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Café Alvear

10 ago

Tarde fria de agosto. Vento forte lá fora e eventual neblina. A sesta já feita, na rede como sempre, vontade de ver um filme, ou ler um livro. Qual dos dois? Sem convicção, me levanto e, hesitante, espio em torno de minhas estantes, e o acaso decide por mim.

Bem na minha cara, cobrando leitura havia dias, o “Café Alvear” do mestre Gonzaga Rodrigues, a cujo lançamento compareci e deixei para ler em momento propício. Tarde fria de agosto: há momento mais propício para ler Gonzaga Rodrigues? Volto à rede, abro o livro e não paro mais.

De repente, estou na João Pessoa dos anos cinquenta, no antigo Café do Ponto de Cem Réis, em companhia de figuras que fizeram a vida jornalística, cultural, intelectual e política da Paraíba e/ou do Brasil, figuras que só conheci de nome, ou, alguns, sequer de nome.

Quase sempre (auto)descrito como modesto coadjuvante, Gonzaga está lá, ainda bem. Mas não só como personagem, digo, Gonzaga está lá, com seu estilo original, peculiar, elegante, atraente, saboroso, poético. O estilo, afinal de contas, a que estamos acostumados há tanto tempo, e que continuamos amando, como se ama, a vida inteira, um ente querido.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

Esforço de memorialista, o livro reconstitui uma época, com suas paisagens, seus episódios e seus vultos, tudo verídico e tudo sincero. Esse é um dos prazeres que nos proporciona. O outro é o de só chegarmos lá pelo viés poético do narrador/descritor. Mas não façamos rupturas: o conjunto das duas coisas é o que nos encanta, e o que dá personalidade a um livro de crônicas.

Autônomas, as crônicas podem ser lidas fora de ordem, porém, na organização do índice, chega a haver uma cronologia intencional que o leitor acompanha com interesse. Do governo de Getúlio à Ditadura de 64, do tempo local de José Américo governador da Paraíba à data de sua morte, segue-se um roteiro elástico e móvel que abrange tanto os acontecimentos históricos propriamente ditos, como os estritamente autobiográficos.

Na maior parte das vezes o histórico e o biográfico se fundem de forma inconsútil e tocante. Para dar um só exemplo, um caso assim é o da crônica “Brahms, Brahms, Brahms” em que Gonzaga magistralmente trata do suicídio do presidente Getúlio Vargas e sua repercussão local e bem pessoal, fechando o texto com a frase lapidar: “O sol daquela hora começava a incomodar. Era noite em todos nós.”

Como admitido pelo autor no capítulo inicial que explica o título, o livro foi montado a partir de crônicas que deviam refazer a memória política e cultural do próprio Gonzaga.

Sempre Gonzaga...

Sempre Gonzaga…

E, contudo, é tocante como o espaço concedido ao alheio é enorme – grande lição de alteridade. Com efeito, os muitos personagens da vida pessoense – políticos, empresários, funcionários públicos, militantes, colegas de trabalho, amigos ou meros conhecidos, até desafetos – tomam às vezes conta da diegese e como que “apagam” o nosso Gonzaga, na maior parte dos casos, humildemente posto em posição de mera testemunha. Apagariam, se – para o leitor – o estilo do narrador não o mantivesse em primeiríssimo plano.

Dentre os vultos locais recriados, confesso que o que mais me tocou foi o retrato de Juarez da Gama Batista, “o magro de olhos poderosos” que dirigiu o jornal “A União” ao tempo em que Gonzaga lá começava sua carreira de jornalista. Tocou-me particularmente porque esse eu conheci mais de perto, quando o tive como professor de literatura na UFPB. O que dele diz Gonzaga casa com o que presenciei no eventual convívio que tive com Juarez, não apenas grande professor, mas homem fino e atencioso que trocava figurinhas literárias comigo nos corredores da FAFI, onde falávamos dos autores que amávamos, um deles lembro bem, Aldous Huxley. Eu tinha lido “Time must have a stop” que Juarez, profundo conhecedor de Huxley, por acaso não conhecia e a conversa foi longe e abriu porteiras para outros assuntos.

Mesmo quando é protagonista da crônica, notem que Gonzaga nunca aparece como herói. Seus momentos de glória – que na vida os teve, sim – não aparecem. Nesse aspecto, uma crônica sintomática – aliás, bela crônica – narra o dia do Golpe Militar, que vai encontrar o comunista Gonzaga no Hospital havia quatro meses, acometido de tuberculose. “Da janela do hospital”, ele vê, ou melhor, ouve tudo acontecer, impotente, mas, ao mesmo tempo, protegido pela sua condição de paciente grave. Densa narração cheia de medos e culpas…

No lançamento de "Café Alvear", com o autor e amigos.

No lançamento de “Café Alvear”, com o autor e amigos.

Talvez no espírito do “poema em linha reta” de Fernando Pessoa, quase sempre os papéis a ele reservados por ele mesmo são problemáticos, tensos, sofridos, e mesmo patéticos, como naquele incidente em que, encarregado de, pela primeira vez, entrevistar um figurão em uma mansão da João Machado, ridiculamente vestido com paletó de tamanho maior que seu corpo então franzino, tomba do pufe onde estava sentado e espalha seus papéis pelo piso da sala, entre os sapatos dos visitantes – para quem visualiza seu relato, verdadeiro Carlitos, fazendo comédia sem querer.

Enfim, ao fechar as páginas de “Café Alvear” a noite tinha chegado e me espojei na rede, ainda saboreando a leitura, feliz de viver numa cidade em que Gonzaga Rodrigues, com seu enorme talento de cronista, escondido por trás de sua folclórica modéstia, pontifica.

O vento passara, mas a chuva persistia. Ergui-me da rede e fui tomar a minha habitual taça de vinho antes da janta… desta vez com um brinde a Gonzaga, claro.

gr 4 face

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Deu certo?

20 jul

Confesso que hesitei um bocado em ir ver um documentário com o título de “O Brasil deu certo, e agora?”  Que estória é essa de “deu certo”, frase assim definitiva, no pretérito perfeito? Como se sabe, o filme, dirigido por Louise Sottomaior, está em cartaz na cidade há algumas semanas, e acho que fui ver por curiosidade. O fato é que fui, e agora?

O meu receio é ser levado pelo filme a discutir política, e não cinema. Vou tentar ficar no segundo tópico, se é que é possível.

o brasil poster

Trata-se de um documentário que tenta contar a história da economia brasileira, da colônia até hoje, e os depoentes são pessoas que, da segunda metade do século XX para cá, tiveram participação direta nessa economia, presidentes, ministros, diretores de bancos, etc. Bem, o povo nunca aparece e este é, naturalmente, o primeiro problema do filme. É verdade que o povo não entende de economia (nem eu), mas é o povo que recebe os seus efeitos, não é?

Equivocado ou não, o roteiro é de qualquer maneira interessante, a direção razoável com seus desenhos animados explicativos, porém, para o bem ou para o mal, o melhor de tudo no filme é, decididamente, a edição.

Sagaz ao extremo, ela faz as falas dos entrevistados se encaixarem em uma ordem lógica impressionante. Não é raro que um entrevistado comece uma frase com o sujeito da oração, o outro lhe forneça o predicado, e um terceiro lhe dê o complemento. Uma beleza de coerência grupal, que, por ironia, sugere mais um problema para o filme – é que todos os escolhidos a depor pensam igual, ou mais ou menos igual, e não foi escolhido quem pensasse diferente. De alguma forma, parece – desculpem o exagero – lavagem cerebral. É difícil imaginar que Fernando Henrique Cardoso, Alexandre Saes, Delfim Netto, Fábio Giambiagi, Henrique Meirelles e Fernando Collor pensem igual, mas o que uma edição bem feita não é capaz de sugerir?

Sintomaticamente, Lula e Dilma não toparam participar do filme, e contudo, outras vozes, por exemplo, outros comentaristas políticos que não os dois ou três consultados, poderiam ter integrado a assembleia.

Na verdade, o roteiro do filme é do paraibano Mailson da Nóbrega, sem coincidência, aquele a quem se doa maior tempo de tela, e, é possível notar, o encarregado de costurar o pensamento subjacente da produção. Não entendo de economia, mas, quer me parecer que esse pensamento – o porquê de o Brasil ter dado certo – se resumiria no seguinte: o plano real de FHC e a sabedoria de Lula em não alterá-lo e complementá-lo com programas sociais.

Mailson da Nóbrega, coprodutor e roteirista

Mailson da Nóbrega, coprodutor e roteirista

Por outro lado, e no bom ou no mau sentido, o filme contém uma aula de história econômica, ao esclarecer certos pontos obscuros do desenvolvimento do país.

Desde a chegada da família real ao Brasil, em 1808, até o presente, os grandes projetos econômicos são contemplados, com enfoque nas suas conseqüências mais determinantes para o desenvolvimento ou para o atraso do país. O império, a velha república, a era Vargas, o governo Juscelino, Jânio, Jango e o que veio depois: tudo está posto em sua cronologia didática. Não quero ser irônico, mas, com certeza, o filme será útil a vestibulandos em provas de História.

Por exemplo, é instrutivo saber que, no período da ditadura militar, quem mandou na economia foram os ministros e não os respectivos presidentes, como também ficar conhecendo o avanço que a economia pôde ter nesse período. Ainda, acompanhar, de 1985 em diante, os pacotes que se sucederam e, no final, teriam terminado por conduzir à estabilidade atual e ao crescimento do PIB, com o controle da inflação. A rigor, o que se nota é que, dá metade do filme em diante, o foco fica em cima da inflação, como se fosse este o único problema nacional. Depois de cada fala, a diretora joga na tela a pergunta gráfica colorida: “E a inflação?” E os entrevistados são provocados a perseguir o tema.

Nem todo mundo sabe que somos a sétima economia do mundo (e já fomos a sexta!) e este dado, com certeza, é um dos ingredientes que justificaria o título do filme.

O desenlace, se há um, corresponde à tentativa de resposta à pergunta que está no título (“e agora?”) e todos os entrevistados, mais uma vez, concordam em que, para assegurar o crescimento atual, ou incrementá-lo, o fundamental está numa palavra só: EDUCAÇÃO. Bem, disso eu gostei. No grosso, a previsão para o futuro é a de um país mais rico e mais democrático. Ufa! Mais uma vez não estou sendo irônico, mas estamos diante de um documentário de final feliz.

A grande ironia – e esta não é minha! – é que “O Brasil deu certo, e agora?” esteja sendo exibido nesse período tão particular de tantos protestos de rua. Mas enfim, a coincidência não deixa de ser interessante: não é disso que são feitas as asas da democracia, de opiniões divergentes?

o brasil 2