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“I HAVE A POEM”

13 nov

Filmezinho interessante este “A professora do jardim de infância” (Sara Colangelo, 2018) que acabo de assistir em DVD. Nada especial, mas acho que merece um comentário.

Na Nova Iorque de hoje, uma professora primária se entusiasma com o comportamento de um aluno de sete anos que “fala” poesia. Digo “fala” porque o garoto não escreve as belas frases que, inexplicavelmente, lhe saem da boca – ele simplesmente diz os “poemas”, sem mais nem menos, nos momentos menos previsíveis. Fascinada com essa misteriosa manifestação lírica numa criatura tão tenra e frágil, ela, a professora é que toma notas e, mais que isso, estimula o quanto pode o potencial poético do pequeno aluno.

Até aí tudo bem. O problema é que a coisa não fica por aí. Na verdade, a professora vai se tornando obsessiva com o surpreende talento do aluno – um talento que, para o espectador às vezes parece de natureza sobrenatural – e passa a ter um comportamento um tanto e quanto fora do comum.

Sendo casada e com dois filhos adolescentes, ela começa a exibir em casa uma certa atitude hostil. Dá-se bem com o marido, porém, a filha começa a lhe parecer vulgar e o filho, alienado. E essas impressões terminam aparecendo nas relações familiares e motivando conflitos.

Mesmo antes do aluno poeta, a nossa professora já frequentava um Curso de Poesia para adultos, onde os poemas que escrevia e apresentava nunca tinham boa acolhida. O que faz ela? Passa a levar para a classe os poemas do aluno, como se seus fossem, e, previsivelmente, é aplaudida por colegas e, sobretudo, pelo professor.

Com dificuldade, ela faz contato com o pai do garoto, um empresário que não vê com bons olhos esse lance de poeta na família. Mas, enfim, quanto mais objeções à poesia, mais ela se empenha em estimular o garoto e a ficar perto dele, até mesmo quando o pai o muda de escola.

No dia em que ocorre, na cidade, um evento literário com recital de poesia, ela praticamente rapta o garoto e o leva para o evento onde ele, para surpresa e encanto dos presentes, recita os seus poemas e é calorosamente aplaudido. É aí que o professor da professora descobre que sua participação no Curso de Poesia era fake – que os poemas que ela recitava não eram de sua autoria.

Estranhamente, ela não se incomoda muito com isso, e o sem sentido de seu comportamento vai crescendo, até beirar algo parecido com insanidade. Mas, vamos parar por aqui no relato do enredo.

Maggie Gyllenhaal and Parker Sevak in The Kindergarten Teacher by Sara Colangelo,

Uma coisa boa no filme é a colocação do contraste entre, de um lado, o mundo prosaico, material, vulgar da vida cotidiana, e do outro, o mundo criativo, inovador, misterioso, dos voos poéticos. Em dado momento, a professora explica ao aluno que as pessoas em geral vão tentar conduzi-lo para a materialidade e coibir seu pendor poético, e completa: “como fizeram comigo”. O que faz o espectador imaginar que nossa professora seria uma personalidade frustrada, uma poeta de nascimento, tolhida pelas circunstâncias da vida.

Se é ou não, o desempenho dado pela atriz Maggie Gyllenhaal é extremamente eficiente em nos passar o drama dessa mulher atormentada que se entrega a uma causa perdida com o heroísmo dos suicidas e, por que não, dos poetas.

E por falar em poesia, o comportamento do garoto poeta, em si mesmo, nos faz pensar nas teorias românticas e místicas que estão em Wordsworth, especialmente no seu “Intimations of immortality” em que se defende o encanto da infância como uma lembrança do paraíso onde a criança estava antes de vir ao mundo. Essa lembrança (e foi talvez o que quis explicar a professora a seu aluno) é, com o passar dos anos e com o contato com os adultos, logo cedo anulada e, na maior parte das pessoas, desaparece para sempre.

Tanto é assim que a cena que mais dói no filme é o seu último fotograma, quando o garoto, resgatado pela polícia e jogado no banco do carro, sozinho, diz o que já dissera várias vezes ao ser atacado pela inspiração: “I have a poem”. E o espectador, entristecido, deduz que este novo poema não será mais ouvido nem anotado por ninguém…

Uma crítica que li de “A professora do jardim de infância” foi que, a rigor, o comportamento da protagonista não tem lógica. Concordo, mas será que essa falta de lógica não seria um recurso expressivo, no caso, uma alegoria diegética para a própria poesia? Não sei, mas que o filme é interessante, isto lá é. E legal para se pensar o ensino de literatura no nível elementar… e, se for o caso, em quaisquer níveis.

CYRANO, MON AMOUR

17 jun

Não assisti a todos os filmes do Festival Varilux de Cinema Francês, mas quer me parecer que, este ano, a qualidade caiu um pouco. Dos sete ou oito que vi, “Cyrano, mon amour” (2018) foi o mais interessante.

Dirigido pelo jovem e novato no métier, Alexis Michalik, o filme narra a genesis da peça “Cyrano de Bergerac”, que o teatrólogo Edmond Rostand escreveu e encenou, na Paris de 1897. Sucesso de público e crítica: com dezenas de encenações ao longo do século XX, a peça também gerou adaptações cinematográficas, das quais lembro duas, ambas homônimas ao original: a de Michael Gordon, 1950, com José Ferrer no papel-título, e a de Jean-Paul Rappenau, 1989 com Gérard Depardieu no mesmo papel. Sem esquecer a de Fred Schepisi, “Roxanne” (1987), com Steve Martin.

Michalik, com certeza, conhecia estas versões, mas, não foram elas que o motivaram a fazer o filme, pois, como dito, ele não pretendia verter nada, e sim, ir atrás da origem da escritura dessa peça tão importante. Ir atrás não é exatamente a expressão apropriada… inventar deve ser mais o caso. Por que será que Rostand – o filme indaga – quis recriar um episódio na vida de um personagem real da História da França do século XVII,  que, tendo sido escritor, ficou, no folclore da cultura francesa, muito mais como o duelista de nariz descomunal?

Segundo consta, ao invés das adaptações citadas, Michalik teria sido inspirado por um filme inglês a que assistira na adolescência e nunca esquecera. O filme foi “Shakespeare apaixonado” (1998), onde o diretor John Madden fez a brincadeira de inventar uma situação ficcional na vida do Bardo de Stratford que o teria levado a escrever a peça “Romeu e Julieta”. Michalik queria fazer algo semelhante, e fez.

De modo que o que temos em geral em “Edmond” (título original do filme) é a luta física, psicológica e intelectual de Rostand, para escrever uma peça que, não apenas superasse seus fracassos – como o anterior “A princesa longínqua” (1895), que nem a presença da diva Sarah Bernhardt salvou – mas que trouxesse algo de novo e vibrante ao mundo teatral francês.

E os percalços dessa difícil escritura, vão brotando da cabeça criativa de Michalik e seus co-roteiristas: segundo esse roteiro inventivo, as ideias, quase todas pelo menos, vão chegando a Rostand a partir de fatos que, por coincidência, ocorrem em torno dele. Por exemplo, ele, Rostand, teria um amigo que não conseguia conquistar a namorada porque era intelectualmente pouco dotado, e Rostand, que fala e escreve bem, meio sem querer, “conquista” a namorada do amigo com falas e depois cartas eloquentes e poéticas. A esse amigo é dado um papel na peça, e por um acidente (in)feliz, a moça termina também no mesmo palco, na tão esperada e estrondosa estreia da peça no “Théatre de la Porte-Saint Martin”, em dezembro de 1897.

Edmond Rostand, interpretação do ator Thomas Solivèrres.

O papel de Cyrano fica com o então famoso ator Constant Coquelin – espécie de paraninfo do projeto – e toda uma gama de artistas da bela época vai aparecer em pontas significativas: além da diva Bernhardt, podem ser vistos figuras como Anton Chekov, George Méliès, e George Feydeau, este interpretado pelo próprio Alex Michalik. Sim, aquele filmezinho a que Rostand assiste meio por acaso, mas com curiosidade interesseira, é o “Saída dos operários da usina”, uma das primeiras filmagens dos inventores irmãos Lumière.

Esse interesse de Rostand (digo, o Rostand de Michalik) é que vai justificar a recusa de um filme – que trata de teatro – em ser teatral. Por exemplo: uma cena importante do ponto de vista temático e estético, a da morte de Cyrano, é descrita com o recurso livre e estritamente cinematográfico a um cenário (o convento religioso do final) que não está no palco, mas fora dele, e bem distante fisicamente falando.

Em tempo: aquele momento no teatro em que, junto com Coquelin, todo mundo passa a gritar “merde, merde!” não é gratuito, como pode parecer ao espectador desavisado: faz parte de uma tradição, ainda hoje viva, do teatro francês. É que nos velhos tempos do Cyrano verídico, século XVII, as pessoas iam ao teatro em charretes puxadas por cavalos, e estes animais, durante o espetáculo, defecavam na rua, ou seja, quanto mais fezes, mais sucesso para a peça em cartaz.

Enfim, um filme leve, divertido, e ao mesmo tempo, sensível e refinado, que retoma um tema conhecido (o amor que nasce da palavra poética, e não do físico do amado) e lhe concede vida nova.

O ator e paraninfo do projeto, Coquelin, é interpretado por Olivier Gourmet.

O grande circo místico

27 nov

Nada simpática a reação da crítica brasileira ao filme de Cacá Diegues “O grande circo místico” (2018), que está na lista internacional dos pré-concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano.

Realmente, o filme tem problemas que não dá para esconder. Vou começar citando um que é curioso pelo fato de ter dois lados: ao mesmo tempo em que é óbvio para quem vê o filme, foi inevitável para quem o filmou.

Refiro-me ao fato de os personagens (e são tantos) não serem psicologicamente desenvolvidos e, assim, parecerem ralos, decorativos, superficiais.

A questão vem do original adaptado. O filme adapta o poema homônimo (1938) de Jorge de Lima que, em tom narrativo, conta a história de cinco gerações… e, pasmem, faz isto em apenas 46 linhas. Ou seja, no próprio poema os personagens não são desenvolvidos, alguns apenas mencionados. A imperatriz Tereza, o médico Frederico Knieps, a equilibrista Agnes, Charlotte e o Clown, Marie e Otto, Lily Braun a deslocadora, Margarette a pretensa freira, o trapezista Ludwig, o boxeur Ruldoph, as gêmeas Marie e Helene… ninguém possui a profundidade psicológica que certamente teriam, se, por exemplo, o texto fosse um longo romance.

Para falar em termos cinematográficos, o poema de Jorge de Lima, por belo que seja (e o é) constitui-se num péssimo “argumento”. Para qualquer filme, aliás.

Acho que preciso explicar o que significa o termo “argumento” em cinema. Argumento é o texto que precede o roteiro. Ele não tem ainda os detalhes do roteiro (planos, enquadramentos, posição de câmera, iluminação, etc), mas, conta, com palavras da língua, como uma pessoa qualquer contaria à outra, toda a estória de filme, do começo ao fim, dando os desdobramentos da estória e os traços principais dos personagens. Geralmente, ele contém de oito a dez laudas, ou mais.

O que aconteceu com Cacá Diegues? Ele tomou o curtíssimo poema de Jorge de Lima como “argumento”, e, inevitavelmente, se saiu mal. Como pôr na tela a história de cinco gerações sem incorrer em simplificação psicológica? Cineasta experiente que é, com certeza ele mesmo viu, desde o início, que o poema era um péssimo argumento, e foi responsabilidade sua a decisão de filmá-lo. Por certo, pensou numa compensação estética para o problema, e a compensação seria rodar um filme igualmente poético, tão poético quanto o original.

Note-se que, com a ajuda das canções de Chico e Edu Lobo (Conferir o disco homônimo, de 1983), e muito capricho nas performances dos atores, Diegues pretendeu fazer um filme lírico, onde as imagens do texto adaptado tivessem equivalentes plásticos na tela. Um caso particularmente sintomático é o das gêmeas Marie e Helena que, num poema de 46 linhas têm direito aos 18 versos finais. E no filme, tomam tempo na longa cena, meio abstrata, da levitação nua, que fecha a estória.

Atenção – espero que tenha ficado claro para o meu leitor: o poema de Jorge de Lima é belíssimo, como tudo que o poeta alagoano escreveu, porém, para uso cinematográfico, é, sim um péssimo “argumento”. Em termos práticos é infilmável, a não ser que você quisesse fazer um filme de sete ou oito horas de duração.

Interessante é observar como, por ironia, o diretor se saiu bem ao modificar o texto adaptado, no caso, com pequenos acréscimos. Com certeza, uma das melhores coisas no filme é a figura, inexistente no poema, de Celavi, o personagem circense que atravessa todas as cinco gerações sem sofrer as alterações físicas do tempo – uma espécie de símbolo da eternidade do circo – a propósito, excelente desempenho do ator Jesuíta Barbosa.

O poema de Jorge de Lima possui um refrão sobre a imprensa. Duas vezes ele diz que a imprensa tem se ocupado de noticiar sobre o circo. Na terceira vez (duas últimas linhas do poema) ele complica essa relação circo vs imprensa, afirmando que “com a verdadeira história do grande circo Knieps / muito pouco se tem ocupado a imprensa”. Claro a diferença agora esta na inclusão da palavra “verdadeira”. Em outros termos, a imprensa veria o espetáculo do circo, mas não a essência. Veria a mágica, mas não a mística.

Acho que Cacá Diegues quis ir no caminho dessa “essência mística” do grande circo… Até que ponto chegou lá, fica a questão em aberto: o tempo que decida.

O cineasta Cacá Diegues

Escritores que cometeram crítica de cinema

25 jul

Poetas ou ficcionistas, há escritores cujas obras lembram cinema. A poesia de João Cabral, por exemplo, ele mesmo insistia em dizer, tem muito de cinematográfica. Em alguns casos, até escritores do passado, quando a sétima arte sequer existia, já pareciam fílmicos. Dickens é um caso óbvio, citado pelo cineasta pioneiro D. W. Griffith, mas acho que Sthendal, Tolstoi e Balzac também.

Mas não é disso quero tratar aqui.

Aqui quero tratar de profissionais que, tendo se notabilizado como escritores, conheceram, sim, o cinema e, bem antes do ofício literário, e/ou científico, cometeram a crítica cinematográfica – geralmente uma crítica praticada no ardor da juventude, e de que hoje pouco se tem notícia.

Gabriel Garcia Marquez, crítico de cinema, antes de ser escritor.

São em número bem maior do que pensamos, ou sabemos, mas aqui me concentro em quatro ou cinco casos, suficientemente ilustrativos.

Comecemos como o autor de “Cem anos de solidão”.

Sim, você sabia que o colombiano Gabriel Garcia Marquez fez crítica de cinema na juventude? Pois é. Eu vim a saber disso muito tardiamente, décadas depois de ter lido seus romances e novelas, e de ter visto suas adaptações para a tela. Como soube? Foi o meu saudoso amigo e colega de labuta crítica Antônio Barreto Neto quem me passou a informação. Informação nada, ele me deu de presente o livro em que está editada toda a crítica cinematográfica de Garcia Marquez, este ainda um jovem jornalista, comentando as ´películas´ – quase todas americanas – exibidas nos cinemas locais de Bogotá. Quem quiser provas, o livro que Barreto me deu está aqui, na minha estante, me fitando de longe.

A essa altura dos acontecimentos, imagino que já foi feita alguma tese de doutorado, catando, nesses escritos sobre cinema, elementos que possam ter alimentado a ficção de Garcia Marquez. Se não foi, que se faça!

O pernambucano Josué de Castro.

O segundo caso que cito é brasileiro, o do nosso cientista e pensador social Josué de Castro. Bem antes de ficar conhecido como o teórico da fome, Josué de Castro foi um apaixonado pela sétima arte, cuja autonomia estética defendeu com unhas e dentes. Seus escritos de crítica datam do início dos anos trinta, quando o cinema acabara de ganhar o acréscimo do som, aliás, um acréscimo que ele abominava. Assim, gastou tempo e energia redigindo ensaios em que defendia a pureza da imagem. No seu entender, para alcançar a condição de arte pura, o cinema precisava livrar-se da herança do teatro e da literatura, e, por isso mesmo, o advento do som lhe era malsão. Seu posicionamento coincidiu com o de Chaplin, mas, ele nem precisou de endosso alheio para alardeá-lo.

Que relação essa posição terá com sua obra posterior eu não sei, mas é, sim, instigante rever o autor de “A geografia da fome” como um esteta radical a defender a imagem pura. Cá comigo, fico pensando se alguém não já teve a ideia de juntar os dois Josués e rodar um documentário sem som nem fala… sobre a fome.

Um terceiro caso que me vem à memória é o do romancista inglês Graham Greene. Tudo bem, seus romances quase todos viraram filmes e ele mesmo seria, mais tarde, convidado por Hollywood para ser roteirista. Nada disso, porém, impede que o inclua neste rol que aqui apresento, por uma razão simples – bem antes de ser romancista, ainda na juventude, ele fez crítica de cinema, e de modo sistemático. A coisa literária viria depois, como veio depois o métier de roteirista.

O inglês Graham Greene.

Dele possuo um livro que coleta sua produção de crítico cinematográfico, um belo volume chamado “Mornings in the dark” (“Manhãs no escuro”), com artigos publicados em jornais londrinos a um tempo em que ninguém, no âmbito literário, sabia quem era esse tal de Graham Greene.

Um quarto caso a citar é o do nosso Vinicius de Moraes, famoso pela poesia publicada e pelas músicas compostas e cantadas, porém, “um desconhecido crítico de cinema”.

Só os mais idosos vão lembrar as tantas “crônicas de cinema” que o nosso mais tarde embaixador e poeta veiculou com assiduidade profissional, nos jornais cariocas, nos anos quarenta. Como Josué de Castro, Vinicius também foi um defensor da tela muda, mas, o melhor de seus escritos está na simplicidade com que falava de seu amor ao cinema e daquilo que seria o perfil do espectador autêntico.

Por sorte, seu trabalho de crítico cinematográfico foi resgatado das velhas páginas de jornal e está no delicioso “O cinema dos meus olhos”, livro organizado e editado pelo jornalista Carlos Augusto Calil. É conferir.

Vinicius de Moraes, o crítico de cinema.

Signo e imagem em Castro Pinto

6 jun

Ao leitor deste blogue, peço licença para versar sobre assunto não relacionado a cinema. O assunto de hoje é literatura, mais especificamente, poesia.

Dirijo-me particularmente ao leitor residente em João Pessoa, Paraíba, para informar que no próximo dia 08 de junho, sexta-feira, vou estar lançando a segunda edição do livro “Signo e imagem em Castro Pinto” (Ideia, 2018), versão pública que tomou minha tese de doutorado homônima, escrita, defendida e aprovada em 1995, na Universidade Federal da Paraíba, e cujo corpus foi a poética do nosso poeta maior Sérgio de Castro Pinto.

Com apresentação do prof. Edilson Amorim, o lançamento vai ocorrer na Academia Paraibana de Letras, a partir das 19:00 horas, quando será servido aos presentes amplo coquete. Sintam-se todos convidados.

Ao leitor interessado em poesia, e à guisa de aperitivo, transcrevo o texto de apresentação que redigi para esta segunda edição do livro:

Eu e meu livro, segunda edição de “Signo e imagem em Castro Pinto”.

 

“Ler um poema é caminhar sobre o silêncio – sobre o silêncio de um vulcão”. A frase, que um dia usei como epígrafe para um outro livro, é do pensador Geoffrey Hartman, mas, do tanto que me é cara, penso ser minha.

Sim, como ler a rica, peculiar e instigante poesia de Sérgio de Castro Pinto? Como atravessar sua superfície silenciosa e divisar o vulcão escondido? Essa viagem subterrânea não demanda um instrumental que nos proteja da obviedade, da irrelevância ou mesmo do equívoco?

Essa viagem perigosa eu a fiz, mas, antes de ser livro, este trabalho foi tese de doutorado em Literatura Brasileira, que, numa tarde em janeiro de 1995, defendi no Centro de Ciências Humanas Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba.

O poeta estudado, Sérgio de Castro Pinto.

Na sua aparente complexidade, o enfoque escolhido foi simples: somou-se esforço analítico a desejo devaneante. Para o primeiro caso, fomos buscar amparo na Semiótica do pensador americano Michael Riffaterre, e para o segundo, na Fenomenologia do pensador francês Gaston Bachelard. E por que esse acoplamento entre dois modelos teóricos supostamente antagônicos? Por uma razão igualmente simples: na sua riqueza estrutural e na sua intensidade lírica, a poesia a ser interpretada o solicitava – mais que solicita, exigia.

O trabalho foi aprovado pela banca examinadora e recomendado à imediata publicação, mas, uma recompensa a mais me veio no ano seguinte, quando “Signo e imagem em Castro Pinto”, a tese, foi premiada com o segundo lugar em concurso nacional de teses de doutorado de literatura, organizado pela ANPOLL (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística).

Do formato da tese para o do livro, houve pouca mudança, até porque, como na ocasião fiz ciente ao meu orientador, redigi a tese pensando-a como livro. E ele concordou.

Pois, relendo agora este livro para esta Reedição, fiquei me indagando em que ele seria datado, já que de 1995 ao presente são decorridas mais de duas décadas.

Pelo menos em dois aspectos há inevitável defasagem: desde então, a fortuna crítica de Castro Pinto – revisada no primeiro capítulo – cresceu consideravelmente, como também cresceu a sua própria produção poética, que, na época, distribuída em quatro livros, Gestos lúcidos, A ilha na ostra, Domicílio em trânsito e outros poemas e O cerco da memória, não consistia em mais que 103 poemas, alguns repetidos de livro a livro.

Uma outra indagação a ser feita poderia concernir à validade do enfoque proposto. Vinte e três anos depois de concebido e aplicado, ele vale ainda para a poesia recente do autor estudado? Indagação que, ao invés de tentar responder, prefiro repassar, junto com esta Reedição, ao apreciador da poética de Sérgio de Castro Pinto.

Em tempo: aguardo vocês lá.

Lou Andreas-Salomé

17 abr

Uma mulher do século XIX, que, com certa intimidade, conviveu com Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke e Sigmund Freud já teria muito o que contar, ainda que nunca tivesse escrito uma linha.

E ela escreveu, e muitas. Refiro-me à escritora russo-alemã Lou Andreas-Salomé, que é autora de vinte livros e centenas de ensaios, alguns dos quais sobre suas relações afetivas e intelectuais com os autores referidos.

Quem nos conta sua história é o filme “Lou” (2016), do diretor alemão Cordula Post-Kablutz, e nos conta desde a infância, em São Petersburgo, até a idade matura, na Alemanha, quando, já idosa e doente, é ameaçada pelo regime nazista por ter partilhado das ideias “indecentes” de Freud. A rigor, quem conta a história é ela mesma, ao seu biógrafo Ernst Pfeiffer, um rapaz tímido que, como os muitos homens que passaram pela vida dessa mulher fascinante, cai por essa senhora de 75 anos.

A história segue mais ou menos a cronologia, apenas dispendendo mais tempo de tela para os “casos” amorosos com as figuras mais ilustres e mais marcantes na sua formação intelectual. Por exemplo, um tempo considerável é dado à formação e manutenção do triângulo amoroso entre Lou, Rée e Nietzche, aliás, triângulo que só pode ser chamado de “amoroso” com restrições, já que Lou – uma férrea defensora da vida celibatária – não envolveu-se sexualmente com nenhum dos dois. A famosa foto em que ela aparece com os dois amigos, segurando um chicote, é emblemática desse tipo de relação: a sugestão irônica é que ela estaria maltratando os dois amigos, assim como a lendária Filis maltratara o sábio Aristóteles.

No filme, a foto do chicote.

É fato que com o poeta Rilke ela teve uma relação mais íntima, mas logo dele fugiu, sufocada pelo seu excessivo e doentio apego.  Sim, Lou casou um dia com o linguista Carl Andreas, que lhe deu este sobrenome, porém, de comum acordo entre os dois, foi uma duradoura relação a dois, cheia de afeto, mas sem qualquer contato físico.

Não é que Lou Andreas-Salomé fosse assexuada. Apenas queria a todo custo manter a sua independência de pensadora, que uma vida doméstica e com filhos, ela achava, poderia comprometer. Profunda conhecedora da obra de Nietzsche, ela escolhera para si, a alternativa de ser “apolínea” e, se possível, nunca “dionisíaca”. A alegação é que, para crescer intelectualmente, precisava da disciplina de Apolo, em detrimento do descontrole de Dionísio. Só bem mais tarde na sua vida, experimentaria o lado dionisíaco de seu corpo e de seu espírito, mais aí, Nietzsche, o autor dos conceitos, já se fora. E o filme, estranhamente, nos oferece muito pouco desse derradeiro parceiro erótico, com quem ela traiu o esposo Andreas.

A parte final do roteiro é dedicada à sua amizade e seu aprendizado com Freud, e uma cena típica a mostra no divã do psicanalista austríaco, quando, rememorando o passado, desata na gargalhada ao constatar que a figura de Deus que via em seus delírios infantis, tinha as feições do pai da psicanálise. Com a ironia de ter sido um Deus ingrato, que, apesar de seus rogos constantes, não salvara o seu pai querido da morte. De todo jeito, nessa fase madura da vida, Lou já escrevera livros esclarecedores de seu pensamento livre – um deles sobre o papel benéfico do narcisismo, que o próprio Freud reconheceria como decisivo para o estudo do Inconsciente.

Uma Lou idosa, contando sua vida….

Penso que, no Brasil, seus livros mais conhecidos são: “Nietzsche em suas obras”, “O erotismo – reflexões sobre o problema do amor”, “Freud 1914-1916: ensaios de metapsicologia” e, talvez o mais popular e mais amado “Cartas a um jovem poeta”, sua rica e vasta correspondência com Rilke.

Para ser a estória de uma mulher tão revolucionária – espécie de precursora do feminismo que ainda estava por vir – o filme é relativamente convencional, e não se distingue muito do seu gênero – resumido na frase: ´uma figura ilustre conta sua vida´. Um recurso de linguagem que pode ter destaque é talvez a montagem do fotográfico com o cinematográfico, feita cada vez que, ao longo da narração, se tem um novo retorno ao passado. Na introdução desses retornos, parte-se sempre de uma foto do acervo particular da protagonista, primeiramente em tamanho natural, e depois, ampliado para a dimensão da tela, onde se justapõe a protagonista se locomovendo, enquanto o restante das figuras na foto permanece estático.

Enfim, um filme de interesse para vários profissionais – filósofos, psicanalistas, literatos, historiadores, feministas, etc – mas, não sei se do interesse do espectador comum. Para estes talvez faltem aqueles lances dramáticos que tornam qualquer estória apetitosa, lances, como se sabe, nem sempre efetivos em narrativas que se esforçam em resumir toda uma existência humana em duas horas de projeção.

Lou Andreas-Salomé em foto da época.

“Além das palavras” – Emily Dickinson para poucos

8 maio

Ainda não tinha visto “Além das palavras” (“A quiet passion”, 2016) quando o recomendei aos amigos do Facebook, e o fiz por ter lido, na sinopse, que focava a vida da poetisa que mais admiro, Emily Dickinson. Várias pessoas foram à sessão sugerida por conta de minha recomendação, mas, com meia hora de projeção decorrida, fiquei em dúvida se devia ter feito essa recomendação, assim às cegas.

Não é que “Além das palavras” não seja um bom filme: é que sua proposta é bem particular, pessoal, concebida para um público também particular. Não há como negar, o filme é lento, arrastado, eventualmente maçante e, para curti-lo, o espectador precisa estar familiarizado com a obra da poetisa, mais que isso, precisa ser seu admirador apaixonado.

A narração é feita em quadros, quase estáticos, com os atores quase imóveis, quase sempre articulando um diálogo agudo, sagaz, ferino, inteligente, na maior parte dos casos, inteligente demais, ao ponto de parecer um monte de aforismos saídos de livros de filosofia.

Sabe-se que a família da poetisa de Amherst era refinada, porém, o espectador sente falta de uma representação, mínima que seja, do dia a dia. Não há um momento em que se diga “me passa a manteiga”, ou “a chuva molhou o terraço”, ou qualquer banalidade assim. Os personagens só abrem a boca para emitir formulações graves sobre a existência e, com a repetição, isso torna-se artificial, teatral mesmo. Ficam de fora os “esquilos” e “migalhas” e as outras tantas coisinhas miúdas que estão, sim, nos próprios textos de Dickinson.

Suponho que mesmo os apaixonados por Dickinson têm certa dificuldade de recepção. Eu tive. Por exemplo, os muitos poemas citados ao longo do filme (em voz over, ou pela protagonista) são os menos conhecidos do leitor, e não necessariamente, os melhores. E para piorar, as legendas, claro, não os traduzem à altura, e o efeito é, no geral, meio pífio, ao menos se você não domina o inglês para, nesses momentos, atiçar o ouvido e dispensar as legendas. Uma impressão é que esses poemas menos conhecidos tomaram a vez dos mais populares porque o cineasta quis fugir do óbvio, uma obsessão da própria Dickinson, mas não sei se a medida foi boa.

Só praticamente três dos poemas mais antologizados aparecem e – devemos admitir – bem empregados. Um é “I am nobody”, recitado pela poetisa de modo engraçado para o sobrinho, recém-nascido. O outro vai aparecer no desenlace, cobrindo a morte da poetisa de uma maneira, de fato, muito efetiva e bela: “Because I could not stop for death…” (“Como não pude parar para a morte…”). Muito bem utilizado, também, é o do fotograma final, que, astutamente, fica igualmente valendo para o autor do filme: “This is my letter to the world, that never wrote to me”: “Esta é minha carta para o mundo, que nunca me escreveu”.

De minha parte, senti falta de poemas que, pela temática, caberiam muito bem em certos trechos da estória. Por exemplo, nas cenas da Guerra de Secessão, achei que ia ouvir aquele, sobre o soldado agonizante, que começa: “Success is counted sweetest / by those who never succeed”. Ao ser tratado o caso de Emily com o Reverendo Wadsworth, supus que ouviria “The soul selects her own society…”, um dos mais belos poemas de amor que conheço, e, no agravamento da doença da poetisa, bem que dava certo aquele, sobre a fragilidade da esperança: “Hope is the thing with feathers…”.

Penso que na segunda parte do filme vai tornar-se um pouco mais fácil para o espectador envolver-se na estória, ao despontarem os casos amorosos (o amor platônico de Emily pelo reverendo Wadsworth e a relação adúltera entre Austin, o irmão de Emily, casado, e a amiga, também casada), ocasiões em que os diálogos parecem mais reais… e os personagens idem.

Antes de fazer o filme, o diretor Terence Davies deve ter lido todas as biografias da poetisa e não quis deixar faltar os elementos mais comentados da fase final de sua vida, possivelmente, sua única concessão ao óbvio: a radical reclusão da escritora em seu quarto doméstico, a sistemática hostilidade para com os eventuais visitantes, e as indefectíveis roupas brancas, possivelmente simbólicas de uma pureza almejada.

Na minha chamada do Facebook, antes de ver “Além das palavras”, fiz uma brincadeira com os versos “Hope is the thing with feathers / that perches on the soul”, dizendo que “não sei se o filme vai pousar na minha alma, mas tenho esperança que sim”. Agora posso dizer que pousou, mas não cantou…

Um filme sobre poesia, um bom filme, não resta dúvida, mas não sei se propriamente um filme poético. Seguro não estou, mas, de uma coisa desconfio: é que ele não estimula a leitura de Emily Dickinson. E quando digo isto, penso nos jovens que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer a singularíssima obra da poetisa de Amherst, e sua impressionante modernidade.