Tag Archives: poesia

Café Alvear

10 ago

Tarde fria de agosto. Vento forte lá fora e eventual neblina. A sesta já feita, na rede como sempre, vontade de ver um filme, ou ler um livro. Qual dos dois? Sem convicção, me levanto e, hesitante, espio em torno de minhas estantes, e o acaso decide por mim.

Bem na minha cara, cobrando leitura havia dias, o “Café Alvear” do mestre Gonzaga Rodrigues, a cujo lançamento compareci e deixei para ler em momento propício. Tarde fria de agosto: há momento mais propício para ler Gonzaga Rodrigues? Volto à rede, abro o livro e não paro mais.

De repente, estou na João Pessoa dos anos cinquenta, no antigo Café do Ponto de Cem Réis, em companhia de figuras que fizeram a vida jornalística, cultural, intelectual e política da Paraíba e/ou do Brasil, figuras que só conheci de nome, ou, alguns, sequer de nome.

Quase sempre (auto)descrito como modesto coadjuvante, Gonzaga está lá, ainda bem. Mas não só como personagem, digo, Gonzaga está lá, com seu estilo original, peculiar, elegante, atraente, saboroso, poético. O estilo, afinal de contas, a que estamos acostumados há tanto tempo, e que continuamos amando, como se ama, a vida inteira, um ente querido.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

Esforço de memorialista, o livro reconstitui uma época, com suas paisagens, seus episódios e seus vultos, tudo verídico e tudo sincero. Esse é um dos prazeres que nos proporciona. O outro é o de só chegarmos lá pelo viés poético do narrador/descritor. Mas não façamos rupturas: o conjunto das duas coisas é o que nos encanta, e o que dá personalidade a um livro de crônicas.

Autônomas, as crônicas podem ser lidas fora de ordem, porém, na organização do índice, chega a haver uma cronologia intencional que o leitor acompanha com interesse. Do governo de Getúlio à Ditadura de 64, do tempo local de José Américo governador da Paraíba à data de sua morte, segue-se um roteiro elástico e móvel que abrange tanto os acontecimentos históricos propriamente ditos, como os estritamente autobiográficos.

Na maior parte das vezes o histórico e o biográfico se fundem de forma inconsútil e tocante. Para dar um só exemplo, um caso assim é o da crônica “Brahms, Brahms, Brahms” em que Gonzaga magistralmente trata do suicídio do presidente Getúlio Vargas e sua repercussão local e bem pessoal, fechando o texto com a frase lapidar: “O sol daquela hora começava a incomodar. Era noite em todos nós.”

Como admitido pelo autor no capítulo inicial que explica o título, o livro foi montado a partir de crônicas que deviam refazer a memória política e cultural do próprio Gonzaga.

Sempre Gonzaga...

Sempre Gonzaga…

E, contudo, é tocante como o espaço concedido ao alheio é enorme – grande lição de alteridade. Com efeito, os muitos personagens da vida pessoense – políticos, empresários, funcionários públicos, militantes, colegas de trabalho, amigos ou meros conhecidos, até desafetos – tomam às vezes conta da diegese e como que “apagam” o nosso Gonzaga, na maior parte dos casos, humildemente posto em posição de mera testemunha. Apagariam, se – para o leitor – o estilo do narrador não o mantivesse em primeiríssimo plano.

Dentre os vultos locais recriados, confesso que o que mais me tocou foi o retrato de Juarez da Gama Batista, “o magro de olhos poderosos” que dirigiu o jornal “A União” ao tempo em que Gonzaga lá começava sua carreira de jornalista. Tocou-me particularmente porque esse eu conheci mais de perto, quando o tive como professor de literatura na UFPB. O que dele diz Gonzaga casa com o que presenciei no eventual convívio que tive com Juarez, não apenas grande professor, mas homem fino e atencioso que trocava figurinhas literárias comigo nos corredores da FAFI, onde falávamos dos autores que amávamos, um deles lembro bem, Aldous Huxley. Eu tinha lido “Time must have a stop” que Juarez, profundo conhecedor de Huxley, por acaso não conhecia e a conversa foi longe e abriu porteiras para outros assuntos.

Mesmo quando é protagonista da crônica, notem que Gonzaga nunca aparece como herói. Seus momentos de glória – que na vida os teve, sim – não aparecem. Nesse aspecto, uma crônica sintomática – aliás, bela crônica – narra o dia do Golpe Militar, que vai encontrar o comunista Gonzaga no Hospital havia quatro meses, acometido de tuberculose. “Da janela do hospital”, ele vê, ou melhor, ouve tudo acontecer, impotente, mas, ao mesmo tempo, protegido pela sua condição de paciente grave. Densa narração cheia de medos e culpas…

No lançamento de "Café Alvear", com o autor e amigos.

No lançamento de “Café Alvear”, com o autor e amigos.

Talvez no espírito do “poema em linha reta” de Fernando Pessoa, quase sempre os papéis a ele reservados por ele mesmo são problemáticos, tensos, sofridos, e mesmo patéticos, como naquele incidente em que, encarregado de, pela primeira vez, entrevistar um figurão em uma mansão da João Machado, ridiculamente vestido com paletó de tamanho maior que seu corpo então franzino, tomba do pufe onde estava sentado e espalha seus papéis pelo piso da sala, entre os sapatos dos visitantes – para quem visualiza seu relato, verdadeiro Carlitos, fazendo comédia sem querer.

Enfim, ao fechar as páginas de “Café Alvear” a noite tinha chegado e me espojei na rede, ainda saboreando a leitura, feliz de viver numa cidade em que Gonzaga Rodrigues, com seu enorme talento de cronista, escondido por trás de sua folclórica modéstia, pontifica.

O vento passara, mas a chuva persistia. Ergui-me da rede e fui tomar a minha habitual taça de vinho antes da janta… desta vez com um brinde a Gonzaga, claro.

gr 4 face

Anúncios

Shakespeare e o cinema

3 jun

No ano do aniversário de morte de William Shakespeare (1564-1616) vale perguntar: quantas vezes foram as suas 37 peças adaptadas à tela?

Tantas que os órgãos responsáveis pelas estatísticas perderam a conta. O livro Guiness de Recordes registra 410 vezes, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) o aumenta, e afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

Segundo consta, a primeira adaptação shakespeariana aconteceu no remoto 1900, uma produção francesa de “Hamlet” em que o herói atormentado pela dúvida é interpretado por uma mulher: Sarah Bernhardt.

Desse ano em diante não se parou mais de filmar Shakespeare. E vejam que as estatísticas citadas – suponho – só computam as adaptações das peças, ficando de fora filmes inspirados nos sonetos shakespearianos, como o “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation’, 1985) de Derek Jarman.

"Hamlet", de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

“Hamlet”, de Kenneth Branah, adaptação sem cortes.

E mesmo tratando-se de peças, o conceito de adaptação fica elástico para caber experiências as mais díspares. Nem todos são fiéis ao texto original, como o foi o cineasta Kenneth Branagh, no seu “Hamlet” (1996), que – único caso conhecido – reproduz o diálogo inteiro da peça, palavra por palavra, por isso tendo que estender seu tempo de projeção para quatro horas (Vide cópia em DVD).

Um caso inusitado é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Cena de "Ran", de Akira Kurosawa, 1985.

Cena de “Ran”, de Akira Kurosawa, 1985.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) são homens e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

Estes são casos especiais. No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Aqui não pretendo analisar as adaptações da obra de Shakespeare, até porque não vi todas e não teria espaço para tratar das muitas que vi. Ao invés disso, prefiro encerrar esta matéria tentando lembrar quando foi, ou quando foram meus primeiros contatos com os filmes shakespearianos.

Shakespeare em versão soviética: "Otelo", 1955.

Shakespeare em versão soviética: “Otelo”, 1955.

Acho que minha primeira vez foi a produção soviética de “Otelo”, que é de 1955, dirigida por Sergei Yutkevich, exibida no Cine Sto Antônio por volta de 1957. Um filme tenebroso que, nos meus onze anos de idade, não entendi muito bem. Pelo mesmo tempo, o mesmo Sto Antônio, re-exibiu o “Romeu e Julieta” de Renato Castellani (a primeira exibição inaugurara o cinema, em 1955), com Laurence Harvey e Susan Shantall no elenco, filme bem mais digerível para meu espírito infantil.

Não sei o que veio em seguida, mas desconfio que foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewics que é de 53, mas deve ter chegado em João Pessoas com anos de atraso. Eu já estava mais crescidinho e me impressionei com a cena do assassinato no Senado romano, e com as interpretações de James Mason como Brutus, e Marlon Brando como Marco Antônio.

Até então, eu nunca havia lido Shakespeare, e na medida em que assistia a novas adaptações de sua obra, fui construindo uma visão cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema. No dia em que, pela primeira vez, final dos anos sessenta, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos.

Claro, era teatro, mas que teatro poético!

Marlon Brando como Marco Antônio, em "Júlio César", 1953.

Marlon Brando como Marco Antônio, em “Júlio César”, 1953.

O céu em teu amor

29 maio

 

Estórias de casais apaixonados pululam na literatura e no cinema. O caso é mais empolgante se os dois amantes são poetas. Mais ainda se o caso é verídico.

Pois, a mais famosa estória real de amor da literatura aconteceu na Inglaterra vitoriana, segunda metade do século XIX, entre a poetisa Elizabeth Barrett e o poeta Robert Browning.

Elizabeth escrevia poesia desde pequena e quando conheceu Robert já era uma escritora consagrada. Doente de um mal espinal, vivia em casa, a maior parte do tempo numa poltrona, rodeada dos muitos irmãos e irmãs. A mãe era falecida havia muito tempo, e, desde então, o pai se tornara um tirano que, estranhamente, não permitia casamentos para nenhum dos filhos. Seis anos mais novo e menos conhecido, Robert apaixonou-se pelos seus versos… e por ela. Iniciaram uma correspondência, e as cartas, cada vez mais frequentes, foram reforçando a reciprocidade dos sentimentos.

o ceu O

Um dia ele teve a coragem de ir visitá-la em sua mansão da rua Wimpole, e, a partir de então, a saúde da moça começou a melhorar, com a perspectiva de viver um grande amor. Na medida em que melhorava, pioravam as reações desfavoráveis do pai. Este proibiu terminantemente o caso e, numa tarde de setembro de 1846, o casal fugiu, casou, e foi passar a lua de mel em Paris. O pai deserdou-a, mas dinheiro não estava nos planos do casal apaixonado, que foi viver na Itália, e como se diz nos contos de fada, foram felizes para sempre.

Nenhum dos dois parou de escrever, e hoje, como se sabe, Elizabeth Barrett Browning e Robert Browning são dois dos grandes nomes da literatura inglesa, especialmente no terreno poético. Ela autora, entre tantos outros títulos, dos deliciosos “Sonnets from the Portuguese”, e ele, dos belos “Dramatic Lyrics”.

A vida na Itália foi essencial para os dois. Elizabeth desabrochou nos dois sentidos, o literário e o vital. Chegou a gerar um filho, o que não se esperava de seu estado de saúde. Quanto a Robert Browning, encontrou naquele país o cenário renascentista e os personagens perfeitos para os seus sombrios e irônicos ´monólogos dramáticos´ que o consagrariam como um poeta maior.

O casal poético no altar

O casal poético no altar

Sempre achei que a estória do casal dava cinema, mas nunca tive notícia da existência de um filme que contasse o caso.

Agora, meio por acaso, me deparo com este “O céu em teu amor” (“The Barretts of Wimpole Street”), uma produção de 1957 da MGM que, se foi exibida localmente, não sei dizer. Com direção de Sidney Franklin, o filme tem Jennifer Jones e Bill Travers no papel do casal de poetas apaixonados.

Leitor da poesia intensa e lírica de Barrett e da poesia desconcertante e profunda de Browning, esperei muito do filme que, lamentavelmente, não correspondeu às minhas expectativas. Em nenhum momento, vislumbra-se a grandeza dos protagonistas, que mais parecem duas pessoas comuns, vivendo o mais banal dos casos de amor, daquele tipo ´os empecilhos estimulam a paixão´. Não há referências aos poemas, e sequer se mostra Barrett em algum momento envolvida com sua produção poética, ou discutindo-a. A rigor, gasta-se mais tempo com as peripécias de seu cachorrinho de estimação do que com sua vocação poética.

Um quadro da Era Vitoriana...

Um quadro da Era Vitoriana…

A impressão é que os produtores, supondo que o público sabia quem eram os protagonistas, não investiram em nada que fosse de natureza literária. Pode ser que isto tenha valido para as plateias anglo-americanas, que estudaram os dois poetas em sala de aula, mas, suponho que no Brasil, o filme foi visto somente como mais um melodrama, dos muitos que se cometiam nos anos cinquenta, e nada mais. A outra alternativa, talvez mais provável, é que não tiveram os autores do filme a capacidade de compreender, e recriar, a dimensão superior dos personagens. O mais grave mesmo é que o filme não é poético.

Leio que a estória vem de uma peça que, nos anos 30, fez sucesso na Broadway. De fato, o filme tem mais esse pecado, o de limitar-se ao ambiente fechado da mansão Barrett. Ainda que não detenha a informação da origem do texto, o espectador nota a teatralidade das encenações, sempre limitadas por paredes e repletas de diálogos mais longos que o habitual. Esse diálogo quer, às vezes, ecoar o lirismo da poesia dos autores enfocados, mas não consegue: “I shall love you to the end – and beyond”, diz Robert a Elizabeth, em momento de enlevo. E nisso fica.

Fica longe a beleza dos versos que a poetisa dedicou ao amado, no já citado “Sonnets from the Portuguese”, livro cujo título, a propósito, nada tem a ver com a língua portuguesa: era só o apelido carinhoso que Robert dera à amada, por ter ela cabelos negros que lembravam os de uma nativa de Portugal.

Dizem que há uma outra versão fílmica, mais antiga, da estória. Espero um dia lhe ter acesso e me decepcionar um pouco menos.

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

 

Life – um portfólio de James Dean

3 mar

As melhores fotografias de James Dean, aquelas que, junto com os seus três filmes, ajudaram a construir a sua mitologia pessoal, foram tiradas quando ele ainda não era famoso. Eis o curioso argumento do filme “Life” (2015).

Mas vamos à estória. No inverno de 54/55 Dean já tinha feito seu primeiro filme, “Vidas amargas”, mas, a estreia ainda não acontecera, e, portanto, nos meios cinematográficos, ele ainda era um ilustre desconhecido. Embora namorasse a famosa Pier Angeli, ninguém em Hollywood sabia quem era aquele rapazinho meio esquisito que a acompanhava. Por exemplo, na badalada estreia de “Nasce uma estrela” (George Cukor, 1954), a que os dois comparecem, ao meio dos aplausos para ela, ele é sistematicamente ignorado pelo público presente.

Life 3

Foi então que Dean conheceu o fotógrafo da revista “Life”, Dennis Stock. O encontro casual foi na casa de Nicholas Ray, numa festa que o cineasta estava dando para o elenco de “Juventude transviada”, filme a ser rodado dentro em breve. Meio sem convicção, Dean convida Stock a ir à pré-estreia de “Vidas amargas”, e, só depois de ver o desempenho do ator na tela, é que o fotógrafo decide que ele vai ser seu próximo portfólio.

A partir daí, convencido de estar na presença de uma sui generis personalidade do cinema, Stock não lhe sai mais do encalço. Uma breve mas intensa amizade brota entre os dois, que passam a se ver com frequência, viajando juntos a Nova Iorque, e de lá, à terra natal do ator, a pequena Fairmount, no Estado de Indiana, onde o fotógrafo se hospeda na casa dos tios de Dean. Desse contato e dessas viagens é que surgirá o famoso ensaio fotográfico, publicado pela revista “Life” com o título sintomático de “Moody new star”, mais ou menos: /melancólico novo astro/.

Do portfólio de Dennis Stock...

Do portfólio de Dennis Stock…

Só para refrescar a memória do leitor, e já que o ensaio fotográfico de Stock é a precípua motivação do filme de Anton Corbijn, algumas dessas fotos, todas em belo preto-e-branco, mostram poses acidentais: James Dean sentado numa cadeira de barbeiro, todo embrulhado em lençol branco, aparando o cabelo numa barbershop de Nova Iorque. Outra o mostra caminhando numa calçada da cidade, agasalhado por um sobretudo escuro, num dia de inverno rigoroso. A essas tomadas urbanas, se somam as fotos rurais, em Indiana, numa paisagem coberta de neve, com cavalos, bois, porcos e tratores.

Para o espectador é interessante ver ficcionalizada essa fase pré-fama de James Dean, mas, infelizmente, o filme de Anton Corbijn tem problemas.

Um desses problemas é justamente que o roteiro ficou preso demais ao portfólio de Dennis Stock, e é possível perceber que muitas das cenas – às vezes sequências inteiras – não passam de “arrumações” previamente concebidas para que se batam as fotos do personagem, as conhecidas no ensaio da “Life”, ou outras menos divulgadas. Um caso bem óbvio é aquela foto, nada acidental, na fazenda da família, em Indiana, com o trator e o gado por trás. Em momentos assim, e durante algum tempo, o espectador tem a sensação de que nada está acontecendo: a estória não anda e ninguém sabe exatamente por quê.

Mais portfólio...

Mais portfólio…

Para fazer um pouco de justiça ao filme, essa escassez narrativa é motivada pelo próprio argumento, já referido acima: é que, na verdade, em poucos meses de convívio entre os dois personagens, de fato, praticamente nada aconteceu, salvo as fotos, fotos que o filme decidiu privilegiar.

O outro problema do filme tem a ver com o elenco. Se porventura Robert Pattinson está razoável como o talentoso, perseverante e problemático fotógrafo Dennis Stock, quem estaria talhado para ser James Dean? Consta que o ator Dane Dehaan, antes de assinar contrato com a produção, recusou, indeciso, o convite seis ou sete vezes, e teve razão para tal hesitação: sua interpretação não convence muito e seu James Dean, não sei como o verão os espectadores do filme, mas, a mim me pareceu inócuo.

Cena em "Life" (2015).

Cena em “Life” (2015).

Um certo efeito nostálgico se consegue com a recitação dos belos versos de James Whitcomb Riley – poeta conterrâneo do ator –  naquele momento final em que Dean, no avião de volta a Hollywood, deixa a sua Indiana de origem – e nós sabemos, para nunca mais voltar. O refrão de Riley diz justamente o contrário disso: “We must get home / We must get home again” (´devemos voltar à casa´), porém, nem esse efeito salva a construção do personagem. A sua mítica amargura rebelde em nós perdura dos filmes em que atuou, e não deste.

Enfim, “Life” entra na fila dos muitos filmes americanos atuais sobre figuras proeminentes do cinema clássico, como Marilyn Monroe (“Sete dias com Marilyn”, 2011), Walt Disney (“Walt nos bastidores de Mary Poppins”, 2013) e Dalton Trumbo (“Trumbo- listra negra”, 2015). Entra na fila, sim, porém, qualitativamente falando, fica lá no fim.

Dean em "Vidas Amargas", de Elia Kazan.

Dean em “Vidas Amargas”, de Elia Kazan.

Américo

17 fev

Com assinatura do cineasta Alex Santos, o curta-metragem de ficção “Américo – falcão peregrino” (2015) presta uma mais que oportuna homenagem ao tão pouco lembrado poeta paraibano Américo Falcão.

Nascido em Lucena, em 1880, quando esse povoado pertencia ao Município de Santa Rita, o poeta de “Auras” foi nome de estaque na capital paraibana. Diretor da Biblioteca Pública do Estado, foi amigo de figuras importantes da época, como o poeta Augusto dos Anjos, o artista Santa Rosa, e o fotógrafo e cineasta Walfredo Rodriguez. Aliado ao governo na Revolução de Trinta, foi co-autor do hino a João Pessoa, mas, evidentemente, o que mais o imortaliza é a sua produção literária.

z

Como homenagear um poeta? Tentando ser poético. É o que faz a dupla Alex Santos (diretor e roteirista) e Manoel Jaime Xavier (co-roteirista) e a primeira medida parece ter sido o descarte do gênero documental ou biográfico. Ao invés disso, os autores se entregam a um vôo imagético, onde a liberdade de criação dita a regra. Ludicamente inspirado no sobrenome do poeta, o filme começa com as imagens de um falcão em voo livre, mas a analogia entre nome e ave não fica só nisso: ao longo de filme, vê-se o poeta sempre caminhando pelas ruas da cidade e essa locomoção quase constante reforça a associação com a ave de seu sobrenome, e o faz muito bem.

Oportunamente, essa itinerância também serve a outro fim: o de vislumbrarmos a João Pessoa (Parahyba) da época, com seus casarões, seus bondes e suas ruas estreitas – verdadeiro “roteiro sentimental de uma cidade”. Nesse sentido, mais que louvável é a reconstituição de época, empreendida – nós calculamos – com enorme esforço de pesquisa e produção (o rádio, a mobília, a indumentária, o carro antigo, etc) e muita habilidade em driblar os signos da atualidade, como postes, automóveis, fios, letreiros, etc.

Cena de "Américo - falcão peregrino".

Cena de “Américo – falcão peregrino”.

A essa reconstituição se somam fatos que foram importantes na época, como a passagem do dirigível Zeppelin, refeita com perícia e criatividade. Por outro lado, toda a Revolução de Trinta é sintetizada numa elipse, com a simples substituição, na sala da Biblioteca Pública, da fotografia de João Pessoa, pela do próximo governante, Gratuliano Brito.

Para não dizer que nada é documental no filme, há o breve depoimento de uma das filhas do poeta, D. Marlinda, de 93 anos de idade, depoimento usado com sabedoria pela direção, que o distribui em duas partes: na abertura do filme D. Marlinda conta coisas miúdas e privadas sobre o genitor; no fechamento, seu comentário é comovente: “Meu pai – diz ela, entristecida – eu sabia tanta coisa sobre meu pai, mas o tempo parece que apaga tudo”.

Ao longo do filme inteiro, trechos dos poemas do autor são recitados por uma voz extradiegética, sempre com relação às imagens mostradas. Seja o poema dedicado a esposa morta, ouvido diante de seu retrato; seja aquele outro sobre a morte do amigo Augusto dos Anjos, escrito, em sua caderneta, ao lado de uma edição do EU. A religiosidade do poeta vai aparecer no interior de uma igreja, onde se escuta aquele poema sobre a força de sua crença. Já uma mera vela doméstica vai provocar a evocação dos seus versos mais conhecidos: “Não há tristeza no mundo…”.

O diretor Alex Santos.

O diretor Alex Santos.

Em que pese à tristeza do personagem, o filme se caracteriza por certa ludicidade. O voo imagético com o sobrenome do poeta já foi mencionado, mas, o espectador precisa ficar atento a mais. Por exemplo: em certa ocasião se mostram alguns livros na estante do poeta. Um deles é “O falcão maltês” de Dashiel Hammett (1929) e a razão não é outra senão – de novo – o sobrenome do poeta. Ao lado dele está o “Moby Dick” de Herman Melville e o espectador vai lembrar as cenas da pesca da baleia, exibidas anteriormente, no documentário de Walfredo Rodriguez, a que Américo Falcão assiste, com ar meio desolado. Ele mesmo escrevera as legendas para esse documentário, ele, que afinal de contas, era um amigo dos animais, como se comprova em várias cenas em que acaricia o gato caseiro.

Se é fato que o filme descarta o biográfico, não o faz de todo.  E nisso, do espectador se cobra atenção redobrada a pequenos detalhes que recompõem a vida do poeta de forma metonímica. Um exemplo, entre tantos: passeando pela sala de visita, a câmera revela uma iconografia de Santa Rosa, para nos lembrar a amizade dos dois artistas.

De forma sistemática o filme é fotografado em preto-e-branco nas cenas do passado, e em cores, nas cenas do presente, estas abrindo e fechando a projeção, com as belas imagens da praia de Lucena, como se sabe, uma paixão de Américo Facão. No papel do protagonista, o ator Ricardo Moura está impecável, mas, um capricho adicional é a sensível trilha musical, composta para o filme pelo cantor e compositor Adeildo Vieira.

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de "Américo - falcão peregrino".

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de “Américo – falcão peregrino”.

Neruda fugitivo

31 jul

Está em cartaz na cidade – ou esteve – “Neruda fugitivo” (2014), filme sobre a vida do grande poeta chileno, ganhador do Nobel de literatura em 1971.

Produção chilena do também chileno Manuel Basoalto, o filme se abre com a cerimônia de entrega do grande prêmio em Estocolmo, no momento em que, entusiasmado, Pablo Neruda profere o seu discurso de agradecimento à Academia sueca e, nele, relata parte de sua vida.

O relato oral logo toma forma icônica e o filme inteiro passa a ser um longo flashback onde vamos ver os embates do senador Neruda com o governo ditatorial de Gonzales Videla, nos anos quarenta.

0 poster

Cassado depois de inflamado discurso no Senado, onde denuncia os horrores da Ditadura vigente, Neruda se refugia no Sul do país e, com a ajuda de companheiros de partido, toma o rumo do país vizinho, a Argentina. Mas, cruzar essa fronteira salvadora significava escalar a cordilheira dos Andes, e parte do filme, pelo menos conceitualmente, se detém nessa quase impossível empreitada.

Dentro desse grande flashback cabem mais dois, menores: um sobre um episódio na juventude do poeta quando, viajando pelo campo em férias, é abrigado por um grupo de mulheres que, pela primeira vez, lhe falam de Rimbaud, poeta que seria fundamental na sua formação. Mais analéptico ainda, o outro episódio o mostra criança, descobrindo na floresta, os seres que seriam tão importantes no seu universo poético: rios, pedras, árvores, insetos, etc, seres que lhe ajudariam a expressar o seu amor à vida, aos homens e, sobretudo, à liberdade.

“Política, vida e poesia são, para mim, a mesma coisa” afirma Neruda a um de seus companheiros de luta, e o filme tenta resguardar a idéia, dando destaque ao viés ideológico do poeta de “Canto Geral”, por sinal, livro escrito a duras penas durante o percurso da fuga.

A perseguição política

A perseguição política

Bem, tudo isso posto até aqui pode passar uma impressão favorável ao filme de Basoalto. Infelizmente não é o caso. Filme sobre um grande poeta, “Neruda fugitivo” não é um grande filme.

Acho que o pecado maior do filme de Basoalto é ser esquemático, e esquemático em tudo, da roteirização às interpretações, passando pela forma de enquadrar e de montar. Não há dúvida de que estamos diante de um filme informativo, muito útil em aulas de literatura ou de história: já numa aula de cinema ele só seria útil por contraste.

Na maior parte das vezes, os personagens não dialogam como gente comum: dão palavras de ordem, e isso, até em momentos corriqueiros, domésticos. Se você prestar atenção, isso vai acontecer tanto quando Neruda defende o povo, como quando defende a poesia. As cenas são montadas sinteticamente, no mau sentido do advérbio, de modo a ilustrar o momento histórico, o que transforma os personagens em figuras teatrais, sem muita carne nem muito osso. Para piorar, os atores não convencem muito – sequer o José Secall, que faz Neruda – e o resultado desagrada.

Por influência do discurso de Neruda ou não, boa parte das cenas em que o acompanhamos, é comentada pela sua voz em off, quase sempre recitando versos de sua produção poética. Por mais lírica que tenha sido a intenção, o recurso dilui a narrativa e, para o espectador, termina por funcionar como um distanciamento mais ou menos incômodo. Afinal de contas, poesia é poesia e cinema é cinema, dois domínios semióticos bem diversos. Para combiná-los é preciso um talento de gênio, coisa que, obviamente, falta ao cineasta Basoalto.

A fuga pelos Andes

A fuga pelos Andes

Para ser franco, os melhores elementos em “Neruda fugitivo” são dois: (1) a bela fotografia natural do Sul do Chile e de algumas escarpas dos Andes, sempre vistas de longe, e (2) a música igualmente grandiosa. Em dados momentos, a combinação desses dois elementos funciona legal, mas isso é tudo, ou quase tudo.

Uma seção particularmente insatisfatória do filme está no desenlace. Como no diálogo se fizera muita ênfase na dificuldade de cruzar os Andes, fica o espectador à espera de testemunhar os percalços dessa travessia, a qual, a rigor, não nos é mostrada, ficando-se apenas com ligeiras tomadas gerais da paisagem andina, acompanhadas de trilha sonora crescente. E, quando pensamos que ainda há tempo de tela sobrando, corta-se bruscamente para o cenário de abertura, o já visto salão da Academia sueca, onde Neruda agora recebe os cumprimentos dos presentes.

Evidentemente, os apreciadores da poesia de Neruda vão acorrer ao cinema. Mais visíveis para uns, menos visíveis para outros, fico pensando até que ponto os problemas aqui apontados poderão interferir nas suas apreciações.

De qualquer modo, acho que um fato é inegável para todos: o filme está muito aquém do poeta.

O poeta e prêmio Nobel Pablo Neruda.

O poeta e prêmio Nobel Pablo Neruda.

Só para relembrar Omar Sharif

14 jul

A morte do ator Omar Sharif (1932-2015) foi assunto da imprensa nestes dias. Aqui o relembramos através do seu filme mais amado, “Doutor Jivago” (1965), que por sinal, neste 2015, está completando cinquenta anos.

Se pudermos começar o nosso relato com um close, vamos nos centrar na mão iluminada de um grande poeta russo, que, debaixo da dureza do regime totalitário, rabiscava – e quando podia publicava – os seus poemas de tom místico e humanista que em nada batiam com a fechada ideologia vigente.

De repente, esse poeta inspirado, Boris Pasternak, decide escrever em prosa e produz – ironicamente – a obra pela qual ficaria internacionalmente conhecido: o romance semi-autobiográfico que conta a estória de um certo médico perdido entre a Revolução, a literatura e um amor adúltero.

1

Inaceitável na URSS, “Doutor Jivago” é editado na Itália em 1957 e – surpresa! – ganha o prêmio Nobel, que Pasternak, evidentemente, é obrigado a recusar, vindo a falecer três anos depois, em 1960.

Uma estória dramática, um romance premiado, um autor injustiçado e morto… Os grandes estúdios americanos ficam de olho, até porque a grandiosidade da narrativa cabia nos parâmetros das superproduções a que a Hollywood decadente da época se agarrava com unhas e dentes.

Foi a já cambaleante MGM quem assumiu a realização da adaptação, chamada pelos comentaristas de “salada russa”, com referência à mistura das nacionalidades envolvidas: rodado na Finlândia, na Espanha e no Canadá, a companhia produtora foi a italiana de Carlo Ponti, e do elenco faziam parte alemães (Klaus Kinski), americanos (Rod Steiger), ingleses (Alec Guiness), e, claro, o egípcio Omar Sharif no papel-título. A trilha sonora foi para o francês Maurice Jarre e a fotografia para o inglês Freddie Young. Aliás, música e fotografia, as duas juntas, são um destaque estético que torna o filme memorável – acho que o leitor concorda comigo.

Omar Sharif e Julie Christie em "Doutor Jivago"

Omar Sharif e Julie Christie em “Doutor Jivago”

A direção vai para as mãos hábeis de um inglês que já provara ser bom em grandes produções. David Lean tinha feito “A ponte do rio Kwai” (1957), e em 1962 deslumbrara o mundo com o seu – também uma adaptação e também épico – “Lawrence da Arábia”, onde Sharif – vocês lembram – já estava. Ninguém melhor que Lean, sem contar que esse romântico inveterado já revelara, desde o intimista “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945) que, independente do tamanho da produção, a sua temática preferida, aquela em que mais rendia, era a da ´mulher apaixonada fora do casamento´, sim, aquela mesma dos grandes romances do século XIX.

Mas como adaptar à tela um romance tão vasto, apesar do lirismo, de escala épica, cuja narrativa se iniciava no início do Século XX e se estendia para além da Segunda Guerra Mundial? A missão do roteirista Robert Bolt (o mesmo de “Lawrence”) foi reduzir a extensão da história e centrar-se no caso de amor entre o médico Yuri Jivago e a sua bela enfermeira Lara – uma imposição dos estúdios que o diretor – imagino – deve ter abraçado de muito bom grado.

Não vou resumir o enredo de um filme que todo mundo conhece, mas, cabe referir as críticas que o filme recebeu na época de sua estreia: o de trair a dimensão lírica e mística do romance de Pasternak, de cujas páginas fazem partes muitos de seus poemas mais inspirados. O outro ponto crítico foi a exploração do lado melodramático da narrativa, no investimento que faz no desafortunado romance entre Jivago e Lara, a Revolução Russa e seus efeitos aparecendo como pano de fundo.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

O público é que não quis saber de nada disso e, não apenas acorreu aos cinemas, como, passado o tempo, incluiu o filme no imaginário da comunidade cinéfila do planeta. Hoje, quem tem dúvidas de que “Doutor Jivago” é um dos clássicos mais lembrados?

Do ponto de vista estrutural, uma mudança básica na adaptação está na escolha do foco narrativo, a estória inteira sendo contada a partir de um longo flashback, quando, tempos depois da Revolução de Outubro, o irmão do protagonista, Yevgraf (Guiness), encontra essa moça, operária nesse novo país, a URSS, que teria sido a filha do casal adúltero, Jivago e Lara.

Acho que o flashback funciona bem, agora, aqui para nós, o que nunca me pareceu apropriada foi a escolha de Rita Tushingham – uma das atrizes mais feias na história do cinema – para ser justamente a filha dos belos Julie Christie e Omar Sharif. Atriz talentosa, Rita esteve ótima naqueles filmes sobre ´gente como a gente´ do Free Cinema (Cf “Um gosto de mel”, por exemplo), porém, aqui lhe faltou o que a natureza não lhe deu: physique du rôle, ou seja, o físico apropriado ao papel.

Enfim, “Doutor Jivago”, um belo filme. Vamos ligar o aparelho de DVD e, entre outras coisas, relembrar Omar Sharif.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.