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Um brinde aos loucos que sonham

23 jan

Fui assistir ao musical “La la Land – cantando estações” (2016) e saí do cinema mais admirado com a plateia presente do que com o filme.

Explico-me: bem antes de comprar o ingresso para ver o filme de Damien Chazelle, eu não conseguia tirar da memória um fato desagradável, ocorrido mais de meio século atrás. Em 1964, eu estava no Cinema Municipal, assistindo ao musical “Amor sublime amor” (1961) e, cada vez que, interrompendo o andamento da estória, um ator ou atriz começava a cantar, parte da plateia vaiava.

Aquilo, para mim, era a triste, tristíssima, constatação de que o gênero musical – tão curtido nos anos 30/40/50 – estava nos seus estertores. Pessoalmente, eu amei “Amor sublime amor”, mas não tinha jeito, estava claro que o seu gênero não fazia mais sentido.

La la land - cantando estações, 2016.

La la land – cantando estações, 2016.

Ora, 53 anos depois disso, vou assistir a um musical, “La la land”, num cinema local e o que acontece? O público presente, que lotou a sala numa terça-feira, teve do filme a reação mais favorável possível, demonstrando claramente que a empatia fora perfeita. Soube até que houve aplausos no dia anterior, no final da sessão.

O que está acontecendo? Que explicação sociológica, antropológica ou filosófica, dar a essa mudança de reação – tanto tempo depois – a um gênero cinematográfico?

Um argumento poderia ser de natureza mercadológica, o de que “La la land” ganhou sete prêmios no Globo de Ouro, e o de que a sala lotou porque estamos em período de férias. Mas ora, “Amor sublime amor” foi premiado com nada menos que dez Oscar, e o vi também em período de férias. E isso não impediu as vaias.

A alegação de que “La la land” é muito bom (e eu concordo) tampouco explica a mudança porque “Amor sublime amor” era excelente. Enfim, adoro os dois filmes, mas não posso deixar de registrar esse curioso fato recepcional.  De si mesmo, diz o pianista e músico, protagonista de “La la land” em dado momento: “Sou um Fênix renascido das cinzas”. Bem que poderia estar falando do gênero musical.

assistindo-a-juventude-transviada

Assistindo a “Juventude Transviada”

E a minha admiração aumenta quando considero uma certa ironia – a de que o filme de Chazelle, em tudo e o tempo todo, remete justamente ao velho cinema clássico e, em particular, aos musicais da época.

A remissão ao passado clássico é completa: do cenário/vestuário (reparem nas cores fortes das paredes, dos carros e das roupas) à coreografia (aquela dança entre as estrelas do céu é um exemplo); da técnica (cinemascope, uso de máscaras escuras que fecham a tela, letreiro final com “The end”) à temática (uma estória de amor que começa com antipatia e vira paixão, toda contada pelas letras das músicas)…

Até filme da época tem. Aquele que o casal protagonista vai assistir num cinema local é “Juventude transviada” (1955). Como era costume na época, a fita quebra no começo da projeção, naquela cena (não mostrada, só a voz em off) em que James Dean está, com toda a turma do colégio, no planetário. E o que faz o casal de “La la land” ? Deixa o cinema e vai em direção ao mesmo planetário onde a cena original fora filmada. Fazer o quê? Cantar e dançar entre as estrelas, como nos velhos musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers.

A remissão à Hollywood clássica é onipresente, sim, mas, engraçado, se há um filme particular que tenha sido inspirador de “La la land”, este não é hollywoodiano, e sim, francês: “Os guarda-chuvas do amor” (Les parapluies de Cherbourg”, 1964). Revejam o musical-ópera de Jacques Demy e confirmem: a mesma estória, o mesmo papel da música, o mesmo desenlace desencantado… Está tudo lá.

Dançando entre as estrelas...

Dançando entre as estrelas…

Falar em desenlace, um lance interessante está no de “La la land”: muitos anos depois de toda uma estória de amor frustrado pelas exigências profissionais, o músico Sebastien (Ryan Gosling) e a atriz Mia (Emma Stone) se reencontram, e ao se confrontarem, ela (e ele também?) retrocede ao primeiro encontro e reconta a si mesma toda a estória deles dois, não a que aconteceu, mas a que poderia ter acontecido. Em outros termos: ´a vida que poderia ter sido e que não foi´. O que é feito em montagem acelerada, com o acompanhamento da bela trilha musical. Efeito devastador.

Falar em trilha musical, nada faz mais efetivo do que aquela canção que um dia, num teste de interpretação, Mia, mais que sentida, canta, repetindo lentamente o refrão “Here´s to the fools who dream”, que traduzo livremente como ´um brinde aos loucos que sonham´.

Ora, um brinde aos loucos que sonham é o próprio “La la land”, um musical delirante em pleno 2017, que nossas plateias – surpreendentemente, para mim – estão recebendo com tanta atenção e tanto gosto.

Vaia, nem pensar. Nem bocejo ouvi.

No Golden Globe, a equipe do filme, recebendo os prêmios.

No Golden Globe, a equipe do filme, recebendo os prêmios.

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A luz do Tom

28 fev

Quem, o ano passado, assistiu ao filme “A música segundo Tom Jobim” (2011) saiu do cinema com a sensação de que aquela hora e meia de projeção era pouco para o tamanho do assunto. E era mesmo.

O cineasta Nelson Pereira dos Santos e sua equipe (Miúcha, inclusive) sabiam disso e não hesitaram em dar continuidade ao projeto de retratar, na tela, o afamado e genial compositor brasileiro.

Em parte baseado no livro da irmã do compositor, Helena Jobim, “Um homem iluminado”, a segunda parte do projeto ganhou o nome de “A luz do Tom” (2012) e está em cartaz na cidade.

Se o primeiro filme tratava preferencialmente do trabalho de Tom Jobim, este segundo vai mais ao homem, e isto a partir, da voz de três mulheres que o conheceram muito bem, na ordem narrativa do filme, a irmã Helena, a primeira esposa Tereza, e a segunda, Ana. Para cada uma, há um cenário diferente, embora os três tragam uma marca da personalidade de Jobim: seu apego à natureza.

Helena, irmã e autora do livro "Um homem iluminado"

Helena, irmã e autora do livro “Um homem iluminado”

Passeando na orla carioca, Helena nos conta a primeira fase da sua vida, seu interesse pelas árvores, pássaros e, claro, música. Num sítio em Itaipava, Petrópolis, Tereza nos fala de como a carreira do compositor deslanchou, dos primeiros percalços aos primeiros sucessos. No Jardim Botânico, Ana nos informa de uma fase já consagrada e mais tranqüila.

O resultado desses relatos femininos sobre um homem é que o espectador fica com um fio biográfico que lhe serve de guia para, se for o caso, melhor entender, apreciar, ou amar, a obra do músico.

Sendo do ramo ou não, para o espectador é ótimo saber, por exemplo, que o menino Tom fazia incursões pelas florestas cariocas com o avô e voltava desses passeios, cheio de música – a que ouvia dos pássaros.

Por outro lado, é curioso saber, que o jovem Jobim tinha sido um desportista dedicado e, por isso, mesmo, tinha mãos rudes e dedos grossos, nada aconselháveis para quem queria ser pianista, com um agravante: estava começando no piano aos 18 anos, quando os profissionais geralmente começam na infância.

Tereza, a primeira esposa

Tereza, a primeira esposa

Igualmente interessante é ficar sabendo que, no processo de compor, Jobim era tão obcecado pela harmonia musical, ao ponto de chamar a atenção dos amigos, que achavam que nisso havia um componente ideológico, como se ele quisesse dar harmonia, não apenas à música, mas também ao mundo. Essa obsessão pela harmonia era tão preponderante que muitas vezes ele esquecia o tema da composição, e, com freqüência, precisava ser lembrado pela esposa, a qual, afinal, terminou por providenciar o que ele não gostava: um gravador.

Naturalmente, emocionante é ouvir as estórias dos primeiros contatos: com Vinicius, com João Gilberto, com Chico Buarque, e, last but not least, com Sinatra.

Creio que um momento todo especial, nos depoimentos, é sobre o primeiro lampejo de “Águas de março”: segundo Tereza, estirado no sofá da sala, depois de um dia de trabalho puxado, exausto de uma reforma que estava fazendo na casa do sítio, Jobim toma o violão e começa a dedilhar e solfejar ´é pau, é pedra, é o fim do caminho…´ e, aí, ela, conhecendo seu hábito malsão de esquecer o tema, o acode e, mesmo desentoada, lhe assegura, via memória auditiva, a linha melódica da canção.

Evidentemente os relatos das três mulheres são dourados com elementos da paisagem (muito mato, muita água e um urubu, pássaro pelo qual, segundo consta, o protagonista tinha especial estimação), de forma que Antônio Carlos Jobim mesmo tem, no filme, um tempo mínimo de tela.

Ana, a segunda esposa

Ana, a segunda esposa

Das três mulheres, a irmã parece ter um destaque, talvez por ser a autora do livro em que o filme foi baseado. Ela está sempre usando aquele característico chapéu do irmão, de modo que, numa primeira tomada, à distância e em plongée, o espectador é levado a confundir os dois. Outro detalhe é que é com ela que o filme se fecha, lembrando (ela) a qualidade contemplativa do irmão. “Eu queria tanto ver o que Tom vê” – segundo ela, teria dito uma prima que visitava a família, referindo-se ao fato de o rapaz permanecer, horas a fio, fitando a paisagem a sua frente.

Embora, como dito, “A luz do Tom” seja a continuação assumida de “A música segundo Tom Jobim”, são dois filmes diferentes. Talvez a maior diferença seja, no segundo, a ausência gráfica do protagonista e, possivelmente com mais peso, o excesso de falas. Não há como negar: o primeiro filme é mais cativante, envolvente, e tem mais charme e ritmo.

Uma coisa é certa – não faz sentido julgar um filme independentemente do outro. Parece-me que, na perspectiva da recepção, o ideal seria vê-los juntos, um imediatamente após o outro. Afinal, esta foi a proposta autoral.

O cineasta Nelson Pereira dos Santos orienta Tereza sobre as filmagens

O cineasta Nelson Pereira dos Santos orienta Tereza sobre as filmagens