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Visages, villages

13 fev

No breve comentário que fiz, no Facebook, de “Visages, villages” (2017) disse que, vendo o filme, me senti abraçado e beijado. E foi mesmo.

Que encanto que é esse filmezinho modesto e grandioso, documental e delirante, realista e poético, rodado por uma dupla que seria improvável, se não se tratasse da decana da Nouvelle Vague Agnès Varda (89 anos) e o renomado fotógrafo Jean René (34 anos), mais conhecido como J.R.

Ao longo da projeção acompanhamos a viagem da dupla pelo interior da França, num caminhão equipado com aparelho fotográfico, os dois parando nos lugares meio por acaso, conversando com os residentes, e, mais importante, fotografando essas pessoas anônimas e comuns: agricultores, mineiros, operários, portuários, donas de casa…

“Cada foto conta uma história” garante Varda, mas aqui, a forma de contar é curiosa. Descomunais, as fotos são coladas nas paredes das casas, ou fachadas dos prédios, ou em construções de iguais dimensões. A rigor, são instalações com fins previstos, já que se sabe de antemão que a chuva, o vento, o sol ou a neve as destruirá dentro em breve. Isso, porém, não tem importância, nem para a dupla, nem para a gente. Importa a brincadeira e o gosto de brincar. Importa a poesia do gesto e sua significação instantânea e imponderável. Aliás, a própria brevidade dessas obras monstruosas e precárias é um dado a levar em conta, pois nos remete à finitude de tudo.

Especialmente ilustrativo, e particularmente tocante nesse particular, é aquela foto do amigo de Varda (o também fotógrafo, já falecido, Guy Bourdin) colada a um possante bunker alemão, remanescente do ataque à Normandia, agora tombado na praia como um corpo inerte. A “instalação” é feita nessa paisagem isolada, quase sem testemunhas, salvo a equipe do filme (e nós, evidentemente), sabendo-se que no dia seguinte a maré alta a terá apagado.

Depois de ganhar o “L´oil d´or” em Cannes, o filme de Varda e J.R. está, este ano, concorrendo ao Oscar como documentário. Documentário? Bem, o começo do filme já problematiza a categoria. Como foi que Varda e J.R. se conheceram? A narração gasta um tempinho criando hipóteses brincalhonas: Teria sido na estrada? Teria sido na padaria? Teria sido na balada? Tudo isso é literalmente mostrado e negado – ou seja, pura ficção. De tal forma que o espectador fique prevenido para os delírios que estão por vir.

A simplicidade do roteiro e o capricho plástico da encenação encantam, e nos fazem lembrar outro francês, mestre nessa arte de combinar plástica e simplicidade: o grande Jacques Tati de “Meu tio” (1958) e “Playtime” (1967).

Mas, claro, o diálogo mais óbvio é com a obra da própria Varda. Pela proposta estética (filmagens fora dos estúdios, câmeras leves, atores não profissionais, enfim, “cinema de autor”…) sempre associada à badalada Nouvelle Vague, na verdade, essa obra tem suas características pessoais. Para ser exato, ela precede a Nouvelle Vague, já que o primeiro filme de Varda, “La pointe courte” data de 1955, portanto, quatro anos antes do filme que teria inaugurado este movimento cinematográfico, “Os incompreendidos” de François Truffaut (1959).

Há mesmo quem alegue ter Varda praticado uma “nouvelle vague” diferente, não de todo isotópica ao grupo central (Truffaut, Chabrol, Godard) com uma temática onde o forte é a presença do outro (em muitos casos, a presença feminina) em detrimento do autor da obra – ou seja, uma corrente artística meio paralela, que dialogou de modo particular com as outras modalidades de arte, no caso, com a fotografia, a literatura, a pintura e o teatro, em nomes como Alain Robbe-Grillet, Marquerite Duras, Alain Resnais, e Jacques Demy, esposo de Varda.

A questão pode ficar em aberto, só que, de forma irônica, ela está referida no filme. No desenlace (e todo desenlace é um ponto importante em qualquer filme), Varda e J.R. tentam um contato com Jean-Luc Godard, como se sabe, o único cabeça da Nouvelle Vague ainda vivo. Como supostamente haviam combinado antes das filmagens, vão até a casa dele e, como diz uma cançãozinha brasileira, foram “e não encontraram ninguém…”. Varda volta irritada e encerra a questão chamando Godard de “cheval” (´cavalo´). Pouco importa se a ausência godardiana foi planejada, ou não: para quem conhece a obra de Varda, de todo jeito, o seu ingrediente não-nouvelle vague vem sutilmente à superfície.

Mas, enfim, para o espectador de “Visages, villages” fica o que mais interessa: a singeleza, a graça, o encanto, e o lirismo de um filme aconchegante e carinhoso a que você não se conforma de assistir uma única vez.

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Turismo cinéfilo

23 jul

Sabe como cinéfilo é, não? Adora associar tudo a cinema. A todo lugar que vai, está sempre vendo imagens fílmicas a sua frente. Um carro que dobra uma esquina de modo furtivo, uma folha que dança no ar e cai na relva, um sorriso generoso de desconhecida no meio da multidão: qualquer detalhe pode lhe lembrar tal cena, de tal filme, que ele viu em tal data, em tal cinema…

E quando ele viaja, então! E se a viagem for ao estrangeiro, por ventura um país com cinematografia vasta, nem se fala.

Eu mesmo me lembro dos meus poucos dias em Nova Iorque assim. Por exemplo, toda vez em que entrava num daqueles cafés, para o breakfast, e lá vinha o garçon, todo de preto, com aquela toalhinha branca por sobre o braço, perguntando ´what can I do for you´. Hum, aquilo, para mim, era puro cinema. A via Broadway e suas calçadas apinhadas, o central park, o Harlem, a Quinta Avenida (às vezes eu tinha a ilusão de que ia encontrar Audrey Hepburn na próxima esquina, brechando jóias nas vitrines da Tiffany´s) – tudo isso, e, muito mais, está nas nossas retinas cinéfilas e, ao vê-los ao vivo, parecem deslocados, fora da tela.

Duvido que um cinéfilo visite o terraço do Empire State Building e não se lembre do pobre do Cary Grant esperando, até anoitecer, a Deborah Kerr, que não vai vir mesmo. Ou que suba à Estátua da Liberdade e não perca o fôlego com aquele vilão de Hitchcock, pendurado só pela manga do paletó, que está se rasgando e – uai! – o cara vai cair lá embaixo e se esfacelar.

Quando estive em Paris a coisa não foi muito diferente. Cheguei de trem, à noite, e da estação, tomei um taxi direto para o “Hotel des Étrangers”, ali no começo do Quartier Latin. De manhã, segui a pé, pelo Boulevard Saint Michel e fui, direto, sem hesitação, para a Île de France, já sabendo que lá encontraria a Notre Dame, e, atravessando a ponte, o Louvre, e de lá, a Place da La Concorde, o Champs Élisées, Arco do Triunfo, e tudo mais. Minha colega de viagem, que na época também era novata na cidade, se impressionou, pensando que eu já estivera em Paris e estava escondendo o leite. Não estava. De tantos filmes situados em Paris que vi na vida, o mapa da cidade luz, pelo menos a parte mais óbvia, estava na minha cabeça de cinéfilo, e, caminhando ruas afora, eu só fazia confirmá-lo.

Estou tratando disso a propósito de um livrinho que tenho em mãos, chamado “Europa de cinema” (Pulp Edições: Curitiba, 2011), com o subtítulo de ´roteiros e dicas de viagem inspirados em grandes filmes´. Viajante inveterado e cinéfilo, o autor é esse Vicente Frare, que nos convida a percursos regados a filmes em pelo menos cinco capitais européias: Berlim, Londres, Madri, Paris e Roma.

Para cada uma, ele fornece dicas de filmes recentes em que estas cidades são o cenário; resume os enredos e aponta os locais particulares que foram retratados, e ainda informa como o viajante pode visitá-los. Em seguida, vem uma lista maior e menos detalhada de filmes antigos cujos enredos se passam nessas cidades. Há ainda um setor de curiosidades sobre o cinema de cada país, seguido sempre de cinco locais particularmente cinematográficos (tipo: o Sacré Coeur em Paris, ou o Coliseu em Roma), cinco livros para entrar no clima, e cinco músicas para colocar no ipod. Como é coisa dirigida a quem vai viajar, o livro é pequeno, de modo a caber na bolsa ou mesmo no bolso. E claro, muito colorido e todo ilustrado com os devidos cenários a serem visitados.

Agora, ou você é de fato um aficcionado da sétima arte, ou o livro não lhe serve muito. Para se ter uma idéia, a quantidade de filmes resenhados, por exemplo, na primeira lista de Paris (chamada de “Filmes para viajar por…”) chega a dezessete, isto sem falar na segunda lista (chamada de “Outras Sugestões”), aquela que só fornece os créditos: no caso de Paris, são quarenta e duas películas. Claro, para o cinéfilo, não há problema, pois, quem é que não conhece – digamos – “Os incompreendidos” de François Truffaut (1959), ou “Playtime” de Jacques Tati (1968)?

Naturalmente, o cinéfilo obsessivo, como eu, vai até apontar lacunas: por exemplo, sobre Paris, não está lá o belo e comovente “Por ternura também se mata” (René Clair, 1958) cujo título original é, por sinal, o nome de um certo setor da cidade luz “Porte de Lilás”.

Dois comentários finais, um preso ao outro.

(1) a mera edição de um livro desses é prova de como, independentemente do fenômeno da cinefilia propriamente dita, a recepção ao cinema, de um modo geral, cresceu nas últimas décadas, e como o cinema passou a fazer parte da vida das pessoas, como talvez nunca fizera antes; (2) sem a eletrônica, que viabiliza os filmes em formato doméstico, um livrinho desses não faria sentido, ou melhor, nem seria possível.