bergman não se manifestam com frequência, e, quando o fazem, os espaços de tempo entre um e outro são grandes, enormes. A rigor, na maior parte dos dias, eu saio da cama normal, digo, nem a euforia de Capra, nem a disforia de Bergman, apenas eu mesmo.

Capra e Bergman, nunca os vi juntos. Nem poderia. A bem da verdade, vi-os juntos, sim, mas foi só uma vez.

Foi assim: saído de uma noite de sonhos estranhos, uma certa manhã eu abri os olhos, ainda sonolento, e, em torno de minha cama estavam essas duas figuras ímpares. Do lado direito, sorridente em sua cadeira de diretor, Capra piscava o olho para mim, como a dizer: “Levanta, cara, e vamos curtir esse dom sagrado que Deus te deu: a existência”. Do lado esquerdo, de cara enferrujada, Bergman me fitava, como a admoestar: “Deixa de ilusão, cara, e cai na real, que a vida é só amargura e dor”. Quando os dois se entreolharam, como se fossem dar início a uma disputa filosófica, ou coisa pior, sei lá, uma briga peripatética, com troca de socos e pontapés, dei um pulo da cama, botei minha sunga e corri para o jardim, tomar banho de sol, como faço toda manhã. E nunca mais vi os dois juntos, graças a Deus.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

Uso os nomes desses dois cineastas que admiro para ilustrar a dicotomia entre alegria e tristeza, mas não o faço com tranquilidade. Pensando bem, e procurando com cuidado, a gente até que pode encontrar tristeza em Capra, e, mutatis mutandis, alegria em Bergman.

Vejam o caso de “A felicidade não se compra”, o filme mais pra cima de Frank Capra. Se não fosse pelo final feliz, dir-se-ia que a vida de George Bailey é um amontoado de problemas, desde quando, ainda criança, quase perde um irmão afogado, até a crise financeira que quase leva o banco da família à falência… tudo isso culminando na noite de Natal em que ele mesmo, sem saída, opta pelo suicídio.

Já um dos filmes mais típicos de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, contém, sim, seus momentos positivos. Tudo bem, é a estória de um senhor idoso, um médico amargo e frio, desencantado com o gênero humano e talvez consigo mesmo, porém, não esqueçamos que a sua viagem para receber a homenagem que lhe cabe também é uma viagem interior em que ele se reavalia e cresce humanamente. O filme termina com o sonho infantil dos morangos catados na floresta, com a doce e poética consideração de que a vida poderia ter sido diferente.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Esses aspectos menos óbvios em Capra e em Bergman, aparentemente contraditórios deles mesmos, eu não os lembro por lembrar. Acho que os lembro interesseiramente, na esperança de que me sirvam de lição. Para, no dia em que eu amanhecer completamente Capra, dar-me conta de que – desculpem o clichê – nem tudo na vida são flores, e quando amanhecer totalmente Bergman, dar-me conta de que nem tudo são espinhos. Aprender a conviver com flores e espinhos, tarefa existencial difícil, que me esforço para cumprir.

Porém, não vou me iludir: não tem jeito, já me antevejo, lá adiante, não sei quando, sendo atacado por aqueles estados de espíritos antagônicos, cada um no seu tempo, uma vez Capra, outra vez Bergman, estados, como disse, que não recorrem com assiduidade, mas que nunca deixam de recorrer. Num caso, teimando em ser feliz, no outro, teimando em ser infeliz.

Não creio que haja cura para isso. A mente humana é mesmo esquisita. Ou o problema seria só meu?

Tomara que o leitor possa me ajudar, – talvez, quem sabe? – com depoimentos análogos. Mesmo que os seus cineastas sejam outros, ou, se for o caso, sequer existam.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.

Últimas conversas

27 maio

Quando, em fevereiro do ano passado, soube da morte de Eduardo Coutinho, lembrei-me logo de seu último filme, “As canções” (2011), ao qual dediquei texto comovido que chamei de “Músicas e lágrimas”.

E claro, senti-me bem em haver homenageado, em sua derradeira realização, o maior documentarista brasileiro de todos os tempos e lugares.

Agora, me deparo com a novidade: “As canções” não foi exatamente o último filme de Eduardo Coutinho. Antes da tragédia que o levou, o cineasta estava rodando um documentário com estudantes do ensino médio de uma escola pública do Rio de Janeiro.

O cineasta Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho

Embora com 32 horas de gravação já feitas com 28 estudantes, o filme ficara incompleto. Ou melhor, teria ficado, se amigos de Coutinho não tivessem decidido que a metragem gravada merecia uma compleição – um filme póstumo que seria uma homenagem.

E assim fizeram o cineasta João Moreira Salles e a montadora Jordana Berg, que tinham a vantagem de possuir filmagens dos bastidores da produção, onde o próprio Coutinho falava do filme que estava rodando e dos problemas que estava enfrentando. Juntaram esse material autobiográfico com as gravações de nove estudantes que Coutinho já escolhera como definitivas e editaram o documentário “Últimas conversas” (2015), no momento em cartaz na cidade, e no país.

O crédito de direção é de Eduardo Coutinho, porém, o espectador familiarizado com sua obra pode se indagar até que ponto “Últimas conversas” é um filme seu. Sim, porque há diferenças entre este filme e a obra de Coutinho, pequenas mas marcantes.

A primeira é que nele Coutinho desfruta de um bom tempo de tela, coisa inexistente em seus filmes anteriores. E, nesse tempo de tela, aparece falando de si mesmo. Aliás, no filme todo, ele fala muito mais do que o habitual, interferindo nos depoimentos dos entrevistados, como nunca fizera antes. Cheio de tempos mortos e cortes bruscos, o filme não possui o seu conhecido cuidado de edição. Em alguns casos, são demorados os trajetos da porta à cadeira em que os depoentes se acomodam, em outros, o depoente já aparece em close, sem trajeto. A rigor, foram à tela vários elementos dos bastidores, alguns acidentais, como aquele momento em que o fotógrafo pergunta a Coutinho se ele está fumando, e ele responde que está terminando o cigarro.

jovens depoentes: revelações comovidas

jovens depoentes: revelações comovidas

Mas, atenção: não entendamos isso como defeito. Apenas estamos diante do filme póstumo possível, e a dupla Salles e Berg foi sábia em manter o equilíbrio entre o estilo Coutinho e um Coutinho inventado ad hoc, e à revelia de si mesmo. Nisso “Últimas conversas” é um filme que mostra suas entranhas, em vários sentidos da palavra.

“É melhor não fazer do que fazer um filme de 70 minutos em que você não acredita”: a fala de Coutinho é toda pessimista e passa a ideia de estar trabalhando por obrigação, sem inspiração e sem garra. Foi bom que essa fala desencantada tenha sido posta no início do filme, pois, o que se vê em seguida nega as palavras do autor e comove o espectador, tanto quanto – ouso dizer – nos comoveram outros filmes de Coutinho.

Escolhidos a dedo, os jovens entrevistados dão depoimentos fortes que, se for o caso, fazem o espectador revisar seu conceito de juventude.

jovens depoentes: racismo e outros males

jovens depoentes: racismo e outros males

Vejam o caso daquela jovem que, contando sua difícil relação com a família, perde o controle e chora diante da câmera, ao tratar da frieza da mãe, que a vida toda a sustentara com bens materiais, mas nunca manifestou qualquer expressão de afeto. Essa mesma mãe que preferiu acreditar no companheiro, quando soube, da boca da filha, que este costumava assediá-la sexualmente.

Ou daquela aluna negra que diz não acreditar em preconceito racial e, no entanto, relata que os irmãos, mais alvos que ela, a rejeitavam na presença dos amigos. E, mais grave ainda, no dia em que vai estudar em colégio particular, as alunas da turma, lhe pregam uma peça de mau gosto em que ela, a única negra da classe, é comprada como se fosse um objeto.

Se o espectador habitual de Coutinho por acaso surpreendeu-se com a cena inicial em que ele é entrevistado, uma segunda surpresa é deixada para o final. Quebrando a regra do projeto (entrevistas com estudantes de Ensino Médio), a última entrevistada é uma garotinha de seis anos de idade – faixa etária inédita em Coutinho! – com quem o cineasta parece estar bem mais à vontade do que com os outros depoentes.

Tão à vontade que sai do foco repetindo a frase da menina “Deus é um homem morto” e confessando, animado, que o que devia fazer era um filme só com crianças.

Quem sabe? Talvez fosse o próximo.

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Em tempo: você encontra a minha matéria sobre o filme “As canções” neste blogue: é só digitar acima, no setor de BUSCA, o seu título MÚSICAS E LÁGRIMAS.

Estudantes do Ensino Médio contam suas estórias

Estudantes do Ensino Médio contam suas estórias

 

Poliana

20 set

Sabe o filme casual, aquele que pinta na sua telinha sem você querer, só porque o aparelho está ligado, ou simplesmente porque você mudou de canal? Pois é, esta semana a casualidade me levou a “Poliana” (“Pollyanna”, 1960, de David Swift) e, sem nada mais interessante a fazer, me deixei ficar por ficar.

Lembro que lá pelo começo dos anos sessenta “Poliana” fez meio mundo chorar e foi um sucesso de bilheteria, com Oscar especial para a garota Hayley Mills.

Eu o vi na época? Devo ter visto, mas – enfronhado nas idéias vanguardistas então vigentes – devo ter feito esforços mentais para esquecer. Salvo uma vaga imagem de uma casinha trepada no topo de uma árvore frondosa, não lembrava mais nada.

Fui, agora, assistindo sem muito entusiasmo, no começo achando a coisa – desculpem a expressão – “um tanto e quanto Walt Disney”… A cada instante, pensava em trocar de canal, porém, a cada instante, me deparava, no desenrolar da estória, com um ator ou atriz – geralmente coadjuvantes – que eu admirava e fui usando isto como pretexto para continuar.

Ora era Jane Wyman (de “Farrapo humano”), ora era Richard Egan (de “Amores clandestinos”), ou Karl Malden (de “A árvore dos enforcados”), ou Nancy Olson (de “Crepúsculo dos deuses”), ou Adolphe Menjou (de “Glória feita de sangue”), ou Donald Crisp (de “Como era verde o meu vale”), ou Agnes Moorehead (de “Cidadão Kane”)…

Puxa vida, que elenco, e a própria Hayley Mills, com sua carinha ariana, seu nariz de bola e seus lábios grossos, está ótima no papel principal da órfã criada a contragosto por uma tia abastada e antipática – essa menina de boa índole, que, em sua ingenuidade, ensina o pastor a pregar e, por aí, pacifica os ânimos belicosos dos membros da comunidade.

A personagem – todo mundo sabe – virou símbolo do espírito para cima, que não se abate com as agruras da vida, e vai adiante, acreditando que tudo, no final, dará certo, e se não der, há de haver sempre uma compensação, porém, esse otimismo renitente vem mais da (sub)literatura que a gerou do que do filme.

No filme pude constatar que ela não era assim tão otimista, ou pelo menos, que seu otimismo tinha fraturas. Sem dúvida, a construção do personagem foi menos maniqueísta do que se pensa e houve mesmo terreno para uma certa ambiguidade, que a torna satisfatoriamente verossímil. Por exemplo, depois de informada pelo médico das conseqüências do acidente que muda a sua vida (ela cai da tal árvore e vai ficar paraplégica!) Poliana, estendida na cama no quarto de sua tia, vira uma criaturinha amarga, que não quer ver mais ninguém e prefere ficar a sós com sua dor. Prestando bem atenção, não foi fácil para a sua tia, convencê-la de que deve receber visitas, e só depois de algum tempo e visível esforço, ela acede.

Como é a cidade inteira que, em fila indiana, aparece para visitá-la, com presentes e tudo mais, ela melhora um pouquinho o humor e esboça algum vago sorriso, mas esse sorrisozinho insosso é só uma sombra do espírito alegre que demonstrava antes de acidentada.

Por que uma menina tão boazinha, que operou o milagre de unir uma comunidade inteira, vai sofrer um acidente desses e ficar paraplégica? – pergunta a tia, indignada, ao pastor, mas, claro, como os velhos “ubi sunt” dos poemas antigos, a pergunta não tem resposta,. A esperança reside numa cirurgia que deverá ser tentada na cidade grande, e o filme, sabiamente, termina com o embarque de Poliana, num trem que a conduz a um destino incerto. The End.

Digo, sabiamente, porque o final assim, em aberto, foi melhor para todos. Ironicamente, o filme ficou com mais qualidade, os espectadores da época certamente choraram mais, e os estúdios da Disney ganharam mais dinheiro. Se nos fosse dado o resultado da operação e a resposta emotiva da protagonista (favorável/desfavorável e Poliana triste/alegre), o filme iria virar uma tese chata, empanturrada de, para cima ou para baixo, lição de vida. Neste sentido, a roteirização dos Estúdios Disney fez muito bem em se distanciar do romance original de Eleanor Porter (1913) e suas infindáveis “continuações”.

Do jeito que está – e não me refiro só ao final, mas ao filme inteiro, por sinal muito bem dirigido e muito bem interpretado – “Poliana” é, sim, um bom produto cinematográfico, que agradeço ao acaso a oportunidade de ter (re)visto e podido reavaliar.

Não conheço a versão original, de 1920, com Mary Pickford no papel-título, e me satisfaço com esta – boa pedida para quem esteja acostumado somente ao envidraçado mito “good girl” de Poliana.