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A “doce vida” gay em um filme afetivo

23 ago

Eu canto o corpo elétrico / Os braços dos que amo me envolvem e eu os envolvo / Eles não me largarão até que eu vá com eles, lhes responda, / E os liberte, e os preencha com a carga da alma.”

 

Com tradução minha, é assim que começa o longo poema “I sing the body electric”, do grande poeta americano Walt Whitman, poema que teria servido de inspiração para os realizadores do filme “Corpo elétrico” (2017), no momento em cartaz na cidade.

O filme do novato Marcelo Caetano mostra a vida diária e noturna de empregados de uma fábrica de confecções na São Paulo de hoje, com relativa concentração em um dos personagens, Elias (o paraibano Kelner Macêdo), um jovem de 23 anos que, morando só, se divide entre o trabalho e muitas aventuras homoeróticas.

Mas não esperem clichês: ao contrário da maior parte dos filmes que conhecemos sobre o mundo LGBT, “Corpo elétrico” não é um libelo, nem um panfleto. Não há protestos, nem denúncias, e tudo é muito leve, talvez leve demais.

Os conflitos são sutis e não há mesmo o desenvolvimento de um enredo, com esperados turning points, nem mesmo a progressiva e aprofundada construção de um protagonista. O que há mais é a descrição compassada de uma situação: a dessa comunidade de empregados de uma fábrica, seu cotidiano e seu lazer: só isso.

Apesar das muitas relações sexuais graficamente exibidas, “Corpo elétrico” é um filme em que, praticamente, nada acontece. Quando a gente se dá conta de que ele termina em aberto, com festa e, em seguida, no mar, não há como não lembrar certo filme de Fellini. Aqui, claro, um “La dolce vita” dos pobres. A diferença, obviamente, é que Fellini é crítico na descrição de sua sociedade, ao passo que Marcelo Caetano é afetivo, quase cúmplice.

E mais: grande parte da estrutura do filme se sustenta em lacunas. Por exemplo, sabe-se que o protagonista Elias é paraibano, mas só isso. Nenhuma informação sobre sua vida pregressa. Conversando com um colega novato, um imigrante de Guiné-Bissau, quando este lhe fala na importância da família, Elias escuta e, pensativo… cala. Seria este o momento de fazer referência à sua família, na Paraíba, mas o silêncio – para o colega e para nós – é a resposta.

Assim, evasivos, são também os seus casos amorosos. O caso com o vigilante do prédio vizinho começa com imagens (quando se conhecem), mas só temos o seu desenvolvimento em palavras, e mesmo assim ele fica sem paradeiro… O mesmo se diga do caso com o novato africano, tentado, sem sucesso… Para não falar do caso com o companheiro mais frequente – aquele com quem se abre o filme, os dois despidos na cama, depois de uma cópula – um relacionamento sem passado manifesto e sem futuro prometido…

Que essa ausência diegética de passado e futuro é chave no filme fica evidente no que seria o desenlace. Depois do ano novo na praia, Elias deveria voltar ao trabalho (como lhe lembra o companheiro), e no entanto, ele prefere o mar e seu mistério infinito – último fotograma que nossos olhos têm o direito de divisar.

Por estas e outras, o espectador é levado a cogitar se o filme faz a proposta de uma sociedade diversa, por exemplo, sem lugar para o conceito de família e de trabalho – uma espécie de utopia a alcançar. Mas, não queiramos ir tão longe: suave, descontraído, descompromissado, o filme não tem nada de assertivo.

Às lacunas diegéticas, de fato, pode se dizer que corresponde uma lacuna semântica, mas, cuidado, esta última é proposital, assumida, e o espectador fica livre para preenchê-la a seu gosto.

Só para voltar ao poema inspirador do filme: em Walt Whitman, materialidade (expressa na palavra “braços”) e espiritualidade (em “alma”) deveriam ser a mesma coisa. E são.

No filme de Marcelo Caetano essa simbiose é (só) uma promessa. Mas, suponho, uma promessa válida…

O ator paraibano Kelner Macêdo em cena do filme.

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Um homem, uma mulher e nós

22 jun

2Exibido como “o clássico” da programação do Festival Varilux de Cinema Francês, o filme “Um homem e uma mulher” (1966) lotou, sábado passado, a sala 3 dos cinemas do Mag Shopping.

O filme de Claude Lelouch está, agora, completando cinquenta anos. Mas vamos por etapas. Até 1966 Lelouch não passava de um ilustre desconhecido. Com seis fracassos de público e crítica nas costas, o cineasta, na verdade, andava deprimido. “Lembrem-se bem deste nome: vocês nunca mais ouvirão falar dele”. Foi com esta frase cruel que, em 1963, a revista de cinema “Cahiers du Cinéma” tentou descartá-lo de vez do cenário cinematográfico.

A ironia do destino é que quatro anos mais tarde, em 1967, Lelouch ganharia a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original por seu novo filme. Ao contrário do que diagnosticara o “Cahiers”, na França e em todo o mundo era só do que se falava, sim, do filme “Um homem e uma mulher” (“Un homme et une femme”, 1966).

De cara mexendo, o pessoal do “Cahiers” quis voltar atrás e, na imprensa, François Truffaut ousou sugerir que “Um homem e uma mulher” tinha o espírito da Nouvelle Vague, movimento de cinema, como se sabe, saído do seio da revista que criticara Lelouch. Dando o troco à altura, na mesma imprensa, Lelouch peremptoriamente declarou que seu filme não tinha nada, absolutamente nada a ver com a Nouvelle Vague.

Desde então ficou comprada a briga entre Lelouch e a crítica de uma maneira geral, briga que faz o cineasta jogar farpas maliciosas do tipo: “Um dia farei um filme para os críticos – quando tiver dinheiro para perder”.

A carreira de Lelouch deslancharia vertiginosamente depois do estrondoso sucesso de “Um homem e uma mulher”, e a frase do Cahiers ficou registrada, no anedotário cinematográfico, como uma das grandes mancadas da crítica. A filmografia do cineasta já contém mais de cinquenta títulos e seu nome, já faz muito tempo, consta entre os grandes realizadores de seu país.

A praia de Deauville, norte da França, é o cenário.

A praia de Deauville, norte da França, é o cenário.

Para o bem ou para o mal, existe um “estilo Lelouch” e ele já estava todo prometido em “Um homem e uma mulher”: câmera móvel, em muitos casos, na mão ou no ombro, diálogos improvisados, voz over para as revelações mais íntimas dos personagens, flashbacks com imagens narradoras, no lugar dos diálogos, visual de clips publicitários, ritmo preso a uma trilha musical generosa, uso cronológico das cores… são alguns desses traços de estilo. É um estilo que redunda temáticas e fórmulas narrativas e plásticas, dando a impressão de se estar, sempre, rodando o mesmo filme, mas e daí?

No caso de “Um homem e uma mulher” o enredo não poderia ser mais exíguo, talvez o único dado que difere da filmografia posterior do cineasta: um viúvo parisiense que, todo fim de semana, vai pegar o filho pequeno num orfanato em Deauville, cidade litorânea ao norte da França, conhece uma viúva que sempre vai pegar a filha no mesmo local. Um dia ela perde o trem, ele lhe dá carona e a amizade está garantida, logo virando amor. No primeiro encontro íntimo, os dois aprendem que o luto não passa fácil e que precisam de delicadeza para contorná-lo.

À simplicidade do enredo corresponde a simplicidade da forma. Nada de angústias existenciais, filosóficas ou metafísicas, apenas as angústias das pessoas comuns; nada de experimentos formais inovadores, salvo os que os espectadores comuns tenham condição de acompanhar e aceitar. Nesse sentido, a trilha sonora principal, é exemplar, com sua batida simples e sua melodia delicada. Embora já consagrados, os atores Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée dão interpretações despojadas, como se vivendo a estória de verdade. O tom geral do filme, se não é eufórico, é alegre, tanto quanto aquele cachorrinho saltitando na praia e nos lembrando – por causa de um certo diálogo anterior do casal sobre Rembrandt, gatos e incêndios – que ´a vida vale mais que a arte´.

A beleza de Anouk.

A beleza de Anouk.

Não me recordo como a crítica local reagiu a “Um homem e uma mulher” quando de sua estreia, mas lembro bem que o público adorou o filme, em especial, o seu lado brasileiro, com o carinhoso emprego da música “Samba da bênção” de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Apesar da ditadura, era aquela uma época em que o Brasil estava em evidência, com a bossa nova, o futebol, o Cinema Novo, as misses, o boxe, a arquitetura de Brasília, etc, e a parcela brasileira do enredo massageava o nosso ego.

Sim, foi muito bom poder rever “Um homem e uma mulher” em tela grande! Se não fosse por outros motivos, seria pela recordação dos anos sessenta.

Parabéns aos organizadores do Festival Varilux pela escolha clássica deste ano.

O cartaz clássico do filme de Lelouch.

O cartaz clássico do filme de Lelouch.

A mulher da areia

10 mar

Que sensação estranha: ter sentido, cinquenta anos atrás, o forte impacto de um filme, e cinquenta anos depois, revê-lo e experimentar o mesmo impacto da primeira impressão, com a mesma intensidade.

Foi o que me ocorreu agora, revendo “A mulher da areia” (“Suna no onna”, 1964). O meu primeiro – e até há pouco, único – contato com o filme do japonês Hiroshi Teshigahara acho que foi numa das saudosas sessões de quinta-feira do ´cinema de arte´, no Cine Municipal, projeto organizado pela ACCP – Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba. Saí do cinema perplexo e com a certeza de que aquele seria um dos filmes da minha vida.

E foi, ou melhor, é. Em poucos filmes a plástica está embutida de significação da forma que aqui ocorre, e a temática dependente dessa mesma plástica. Em poucos filmes a diegese inteira funciona como um vasto símbolo, pulsante e medonho, e qualquer elemento do enredo, gráfico ou verbal, nos atinge como um signo a ser decifrado.

O cartaz internacional do filme de Teshigahara.

O cartaz internacional do filme de Teshigahara.

Redigindo estas frágeis linhas, me sinto impotente para passar ao leitor a grandeza e a beleza dessa obra prima de Teshigahara. Um resumo de enredo só me faria traí-la e o esforço de interpretação não me redimiria da traição.

Sem outra opção, corro o risco.

Entre as dunas de uma deserta praia japonesa, um jovem entomologista caça insetos raros para um trabalho que pretende publicar. Anoitece e os habitantes do lugar o conduzem a pernoitar num casebre que fica atolado num enorme buraco, todo feito de areia. Lá, sozinha, mora uma mulher que, todo dia, é obrigada a tirar a areia em baldes acionados por cordas, do contrário o buraco fecharia sobre sua casa. No dia seguinte, ao ver que a escada de corda fora retirada, o visitante se dá conta de que caíra (literalmente) numa armadilha.

Quase todo o restante do filme é sobre as muitas vãs tentativas de fuga desse prisioneiro inconformado e sua relação com essa mulher, ao contrário dele, resignada à sua sina.

Para os habitantes do lugar, é importante que aquele enorme buraco de areia seja preservado, pois, sua existência previne a abertura de outros na aldeia. Por isso, ajudam a mulher a conservá-lo.

Cena do filme: a rotina na cratera arenosa.

Cena do filme: a rotina na cratera arenosa.

Uma mulher e um homem presos num buraco de areia. Lembro que minha primeira impressão do filme foi que simbolizasse o casamento convencional, ou ao menos, qualquer modelo de relação a dois que seja fechada e sem saída. Hoje, revendo-o, noto que seu simbolismo é mais amplo, com tons existencialistas, que fazem a crítica – mas eu não – colocar Teshigahara no rol da chamada “nouvelle vague japonesa”.

O melhor do filme é mesmo a sua ambiguidade, em parte corolário de sua beleza plástica. Fascinam os muitos closes que igualam os corpos dos personagens à paisagem arenosa. Com a radical proximidade da câmera, grãos de areia e poros se misturam de um modo impressionante. Ninguém esquece, por exemplo, a cena da mulher dormindo, completamente nua, e o homem (e nós) espiando suas curvas, que são verdadeiras dunas. Aqui, como em outros momentos, o erotismo é uma necessidade temática.

Os caminhos interpretativos são tantos que o espectador, como os personagens, sente-se perdido. Com certeza, não é nada gratuito que o homem seja um entomologista, com seus insetos presos dentro de seu mostruário de cientista. Com o desenrolar da estória, cada vez mais preso ao buraco de areia, o homem vai sendo associado aos insetos que coleciona. Tanto é assim que, ao dar-se conta disso, ele, desiludido, os destroi a todos.

O fotograma mais famoso...

O fotograma mais famoso…

As suas tentativas repetidas e mal sucedidas de escalar as paredes de areia, subindo e descendo a cada vez, lembra, sim, o mito de Sísifo, que a crítica sempre aponta. Mas, claro, a mulher tem o mesmo estatuto, no seu eterno mister de varrer a areia para os baldes que os aldeões alçarão em cordas. Em determinado momento o homem, revoltado com o seu destino e o dela, lhe pergunta: “você varre para viver, ou vive para varrer?” – naturalmente, uma pergunta sem resposta.

A mim, o que mais me encanta em “A mulher da areia” é sua absoluta originalidade – um filme sem gênero, sem escola, sem modelo, igual a si mesmo e a nada mais.

Filho de família abastada, Teshigahara foi sempre criticado pelos seus pares, por ser um “filhinho de papai” que tinha dinheiro para cometer as extravagâncias que quisesse, sem passar pelos  habituais sofrimentos de ser cineasta, e sem pensar em consequências.

De fato, fez poucos filmes, todos projetos extremamente pessoais. No meu entender, se fez “A mulher da areia”, não precisava fazer mais nada.

WOMAN IN THE DUNES, (aka SUNA NO ONNA), Kyoko Kishida, Eiji Okada, 1964.

Kyoko Kishida e Eiji Okada em A Mulher da areia.

Quatro homens em uma jangada

10 dez

 

Esta semana o Canal Brasil mostrou uma raridade cinematográfica: “É tudo verdade”, documentário sobre o filme que, em 1942, o cineasta americano Orson Welles veio rodar em solo brasileiro.

Já escrevi várias vezes sobre o assunto, mas, creio que vale a pena relembrar o caso dessa filmagem conturbada e seu resultado surpreendente.

Sob os auspícios do governo americano, o autor de “Cidadão Kane” (1941) é enviado ao país do carnaval, para, de alguma forma, influir na política da boa vizinhança: na ocasião, Getúlio Vargas pendia para o lado nazista e isso precisava ser evitado.

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A idéia era filmar o carnaval carioca, e o Wonder Boy recebeu apoio de muita gente boa do meio cultural carioca, entre outros, Vinicius de Moraes, Grande Otelo, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, e até o então criança Pery Ribeiro, filho do casal citado, participou das filmagens.

Filmagens à parte, porém, o jovem Welles meteu-se em farras homéricas no Rio de Janeiro e comeu, entre outras coisas, o orçamento do projeto. Somente depois de pressionado pela Fundação Rockfeller (fomentadora do projeto) é que Welles resolveu dar uma trégua a suas farras cariocas e trabalhar. De repente, como um náufrago desesperado, agarrou-se à ideia de recontar a viagem verídica, noticiada em jornal, que quatro jangadeiros cearenses haviam feito, do Ceará ao Rio, para exigir do presidente os direitos trabalhistas que não tinham.

Welles mandou-se para o Ceará e, com um roteiro improvisado, poucos recursos técnicos, e atores não profissionais, rodou o filme possível, que chamou de “Four men on a raft” (´quatro homens em uma jangada´). Por azar, ao chegar ao mar bravio de Copacabana, um dos jangadeiros, o “Jacaré”, morre afogado… A morte de Jacaré termina de consumar o desastre que foi a estada de Welles entre nós. O filme é engavetado pela RKO e fica o assunto encerrado.

A jangada cearense e sua viagem

A jangada cearense e sua viagem

Muito tempo depois, anos noventa, o cineasta já falecido, três pesquisadores americanos, Richard Wilson, Myron Meisel e Bill Khron, vasculham os arquivos hollywoodianos e encontram os rolos do trabalho brasileiro de Welles. Acrescentam filmagens documentais de sua aventura brasileira, e montam o filme a que dão o mesmo título do projeto original “It´s all true” (1993).

Mas, claro, o mais interessante no filme do trio Wilson, Meisel e Khron é o filme que Welles conseguiu fazer com os jangadeiros cearenses, em si mesmo inteiro e autônomo.

Em belo preto-e-branco, a estória começa em uma aldeia de pescadores, numa praia do litoral cearense. Nessa aldeia, dois jovens – ela, filha de pescador, ele, também pescador – iniciam uma amizade que se transforma em amor e, com o consentimento dos pais, decidem casar. Toda a cerimônia de casamento é mostrada, da qual, naturalmente, participa a aldeia inteira, todos habitantes do lugar que, como os dois protagonistas, desempenham papéis ficcionais.

Welles em ação

Welles em ação

Pouco tempo após a lua de mel, vem o desastre. Pescando em alto mar, o rapaz desaparece, e mais tarde, à beira-mar, entre pedras, areia e ondas fortes, uma garotinha encontra o cadáver.

Belíssimas são as tomadas que mostram o cortejo do enterro, subindo, em fila, as dunas, até o cemitério. Belíssimos são os closes que mostram os rostos enrugados dos habitantes do lugar, entristecidos com a morte do jangadeiro e com a situação da jovem viúva que, sem direitos legais, nada tem a herdar, só a dor e a solidão.

É então que a comunidade decide que quatro jangadeiros deveriam navegar mar afora até a capital federal, para exigir de Getúlio o direito à pensão e à aposentadoria. E mais beleza se tem com a encenação da viagem por mar, a precária jangada com sua vela ao vento contornando a costa brasileira.

Rostos brasileiros na tela de Welles

Rostos brasileiros na tela de Welles

Se o projeto como um todo, digo, o da estada de Orson Welles no Brasil, foi um fracasso, o mesmo não pode ser dito de “Quatro homens em uma jangada”, filme emocionante que atesta o talento de um gênio do cinema.

A propósito de fracasso, em “É tudo verdade” está incluído um depoimento curioso de Orson Welles. Conta ele que, já estourado o orçamento do projeto, recebe a visita de um grupo de favelados que trabalhavam com “Voodoo” (ele quis dizer ´umbanda´), a quem ele havia prometido uma ampla participação no filme a ser feito. Explica-lhes que não havia mais dinheiro para a produção, quando o telefone toca. Vai atender e ao retornar à sala, o pessoal da umbanda, irritadíssimo, tinha ido embora, mas não sem antes perfurar com agulhas o roteiro do filme, que estava sobre a mesa. Segundo Welles, amaldiçoado pelo “voodoo” brasileiro, o projeto jamais poderia ter dado certo.

Ora, é o gênio do cinema fazendo ficção. Mais uma…

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.

 

La dolce vita

26 ago

 

Era abril de 1953, dia 9, quando o corpo de Wilma Montesi foi encontrado. Seminu, era arrastado pelas ondas nas areias da praia de Torvaianica, a uma certa distância de Roma. Com 21 anos de idade, Wilma Montesi era uma moça humilde: filha de marceneiro, morava num subúrbio romano. Como fora parar naquela praia distante, e mais importante, de que morrera?

Em seguida veio o escândalo. Aparentemente a moça estaria envolvida com rapazes da elite que costumavam se divertir em orgias movidas a drogas. Um deles era o músico Piero Piccione, amante da atriz de cinema Alida Valli, e filho do ministro Attilio Piccione. Piero e um de seus companheiros de farra, Ugo Montagna chegaram a ser julgados, na Corte de Veneza, porém, por falta de provas, foram absolvidos, e o caso foi arquivado, tudo indica que para sempre.

Marcello Mastorianni e Anita Egberg em cena de La Dolce Vita.

Mas, claro, nem todo mundo esqueceu o caso: o cineasta Federico Fellini, por exemplo. Segundo consta, foi nele que pensou ao bolar, junto com Pasolini, o enredo de “A doce vida” (1960).

Assim, teria sido o dúbio papel da imprensa da época o que motivou a construção do personagem de Marcello Rubini (Marcello Mastroiani), esse jornalista que se divide entre o compromisso profissional com a informação e o fascínio pela ´doce vida´ da burguesia italiana.

De fato, várias cenas no filme costuram pobreza e riqueza de modo irônico. A primeira noitada de Marcello com a ricaça Madalena é bem sintomática: os dois dão carona a uma pobre garota de programa (certamente inspirada em Wilma) que termina abrigando-os por uma noite em seu mais que modesto casebre, usado pelo casal como motel.

Uma segunda cena a citar dessa mistura entre pobreza e riqueza é a da mocinha loira (parecida com um anjo renascentista, segundo Marcello) que o protagonista conhece quando se isola, com sua máquina datilográfica, para escrever o livro que nunca escreverá. No final, esse ´anjo renascentista´ vai reaparecer, na praia, mas Marcello não lhe escuta a voz, porque dele está distanciado, no espaço e, principalmente, no espírito.

A famosa cena Fontana di Trevi.

A famosa cena Fontana di Trevi.

Aliás, é nessa cena final, depois de uma noite de orgia com direito a striptease ao som de “Patricia”, que Marcello e seus companheiros de farra se dirigem ao mar e, nas areias da praia, se deparam com aquele peixe disforme que os fita com ar hostil. Para o resto do mundo nem tanto, mas para muitos espectadores italianos da época, esta cena era – se indiretamente o filme todo não já fora – uma remissão direta ao caso Wilma Montesi. Uma metáfora grotesca que fechava o filme com ar de indagação acusativa.

Com o passar do tempo, o intertexto Montesi foi ficando para trás no filme de Fellini… até quase que desaparecer. Hoje ninguém mais – se um dia dele teve notícia – o recorda. O filme foi, aliás merecidamente, ganhando estatuto de cult, e, por ironia, o lado atrativo, fascinante, da ´doce vida´ se sobrepujou ao seu caráter de crítica. E, inevitavelmente, o filme entrou no imaginário cinéfilo muito mais como um doce fornecedor de imagens amadas. Há muito tempo, o que vem à memória do espectador a propósito de “A doce vida”? Não são os seus eventuais pobres, mas os seus tantos ricos. Não é sem razão que a cena mais revisitada – aliás, uma das mais citadas na história do cinema – é a do banho de Anita Ekberg e Marcello Mastroianni na Fontana di Trevi.

Marcello e

Marcello e “o anjo renascentista”

Sim, a idéia de que o filme de Fellini fazia uma crítica à alta burguesia italiana, de óbvia, foi se tornando secundária. De algum modo, afinal de contas, o filme era a definitiva despedida do diretor do espírito crítico do neo-realismo e, com ou sem enfoque social, era o seu início de mergulho na fantasia que viria em seguida.

Para dar um toque pessoal a este comentário, a reprise atual de “A doce vida”, no programa “Cinema de Arte” do Cinespaço, me remete a sua estreia em João Pessoa, início dos anos sessenta. Foi a minha introdução ao chamado cinema de arte europeu. Como todos em meu convívio doméstico, eu estava habituado ao modelo de cinema de Hollywood, e o filme de Fellini me deixou confuso. Aliás, quase o perdia: um irmão mais velho, que o vira a contragosto, deu o aviso para todos de casa: “uma merda”. Apesar do diagnóstico escatológico fui ver e, depois, vi todas as outras maravilhosas “merdas” de Fellini; não apenas de Fellini, mas de quase todo o brilhante cinema italiano dos anos sessenta.

Rever “A doce vida” agora, em tela grande, é, confesso, uma experiência saudosista; mais do que qualquer outra coisa, uma viagem no tempo.

Um tempo que só se repete em coisas tristes, já que ainda hoje, a gente sabe, outras Wilmas Montesi, na Itália e aqui, são vítimas de garotos da doce elite. Enfim.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

Praia do futuro

22 maio

Entra finalmente no circuito comercial o esperado “Praia do futuro” (Karim Aïnouz, 2014), um filme talvez para público especial.

O enredo é simples, mas não o tratamento. Na praia cearense que dá título ao filme, um salva-vidas se envolve com um turista alemão que perdera o companheiro afogado. O caso amoroso entre os dois cresce e o salva-vidas abandona a família e vai-se embora com o alemão, morar na fria Berlim. Passam-se os anos e, morta a mãe, o irmão mais novo, agora adulto, vem em busca do irmão desgarrado.

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A estória é narrada em grandes elipses que deliberadamente tendem a obliterar a continuidade. Um exemplo mais que sintomático está na narração do início do caso entre os dois personagens principais, o salva-vidas Donato (Wagner Moura) e o alemão Konrad (Clemens Schick): de uma carona oferecida corta-se para uma tomada onde os dois fazem sexo anal. Evidentemente, espera-se que o espectador deduza toda a progressão do caso, mas de todo jeito, o pulo é brusco, e esse procedimento elíptico é sistemático no filme inteiro.

O esfacelamento do cenário é outro procedimento recorrente em Aïnouz, que confunde o espectador habituado a um cinema mais convencional: ao invés da regra de começar a sequência com planos abertos para situar a ação, a câmera – geralmente em movimento – introduz primeiros planos que, numerosos, parecem ter sido filmados ao acaso e deixam o espectador se indagando onde estamos. E às vezes a sequência se encerra, sem a esperada localização…

Em consonância com esse fora de regra, há os chamados “desenquadramentos”, situações em que os personagens saem do ângulo de visão da câmera e, depois, retornam, ficando o espectador, nesse ínterim, sem saber o que fazer com o cenário vazio a sua frente.

Outro elemento é a disparidade entre imagem e som, como naquela cena da boate em que – depois da decisão de Donato de não voltar ao Brasil – ele e Konrad dançam freneticamente, enquanto a música que se ouve, pelo contrário, é lenta e grave.

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Além disso, muitas cenas são, de propósito, impertinentes – e estamos usando o termo no sentido técnico, e não judicativo. Não vou citar todas, que são muitas, mas, creio que um exemplo que vem ao caso é o do longo jogo amoroso entre Airton – o irmão recém chegado a Berlim – e essa moça surgida não se sabe de onde, Dakota, um jogo que sustém momentânea e intrigantemente o andamento da narrativa. Talvez um pouco mais impertinente ainda seja a longa cena em que os dois companheiros homossexuais cantam e dançam o velho sucesso dos anos sessenta, “Aline”. A letra francesa fala de praia e desaparecimento, mas…

Não é que esses recursos sejam novidade no cinema moderno, mas Aïnouz os usa com sagacidade e talento. Em sentido oposto ao cinema narrativo, estamos diante do que a crítica chama hoje de “cinema de fluxo”, menos diegético, mais atmosférico e sensorial.

Creio que a cena mais – digamos assim –convencional fica no meio tempo do filme: é aquela do trem que se detém no entroncamento onde Donato deveria descer e seguir para o aeroporto, com destino ao Brasil… e não desce. Na forma e no conteúdo, uma cena que poderia estar em qualquer melodrama tradicional.

Por falar em cena, há dois momentos chave em que se sente vida nos personagens de modo muito especial, momentos dramáticos e, mais que isto, simétricos. O primeiro ocorre no parque, quando Donato, cogitando de voltar a Fortaleza, é chamado de covarde pelo companheiro, primeiramente em alemão, e em seguida, com a devida tradução. O segundo, bem mais adiante, está no reencontro berlinense dos dois irmãos, Donato e Airton, quando as carícias esperadas tomam a forma violenta de socos que expressam o ressentimento e a saudade.

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Em tensão com a sua estruturação aberta, o filme está dividido em três partes, cada uma com um subtítulo explicativo. Pois bem, aquele primeiro momento citado acima resume o sentido da segunda parte, chamada de “Um herói dividido”, e, mutatis mutandis, o segundo momento resume o da parte final, chamada de “Um fantasma que fala alemão.”

São estes dois momentos particulares que tematizam o conflito essencial em “Praia do futuro”, conflito que, provisória e precariamente, podemos aqui resumir – para efeito de análise – nos termos: desejo e família. O que fazer da família quando o desejo desponta? O que fazer do desejo quando a família reponta? De alguma forma, o filme é um criativo e instigante ensaio audio-visual sobre o dilema.

Como esperado, o final – na estrada, com voz over sobre o perigo, o medo e a coragem de viver – é aberto e vem ao encontro daqueles procedimentos “desconcertantes” (entre aspas) já citados – tudo em comunhão com um estilo cinematográfico já experimentado nos filmes anteriores de Aïnouz, em especial, em “Madame Satã” (2002) e “O céu de Suely” (2006).

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Os belos dias

9 jan

Um pouco mais de cinema francês no circuito local, nem que seja só para destoar um tantinho da programação típica de final/começo de ano: “Os belos dias” (“Les beaux jours”).

O filme da jovem diretora Marion Vernoux se atém à vida de aposentada dessa dentista Caroline (a ainda bela Fanny Ardant) que, aos sessenta anos, não sabendo bem o que fazer do seu tempo livre, dá-se ao luxo de assumir pequenas inconsequências, como retomar o hábito do fumo, por exemplo. Uma dessas inconseqüências é matricular-se num Centro de lazer – sintomaticamente chamado de ´Les beaux jours` – onde se pratica de quase, tudo, desde natação a dramaturgia, passando por cerâmica e computação.

les_beaux_jours_ver2

Quando Julien, o jovem professor de computação demonstra interesse pela sessentona Caroline, ela passa a viver um caso de amor extra-conjugal, com todos os  pequenos prazeres e perigos de uma relação desse tipo. Julien tem quase a metade da idade de Caroline, mas isso não parece ser problema para os dois, que aparentam levar o caso adiante sem muitos grilos, cada um aceitando os limites da situação. Os problemas ficam mais evidentes quando o marido dela demonstra estar a par do caso, e um casamento de muitos anos fica abalado.

Mulher casada vivendo um relacionamento fora do casamento – a estória é banal, e a situação diegética bem conhecida de quem curtiu os grandes melodramas do cinema clássico, ou, se for o caso, da literatura do século XIX. A diretora certamente sabe disso e há mesmo referências a filmes do passado que trataram do tema. Cito dois exemplos.

Indagada sobre sua vida logo no início do filme, Caroline responde que ´tempo é tudo que tenho´, exatamente a mesma resposta da protagonista de “Tudo que o céu permite”, o grande melodrama de Douglas Sirk, de 1958, sobre uma senhora apaixonada por um jovem jardineiro.

Quando o caso com Julien já está avançado, e depois de terem feito amor, Caroline, semi-nua, repõe as meias na frente dele e a câmera faz questão de enquadrar suas pernas levantadas, em primeiro plano, com o jovem amante no fundo da cena, praticamente reconstituindo a famosa cena (e também pôster) do filme “A primeira noite de um homem” (Mike Nichols, 1967).

Fanny Ardant, ainda bela, é a protagonista de "Os belos dias"

Fanny Ardant, ainda bela, é a protagonista de “Os belos dias”

Em outras palavras, a diretora sabe onde está pisando e enfrenta seu roteiro com gosto e decisão, ajudada naturalmente pela bela interpretação de Ardent. Uma pena que o resultado não empolgue, apesar (ou seria por causa?) da fuga ao melodrama clássico.

Há passos do roteiro que lembram o melodrama do passado, mas aqui, funcionam como se fossem pistas falsas. Como no modelo clássico, todo o relacionamento do casal é pontuado de vai-e-vens que ora endossam o caso amoroso, ora o ameaçam. Exemplo: o aparecimento de uma namorada de Julien em seu apartamento, quando o casal estava em plena curtição, promete uma ruptura, que será driblada logo em seguida por um telefonema.

O que decepciona é que o espectador não consegue se envolver emocionalmente com a protagonista, talvez por não ficar claro o que é realmente que ela sente, ou até onde vai sua paixão, se é que cabe aqui falar em paixão.

Julen e Caroline em romance proibido

Julen e Caroline em romance proibido

Talvez estejamos cobrando o que não interessava à diretora, mas o fato é que não há um aprofundamento na relação Caroline/Julien e até o rompimento, no aeroporto, soa superficial e inconsequente. Ela rompe porque Julien conversava com a mocinha na fila, ou porque essa senhora idosa ao seu lado lhe lembra a desolação do marido abandonado? Nada disso nos fica claro, assim como não fica convincente o retorno à comodidade do casamento. Tudo muito pós-moderno, no sentido negativo da palavra.

A cena da praia de nudismo é um final aberto, que deixa – talvez de propósito – o espectador se indagando sobre a que veio o filme.

Trata-se evidentemente de um filme bem feito, exemplo do cinema assíduo e minimamente competente da França de hoje, uma das cinematografias mais ativas da atualidade, porém, é só isso.

De minha parte, confesso, saí do cinema com aquela sensação – errônea ou não, admito – que há muito me persegue, a de que o melhor cinema já foi feito. Sim, dentro da temática enfocada, o adultério feminino, saí me perguntando quem é, hoje em dia, que conseguiria fazer alguma coisa com a dimensão dramática e artística de “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945, David Lean)?

Talvez, neste terceiro milênio em que nos encontramos, não possa mais existir a Laura (protagonista trágica de “Desencanto”) de 1945, pela mesma razão que não existe mais a Ana Karenina do século XIX… Que seja.

Desenlace enigmático: na praia

Desenlace enigmático: na praia