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“Paris, Texas”: trinta anos

17 out

Fosse eu fazer a lista dos cem melhores filmes do Século XX, um que, sem dúvida, não faltaria seria “Paris, Texas” (Wim Wenders, 1984), que neste ano completa trinta anos.

Lembro quando o vi pela primeira vez e a emoção que senti. Foi em 86 e eu estava nos States. De férias da bolsa de estudos que a Fulbrihgt me dera, fui passar um fim de semana com um casal amigo, que morava numa cidadezinha deliciosa, Shrewsbury, nos arredores de Boston. Num lugar pequeno assim, as diversões eram poucas e a dona de casa ofereceu-se para pegar, na locadora, algum filme que eu quisesse ver. Sem saber se ela conseguiria, chutei “Paris, Texas”, pois o filme, de dois anos atrás, não viera às telas paraibanas.

Natassja Kinski na cena do peep show.

Natassja Kinski na cena do peep show.

Aliás, dou-me conta agora de que nunca vi o filme de Wim Wenders em tela grande, o que é lamentável, pois, olhar europeu sobre a vastidão da América, o filme investe grandemente na paisagem, que a câmera praticamente transforma em tema. Entre deslumbrado e chocado, o ponto de vista é o de um alemão que tenta entender a imensidão e o vazio de um país que lhe escapa.

Lembram o início? O desmemoriado Travis marchando sem rumo pelas terras áridas do Texas, debaixo de sol escaldante, observado de longe por abutres famintos que apostam no seu fim, e a música que se ouve (Ry Cooder) é lancinante como a aridez da paisagem. Se o irmão, que dele não tinha notícias havia anos, não o localizasse….

O final também é cheio de paisagens abertas, agora os viadutos, pistas e arranha-céus de Houston, tão impessoais e inóspitos quantos as terras desoladas do início.

Engraçado como “Paris, Texas” tem o esqueleto de um melodrama. Afinal de contas, é a estória de um lar desfeito, que, de alguma maneira, se refaz. É a estória estranha de um pai que, recuperado de uma crise que o conduziu à condição de anacoreta, luta para reconquistar o filho e, com esforço sobre-humano, encaminhá-lo à mãe, uma mãe que os dois, pai e filho, não viam havia muito tempo.

Harry Dean Stanton no papel de Travis

Harry Dean Stanton no papel de Travis

Nas várias vezes em que escrevi ou falei sobre o filme chamei a atenção para o ardil do roteiro em só promover a reconciliação entre os membros da família (o pai Travis, o filho Hunter, e a mãe Jane) através de mecanismos artificiais.

O primeiro deles é um projetor Super 8 em que o irmão de Travis, Walt (hoje em dia criando o menino Hunter como se fora seu filho) exibe cenas dos tempos em que a família vivia unida, digo, Travis, Jane e o pequenino Hunter. É vendo essas cenas do passado que Hunter começa a desejar aproximar-se de um pai de quem mal lembrava, figura esquisita que sequer admira.

O segundo é uma vitrine de peep show. Não vou contar detalhes, mas, o encontro entre Travis (Harry Dean Stanton) e Jane (Natassjia Kinski) – ela hoje uma stripper em Houston, – também ocorre através da artificial mediação dessa vitrine, que permite que ele a veja, sem que ela o veja. Vocês lembram a cena, não é? Ele paga para ver o show e, anônimo por trás da vidraça, vai contando, sem dizer nomes, uma longa estória, que é a deles dois, o começo da paixão, as crises de ciúme, o holocausto da separação… Naturalmente, o anonimato vai se esvaindo em cada nova frase enunciada.

O terceiro elemento artificial e mediador dos encontros é um walkie-talkie que pai e filho manuseiam… para localizar a esposa/mãe perdida na selva de pedra de Houston.

Travis e o pequeno Hunter, refazendo o passado.

Travis e o pequeno Hunter, refazendo o passado.

Se você quiser, acrescente um quarto elemento, o mapa do Estado, que vem à tona na cena em que Travis diz ao irmão que gostaria de ir a Paris. O irmão, cuja esposa é francesa, toma um susto, mas Travis estava se referindo (e é isto que intitula o filme) a uma cidade do estado do Texas onde a sua genitora nasceu, e que tinha o mesmo nome da capital francesa.

A rigor, “Paris, Texas” é um filme sobre buscas. Busca de lugares, busca de pessoas – num plano mais lato, busca de identificação entre culturas diferentes, a europeia e a americana. Mas, evidentemente, a busca maior é a interior, a de Travis, que, no decorrer do enredo, se reencontra consigo mesmo, embora isto não lhe traga propriamente felicidade pessoal.

Disse acima que “Paris, Texas” tem a estrutura de um melodrama. Não sei o que estava na cabeça dos roteiristas ao escreverem, porém, ele remete claramente a um outro filme, de diretor também alemão (F. W. Murnau), também rodado na América, e também um grande melodrama. Os cinéfilos que me leem sabem que estou falando do mudo “Aurora” (“Sunrise”, 1928) – estória da reconciliação de um casal que quase se afoga no lago tenebroso do crime e da culpa.

Aliás, outro que estaria entre os meus cem melhores do Século XX.

Quando a paisagem é personagem...

Quando a paisagem é personagem…

 

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O sagui, King Kong e a macaca Monga

11 set

Assisti a “Cine Holiúdy” (Halder Gomes, 2013) numa noite de sábado, a sala lotada, com a plateia gargalhando do começo ao fim.

Não esbocei um único riso, porém, cinéfilo com passado, não pude deixar de me lembrar dos velhos bons tempos das chanchadas da Atlântida, quando o cinema brasileiro quase competia em bilheteria com a hegemonia americana. Com a vantagem de então me fazer rir…

Saí do cinema pensando no “fenômeno” que é o filme de Gomes e me ocorreu o seguinte: que o famoso humorismo contemporâneo cearense afinal chega ao cinema. Sim, tinha havido antes Os trapalhões em película, mas isso foi bem antes desse atual boom de humor que assola o Estado de Padre Cícero. Pois é, assistindo a “Cine Holiúdy”, a mim me pareceu estar vendo um comediante cearense desses que estão aí, de repente, sair do palco e dar uma “voadeira” para a tela. (“voadeira” do léxico do cearensês em que o filme é falado, acompanhado de legendas em português).

Ainda bem que fez isso à guisa de homenagem à sétima arte. O enredo é simples: ameaçado pela emergência da televisão nas cidades do interior cearense, o exibidor Francisgleidisson se muda, com a família, para Pacatuba e lá instala o seu pequeno cinema, cuja programação deve, inevitavelmente, competir com a avassaladora nova mídia. Na noite da estréia, com meio caminho andado de projeção, o projetor explode e ele, para não devolver os ingressos, tem que improvisar um plano B em que ele mesmo, de carne e osso, será o astro da noite.

Por causa da temática (digo: a decadência do cinema de rua), é possível que alguém associe “Cine Holiúdy” – mal comparando – ao “Cinema Paradiso” de Tornatore, mas acho que uma má comparação também é possível com “A vida é bela” do Begnini, pelo menos do ponto de vista actancial: um casal com um filho pequeno, e ainda apaixonado (a ´princesa´ de lá é a ´graciosa´ daqui), leva uma vida difícil, com o pai sempre iludindo o filho com estórias fantasiosas.

Uma dessas ilusões paternas é a de que o sagui de estimação da família vá um dia crescer e tomar as proporções gigantescas de King Kong. Por sinal, uma fábula de pai imaginativo para filho sedento de heroísmo que ilustra mais que uma relação afetiva. Notem bem como esse sagui pode ser interpretado como o cinema cearense, na mesma medida em que King Kong pode ser tomado como uma metonímia de Hollywood. O sagui virar King Kong, o que significa isto? Precisa explicar? Aliás, a esse propósito, revejam o desenlace do filme, com a cena da entrevista na televisão (!) estrangeira onde, depois de estrondoso sucesso mundial e agora em inglês correto, o exibidor cearense Francisgleidisson expressa sua alegria e seu orgulho, e, de sobra, corrige a entrevistadora, que erra o nome de sua cidade, Pacatuba. A cena inteira é a licença poética que fez do sagui um King Kong.

cine holiudy 2

Lembro que, numa das gags do filme, o sagui doméstico, sem mais nem menos, se transforma na macaca Monga – o que, afinal de contas, já é um índice de sua vocação para o crescimento.

Tive a chance de, antes de ver “Cine Holiúdy”, assistir ao premiado curta “Cine Holiúdy: o artista contra o cabra do Mal” (2004) que deu origem ao longa em cartaz e pude observar alguns dos procedimentos da transformação. Claro, acrescentou-se um pouco de enredo novo, mas o grande enchimento de lingüiça foi mesmo com mais personagens e muitas gags. Algumas boas (por exemplo: a do ´nada consta´ na repartição pública, ou a das exigências burocráticas para o pequeno empresário no tempo da Ditadura, ou, a do escorpião capaz de furar pneu de automóvel, ou ainda, o cuidado do marido para que a médica não use o martelo nos olhos da esposa); outras nem tanto (por exemplo: o homossexual dizendo à moça que ´se gostasse de coisa feia, andava com filhote de urubu debaixo do braço – uma tirada horrivelmente manjada; outra piada batida é a dita do projetor quebrado por um espectador: “o problema é de junta: junta tudo e joga no lixo”).

Em alguns casos a gag ganha estatuto de número de ´stand up comedy´, como aparenta na relativamente longa cena em que o pai explica ao garoto como se pode falar línguas estrangeiras – chinês, francês ou alemão – usando a fruta macaíba na boca, isto sem esquecer de dizer que os estúdios Disney importavam a fruta nordestina para as tais cenas “trogloditas” (leia-se: poliglotas).

Outra forma de rechear foram os acidentes ou fatos paralelos que, se não existissem, não fariam falta à estrutura básica da narrativa. O pastor curando um paraplégico é um caso, como também o do garoto pobre que é forçado a engolir um falso toddy; o flashback cinematográfico mentiroso de Francisgleydisson, contado ao filho, pode ser outro caso, bem como os pesadelos de Graciosa, tão recorrentes ao ponto de levá-la ao médico. Às vezes há pequenas excrescências que não levam a nada, como, na despedida da família, o amigo que fica esmurrando Franiscgleydisson, com o desafio ´tu gosta de porrada, né?´ ou, ainda, aquele dono de bar que tempera a comida com o suor que lhe cai do corpo.

Um elemento que o curta tem mais que o longa é o que vou chamar de “estudo de recepção”: vejam o que acontece quando “o filme dentro do filme” termina (e “o filme dentro do filme” naturalmente inclui o show de artes marciais do projecionista na frente da tela): os espectadores, assimilando o que viram, saem do cinema imitando os personagens, os ficcionais e o real, ou seja, saem dando socos uns nos outros, ou no ar. Ora, no curta isto é feito de modo bem mais sistemático e com mais efeito cômico.

Os personagens de “Cine Holiúdy” são, naturalmente, caricaturescos e nem sempre reproduzem os tipos da cidade pequena dos anos setenta. Se, por exemplo, o prefeito foi construído com certo grau de ´realismo´ estereotipado, a figura do padre assume mais o escrache que define o estilo do filme.

Com tanta gente na tela, a direção de atores deve ter sido um sufoco, mas, com certeza, o resultado neste particular foi bom, ajudado pela agilidade da montagem, sobretudo durante a sessão no cinema, quando se corta, o tempo todo, da tela ou palco para closes da plateia. Um único ator mal dirigido acho que foi mesmo o menino rico, o dono da bola de futebol e da tv telefunken 12 polegadas, sempre artificial na interpretação de seu personagem e pior (problema de roteirização), falando difícil, usando os verbos no futuro (teremos, veremos); de qualquer forma, os outros estão tão bons que o apagam.

cine holiudy 4

Por que o gênero do Cine Holiúdy tinha que ser lutas marciais? Em dado momento o proprietário Francisgleydisson ainda coloca o rolo de um ´filme de amor´, mas os protestos da plateia são unânimes e ele é obrigado a voltar ao Karatê de sempre. Uma alternativa de explicação está em que, de fato, na década de setenta – época em que a estória se passa -, com a freqüência de cinema em baixa, os filmes de karatê tomaram conta das telas brasileiras, e o Ceará com certeza, não ficou de fora; uma outra explicação – talvez somada à primeira – é de ordem biográfica: consta que o diretor Halder Gomes é mestre em lutas marciais e escolheu um ator, Edmilson da Silva, que também as pratica.

Comecei esta matéria lembrando as chanchadas dos anos 40 e 50. Eram comédias tipicamente cariocas, assim como os filmes de Mazzaropi eram comédias paulistas, em ambos os casos, tão recorrentes e codificadas ao ponto de constituírem um gênero. Apesar das eventuais (e sem continuidade!) filmagens da obra de Ariano Suassuna, o Nordeste nunca deu um gênero cômico em cinema, e o espectador de “Cine Holiúdy” pode ser deixado pensando se este é o começo de um. Será?

Ainda que não seja, o filme decididamente tem fôlego próprio. Não me fez rir, mas isso é um problema meu e não dele, tanto é assim que está faturando milhares Nordeste afora e pode repetir a façanha no Sul do país. Para voltar à isotopia animal de seu universo, se não virar um King King, já é pelo menos uma macaca Monga… como – repito – prometido por uma de sua gags já citada.