Tag Archives: poesia

Lou Andreas-Salomé

17 abr

Uma mulher do século XIX, que, com certa intimidade, conviveu com Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke e Sigmund Freud já teria muito o que contar, ainda que nunca tivesse escrito uma linha.

E ela escreveu, e muitas. Refiro-me à escritora russo-alemã Lou Andreas-Salomé, que é autora de vinte livros e centenas de ensaios, alguns dos quais sobre suas relações afetivas e intelectuais com os autores referidos.

Quem nos conta sua história é o filme “Lou” (2016), do diretor alemão Cordula Post-Kablutz, e nos conta desde a infância, em São Petersburgo, até a idade matura, na Alemanha, quando, já idosa e doente, é ameaçada pelo regime nazista por ter partilhado das ideias “indecentes” de Freud. A rigor, quem conta a história é ela mesma, ao seu biógrafo Ernst Pfeiffer, um rapaz tímido que, como os muitos homens que passaram pela vida dessa mulher fascinante, cai por essa senhora de 75 anos.

A história segue mais ou menos a cronologia, apenas dispendendo mais tempo de tela para os “casos” amorosos com as figuras mais ilustres e mais marcantes na sua formação intelectual. Por exemplo, um tempo considerável é dado à formação e manutenção do triângulo amoroso entre Lou, Rée e Nietzche, aliás, triângulo que só pode ser chamado de “amoroso” com restrições, já que Lou – uma férrea defensora da vida celibatária – não envolveu-se sexualmente com nenhum dos dois. A famosa foto em que ela aparece com os dois amigos, segurando um chicote, é emblemática desse tipo de relação: a sugestão irônica é que ela estaria maltratando os dois amigos, assim como a lendária Filis maltratara o sábio Aristóteles.

No filme, a foto do chicote.

É fato que com o poeta Rilke ela teve uma relação mais íntima, mas logo dele fugiu, sufocada pelo seu excessivo e doentio apego.  Sim, Lou casou um dia com o linguista Carl Andreas, que lhe deu este sobrenome, porém, de comum acordo entre os dois, foi uma duradoura relação a dois, cheia de afeto, mas sem qualquer contato físico.

Não é que Lou Andreas-Salomé fosse assexuada. Apenas queria a todo custo manter a sua independência de pensadora, que uma vida doméstica e com filhos, ela achava, poderia comprometer. Profunda conhecedora da obra de Nietzsche, ela escolhera para si, a alternativa de ser “apolínea” e, se possível, nunca “dionisíaca”. A alegação é que, para crescer intelectualmente, precisava da disciplina de Apolo, em detrimento do descontrole de Dionísio. Só bem mais tarde na sua vida, experimentaria o lado dionisíaco de seu corpo e de seu espírito, mais aí, Nietzsche, o autor dos conceitos, já se fora. E o filme, estranhamente, nos oferece muito pouco desse derradeiro parceiro erótico, com quem ela traiu o esposo Andreas.

A parte final do roteiro é dedicada à sua amizade e seu aprendizado com Freud, e uma cena típica a mostra no divã do psicanalista austríaco, quando, rememorando o passado, desata na gargalhada ao constatar que a figura de Deus que via em seus delírios infantis, tinha as feições do pai da psicanálise. Com a ironia de ter sido um Deus ingrato, que, apesar de seus rogos constantes, não salvara o seu pai querido da morte. De todo jeito, nessa fase madura da vida, Lou já escrevera livros esclarecedores de seu pensamento livre – um deles sobre o papel benéfico do narcisismo, que o próprio Freud reconheceria como decisivo para o estudo do Inconsciente.

Uma Lou idosa, contando sua vida….

Penso que, no Brasil, seus livros mais conhecidos são: “Nietzsche em suas obras”, “O erotismo – reflexões sobre o problema do amor”, “Freud 1914-1916: ensaios de metapsicologia” e, talvez o mais popular e mais amado “Cartas a um jovem poeta”, sua rica e vasta correspondência com Rilke.

Para ser a estória de uma mulher tão revolucionária – espécie de precursora do feminismo que ainda estava por vir – o filme é relativamente convencional, e não se distingue muito do seu gênero – resumido na frase: ´uma figura ilustre conta sua vida´. Um recurso de linguagem que pode ter destaque é talvez a montagem do fotográfico com o cinematográfico, feita cada vez que, ao longo da narração, se tem um novo retorno ao passado. Na introdução desses retornos, parte-se sempre de uma foto do acervo particular da protagonista, primeiramente em tamanho natural, e depois, ampliado para a dimensão da tela, onde se justapõe a protagonista se locomovendo, enquanto o restante das figuras na foto permanece estático.

Enfim, um filme de interesse para vários profissionais – filósofos, psicanalistas, literatos, historiadores, feministas, etc – mas, não sei se do interesse do espectador comum. Para estes talvez faltem aqueles lances dramáticos que tornam qualquer estória apetitosa, lances, como se sabe, nem sempre efetivos em narrativas que se esforçam em resumir toda uma existência humana em duas horas de projeção.

Lou Andreas-Salomé em foto da época.

Anúncios

“Além das palavras” – Emily Dickinson para poucos

8 maio

Ainda não tinha visto “Além das palavras” (“A quiet passion”, 2016) quando o recomendei aos amigos do Facebook, e o fiz por ter lido, na sinopse, que focava a vida da poetisa que mais admiro, Emily Dickinson. Várias pessoas foram à sessão sugerida por conta de minha recomendação, mas, com meia hora de projeção decorrida, fiquei em dúvida se devia ter feito essa recomendação, assim às cegas.

Não é que “Além das palavras” não seja um bom filme: é que sua proposta é bem particular, pessoal, concebida para um público também particular. Não há como negar, o filme é lento, arrastado, eventualmente maçante e, para curti-lo, o espectador precisa estar familiarizado com a obra da poetisa, mais que isso, precisa ser seu admirador apaixonado.

A narração é feita em quadros, quase estáticos, com os atores quase imóveis, quase sempre articulando um diálogo agudo, sagaz, ferino, inteligente, na maior parte dos casos, inteligente demais, ao ponto de parecer um monte de aforismos saídos de livros de filosofia.

Sabe-se que a família da poetisa de Amherst era refinada, porém, o espectador sente falta de uma representação, mínima que seja, do dia a dia. Não há um momento em que se diga “me passa a manteiga”, ou “a chuva molhou o terraço”, ou qualquer banalidade assim. Os personagens só abrem a boca para emitir formulações graves sobre a existência e, com a repetição, isso torna-se artificial, teatral mesmo. Ficam de fora os “esquilos” e “migalhas” e as outras tantas coisinhas miúdas que estão, sim, nos próprios textos de Dickinson.

Suponho que mesmo os apaixonados por Dickinson têm certa dificuldade de recepção. Eu tive. Por exemplo, os muitos poemas citados ao longo do filme (em voz over, ou pela protagonista) são os menos conhecidos do leitor, e não necessariamente, os melhores. E para piorar, as legendas, claro, não os traduzem à altura, e o efeito é, no geral, meio pífio, ao menos se você não domina o inglês para, nesses momentos, atiçar o ouvido e dispensar as legendas. Uma impressão é que esses poemas menos conhecidos tomaram a vez dos mais populares porque o cineasta quis fugir do óbvio, uma obsessão da própria Dickinson, mas não sei se a medida foi boa.

Só praticamente três dos poemas mais antologizados aparecem e – devemos admitir – bem empregados. Um é “I am nobody”, recitado pela poetisa de modo engraçado para o sobrinho, recém-nascido. O outro vai aparecer no desenlace, cobrindo a morte da poetisa de uma maneira, de fato, muito efetiva e bela: “Because I could not stop for death…” (“Como não pude parar para a morte…”). Muito bem utilizado, também, é o do fotograma final, que, astutamente, fica igualmente valendo para o autor do filme: “This is my letter to the world, that never wrote to me”: “Esta é minha carta para o mundo, que nunca me escreveu”.

De minha parte, senti falta de poemas que, pela temática, caberiam muito bem em certos trechos da estória. Por exemplo, nas cenas da Guerra de Secessão, achei que ia ouvir aquele, sobre o soldado agonizante, que começa: “Success is counted sweetest / by those who never succeed”. Ao ser tratado o caso de Emily com o Reverendo Wadsworth, supus que ouviria “The soul selects her own society…”, um dos mais belos poemas de amor que conheço, e, no agravamento da doença da poetisa, bem que dava certo aquele, sobre a fragilidade da esperança: “Hope is the thing with feathers…”.

Penso que na segunda parte do filme vai tornar-se um pouco mais fácil para o espectador envolver-se na estória, ao despontarem os casos amorosos (o amor platônico de Emily pelo reverendo Wadsworth e a relação adúltera entre Austin, o irmão de Emily, casado, e a amiga, também casada), ocasiões em que os diálogos parecem mais reais… e os personagens idem.

Antes de fazer o filme, o diretor Terence Davies deve ter lido todas as biografias da poetisa e não quis deixar faltar os elementos mais comentados da fase final de sua vida, possivelmente, sua única concessão ao óbvio: a radical reclusão da escritora em seu quarto doméstico, a sistemática hostilidade para com os eventuais visitantes, e as indefectíveis roupas brancas, possivelmente simbólicas de uma pureza almejada.

Na minha chamada do Facebook, antes de ver “Além das palavras”, fiz uma brincadeira com os versos “Hope is the thing with feathers / that perches on the soul”, dizendo que “não sei se o filme vai pousar na minha alma, mas tenho esperança que sim”. Agora posso dizer que pousou, mas não cantou…

Um filme sobre poesia, um bom filme, não resta dúvida, mas não sei se propriamente um filme poético. Seguro não estou, mas, de uma coisa desconfio: é que ele não estimula a leitura de Emily Dickinson. E quando digo isto, penso nos jovens que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer a singularíssima obra da poetisa de Amherst, e sua impressionante modernidade.

Poesia na tela

26 abr

Ontem fui cascavilhar uma parte meio empoeirada de minha estante onde repousam os livros de literatura anglo-americana, disciplina que lecionei na UFPB por tanto tempo. Tirei a poeira e reabri as páginas de William Carlos Williams, poeta maior que tanto admiro.

O responsável por esta visita tardia e culposa é o cineasta Jim Jarmusch, com o seu filme “Paterson” (2016), em cartaz no Cine Bangüê. Conheço bem a curta filmografia de Jarmusch, mas este me surpreendeu, para não dizer que me pegou. O filme é uma homenagem a William Carlos Williams, feita de uma forma graciosamente “mimética”.

Sim, seria possível fazer cinema como W. Carlos Williams fez poesia? Jarmuch enfrenta o desafio e – impressionante – se sai bem, muito bem.

No estilo objetivista do poeta (“Say it, no ideas but in things”: ´Diga-o, não em ideias, mas em coisas`), o filme conta a vida singela de um motorista de ônibus em Paterson, New Jersey, e o faz em sete dias da semana, de segunda a domingo. Com o mesmo nome da cidade onde mora (e, não esquecer, o mesmo nome do famoso livro de W. Carlos Williams), o jovem motorista leva uma vida sem surpresas, com sua jovem esposa e um buldogue  inglês. Dirigir durante o dia, levar o cachorro para passear à noite e tomar uma cervejinha no bar da esquina são ações repetidas… Tão repetidas que nos fazem pensar no título daquele filme antigo de Ozu “A rotina tem seu encanto”.

O encanto na rotina de Paterson é rabiscar poemas no seu caderno secreto. Tudo começa descritivamente, com a visão e lembrança de uma caixa de fósforo, e vai crescendo, até ´explodir numa bola de fogo´. Na medida em que escreve em seu caderno, suas palavras manuscritas são transpostas para a tela, como se esta fosse uma página do caderno secreto.

Entre o casal, Paterson e a esposa Laura, não há conflitos. Ela faz cupcakes para vender e quer uma guitarra para tocar, mas isso não é problema. No ônibus Paterson escuta conversas mirabolantes dos passageiros; no bar presencia cenas melodramáticas entre os fregueses, mas nada disso altera sua rotina. Na sexta-feira, o ônibus quebra, mas isto tampouco é o fim do mundo. Para ser franco, este seria, de cabo a rabo, um filme sem conflitos, não fosse o desenlace proporcionado pelo cachorro da família, que, assumindo o papel do vilão que faltava na estória, estraçalha o caderno poético de Paterson e o deixa melancólico.

A licença poética vem na forma de um senhor japonês, em visita à cidade, sem coincidência leitor de W. Carlos Williams, que, misteriosa e oportunamente, doa a Paterson um caderno em branco… supostamente para nova aventura poética que deverá começar em algum tempo pós-tela.

Um japonês providencial…

Um motorista de ônibus que escreve poesia? Quando a esposa lhe diz que ele devia publicar seus poemas, Paterson pergunta se ela está tentando apavorá-lo. A sinceridade modesta desta reação fica, porém, suspensa, ao divisarmos no quarto de Paterson os muitos livros que ele possui – de Baudelaire a Poe, passando, naturalmente e bem à vista, pelos de W. Carlos Williams.

Falei em licença poética a respeito da aparição misteriosa do japonês, mas, na verdade, o filme inteiro é uma grande e deliciosa licença poética em que as coisas banais se misturam com as fantasiosas, para dar ao todo o lirismo a que o autor aspira – e isto sem muita preocupação com verossimilhança.

Pensando bem, aquela adolescente que, na calçada, recita o poema sobre o tema da chuva, enquanto espera a mãe e a irmã gêmea, já parecera, antes do japonês, licença poética. A repetição por vários personagens ao longo do filme da expressão ´explosão numa bola de fogo´ tem esse mesmo efeito, como o têm as aparições de irmãos gêmeos na trajetória diária de Paterson, a gente lembra, tudo motivado por um sonho da esposa, em que tinha filhos gêmeos. Lembrar, mais um exemplo, que quando o casal vai assistir ao terror com Lou Costello, a personagem feminina é a cara de Laura, a esposa: “podia ser sua irmã gêmea”, lhe diz um Paterson inocente.

Assistindo a Lou Costello…

Esse recurso audio-visual de entrelaçar as coisas simples da vida e a fantasia vem, naturalmente, da poética de W. Carlos Williams que, por sua vez, conhecera muito bem Paterson (digo, a cidade), e eternizou em seus livros as suas ruas, prédios e esquinas, ou seja, as suas “coisas”, (o termo “things” do verso citado acima).

Fico pensando se o espectador que não conhece a poesia de W. Carlos Williams – ou que sequer gosta de poesia – perde parte do prazer de assistir a “Paterson”. Espero que não. E, provavelmente influenciado por Jarmusch, cometo a “licença crítica” de supor que esse espectador vai, depois de ver o filme, se interessar por poesia.

Se porventura for o seu caso, me procure que lhe empresto as antologias de William Carlos Williams, culposamente empoeiradas na minha estante.

Um motorista de ônibus que escreve poesia.

Café Alvear

10 ago

Tarde fria de agosto. Vento forte lá fora e eventual neblina. A sesta já feita, na rede como sempre, vontade de ver um filme, ou ler um livro. Qual dos dois? Sem convicção, me levanto e, hesitante, espio em torno de minhas estantes, e o acaso decide por mim.

Bem na minha cara, cobrando leitura havia dias, o “Café Alvear” do mestre Gonzaga Rodrigues, a cujo lançamento compareci e deixei para ler em momento propício. Tarde fria de agosto: há momento mais propício para ler Gonzaga Rodrigues? Volto à rede, abro o livro e não paro mais.

De repente, estou na João Pessoa dos anos cinquenta, no antigo Café do Ponto de Cem Réis, em companhia de figuras que fizeram a vida jornalística, cultural, intelectual e política da Paraíba e/ou do Brasil, figuras que só conheci de nome, ou, alguns, sequer de nome.

Quase sempre (auto)descrito como modesto coadjuvante, Gonzaga está lá, ainda bem. Mas não só como personagem, digo, Gonzaga está lá, com seu estilo original, peculiar, elegante, atraente, saboroso, poético. O estilo, afinal de contas, a que estamos acostumados há tanto tempo, e que continuamos amando, como se ama, a vida inteira, um ente querido.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

Esforço de memorialista, o livro reconstitui uma época, com suas paisagens, seus episódios e seus vultos, tudo verídico e tudo sincero. Esse é um dos prazeres que nos proporciona. O outro é o de só chegarmos lá pelo viés poético do narrador/descritor. Mas não façamos rupturas: o conjunto das duas coisas é o que nos encanta, e o que dá personalidade a um livro de crônicas.

Autônomas, as crônicas podem ser lidas fora de ordem, porém, na organização do índice, chega a haver uma cronologia intencional que o leitor acompanha com interesse. Do governo de Getúlio à Ditadura de 64, do tempo local de José Américo governador da Paraíba à data de sua morte, segue-se um roteiro elástico e móvel que abrange tanto os acontecimentos históricos propriamente ditos, como os estritamente autobiográficos.

Na maior parte das vezes o histórico e o biográfico se fundem de forma inconsútil e tocante. Para dar um só exemplo, um caso assim é o da crônica “Brahms, Brahms, Brahms” em que Gonzaga magistralmente trata do suicídio do presidente Getúlio Vargas e sua repercussão local e bem pessoal, fechando o texto com a frase lapidar: “O sol daquela hora começava a incomodar. Era noite em todos nós.”

Como admitido pelo autor no capítulo inicial que explica o título, o livro foi montado a partir de crônicas que deviam refazer a memória política e cultural do próprio Gonzaga.

Sempre Gonzaga...

Sempre Gonzaga…

E, contudo, é tocante como o espaço concedido ao alheio é enorme – grande lição de alteridade. Com efeito, os muitos personagens da vida pessoense – políticos, empresários, funcionários públicos, militantes, colegas de trabalho, amigos ou meros conhecidos, até desafetos – tomam às vezes conta da diegese e como que “apagam” o nosso Gonzaga, na maior parte dos casos, humildemente posto em posição de mera testemunha. Apagariam, se – para o leitor – o estilo do narrador não o mantivesse em primeiríssimo plano.

Dentre os vultos locais recriados, confesso que o que mais me tocou foi o retrato de Juarez da Gama Batista, “o magro de olhos poderosos” que dirigiu o jornal “A União” ao tempo em que Gonzaga lá começava sua carreira de jornalista. Tocou-me particularmente porque esse eu conheci mais de perto, quando o tive como professor de literatura na UFPB. O que dele diz Gonzaga casa com o que presenciei no eventual convívio que tive com Juarez, não apenas grande professor, mas homem fino e atencioso que trocava figurinhas literárias comigo nos corredores da FAFI, onde falávamos dos autores que amávamos, um deles lembro bem, Aldous Huxley. Eu tinha lido “Time must have a stop” que Juarez, profundo conhecedor de Huxley, por acaso não conhecia e a conversa foi longe e abriu porteiras para outros assuntos.

Mesmo quando é protagonista da crônica, notem que Gonzaga nunca aparece como herói. Seus momentos de glória – que na vida os teve, sim – não aparecem. Nesse aspecto, uma crônica sintomática – aliás, bela crônica – narra o dia do Golpe Militar, que vai encontrar o comunista Gonzaga no Hospital havia quatro meses, acometido de tuberculose. “Da janela do hospital”, ele vê, ou melhor, ouve tudo acontecer, impotente, mas, ao mesmo tempo, protegido pela sua condição de paciente grave. Densa narração cheia de medos e culpas…

No lançamento de "Café Alvear", com o autor e amigos.

No lançamento de “Café Alvear”, com o autor e amigos.

Talvez no espírito do “poema em linha reta” de Fernando Pessoa, quase sempre os papéis a ele reservados por ele mesmo são problemáticos, tensos, sofridos, e mesmo patéticos, como naquele incidente em que, encarregado de, pela primeira vez, entrevistar um figurão em uma mansão da João Machado, ridiculamente vestido com paletó de tamanho maior que seu corpo então franzino, tomba do pufe onde estava sentado e espalha seus papéis pelo piso da sala, entre os sapatos dos visitantes – para quem visualiza seu relato, verdadeiro Carlitos, fazendo comédia sem querer.

Enfim, ao fechar as páginas de “Café Alvear” a noite tinha chegado e me espojei na rede, ainda saboreando a leitura, feliz de viver numa cidade em que Gonzaga Rodrigues, com seu enorme talento de cronista, escondido por trás de sua folclórica modéstia, pontifica.

O vento passara, mas a chuva persistia. Ergui-me da rede e fui tomar a minha habitual taça de vinho antes da janta… desta vez com um brinde a Gonzaga, claro.

gr 4 face

Shakespeare e o cinema

3 jun

No ano do aniversário de morte de William Shakespeare (1564-1616) vale perguntar: quantas vezes foram as suas 37 peças adaptadas à tela?

Tantas que os órgãos responsáveis pelas estatísticas perderam a conta. O livro Guiness de Recordes registra 410 vezes, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) o aumenta, e afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

Segundo consta, a primeira adaptação shakespeariana aconteceu no remoto 1900, uma produção francesa de “Hamlet” em que o herói atormentado pela dúvida é interpretado por uma mulher: Sarah Bernhardt.

Desse ano em diante não se parou mais de filmar Shakespeare. E vejam que as estatísticas citadas – suponho – só computam as adaptações das peças, ficando de fora filmes inspirados nos sonetos shakespearianos, como o “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation’, 1985) de Derek Jarman.

"Hamlet", de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

“Hamlet”, de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

E mesmo tratando-se de peças, o conceito de adaptação fica elástico para caber experiências as mais díspares. Nem todos são fiéis ao texto original, como o foi o cineasta Kenneth Branagh, no seu “Hamlet” (1996), que – único caso conhecido – reproduz o diálogo inteiro da peça, palavra por palavra, por isso tendo que estender seu tempo de projeção para quatro horas (Vide cópia em DVD).

Um caso inusitado é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Cena de "Ran", de Akira Kurosawa, 1985.

Cena de “Ran”, de Akira Kurosawa, 1985.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) são homens e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

Estes são casos especiais. No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Aqui não pretendo analisar as adaptações da obra de Shakespeare, até porque não vi todas e não teria espaço para tratar das muitas que vi. Ao invés disso, prefiro encerrar esta matéria tentando lembrar quando foi, ou quando foram meus primeiros contatos com os filmes shakespearianos.

Shakespeare em versão soviética: "Otelo", 1955.

Shakespeare em versão soviética: “Otelo”, 1955.

Acho que minha primeira vez foi a produção soviética de “Otelo”, que é de 1955, dirigida por Sergei Yutkevich, exibida no Cine Sto Antônio por volta de 1957. Um filme tenebroso que, nos meus onze anos de idade, não entendi muito bem. Pelo mesmo tempo, o mesmo Sto Antônio, re-exibiu o “Romeu e Julieta” de Renato Castellani (a primeira exibição inaugurara o cinema, em 1955), com Laurence Harvey e Susan Shantall no elenco, filme bem mais digerível para meu espírito infantil.

Não sei o que veio em seguida, mas desconfio que foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewics que é de 53, mas deve ter chegado em João Pessoas com anos de atraso. Eu já estava mais crescidinho e me impressionei com a cena do assassinato no Senado romano, e com as interpretações de James Mason como Brutus, e Marlon Brando como Marco Antônio.

Até então, eu nunca havia lido Shakespeare, e na medida em que assistia a novas adaptações de sua obra, fui construindo uma visão cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema. No dia em que, pela primeira vez, final dos anos sessenta, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos.

Claro, era teatro, mas que teatro poético!

Marlon Brando como Marco Antônio, em "Júlio César", 1953.

Marlon Brando como Marco Antônio, em “Júlio César”, 1953.

O céu em teu amor

29 maio

 

Estórias de casais apaixonados pululam na literatura e no cinema. O caso é mais empolgante se os dois amantes são poetas. Mais ainda se o caso é verídico.

Pois, a mais famosa estória real de amor da literatura aconteceu na Inglaterra vitoriana, segunda metade do século XIX, entre a poetisa Elizabeth Barrett e o poeta Robert Browning.

Elizabeth escrevia poesia desde pequena e quando conheceu Robert já era uma escritora consagrada. Doente de um mal espinal, vivia em casa, a maior parte do tempo numa poltrona, rodeada dos muitos irmãos e irmãs. A mãe era falecida havia muito tempo, e, desde então, o pai se tornara um tirano que, estranhamente, não permitia casamentos para nenhum dos filhos. Seis anos mais novo e menos conhecido, Robert apaixonou-se pelos seus versos… e por ela. Iniciaram uma correspondência, e as cartas, cada vez mais frequentes, foram reforçando a reciprocidade dos sentimentos.

o ceu O

Um dia ele teve a coragem de ir visitá-la em sua mansão da rua Wimpole, e, a partir de então, a saúde da moça começou a melhorar, com a perspectiva de viver um grande amor. Na medida em que melhorava, pioravam as reações desfavoráveis do pai. Este proibiu terminantemente o caso e, numa tarde de setembro de 1846, o casal fugiu, casou, e foi passar a lua de mel em Paris. O pai deserdou-a, mas dinheiro não estava nos planos do casal apaixonado, que foi viver na Itália, e como se diz nos contos de fada, foram felizes para sempre.

Nenhum dos dois parou de escrever, e hoje, como se sabe, Elizabeth Barrett Browning e Robert Browning são dois dos grandes nomes da literatura inglesa, especialmente no terreno poético. Ela autora, entre tantos outros títulos, dos deliciosos “Sonnets from the Portuguese”, e ele, dos belos “Dramatic Lyrics”.

A vida na Itália foi essencial para os dois. Elizabeth desabrochou nos dois sentidos, o literário e o vital. Chegou a gerar um filho, o que não se esperava de seu estado de saúde. Quanto a Robert Browning, encontrou naquele país o cenário renascentista e os personagens perfeitos para os seus sombrios e irônicos ´monólogos dramáticos´ que o consagrariam como um poeta maior.

O casal poético no altar

O casal poético no altar

Sempre achei que a estória do casal dava cinema, mas nunca tive notícia da existência de um filme que contasse o caso.

Agora, meio por acaso, me deparo com este “O céu em teu amor” (“The Barretts of Wimpole Street”), uma produção de 1957 da MGM que, se foi exibida localmente, não sei dizer. Com direção de Sidney Franklin, o filme tem Jennifer Jones e Bill Travers no papel do casal de poetas apaixonados.

Leitor da poesia intensa e lírica de Barrett e da poesia desconcertante e profunda de Browning, esperei muito do filme que, lamentavelmente, não correspondeu às minhas expectativas. Em nenhum momento, vislumbra-se a grandeza dos protagonistas, que mais parecem duas pessoas comuns, vivendo o mais banal dos casos de amor, daquele tipo ´os empecilhos estimulam a paixão´. Não há referências aos poemas, e sequer se mostra Barrett em algum momento envolvida com sua produção poética, ou discutindo-a. A rigor, gasta-se mais tempo com as peripécias de seu cachorrinho de estimação do que com sua vocação poética.

Um quadro da Era Vitoriana...

Um quadro da Era Vitoriana…

A impressão é que os produtores, supondo que o público sabia quem eram os protagonistas, não investiram em nada que fosse de natureza literária. Pode ser que isto tenha valido para as plateias anglo-americanas, que estudaram os dois poetas em sala de aula, mas, suponho que no Brasil, o filme foi visto somente como mais um melodrama, dos muitos que se cometiam nos anos cinquenta, e nada mais. A outra alternativa, talvez mais provável, é que não tiveram os autores do filme a capacidade de compreender, e recriar, a dimensão superior dos personagens. O mais grave mesmo é que o filme não é poético.

Leio que a estória vem de uma peça que, nos anos 30, fez sucesso na Broadway. De fato, o filme tem mais esse pecado, o de limitar-se ao ambiente fechado da mansão Barrett. Ainda que não detenha a informação da origem do texto, o espectador nota a teatralidade das encenações, sempre limitadas por paredes e repletas de diálogos mais longos que o habitual. Esse diálogo quer, às vezes, ecoar o lirismo da poesia dos autores enfocados, mas não consegue: “I shall love you to the end – and beyond”, diz Robert a Elizabeth, em momento de enlevo. E nisso fica.

Fica longe a beleza dos versos que a poetisa dedicou ao amado, no já citado “Sonnets from the Portuguese”, livro cujo título, a propósito, nada tem a ver com a língua portuguesa: era só o apelido carinhoso que Robert dera à amada, por ter ela cabelos negros que lembravam os de uma nativa de Portugal.

Dizem que há uma outra versão fílmica, mais antiga, da estória. Espero um dia lhe ter acesso e me decepcionar um pouco menos.

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

 

Life – um portfólio de James Dean

3 mar

As melhores fotografias de James Dean, aquelas que, junto com os seus três filmes, ajudaram a construir a sua mitologia pessoal, foram tiradas quando ele ainda não era famoso. Eis o curioso argumento do filme “Life” (2015).

Mas vamos à estória. No inverno de 54/55 Dean já tinha feito seu primeiro filme, “Vidas amargas”, mas, a estreia ainda não acontecera, e, portanto, nos meios cinematográficos, ele ainda era um ilustre desconhecido. Embora namorasse a famosa Pier Angeli, ninguém em Hollywood sabia quem era aquele rapazinho meio esquisito que a acompanhava. Por exemplo, na badalada estreia de “Nasce uma estrela” (George Cukor, 1954), a que os dois comparecem, ao meio dos aplausos para ela, ele é sistematicamente ignorado pelo público presente.

Life 3

Foi então que Dean conheceu o fotógrafo da revista “Life”, Dennis Stock. O encontro casual foi na casa de Nicholas Ray, numa festa que o cineasta estava dando para o elenco de “Juventude transviada”, filme a ser rodado dentro em breve. Meio sem convicção, Dean convida Stock a ir à pré-estreia de “Vidas amargas”, e, só depois de ver o desempenho do ator na tela, é que o fotógrafo decide que ele vai ser seu próximo portfólio.

A partir daí, convencido de estar na presença de uma sui generis personalidade do cinema, Stock não lhe sai mais do encalço. Uma breve mas intensa amizade brota entre os dois, que passam a se ver com frequência, viajando juntos a Nova Iorque, e de lá, à terra natal do ator, a pequena Fairmount, no Estado de Indiana, onde o fotógrafo se hospeda na casa dos tios de Dean. Desse contato e dessas viagens é que surgirá o famoso ensaio fotográfico, publicado pela revista “Life” com o título sintomático de “Moody new star”, mais ou menos: /melancólico novo astro/.

Do portfólio de Dennis Stock...

Do portfólio de Dennis Stock…

Só para refrescar a memória do leitor, e já que o ensaio fotográfico de Stock é a precípua motivação do filme de Anton Corbijn, algumas dessas fotos, todas em belo preto-e-branco, mostram poses acidentais: James Dean sentado numa cadeira de barbeiro, todo embrulhado em lençol branco, aparando o cabelo numa barbershop de Nova Iorque. Outra o mostra caminhando numa calçada da cidade, agasalhado por um sobretudo escuro, num dia de inverno rigoroso. A essas tomadas urbanas, se somam as fotos rurais, em Indiana, numa paisagem coberta de neve, com cavalos, bois, porcos e tratores.

Para o espectador é interessante ver ficcionalizada essa fase pré-fama de James Dean, mas, infelizmente, o filme de Anton Corbijn tem problemas.

Um desses problemas é justamente que o roteiro ficou preso demais ao portfólio de Dennis Stock, e é possível perceber que muitas das cenas – às vezes sequências inteiras – não passam de “arrumações” previamente concebidas para que se batam as fotos do personagem, as conhecidas no ensaio da “Life”, ou outras menos divulgadas. Um caso bem óbvio é aquela foto, nada acidental, na fazenda da família, em Indiana, com o trator e o gado por trás. Em momentos assim, e durante algum tempo, o espectador tem a sensação de que nada está acontecendo: a estória não anda e ninguém sabe exatamente por quê.

Mais portfólio...

Mais portfólio…

Para fazer um pouco de justiça ao filme, essa escassez narrativa é motivada pelo próprio argumento, já referido acima: é que, na verdade, em poucos meses de convívio entre os dois personagens, de fato, praticamente nada aconteceu, salvo as fotos, fotos que o filme decidiu privilegiar.

O outro problema do filme tem a ver com o elenco. Se porventura Robert Pattinson está razoável como o talentoso, perseverante e problemático fotógrafo Dennis Stock, quem estaria talhado para ser James Dean? Consta que o ator Dane Dehaan, antes de assinar contrato com a produção, recusou, indeciso, o convite seis ou sete vezes, e teve razão para tal hesitação: sua interpretação não convence muito e seu James Dean, não sei como o verão os espectadores do filme, mas, a mim me pareceu inócuo.

Cena em "Life" (2015).

Cena em “Life” (2015).

Um certo efeito nostálgico se consegue com a recitação dos belos versos de James Whitcomb Riley – poeta conterrâneo do ator –  naquele momento final em que Dean, no avião de volta a Hollywood, deixa a sua Indiana de origem – e nós sabemos, para nunca mais voltar. O refrão de Riley diz justamente o contrário disso: “We must get home / We must get home again” (´devemos voltar à casa´), porém, nem esse efeito salva a construção do personagem. A sua mítica amargura rebelde em nós perdura dos filmes em que atuou, e não deste.

Enfim, “Life” entra na fila dos muitos filmes americanos atuais sobre figuras proeminentes do cinema clássico, como Marilyn Monroe (“Sete dias com Marilyn”, 2011), Walt Disney (“Walt nos bastidores de Mary Poppins”, 2013) e Dalton Trumbo (“Trumbo- listra negra”, 2015). Entra na fila, sim, porém, qualitativamente falando, fica lá no fim.

Dean em "Vidas Amargas", de Elia Kazan.

Dean em “Vidas Amargas”, de Elia Kazan.