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BACURAU

4 set

Acho que ninguém sai incólume de “Bacurau” (2019). Eu não saí.

O tão esperado filme da dupla Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, premiado em Cannes, e até o momento com oito pontos na avaliação dos usuários do IMDB, nos inquieta com seu enredo estranho – nada que se tenha visto até agora na cinematografia brasileira.

No oeste de Pernambuco, um vilarejo está ameaçado de extinção. A razão ninguém sabe ao certo, mas, a ameaça vem de um misterioso grupo de americanos, tecnologicamente bem equipados e apoiados (isso se saberá mais tarde) pelo prefeito do município.

O que pode uma população pobre e sem recursos (nem de água dispõem) contra esse poderio estrangeiro e estranho que a quer fora do mapa? Fora do mapa mesmo, pois virtualmente já está.

História estranha. Lembra um western, mas não é. Parece science-fiction, mas não é. Sugere um horror movie, mas não é. Seria um filme de ação, ou um drama? Seja qual for o gênero – ou a recusa (ou a mistura) de gêneros – um filme forte, concebido para provocar impacto. E desse impacto a violência gráfica é só um detalhe.

Só para lembrar o namoro do filme com um dos gêneros mencionados – o western – esse enredo (a luta de uma comunidade pobre contra um poder de fora) nos faz pensar nos camponeses vitoriosos de “Sete homens e um destino” (John Sturges, 1960) ou, antes disso, na sua fonte, “Os sete samurais” de Akira Kurosawa. O problema é que o filme inteiro nos faz pensar em tantos outros…

Ao menos uma coisa nele é clara: a sua estrutura tripartite, a mesma da tragédia clássica, ou a da fantasia infanto-juvenil mais inocente, para não falar do mais tradicional roteiro hollywoodiano, com suas três partes distintas: (1) exposição (2) conflituação e (3) resolução.

Assim, na primeira parte do filme tem-se a descrição da vida em Bacurau, depois da chegada da ex-residente, para o enterro da matriarca Carmelita. Na segunda parte somos apresentados ao inimigo e sua sanha sanguinária. E finalmente, na terceira parte, vem o tão esperado revide da população e a mais que ansiada vitória. Quase que dá para falar em final feliz.

Disse acima que ninguém sabe ao certo a razão da programada erradicação de Bacurau, o vilarejo. Quem são os terríveis inimigos e por que tramam exterminar justamente esse vilarejo perdido no meio do sertão nordestino? Li comentários que reclamavam desse mistério e, inevitavelmente, lembrei-me de Hitchcock e seu conceito de macguffin.

Sim, revejam seus filmes e chequem o conceito. Em “O homem que sabia demais”, por exemplo, duvido você dizer quem é a “entidade” (ponho entre aspas, de propósito) que quer assassinar o Ministro, e pior, a que país pertence esse Ministro. Não há no filme nada que lhe dê pistas, e esse vazio diegético – esse desligamento da realidade conhecida – é o que Hitchcock chama de macguffin. Faça a mesma busca em “Intriga internacional”. Que “entidade” persegue o personagem de Cary Grant? Ela é somente o macguffin que põe a narrativa a andar, mas que, em si mesma, não precisa ter uma existência no mundo real. Um terceiro exemplo hitchcockiano, este ainda mais radical, seria o de “Os pássaros”.

Penso que para o espectador cinéfilo de “Bacurau” essa associação com o conceito de macguffin é bastante rentável do ponto de vista estético, tornando o filme mais intrigante do que já é. Por outro lado, e como todo macguffin é, a rigor, um vazio, o espectador mais político, e talvez menos cinéfilo, vai ler a invasão a Bacurau de modo mais mimético, dentro do contexto ideológico que (é verdade) está insinuado em certos elementos da estória, assim como outros há que insinuam o recurso do macguffin. Por exemplo: se a figura ridícula do prefeito corrupto conduz à mimese, a abertura interestelar do filme – sonora e visualmente – conduz ao macguffin.

Comentei acima a irresolução dos gêneros em “Bacurau”, o que nos remete a um outro aspecto interessante no filme, que é a questão das influências. Respondendo à pergunta sobre que outros cineastas estariam por trás de seus filmes, o diretor Kleber Mendonça, em entrevista recente à imprensa, explica que, de um modo geral, as influências podem não ser conscientes para quem cria um roteiro ou dirige um filme, e acrescenta que muitas vezes são os espectadores – críticos profissionais ou não – que o fazem ver que certos cineastas, de fato, embasaram seus filmes, num nível que ele mesmo não notara.

Influenciadores admitidos, ou apontados, são John Carpenter, Brian De Palma e Glauber Rocha. Carpenter é praticamente um homenageado, se você lembrar que a escola no povoado de Bacurau se chama “João Carpinteiro”. Quanto a De Palma e Rocha, acho que são duas influências bem sintomáticas para os dois modelos de espectador que imaginei há pouco: De Palma sustentaria a leitura do macguffin (como sabemos, ele foi um recriador assumido de Hitchcock) e Rocha, a leitura mimética, ideológica.

Essa tensão entre macguffin e ideologia, entre o abstrato e o documental, o filme a contém e é ela que mais o enriquece. Portanto, não precisamos resolvê-la, e sim, usufruí-la.

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“Eu, Daniel Blake”: pobres no Primeiro Mundo

2 maio

Na Inglaterra de hoje, o viúvo Daniel Blake, marceneiro de 59 anos, residente em Newcastle, foi acometido de um problema cardíaco e, segundo seu médico, não poderia trabalhar. Legalmente como fica a sua situação profissional?

Ao ir atrás de seus direitos de cidadão que paga impostos, Daniel vê-se metido em um sistema mais confuso e perverso do que aquele que está descrito em certo livro de Franz Kafka – situação agravada pelo fato de pertencer ele a uma geração que não se familiarizou com computadores, celulares e demais recursos eletrônicos.

A frieza dos atendentes nas repartições públicas, só comparadas às das vozes gravadas nos telefones, ou às das páginas virtuais nos computadores, vai minando sua paciência, até um ponto insuportável para um homem de idade e doente. Ninguém o ajuda e quem tenta – como uma certa funcionária, também idosa, que dele se compadece – é admoestado pelos superiores.

Ninguém ajuda Daniel, e, no entanto, ele ajuda outros, aparentemente mais desesperados que ele, caso dessa jovem que perdera o teste para emprego porque, arrastando dois filhos pequenos, chegara atrasada. Mãe solteira, Katie já vem de Londres onde morava num albergue público insalubre. Agora em Newcastle, a situação de penúria continua, mas, o encontro casual com Daniel lhe sugere que nem tudo está perdido. Pelo menos que ainda existe solidariedade humana.

Apesar da solidariedade recíproca, os casos de Daniel e Katie, cada um a seu modo, vão se agravando até um ponto… Bem, não conto o resto para não estragar o prazer de quem ainda não viu o filme do veterano diretor inglês Ken Loach “Eu, Daniel Blake” (2016)

Como vivem os pobres no Primeiro Mundo? Claro, um dos aspectos interessantes do filme de Ken Loach é que estamos num país supostamente rico, e, mais, numa das democracias mais consolidadas do planeta. Para o espectador desavisado, constatar como os sem teto e, sobretudo, os idosos, são tratados pelo sistema inglês pode ser estarrecedor. Se a estória se passasse no Brasil…

À parte esse tom, aliás, bastante forte, de denúncia, o filme convence como cinema, envolve e empolga. Ainda que de modo simples e direto, o enredo é efetivo em desenvolver a estória por etapas, cada nova etapa com uma pitada de gravidade acrescentada, e, isto feito em paralelo: de um lado, o drama de Daniel (um atrapalho no uso do computador, um não recebido de um funcionário…), do outro, o de Katie e seus filhos (um azulejo quebrado, um sapato puído…). Naturalmente, com pontos de toque em momentos sintomáticos, para indiciar bem a construção de uma amizade.

Os personagens são desenvolvidos com inspirada competência, e nos passam com naturalidade a verdade humana que encarnam. Novato no cinema, o ator Dave Johns está excelente no papel-título, e a atriz Hayley Squires não fica a dever como a sofrida mãe Katie. Até dos atores mirins se conseguem bons desempenhos.

Dois momentos particularmente dramáticos constituem turning points que, na mão de um cineasta menos experiente, se tornariam, um piegas, o outro, ridículo. Refiro-me primeiramente àquela cena em que Daniel, descobrindo, indignado, a opção de Katie pela prostituição, a visita no bordel e os dois, constrangidos entre as quatro paredes de um quarto, mal falam oprimidos pelas lágrimas.

O segundo momento é quando Daniel, completamente desiludido com relação à (im)possibilidade de resolver seu caso burocraticamente, e insanamente movido por puro desespero, toma a atitude drástica de pichar a parede do prédio da repartição com palavras de ordem, entre as quais a que intitula o filme.

A ninguém escapa o jeito documental de “Eu, Daniel Blake”. Consta que, bem antes da concepção do argumento, Ken Loach e o seu comparsa de sempre, o roteirista Paul Laverty, procuraram o auxílio de empregados do Sindicato de pensão e trabalho. As entrevistas e as informações fornecidas por esses empregados – cujos nomes, evidentemente, não puderam aparecer nos créditos – é que serviram de base para a estrutura narrativa ficcional do filme. Algumas cenas foram mais ou menos improvisadas, caso da visita de uma Katie faminta ao Banco de alimentos: a senhora que a atende sabia que estava sendo filmada, mas não sabia o que ia acontecer com Katie logo em seguida: o gesto extremo de abrir a lata de conservas, engolir o conteúdo e desesperar-se, envergonhada.

Em Cannes, 2016, “Eu, Daniel Blake” foi ovacionado durante quinze minutos. Levou a Palma de Ouro, aliás, a segunda na carreira brilhante de Ken Loach, cineasta idoso ele mesmo (81 anos) que sempre soube resistir aos encantos de Hollywood. E convites não lhe faltaram.

Um filme comovente, sobre vários tópicos que se tocam: a terceira idade, a exclusão social, o desemprego, a desigualdade, a miséria, a humilhação, o desespero, a perda da dignidade, o protesto impotente, mas, sobretudo, a solidariedade.

Recomendo.