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Um filme de cinema

29 ago

Para o deleite dos cinéfilos está em cartaz, em todo o Brasil, o documentário de Walter Carvalho “Um filme de cinema” (2017).

“Por que fazer cinema?” “Para que serve?” Com perguntas como estas, Carvalho entrevista cineastas do mundo e, claro, nas respostas está um aula de cinema das melhores.

O projeto todo durou 14 anos e Carvalho lhe deu início ao tempo em que fazia fotografia de produções nacionais. Júlio Bressane, Ruy Guerra, Hector Babenco, José Padilha e Karim Aïnouz foram os primeiros cineastas entrevistados. Carvalho sentiu, porém, que o projeto pedia expansão e passou a entrevistar cineastas estrangeiros, entre os quais estão: o húngaro Bela Tarr, o chinês Jia Zhang ke, o inglês Ken Loach, o polonês Andrzej Wajda, o americano Gus Van Sant, o iraniano Asghar Fahradi, e a argentina Lucrecia Martel.

O cineasta húngaro Bela Tarr

Do nível técnico ao semiótico, passando pelo filosófico, praticamente todos os aspectos da arte cinematográfica são tocados e o filme se revela, mais que uma aula, um curso de cinema.

Conceitos de tempo e de espaço, criação de ritmo, emprego de som, função da montagem, noções de roteiro, papel do enquadramento, tipos de planos, ficção, narratividade, direção, estilo, expressão, sem falar em coisas mais transcendestes como a verdade ou mentira do cinema, ou a questão de “se é o cineasta que faz o filme ou se é o filme que faz o cineasta”.

Sente-se que Carvalho escolheu os cineastas – brasileiros ou estrangeiros – com quem tinha afinidade, e, no entanto, o resultado conjunto das respostas não é conceitualmente unívoco, monolítico, nem ele quis que fosse.

O inglês Ken Loach.

O que ressalta é a complexidade do fenômeno cinematográfico e as múltiplas formas pessoais como cada um pode dela dar conta e dela tirar proveito. “O inimigo do cinema é a verdade”, diz Lucrecia Martel: “A câmera é neutra”, afirma Ken Loach; “O cinema é eminentemente político”, assegura Ruy Guerra; “O cinema não precisa de convenções”, promete José Padrilha; “Expressar vale mais que narrar”, defende Karim Aïnouz. São, evidentemente, opiniões que, se bem pensadas, ou se complementam, ou dialogam entre si.

Mas, se “Um filme de cinema” é, como disse, um curso, ele tem mais, muito mais, do que um curso de cinema poderia oferecer: tem o encantamento que é próprio da arte cinematográfica, seja qual for a proposta estética do autor.

Assim, o filme abre e fecha com essa cápsula de encantamento onde reside o imaginário do espectador.

Jia Zhang Ke, da China, é um dos depoentes no filme.

Nas primeiras tomadas, antes de qualquer fala, vemos as ruínas de um cinema abandonado, no interior da Paraíba, o “Cine Continental”. Poeira, lixo, mato e insetos tomam conta do que fora, no passado remoto, um espaço de sonhos e mistérios. Pois Carvalho comete – no desenlace do seu filme – o milagre de restaurar o prédio, e ali mesmo, para uma população de idosos – que poderiam ter sidos os espectadores do passado – projetar um filme sobre as origens do cinema. Curiosamente, não os filmes dos irmãos Lumière, mas, um pouco antes disso, o “Horse in motion” do pioneiro Eadweard Muybridge, onde se vê o galope acelerado de um cavalo – pela primeira vez, na história da humanidade, uma fotografia em movimento.

Antes de chegar a essa restauração mágica, Carvalho já a preparara com uma outra.

Em certo momento, deixa de entrevistar cineastas e vai atrás do ator que fizera o papel do pequeno Totó, o ajudante do projecionista Alfredo em “Cinema Paradiso” (Tornatore, 1989). E aí, o hoje adulto Salvatore Cascio vai nos contar segredos das filmagens, além de nos mostrar aspectos do cenário desse filme que melhor resumiu o amor do espectador pelo cinema.

Abrindo esta matéria referi-me aos cinéfilos; pois me corrijo: acho que “Um filme de cinema” não foi rodado só para eles. O espectador comum está lá, muito bem cogitado, nesse filme feito, antes de tudo, com a alma.

Em ação, o cineasta Walter Carvalho.

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Doze homens e uma sentença

13 jun

Escrevi há pouco sobre o cineasta Sidney Lumet e não me detive no seu primeiro filme, um dos melhores, “Doze homens e uma sentença” (“Twelve angry men”, 1957).

Para compensar a lacuna, faço-o agora.

Numa claustrofóbica sala secreta de tribunal, doze jurados devem decidir se um rapaz pobre, acusado de haver matado o pai, seria culpado ou inocente, e o resultado da votação deve ser unânime. Na votação, um senhor de branco (Henry Fonda) é o único a votar ´inocente´ e, portanto, provoca a ´ira´ que está no título original do filme. Depois de defender a ideia de que não se pode condenar uma pessoa, se por acaso existe no julgamento uma ´dúvida razoável´, esse senhor de branco faz uma proposta: mudaria o seu voto, se, num novo sufrágio, todos votassem ´culpado´. Feita essa segunda votação, aparece mais um voto ´inocente´ e o calor da discussão aumenta consideravelmente.

O que vai ficando claro com o andar da contenda é que alguns dos jurados têm razões pessoais para manter ou mudar de voto, em alguns casos razões nada nobres – indiferença, desinteresse ou preconceito, por exemplo. Um caso exemplar deste terceiro termo, está na fala do personagem de Ed Begley, onde todos os chavões do discurso dos ricos sobre os pobres aparecem, implicados todos eles em seu repetido cacoete linguístico, “you know what I mean” (´vocês sabem o que estou dizendo´)

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O caso mais ostensivo, porém, é o do último a mudar de voto, o personagem feito por Lee J Cobb que, em dramática crise emocional, deixa ver que, em toda a sua radicalidade, estava transferindo para o réu, o ódio que, na verdade, sentia pelo filho, com quem sempre manteve uma relação de hostilidade.

O fato é que um rapaz pobre, residente da periferia, que, à primeira vista pareceu culpado a todos é, no final das difíceis discussões, dado como inocente. Se a temática da violência urbana, com a dura implicação de culpa social e/ou individual, já era pertinente ao tempo da feitura e estreia do filme, em nossa época o é muito mais… e não apenas nos Estados Unidos. Isto para não dizer que, no mundo todo, parece a matéria do dia.

Mas, seria um outro crime dizer que “Doze homens e uma sentença” é um bom filme por causa de sua atualidade.

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Ele é excelente porque tem as qualidades cinematográficas necessárias para tanto. As falas dos personagens são, naturalmente, argumentativas (cada um está tentando convencer os outros de que o seu pensamento é correto) e, o filme, ele mesmo, consiste numa grande argumentação, e, no entanto, em nenhum momento parece pregação ou maçada – ao contrário, prende a atenção do espectador… como se ele, o espectador, fizesse parte do julgamento.

Dirigida por Franklin Schaffner, uma primeira versão da estória aparecera na televisão americana em 1954. Quando a United Artists decidiu transformá-la em cinema, logo propôs a Henry Fonda que atuasse e co-produzisse, e este, impressionado com seu efeito, imediatamente indicou, para a direção, o nome de Lumet, que vinha se destacando com ótimos trabalhos no meio televisivo. Assim, Lumet assumiu o desafio de transformar em cinema algo que funcionara bem na televisão, mas que, se mal manuseado cinematograficamente, poderia resultar num feio fracasso na tela grande. E é então que nasce um grande cineasta.

Lee J Cobb em grande interpretação, como o pai hostil

Lee J Cobb em grande interpretação, como o pai hostil

Num set igualmente claustrofóbico, onde o elenco ensaiou durante duas cansativas semanas, o filme é rodado em 21 dias, somando ao todo 365 tomadas cuidadosamente estudadas para passar determinados efeitos.

Notem como no início do filme a câmera, em angulações predominantemente abertas, fica quase sempre posicionada acima do nível do olho humano, para dar a impressão de distância entre os personagens. Na medida em que a projeção prossegue, o nível da câmera vai baixando, ao mesmo tempo em que as tomadas vão ficando cada vez mais fechadas, com frequência de closes, o que enfatiza tanto a proximidade entre os personagens como a impressão de claustrofobia.

Naturalmente, as dificuldades de filmagens foram enormes, não apenas pelos limites do set, mas também pelo baixo orçamento da produção. Por exemplo, a fotografia montada para uma determinada tomada, em uma determinada fala de um personagem, precisava, por razões econômicas, ser mantida nas tomadas equivalentes, e por isso, as partes dos diálogos foram rodadas com semanas de distância entre uma fala e outra… E, contudo, no resultado, a sensação de ritmo é impressionante!

Hoje o American Film Institute lista “Doze homens e uma sentença” entre os melhores filmes do Século XX no gênero “drama de tribunal”.

Eu o listo entre os melhores filmes de qualquer época, em qualquer gênero.

Henry Fonda, ator e co-produtor de "Twelve angry men"

Henry Fonda, ator e co-produtor de “Twelve angry men”

Cenas de mesa e o código Da Vinci

22 maio

Não sei se vocês já notaram, mas, uma cena em cinema que mostra quatro ou um número maior de pessoas sentadas em torno de uma mesa, geralmente faz essas pessoas ocuparem três lados da mesa, e deixa um – para o espectador, o lado frontal – sem ninguém. São cadeiras vazias, ou pior, inexistentes.

Por quê? De ordem técnica, o motivo é óbvio: este terceiro lado vazio da mesa é o lugar da câmera, que não quer focalizar as costas de ninguém.

Confesso que essas cenas sempre me incomodaram, pois, na vida real, dificilmente as pessoas se distribuiriam desta maneira assimétrica e improvável em torno de uma mesa, e, no entanto, os filmes driblam essa verdade sem, aparentemente, quaisquer preocupações de não estarem sendo realistas. E vejam que o realismo é um dos códigos mais fortes da arte cinematográfica.

Os cineastas apelam para esse expediente por pura necessidade de enquadrar, e, com certeza, os seus fotógrafos agradecem a providência, a qual facilita incrivelmente a iluminação, o manuseio de câmera e tudo mais. É provável que poucos deles lembrem, ou mesmo saibam, que esta lição o cinema a aprendeu da pintura.

Sim, antiga, a lição vem da pintura renascentista. Lembrem da “Última ceia” de Leonardo da Vinci e constatem como, em uma mesa enorme, extremamente comprida, os apóstolos ocupam os três lados e, inexplicavelmente, deixam um, justamente o frontal, completamente vazio, livre para o olho do pintor que, evidentemente, não quis pintar costas. Os apóstolos gesticulam e falam ao natural, mas isso não adianta muito como realismo porque, da parte do pintor, a escolha das posições já fora artificial.

Outros pintores também retrataram a santa ceia, inclusive usando o mesmo expediente de Da Vinci, mas, tomo aqui a sua “Última ceia” como o protótipo da – digamos – ´situação de mesa´, que, pela sua radicalidade, virou o código inspirador de todos os enquadramentos cinematográficos para a mesma situação: ´o código Da Vinci´, com um pouco de ironia, chamemo-lo assim.

Esse “código Da Vinci” valeu para as artes plásticas do mundo inteiro, e nem o cinema – repito, uma arte eminentemente realista – escapou dele. Parece que algum filme antigo – provavelmente do período mudo – fez recurso a ele, e aí, os outros o seguiram, achando que os espectadores aceitariam essa circunstancial artificialidade como uma espécie de licença poética. De qualquer forma foi tão usado que virou convenção.

E vejam que, diferentemente da pintura, o cinema tem meios de superar esse código. É claro que se a mesa é pequena e os participantes do encontro são apenas duas pessoas, a coisa toda fica mais fácil de fazer. Uma alternativa é pôr os atores um defronte ao outro e filmar o diálogo em “campo-contra-campo”, ou seja, mostrando-se o rosto de cada um em tomadas intercaladas. A outra alternativa é abrir mais o quadro e filmar o conjunto, mesa mais os dois atores, estes de perfil. Ainda uma terceira alternativa, na verdade, a mais usada, é revezar os dois modos de enquadramento.

Duas outras possibilidades são: (1) colocar a câmera a certa eqüidistância dos dois personagens e fazer “chicote”, isto é, mover o eixo da câmera de um para outro em velocidade e de acordo com a emissão dos diálogos; (2) circundar a mesa com trilhos e deslocar a câmera lentamente, em sentido centrípeto.

A dificuldade aumenta na proporção direta do aumento do tamanho da mesa e do número de personagens, até porque, as sugestões de enquadramento acima sugeridas não são mais viáveis – ao menos todas, não. Neste caso, a primeira tomada pode ser de conjunto, mostrando a sala inteira, talvez de uma certa distância, em ângulo inclinado, ou não. Mas a partir, daí, e na medida em que os closes dos rostos se façam necessários para o acompanhamento do drama, os problemas se agigantam.

Cenas de mesa??? Pois é, questão pequena, mas importante para quem está interessado em saber como o cinema se expressa.

Obviamente, seria absurdo se um cineasta decidisse seguir ao pé da letra ´o código Da Vinci´ e eliminasse, numa grande mesa, todas as cadeiras do lado que pertence à perspectiva do espectador.

Enfim, sugiro que o leitor recorde, ou melhor ainda, reveja, cenas de mesas nos filmes que já conhece e, prestando atenção às cadeiras inexplicavelmente vazias ou inexistentes, constate o grau de ´falsidade´ dessas encenações. Nestes casos, interessante seria observar como os grandes cineastas do passado encontraram soluções, convincentes ou não, para uma situação tão difícil de filmar.

Não tenho espaço para relacionar tantas cenas de mesas, mas lembro aqui um caso clássico de superação do ´código Da Vinci´ que me parece exemplar. Está em “Doze homens e uma sentença” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958: veja ilustração acima), filme todo rodado em torno de uma mesa – uma obra prima cujos ensinamentos, naturalmente, vão muito além da arte do enquadramento cinematográfico.

Em tempo:

(1) esta matéria é dedicada a Flávio Tavares.

(2) a ilustração abaixo é do filme “Do mundo nada se leva” (Capra, 1938)