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O outro lado do vento

20 nov

Com certo alarde, o Netflix está exibindo o que seria o último filme do cineasta Orson Welles, “O outro lado do vento” (“The other side of the wind”). Trata-se, na verdade, de um dos muitos filmes que o gênio do cinema deixou inacabado, e que agora (2018) é resgatado, restaurado e reeditado para exibição pública.

Antes de qualquer coisa, uma “curiosidade cinematográfica” para a curtição dos cinéfilos da vida. Bem, cinéfilo ou não, se você for ver, se prepare: talvez não vá ser uma experiência propriamente prazerosa. A não ser que você seja um pesquisador e historiador da sétima arte, ou um biógrafo de Orson Welles.

A rigor, e à parte a questão da qualidade, o corpo do filme é escorregadio demais para ser seguido. Na linha da metalinguagem desbragada, conta – se é que conta – a mais do que confusa estória dos bastidores das filmagens de uma produção que está sendo rodada na ocasião, e que se chama justamente “O outro lado do vento”. Assim, assistimos ora ao “filme dentro do filme”, ora às suas filmagens, sem que uma coisa explique a outra.

Traffaut tinha feito sua experiência metalinguística em “A noite americana” (1973) e ficou uma beleza, uma verdadeira aula de cinema. No caso do filme de Welles, não se pode dizer nada parecido. Não há um sentido conjunto, uma diegese visível, uma lógica narrativa que se possa seguir, nem no “filme dentro do filme”, nem nas filmagens deste.

Para ser franco, além de não ter uma coerência de sentido que segure a atenção de espectador, o “filme dentro do filme” mais parece um pornô. Só há praticamente dois atores, um homem e uma mulher, os quais estão o tempo quase todo nus. Ora ele a persegue, ora é ela que o persegue e, claro, não se sabe nunca por quê. Quando são vistos juntos é dentro de um carro onde fazem sexo de modo quase explícito.

Peter Bogdanovich, John Huston em “The Other Side Of The Wind”

Eu diria que a falta de sentido é maior ainda nas cenas e sequências dos bastidores das filmagens. De produtores a atores, de maquiadores a eletricistas, a equipe é enorme – todo mundo falando e ninguém se entendendo. O diálogo todo tem aquele jeitão de “conversa entreouvida” sem que o ouvinte conheça o contexto da discussão. O mesmo pode ser dito das encenações, quando elementos estranhos ao contexto aparecem sem explicações – um exemplo, aqueles anões sem função nas filmagens.

Há, sim, um certo conflito entre o diretor do filme (interpretado pelo cineasta John Huston) e o assistente (feito pelo também cineasta Peter Bogdanovich), mas de que consiste esse conflito exatamente ninguém sabe. Sintomaticamente, não há um roteiro escrito a seguir (o próprio diretor afirma isto) e as filmagens vão acontecendo entre o acaso e o improviso. Sem fazer julgamento de valor, apenas constatando, acho que não estarei exagerando se disser que a coisa toda tem – de propósito ou não – o perfil de um imenso caos.

A história da carreira profissional de Orson Welles nós estamos cansados de saber. Depois de, com o dinheirão da RKO, rodar sua obra prima “Cidadão Kane” (1941) e ofender o magnata da imprensa Randolph Hearst, ficou malquisto em Hollywood e penou por anos na Europa, tentando, sem muita grana, projetos alternativos. Da mesma Hollywood sofreu um segundo banimento quando rodou – a convite de Charles Heston – “A Marca da maldade” (1958). Seguem-se mais projetos alternativos e mais filmes inacabados… até chegarmos a este “O outro lado do vento” que começou a ser rodado em 1970 e foi até o começo dos oitenta, quando um dos países coprodutores (pasmem: o Irã) sustou o apoio financeiro.

O filme dentro do filme: quase um pornô.

Nesses projetos alternativos parece ter havido uma constante mais que compreensível: a falta de grana conduzindo ao experimentalismo. Em “O outro lado do vento” isto acontece de modo descontrolado. De todo jeito, um dado interessante é a cooperação que Welles recebeu de profissionais que participaram do filme sem cobrar. No elenco estão, por exemplo: Lili Palmer, Susan Strasberg, Edmund O´Brien, Mercedes McCambridge, Cameron Mitchel, Paul Stewart. Além de cineastas famosos que fizeram pontas como Paul Mazursky, Dennis Hopper e até o francês Claude Chabrol. Nada disso ajudou muito…

Não há como negar: nesta derradeira experiência de Welles, mais do que em qualquer outra, sente-se a falta de um roteiro. Desculpem-me, mas, vendo o filme, senti saudades de Herman Mankiewicz, o roteirista brilhante de “Cidadão Kane”, sem coincidência premiado com um Oscar.

Orson Welles no set de O OUTRO LADO DO VENTO.

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Esquilos e nozes

2 nov

“Um amor em cada esquina” está em cartaz na cidade (ou ao menos, estava), mas, por que sair de casa para ir ver uma comédia romântica sobre garota de programa que vira atriz da Broadway?

Bem, cada um tem suas razões. Para ir ou para não ir. Eu fui por conta do diretor Peter Bogdanovich, de quem não via nada havia décadas. O seu último filme antes deste já tem catorze anos, o hilário “O miado do gato” (2001) onde ele conta aquele episódio verídico do crime no iate do magnata William Randolf Hearst, envolvendo sua amante Marion Davies e o amante dela, Charles Chaplin, lembram?

Não que Bogdanovich seja um realizador estupendo, mas, é, com certeza, o cineasta vivo mais cinéfilo que conheço. E eu adoro cinefilia, quanto mais desbragada melhor.

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Não morri de amores por “Um amor a cada esquina” (“She´s funny that way”, 2014), e, no entanto, curti um bocado a sua desbragada intertextualidade fílmica. Até imaginei como foi que Bogdanovich teve a ideia do roteiro.

Acho que foi assim: um dia qualquer, ele estava fazendo sua costumeira e saudosa revisita a um de seus cineastas mais amados, Ernst Lubitsch, e grudou em uma de suas comédias, no caso, “O pecado de Cluny Brown” (1946), aquela em que Jennifer Jones é empregada numa casa de campo inglesa e conhece o imigrante checo Charles Boyer. Os dois têm um flerte, porém, aparece um outro pretendente para a moça.

Bogdanovich grudou particularmente numa frase do personagem de Boyer, que, inspirado pelo amor, declara a uma Jennifer espantada: “No Hyde Park, as pessoas dão nozes aos esquilos, mas, se a torna feliz dar esquilos às nozes, quem sou eu pra dizer nozes aos esquilos?” O nonsense da frase o pegou, até porque era esse tipo de nonsense que alimentava as famosas “screwball comedies” (´comédias malucas´) dos anos trinta e quarenta.

E aí, ele, Bogdanovich começou a construir, primeiro na mente, depois no papel, um personagem que emitisse a frase e, melhor ainda, que a encarnasse. E imaginou esse Arnold Albertson (Owen Wilson), grande dramaturgo da Broadway que, espécie de Don Juan de bom coração, vive de ajudar garotas de programa a mudar de métier e crescer na vida. Pronto, assim foi. O resto – dá pra sentir – veio por tabela.

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Claro que ele teve que trocar o Hyde Park londrino pelo Central Park novaiorquino, mas isso foi fácil. E, para ajudar o espectador na identificação de sua fonte inspiradora, ainda incluiu, nos créditos finais, a tal cena de “O pecado de Cluny Brown”…

Na verdade, “Um amor a cada esquina” tem ecos, não apenas de Lubitsch, mas praticamente de todas as ´comédias malucas´ do passado clássico, de Howard Hawks a Preston Sturges, passando por Frank Capra e outros mais. Uma gag atrás da outra, cada cena relembra o que a gente já viu em filmes como “Levada da breca” (1938), “O inventor da mocidade” (1952) “Contrastes humanos” (1941), “Esse mundo é um hospício” (1944), etc…

Até Blake Edwards entra na estória, quando a call girl Izzy Finkelstein (Imogen Poots) declara, em entrevista, ser fã da Audrey Hepburn de “Bonequinha de luxo”, este, como se sabe, também um filme sobre garota de programa. E mesmo o mais moderno Woody Allen é evocado, particularmente na escolha do ator principal, esse Owen Wilson com quase o mesmo gaguejado nervoso que faz o seu charme em “Meia noite em Paris”.

Com um monte de personagens se cruzando, entre conquistas, encontros inverossimilmente casuais, trompaços, traições e ´barracos armados´ por mulheres ciumentas, o filme de Bogdanovich tem um enredo farsesco, que seria cansativo reconstituir. Nem vale a pena tentar.

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Digo só o seguinte: há pouco comentei o último filme de Roman Polanski, localmente exibido. Pois, de alguma maneira, este “Um amor em cada esquina” é um “A pele de Vênus” em tom cômico. Sabe como é: marido dramaturgo dirigindo esposa no palco, etc e tal…

Fazendo um resumo da ópera: um filme para cinéfilo ver, que, aliás, não atrai muito, se não for pelo viés da remissão ao passado clássico. Fora dessa remissão, é quase que só uma chanchada hollywoodiana, uma a mais, perfeitamente esquecível.

Nada do frescor artístico que um dia constatamos, encantados, no Bogdanovich iniciante de, por exemplo, “A última sessão de cinema” (1071) e “Lua de papel” (1973).

Em tempo: o nome que dei a esta matéria é cópia aproximada do título provisório com que o filme de Bogdanovich foi rodado: “Squirrels to nuts” (/esquilos para nozes/ ou, com o trocadilho só possível em inglês /esquilos para malucos/).

Peter Bogdanovich e o ator Owen Wilson

Peter Bogdanovich e o ator Owen Wilson

Últimas sessões

12 ago

Esta semana a televisão paga mostrou “Síndrome de Caim” (“Raising Cain”, 1992), de Brian DePalma,

Bem dentro daquela obsessão intertextual de DePalma, o filme é uma imitação de vários outros, entre os quais, “O terceiro homem” (Carol Reed, 1948), “As três máscaras de Eva” (Nunnally Johnson, 1957), “Psicose” (Alfred Hitchcock, 1960), e “A tortura do medo” (Michael Powell, 1960), uma mistura interessante que, infelizmente, não deu lá muito certo, para não dizer que deu completamente errado.

Eu já conhecia o “Síndrome” de DePalma, mas não lembrava bem, e revi-o por um motivo meramente saudosista, talvez também um pouco masoquista: foi o último filme a que assisti no saudoso Cine Plaza. Para quem é de fora, ou jovem demais, o Plaza foi, nos velhos tempos, um dos elegantes cinemas do centro da cidade de João Pessoa.

Fachada do Cine Plaza, nos anos oitenta.

Fachada do Cine Plaza, em foto dos anos oitenta.

O filme é de 1992 e deve ter sido exibido aqui em 93 ou 94, época em que a programação normal do Plaza já era, havia algum tempo, quase que só pornográfica. No meio dos pornôs, os proprietários às vezes empurravam um filme que tivesse bastante violência (caso de “Síndrome”), como se os apreciadores de sexo explícito necessariamente também gostassem de violência.

Lembro que me senti triste dentro do cinema. Física e de outra natureza, a decadência daquela casa de espetáculo me deprimia e, o tempo todo, eu me recordava de sua época áurea, tanto a do Plaza ´novo´ – (re)inaugurado em 1963 – como a do ´velho´, que tanto frequentei, e onde vi filmes maravilhosos que moldaram o meu perfil de cinéfilo.

Na minha cabeça perturbada, a má qualidade do filme de DePalma se confundia com o clima decadente do cinema, e acho que foi isso que me fez esquecê-lo, como a gente tende a esquecer uma experiência desagradável.

Não sei em que ano o Plaza fechou as portas, e, revendo “Síndrome” na televisão fiz esforços para lembrar se vi lá algum filme depois dele. Não consegui e, portanto, fica ele mesmo como a minha triste despedida do Plaza.

O Cinema Rex, em foto também nos anos oitenta.

O Cinema Rex, em foto também nos anos oitenta.

O que, de uma forma mais genérica, me remete às minhas últimas sessões nos outros cinemas da cidade.

O Cine Rex, outro elegante cinema central na cidade, foi a única casa de espetáculos que fechou honrosamente. O pessoal da minha faixa etária deve lembrar o evento: no fechamento houve, organizada se não me engano pela ADUF, uma semana especial de despedida, meio ´cult´, onde foram (re)exibidos grandes clássicos do passado, como “Hiroshima, meu amor” e companhia limitada. Foi melancólico como tinha de ser, mas foi chique.

Já o Cine Municipal fechou sem celebrações, e pior, o fechamento teve duas etapas: o do cinema inteiro, e mais tarde, depois da drástica reforma subtrativa, o do cinema pela metade. Para quem não sabe, ou não lembra, em 1995 o prédio foi literalmente partido ao meio, metade vendida ao comércio, e a sala de projeção ficou sufocantemente estreita como um corredor.

Não estou certo, porém, calculo que meu último filme visto no ´Municipal inteiro´ (chamemo-lo assim) foi a comédia de Chris Columbus “Uma babá quase perfeita”, com Robin Williams no papel título. Se o filme tinha porventura alguma graça, parte dela se perdeu na péssima qualidade da projeção, a fita quebrando várias vezes e o som inaudível. O ano deve ter sido também 94, já que o filme é de 93. Não sei que dia da semana era, mas, é claro que eu me reportei, por doloroso contraste, a toda aquela animação, nos tempos das sessões de quinta-feira do Cinema de Arte, organizado pela Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba.

A minha última e única sessão do ´meio-Municipal´ (chamemo-lo assim) foi tão deprimente que nem gosto de lembrar – em 1996 foi o “Tieta do agreste” de Cacá Diegues que me deixou partido ao meio, como a sala onde me achava. Era a inauguração da ´meia sala´, porém, nunca mais pisei lá, nem quis saber quando fechou.

E os outros cinemas do centro da cidade, quando fecharam e com que filmes? O Cine São Pedro, o Cine Brasil, o Filipéia, o Astória… Valei-nos, Wills Leal!

Elizabeth Taylor e Spencer Tracy em "O pai da noiva" (1953).

Elizabeth Taylor e Spencer Tracy em “O pai da noiva” (1953).

Quanto aos cinemas do meu bairro, Jaguaribe, cinemas que, desde criança, frequentei com tanta assiduidade e com tanto amor, sinto vergonha em dizer que não estive no fechamento de nenhum deles – o Cine Teatro Sto Antônio, o Cine São José e o Cine Jaguaribe – e, pior, sequer lembro que últimos filmes neles vi antes de fecharem. Afinal de contas, foram cinemas que desapareceram sem alarde, como as criaturas humildes que se vão anonimamente…

A essa altura, suponho que o leitor já deve ter entendido que estou me referindo, sempre, a um modelo de casa exibidora que deixou de existir há muito tempo; sim, cinemas que tinham calçada e endereço próprio, coisas que faltam às atuais salas de Shopping Center.

Fechamento de casa de espetáculo… Quem fez um filme singelo e bonito sobre o assunto foi o cineasta Peter Bogdanovich, aliás, imperdível para cinéfilos e que se chama justamente “A última sessão de cinema” (“The last Picture show, 1971). Não tem as lágrimas dos italianos “Cinema Paradiso” e “Splendor”, mas também comove ao remontar a uma pequena cidade do interior que vê a sua única tela grande apagar-se… para nunca mais acender.

Em uma cena melancólica do filme, a juventude assiste, nas poltronas surradas desse cinema moribundo, as confusas preparações da festa de casamento da jovem Elizabeth Taylor, sem saber que nunca mais veriam a atriz na tela cinematográfica – pelo menos na sua cidade, não. O “filme dentro do filme” era, evidentemente, a comédia do grande Vincente Minnelli, “O pai da noiva” (1950).

No filme de Bogdanovich, os cinemas americanos já começaram a apagar suas telas na remota década de cinquenta, época em que, nos lares americanos, se acendiam as milhares de telinhas dos aparelhos televisivos.

Entre nós, demorou mais, porém, a melancolia é a mesma.

 

Em tempo: segundo o nosso imprescindível oráculo cinematográfico, Ivan Cineminha, o derradeiro filme apresentado no Cinema Plaza foi o pornô “No verão de 72”, em 31 de outubro de 1996; e o último no Cinema Municipal foi o terror “Fred versus Jason”, em 20 de novembro de 2003. Fica feito o registro.

O Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa.

O Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa.