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Camadas de Ozon

2 jan

Louvemos o que merece: a programação do Cinespaço que, em pleno final de ano, inclui alguma coisa fora da hegemonia americana: nestas últimas semanas pelo menos dois filmes franceses.

Um deles é este mais ou menos perturbador “Jovem e bela” (“Jeune et jolie”, 2013), realização mais recente do prestigiado cineasta francês François Ozon.

A temática é recorrente em Ozon, a sexualidade feminina, mas aqui o enfoque parece ser novo. O filme lembra filmes alheios, “Lolita” (Stanley Kubrick, 1962) e “A bela da tarde” (Luis Buñuel, 1967) mas só lembra.

Jovem e bela

O enredo é simples enquanto estória, mas nada simples com relação aos personagens.

Para a família, Isabelle (desempenho de Marine Vacth), jovem de dezessete anos, parece uma garota normal. O que a mãe e o padrasto não sabem é que ela usa o celular para rendez-vous eróticos com homens ricos e mais velhos.

Sua carreia de garota de programa está indo bem e lhe enche uma bolsinha secreta de dinheiro, quando um fato inesperado ocorre e a polícia vai ao seu encalço. Para os pais é um choque descobrir essa vida dupla da filha, porém, não tanto para o irmão mais novo, um adolescente que, de alguma forma, tinha uma vaga noção da vida sexual de Isabelle e mantinha o silêncio de um cúmplice.

Quem é Isabelle e por que age assim?

Mais tarde ela mesma confessará ao psiquiatra imposto pela família que não fazia nada daquilo por dinheiro. Aventura? Fuga à rotina? Prazer? Uma combinação disso tudo? Não se sabe, e parece que nem ela mesma é capaz de formular uma explicação convincente. E o psiquiatra, muito menos.

De sua parte, o filme – ainda bem – se abstém de julgamentos, como também de explicações comportamentais de quaisquer ordens.

O diretor François Ozon

O diretor François Ozon

Há momentos em que parece que vai fazer isto, e não faz. Por exemplo, em uma cena de sala de aula, há a recitação e longa discussão de um poema de Rimbaud (jovem poeta que revolucionou seu século em todos os terrenos), justamente sobre a juventude, mas, nada que sugira pistas sobre Isabelle.

Tampouco o fazem as canções de Françoise Hardy que, pelo contrário, aparecem mais como propositais pistas falsas. Um exemplo: quando, depois de tudo descoberto e encoberto pela família, Isabelle começa um namoro com um rapaz que conhece há pouco, a letra da canção que os acompanha sugere que o caso vai vingar de modo certinho e vai modificar – ou seja, “normalizar” – a personalidade da moça, mas que nada, é só uma música que toca, e, no terreno sexual, as surpresas vão ser ainda maiores que as supostas.

Como nos outros filmes de Ozon, sente-se que existem camadas superpostas de significação, que cabe ao espectador desvendar. E Isabelle não é o único mistério actancial. Também não explicamos o seu irmão, um adolescente que nos aparece, no início do filme, espreitando a irmã de binóculos, um voyeur que se desinteressa da espionagem, justamente no momento em que ela faz topless na praia. E a mãe dos dois, que parece lugar comum, admite ter tido uma relação extra-conjugal com um amigo da família.

O quarto caso nada óbvio é o da viúva do senhor que fora cliente de Isabelle, uma mulher de idade (desempenho comovido da sempre bela Charlotte Rampling) que a procura e as duas se encontram no mesmo quarto em que…

O filme está dividido em estações do ano, o que lhe dá um sentido cíclico, como se tudo fosse se repetir depois do último fotograma… sem que isso nos revele – repito – as camadas significativas de Ozon.

A verdade é que a trama de “Jovem e bela” (uma garota de programa numa família supostamente convencional) e os comportamentos dos personagens (os quatro citados) não nos encaminham a uma suposta mensagem.

Por isso, para o espectador desavisado, ou acostumado com outro modelo de cinema, o filme pode parecer vago e inútil, ou mesmo simplesmente perverso. Talvez seja só isso, porém, não há dúvidas de que é cinema, e de boa qualidade. Se as apenas adivinhadas camadas de sentido estivessem às claras, o filme seria outro, ou talvez – quem sabe? – nem fosse cinema.

Um exercício interessante pode ser cotejar “Jovem e bela” à filmografia de François Ozon, da qual aqui cito alguns títulos já exibidos entre nós: “Sitcom” (1998), “Oito mulheres” (2002), “Potiche – esposa troféu” (2010) e “Dentro da casa” (2012).

A bela e jovem Isabelle, fechando mais um programa

A bela e jovem Isabelle, fechando mais um programa

Dentro da casa

17 abr

Por razões de saúde, perdi a última mostra Varilux de Cinema Francês, mas os amigos não deixaram de, com certa insistência, me recomendar um dos filmes exibidos, “Dentro da Casa” (“Dans la maison”, 2012), que só agora, em formato eletrônico, tenho a oportunidade de ver, realmente um filme digno de nota.

De saco cheio com a mediocridade reinante entre seus alunos adolescentes, um professor de literatura do Ensino Médio descobre uma exceção – um cujas redações são animadoramente promissoras.

O aluno, Claude, escreve sobre um colega de classe, Rafa, a quem ajuda com matemática e, nessa ajuda, termina por fazer o que sempre desejou: adentrar a sua residência e conhecer a sua bela mãe. O professor Germain nota o talento literário do aluno e decide que vale a pena nele investir.

Claude (Ernst Umhauer e Mr Germain (Fabrice Luchini) espiam casas alheias

Claude (Ernst Umhauer e Mr Germain (Fabrice Luchini) espiam casas alheias

Não haveria nada demais nisso, se as redações de Claude – sempre a continuar – não fossem se tornando cada vez mais indiscretas, penetrando o seio da família de Rafa de uma forma voyeurista e nem sempre ética. Fascinado pela escrita do pupilo, o Prof Germain vê-se numa encruzilhada, entre ser facilitador da aprendizagem e conivente de um comportamento politicamente incorreto e eventualmente perigoso.

O que fazer? O fascínio é tal que o Prof Germain não hesita em estimular o voyeurismo do pupilo, lhe dando pistas sobre como escrever e como agir (duas coisas que se confundem em Claude!), e, quando a situação se coloca, ele próprio, no anseio de não interromper o andamento da escritura, comete um pequeno delito.

Trata-se, evidentemente, de um filme sobre linguagem, porém, o mais interessante é como ele narra a estória, elaborando o processo narrativo junto com os dois protagonistas – o escritor e o seu crítico.

Claude, o aluno promissor

Claude, o aluno promissor

Vejam que o nosso acesso às redações de Claude segue uma progressão – primeiramente, de modo oral, lidas por Germain para sua esposa e para nós; em seguida, a câmera vai aos poucos substituindo a oralidade, e passamos a ver o que acontece entre as quatro paredes da residência “invadida” – inclusive a “conquista” da mãe do colega.

Isto progride até não sermos mais capazes de saber até onde vão o realmente acontecido e o ficcional. Nem nós nem o Prof German. Por exemplo, quando, em crise, Rafa beija Claude na boca, isto foi criação literária do redator, ou de fato aconteceu? Só vamos ter uma delimitação entre fato e ficção no dia em que – segundo a narrativa de Claude e, claro, segundo a câmera! – Rafa teria se suicidado depois de ver a mãe com seu melhor amigo, e o Professor, na escola, telefona para sua casa e fica sabendo que ele não veio ao colégio apenas por estar gripado.

Conforme já sugerido, o melhor do filme é a impressão que passa de que os personagens – e não os roteiristas! – estão escrevendo o roteiro do filme enquanto ele é projetado. É delicioso acompanhar as discussões, teóricas e práticas, entre Germain e Claude sobre a arte de escrever, porém, mais delicioso ainda é constatar uma discussão inexplícita – a de como se faz um filme sobre escrever e sobre filmar.

Com uma vantagem – os dois protagonistas, embora escritores em ação, não são meros modelos intelectuais, mas gente de carne e osso. Uma das conclusões a que se chega, por exemplo (expressa em um dos textos de Claude e melancolicamente confirmada pelo seu leitor e mestre), é a de que Germain seria um romancista frustrado que se realiza no pupilo. A verdade é que a identificação entre esse idoso mestre e seu jovem pupilo é tamanha que a esposa do professor chega a falar de homossexualidade tardia, embora, com mais acerto talvez, o desenlace – que não vou contar – sugira uma relação paternal.

Ernst Umhauer e Emmanuelle Seigner em cena do filme

Ernst Umhauer e Emmanuelle Seigner em cena do filme

Um eco em “Dentro da Casa” vem claramente do clássico de Hitchcock “Janela indiscreta” (1954), que, quase sessenta anos atrás, abordara o voyeurismo domiciliar e seus perigos. Lá a coisa ocorria de apartamento para apartamento; aqui – como sugere um maldoso Claude no final do filme – de qualquer jardim se observa as casas alheias e, acrescenta, “há sempre um jeito de entrar”.

Autor de filmes instigantes como “Sit.com” (1998), “Oito mulheres” (2002), “Potiche” (2010) e tantos outros, o diretor François Ozon é um dos expoentes do cinema francês contemporâneo. Este “Dentro da casa” só faz confirmar o seu enorme talento e nos deixa na expectativa de ver mais.

Como se sabe, a cinematografia francesa é uma das mais ativas da atualidade e é muito reconfortante constatar o quanto, nela, parece ter ficado resolvido aquele velho e falso dilema nacional entre fazer filme de “autor” (“auteur” é a palavra que vem da Nouvelle Vague) e fazer filme que agrade a um grande público. Em Ozon pelo menos, o equilíbrio é perfeito e o lucro é inteiramente nosso. Bravo!

Em tempo: esta matéria é dedicada a Alessio Toni.

O prof. Germain (Luchini) e a esposa (Kristin Scott Thomas) em momento íntimo.

O prof. Germain (Luchini) e a esposa (Kristin Scott Thomas) em momento íntimo.