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“O homem do Rio” embaça as lentes Varilux

17 jun

Mais um ano de Festival Varilux de Cinema Francês, coisa boa para arejar o clima cinematográfico local, normalmente sufocado pela hegemonia americana.

Comédias, dramas ou policiais, alguns muito bons, outros nem tanto, os filmes franceses da atualidade lotam, em cada versão do Festival, as salas brasileiras de espectadores ávidos de novidade. Por sorte, João Pessoa é uma das 45 cidades no país que sediam o festival.

Quando de melhor qualidade ou apelo popular, alguns desses filmes chegam a ultrapassar o âmbito do Festival e entram para o circuito comercial numa boa. Numa das últimas versões do festival, por exemplo, foi o caso da comédia “Intocáveis” (2011). Na versão deste ano talvez – quem sabe? – seja o caso desse engraçadíssimo e muito bem transado “Que mal eu fiz a Deus” (2014).

Este ano, porém, o Festival Varilux sofreu um abalo que pode comprometer o seu conceito já tão firmado junto ao público e à crítica.

Aventura estabanada de Belmondo na cidade maravilhosa

Aventura estabanada de Belmondo na cidade maravilhosa

Vejam bem, desde a versão do ano passado que passou a valer a sensata medida de se incluir, na programação, um clássico do cinema francês, que foi “Os incompreendidos” de François Truffaut, 1959. Beleza!

Neste ano os organizadores do Festival decidiram mostrar o filme de Phillippe de Broca, de 1964, “O homem do Rio” (“L´homme de Rio”). Segundo os folhetos de divulgação, a escolha foi feita para homenagear a cidade do Rio de Janeiro, mas duvido que os cariocas – pelo menos os que amam o cinema – tenham se sentido homenageados.

O problema é muito simples: o filme de Broca é muito, muito ruim. Já devia ser na época de sua estreia, e piorou com o tempo. Sua exibição embaçou as lentes Varilux. Consta que foi um sucesso de bilheteria na França dos anos sessenta, mas não lembro que tenha sido no Brasil. Os espectadores franceses, principalmente os fãs do exótico, devem ter adorado ver as paisagens do Rio de Janeiro, da recém fundada Brasília e da selva amazônica, mas, quem foi que disse que paisagem faz cinema?

A mirabolante e completamente inverossímil estória é a aventura tresloucada de um pracinha francês (Jean-Paul Belmondo) que, no curto périplo de uma semana de folga, recobre o território brasileiro nas circunstâncias mais desbaratadas. De avião a barco, passando por bicicleta e trem, não há um meio de transporte de que ele não tenha feito uso – geralmente indevido – tudo isso para salvar sua amada Agnès (Françoise Dorléac) do perigo e da morte.

Samba no morro: mais um clichê

Samba no morro: mais um clichê

O manjado “macguffin” da estória toda é a busca de um totem malteco que, enterrado em alguma gruta da Amazônia, esconderia um tesouro inestimável, e Agnès, filha de um cientista que conhecia o segredo, é sequestrada para ajudar no desvendamento da pista que conduziria ao tesouro. O autor do plano é o fingido e ambicioso Prof. Catalan, (papel do veterano Jean Servais) que, como esperado, morre perante as joias.

O enredo inteiro é um amontoado de clichês e cada episódio é uma encenação extremamente cansativa para o espectador que, ao longo da vida, já viu todos os filmes de aventura do mundo. Ou se for o caso, todos os filmes sobre estrangeiros que chegam ao Rio e, ao som de samba, fazem amizade com um engraxate que mora nas favelas. Como sintomaticamente diz a versão francesa de uma canção brasileira dos anos cinquenta, “si tu vas à Rio, n´oublie pas de monter lá haut…”. Adrien, o estabanado pracinha, não esquece.

Supostamente, “O homem do Rio” pretendeu ser uma sátira ao “filme de aventura”, porém, para satirizar um gênero, você precisa ser melhor que ele, e, decididamente, “O homem do Rio” não é, ou, melhor dizendo, é bem pior.

Paisagem para turista ver...

Paisagem para turista ver…

Junto com uma multidão de espectadores decepcionados, saí da Sala 3 do Cinespaço, naquele domingo, pensando cá com meus botões: se era para continuar incluindo clássicos do cinema francês na programação de Festival Varilux, por que não pensaram em, digamos, “L´Atalante”, ou “A nous la liberté”, ou “Les jeux interdits” (“Brinquedo proibido”), ou “Le salaire de La peur” (“O salário do medo), ou “La règle du jeu” (“A regra do jogo”), ou “Porte de Lilàs” (“Por ternura também se mata”), ou…

E enquanto caminhava para casa, não conseguia estancar o rol de grandes clássicos franceses que desfilavam na minha memória…

Com certeza, qualquer um desses filmes teria deixado os cinéfilos cariocas (e os brasileiros) bem mais satisfeitos.

Se era para mostrar um clássico, por que não escolheram "Porte de Lilas" (1957)?

Se era para mostrar um clássico, por que não escolheram “Porte de Lilas” (1957)?

 

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Turismo cinéfilo

23 jul

Sabe como cinéfilo é, não? Adora associar tudo a cinema. A todo lugar que vai, está sempre vendo imagens fílmicas a sua frente. Um carro que dobra uma esquina de modo furtivo, uma folha que dança no ar e cai na relva, um sorriso generoso de desconhecida no meio da multidão: qualquer detalhe pode lhe lembrar tal cena, de tal filme, que ele viu em tal data, em tal cinema…

E quando ele viaja, então! E se a viagem for ao estrangeiro, por ventura um país com cinematografia vasta, nem se fala.

Eu mesmo me lembro dos meus poucos dias em Nova Iorque assim. Por exemplo, toda vez em que entrava num daqueles cafés, para o breakfast, e lá vinha o garçon, todo de preto, com aquela toalhinha branca por sobre o braço, perguntando ´what can I do for you´. Hum, aquilo, para mim, era puro cinema. A via Broadway e suas calçadas apinhadas, o central park, o Harlem, a Quinta Avenida (às vezes eu tinha a ilusão de que ia encontrar Audrey Hepburn na próxima esquina, brechando jóias nas vitrines da Tiffany´s) – tudo isso, e, muito mais, está nas nossas retinas cinéfilas e, ao vê-los ao vivo, parecem deslocados, fora da tela.

Duvido que um cinéfilo visite o terraço do Empire State Building e não se lembre do pobre do Cary Grant esperando, até anoitecer, a Deborah Kerr, que não vai vir mesmo. Ou que suba à Estátua da Liberdade e não perca o fôlego com aquele vilão de Hitchcock, pendurado só pela manga do paletó, que está se rasgando e – uai! – o cara vai cair lá embaixo e se esfacelar.

Quando estive em Paris a coisa não foi muito diferente. Cheguei de trem, à noite, e da estação, tomei um taxi direto para o “Hotel des Étrangers”, ali no começo do Quartier Latin. De manhã, segui a pé, pelo Boulevard Saint Michel e fui, direto, sem hesitação, para a Île de France, já sabendo que lá encontraria a Notre Dame, e, atravessando a ponte, o Louvre, e de lá, a Place da La Concorde, o Champs Élisées, Arco do Triunfo, e tudo mais. Minha colega de viagem, que na época também era novata na cidade, se impressionou, pensando que eu já estivera em Paris e estava escondendo o leite. Não estava. De tantos filmes situados em Paris que vi na vida, o mapa da cidade luz, pelo menos a parte mais óbvia, estava na minha cabeça de cinéfilo, e, caminhando ruas afora, eu só fazia confirmá-lo.

Estou tratando disso a propósito de um livrinho que tenho em mãos, chamado “Europa de cinema” (Pulp Edições: Curitiba, 2011), com o subtítulo de ´roteiros e dicas de viagem inspirados em grandes filmes´. Viajante inveterado e cinéfilo, o autor é esse Vicente Frare, que nos convida a percursos regados a filmes em pelo menos cinco capitais européias: Berlim, Londres, Madri, Paris e Roma.

Para cada uma, ele fornece dicas de filmes recentes em que estas cidades são o cenário; resume os enredos e aponta os locais particulares que foram retratados, e ainda informa como o viajante pode visitá-los. Em seguida, vem uma lista maior e menos detalhada de filmes antigos cujos enredos se passam nessas cidades. Há ainda um setor de curiosidades sobre o cinema de cada país, seguido sempre de cinco locais particularmente cinematográficos (tipo: o Sacré Coeur em Paris, ou o Coliseu em Roma), cinco livros para entrar no clima, e cinco músicas para colocar no ipod. Como é coisa dirigida a quem vai viajar, o livro é pequeno, de modo a caber na bolsa ou mesmo no bolso. E claro, muito colorido e todo ilustrado com os devidos cenários a serem visitados.

Agora, ou você é de fato um aficcionado da sétima arte, ou o livro não lhe serve muito. Para se ter uma idéia, a quantidade de filmes resenhados, por exemplo, na primeira lista de Paris (chamada de “Filmes para viajar por…”) chega a dezessete, isto sem falar na segunda lista (chamada de “Outras Sugestões”), aquela que só fornece os créditos: no caso de Paris, são quarenta e duas películas. Claro, para o cinéfilo, não há problema, pois, quem é que não conhece – digamos – “Os incompreendidos” de François Truffaut (1959), ou “Playtime” de Jacques Tati (1968)?

Naturalmente, o cinéfilo obsessivo, como eu, vai até apontar lacunas: por exemplo, sobre Paris, não está lá o belo e comovente “Por ternura também se mata” (René Clair, 1958) cujo título original é, por sinal, o nome de um certo setor da cidade luz “Porte de Lilás”.

Dois comentários finais, um preso ao outro.

(1) a mera edição de um livro desses é prova de como, independentemente do fenômeno da cinefilia propriamente dita, a recepção ao cinema, de um modo geral, cresceu nas últimas décadas, e como o cinema passou a fazer parte da vida das pessoas, como talvez nunca fizera antes; (2) sem a eletrônica, que viabiliza os filmes em formato doméstico, um livrinho desses não faria sentido, ou melhor, nem seria possível.