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O amante duplo

19 jun

Um dos filmes do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano de 2018 que mais deu o que falar foi talvez “O amante duplo” (“L´amant double”, de François Ozon, 2017).

O nome do diretor (de “Franz”, “Dentro de casa” e “Oito mulheres”) levou um grande número de cinéfilos ao Mag Shopping e deu à primeira sessão deste filme aquele ar animado e otimista que é esperado de um festival. O ânimo, contudo, arrefeceu um pouco, na saída da sala.

Se porventura posso ser tomado como exemplo, diria que o arrefecimento foi gradativo, durante a projeção do filme.

Muito bem interpretado e muito bem produzido, o filme começa nos prendendo, com a estória dessa moça que, sentindo leves dores estomacais sem causa aparente, é aconselhada pelo médico a procurar um psicanalista. Procura e, conversa vai conversa vem, os dois se apaixonam e terminam indo morar juntos. Tudo vai mais ou menos bem até que um dia a moça avista, na rua, o que ela pensa ser o marido com outra pessoa, e, mais tarde, descobre ser um seu irmão gêmeo, dela escondido, este também psicanalista. Sem nada dizer ao marido, ela vai fazer análise com esse outro psicanalista, que tem métodos pouco convencionais e mais selvagens, bem diversos do irmão.

Quando o interesse do espectador está num pique, o roteiro começa a tomar rumos fantasiosos, extravagantes e mesmo absurdos, que não vou dizer quais são, até porque, como se sabe, todo absurdo é, em si mesmo, indescritível ou inenarrável. Ou, antes disso, incompreensível. Sem respeitar gêneros (ou melhor, misturando-os), o filme indaga sobre o que é real e o que é delírio, e investe nessa incógnita de modo radical, sombrio e incômodo. (Fiquei em dúvida se deveria usar o termo “absurdo” ou “surreal”: escolhi o primeiro porque a obra surreal descarta explicações psicológicos ou psicanalíticas – o que supostamente não seria o caso aqui. Outro detalhe: não há crítica no meu emprego do termo “absurdo”).

Naquele momento, supostamente dramático, em que o ventre da protagonista  aparentemente grávida começa a entumecer e explodir, ouvi risos na plateia, e houve até quem se retirasse, e eu entendo o porquê de ambas as reações: nesse instante, o filme parecia ganhar incabíveis tons de horror ou science-fiction do tipo “Alien”.

A suposta justificativa para toda uma diegese absurda seria a de que o que está se vendo na tela seria fruto da mente doentia da protagonista, mas, mesmo assim, todo mundo também sabe, absurdos, por ousados que sejam, devem se encaixar no universo semântico do filme, e, em alguma instância abstrata, fazer sentido.

Absurdos à parte, justificados pela doença da protagonista ou não, há outras coisas a reclamar. Com certeza, é desnecessária – dentro da estrutura semântica do filme – a cena em que a moça força o marido a ter relação anal passiva com ela, e usa, para tanto, um enorme “dildo”, que adentra o ânus dele. Sem falar em coisas menores, também pouco plausíveis. Por exemplo: suponho que nem na França uma vigilante de museu (profissão da protagonista) tem salário para pagar um psicanalista caro. Eu sei: o museu, seu design moderno e suas obras de arte perturbadoras funcionam como pretextos para dialogar com os delírios da vigilante, mas, a falta de plausibilidade permanece.

Enfim, o tema do adultério imaginário (se é este o do filme de Ozon) é antigo no cinema e, em muitos casos, desenvolvido e resolvido com mais clarividência.

Lembro, por exemplo, como ele funcionou bem no filme de Peter del Monte “Júlia e Júlia” (1987) onde Kathleen Turner fazia uma viúva que matava o amante (Sting) por imaginar, nos seus delírios culposos, estar traindo um marido ainda vivo.

Isto para não falar em filmes que tomaram a questão dos gêmeos como assunto. Um clássico que recordo com carinho é “Espelhos d´alma” (Robert Siodmak, 1946) em que a grande Olivia de Havilland desempenhava o papel duplo da irmã boa e da irmã má, um thriller no melhor estilo noir.

Ou, se for o caso ainda, para não falar na temática dos sósias, que está com tanta assiduidade em Alfred Hitchcock, mas não só nele: aqui lembro “A cicatriz” (“The scar”, Steve Sekeley, 1948) em que o personagem de Paul Henreid se aproveitava da semelhança física com um estranho para engendrar um plano criminoso.

Não vou afirmar que “O amante duplo” seja um filme com escassez de qualidade, mas, é, com certeza, um filme com excesso de pretensão. Assistindo ao seu desenlace, a sensação que experimentei foi a de que o roteiro perdeu-se, e o diretor, no seu afã de ser original e inovar, foi junto.

Ou fui eu que me perdi?

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Lou Andreas-Salomé

17 abr

Uma mulher do século XIX, que, com certa intimidade, conviveu com Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke e Sigmund Freud já teria muito o que contar, ainda que nunca tivesse escrito uma linha.

E ela escreveu, e muitas. Refiro-me à escritora russo-alemã Lou Andreas-Salomé, que é autora de vinte livros e centenas de ensaios, alguns dos quais sobre suas relações afetivas e intelectuais com os autores referidos.

Quem nos conta sua história é o filme “Lou” (2016), do diretor alemão Cordula Post-Kablutz, e nos conta desde a infância, em São Petersburgo, até a idade matura, na Alemanha, quando, já idosa e doente, é ameaçada pelo regime nazista por ter partilhado das ideias “indecentes” de Freud. A rigor, quem conta a história é ela mesma, ao seu biógrafo Ernst Pfeiffer, um rapaz tímido que, como os muitos homens que passaram pela vida dessa mulher fascinante, cai por essa senhora de 75 anos.

A história segue mais ou menos a cronologia, apenas dispendendo mais tempo de tela para os “casos” amorosos com as figuras mais ilustres e mais marcantes na sua formação intelectual. Por exemplo, um tempo considerável é dado à formação e manutenção do triângulo amoroso entre Lou, Rée e Nietzche, aliás, triângulo que só pode ser chamado de “amoroso” com restrições, já que Lou – uma férrea defensora da vida celibatária – não envolveu-se sexualmente com nenhum dos dois. A famosa foto em que ela aparece com os dois amigos, segurando um chicote, é emblemática desse tipo de relação: a sugestão irônica é que ela estaria maltratando os dois amigos, assim como a lendária Filis maltratara o sábio Aristóteles.

No filme, a foto do chicote.

É fato que com o poeta Rilke ela teve uma relação mais íntima, mas logo dele fugiu, sufocada pelo seu excessivo e doentio apego.  Sim, Lou casou um dia com o linguista Carl Andreas, que lhe deu este sobrenome, porém, de comum acordo entre os dois, foi uma duradoura relação a dois, cheia de afeto, mas sem qualquer contato físico.

Não é que Lou Andreas-Salomé fosse assexuada. Apenas queria a todo custo manter a sua independência de pensadora, que uma vida doméstica e com filhos, ela achava, poderia comprometer. Profunda conhecedora da obra de Nietzsche, ela escolhera para si, a alternativa de ser “apolínea” e, se possível, nunca “dionisíaca”. A alegação é que, para crescer intelectualmente, precisava da disciplina de Apolo, em detrimento do descontrole de Dionísio. Só bem mais tarde na sua vida, experimentaria o lado dionisíaco de seu corpo e de seu espírito, mais aí, Nietzsche, o autor dos conceitos, já se fora. E o filme, estranhamente, nos oferece muito pouco desse derradeiro parceiro erótico, com quem ela traiu o esposo Andreas.

A parte final do roteiro é dedicada à sua amizade e seu aprendizado com Freud, e uma cena típica a mostra no divã do psicanalista austríaco, quando, rememorando o passado, desata na gargalhada ao constatar que a figura de Deus que via em seus delírios infantis, tinha as feições do pai da psicanálise. Com a ironia de ter sido um Deus ingrato, que, apesar de seus rogos constantes, não salvara o seu pai querido da morte. De todo jeito, nessa fase madura da vida, Lou já escrevera livros esclarecedores de seu pensamento livre – um deles sobre o papel benéfico do narcisismo, que o próprio Freud reconheceria como decisivo para o estudo do Inconsciente.

Uma Lou idosa, contando sua vida….

Penso que, no Brasil, seus livros mais conhecidos são: “Nietzsche em suas obras”, “O erotismo – reflexões sobre o problema do amor”, “Freud 1914-1916: ensaios de metapsicologia” e, talvez o mais popular e mais amado “Cartas a um jovem poeta”, sua rica e vasta correspondência com Rilke.

Para ser a estória de uma mulher tão revolucionária – espécie de precursora do feminismo que ainda estava por vir – o filme é relativamente convencional, e não se distingue muito do seu gênero – resumido na frase: ´uma figura ilustre conta sua vida´. Um recurso de linguagem que pode ter destaque é talvez a montagem do fotográfico com o cinematográfico, feita cada vez que, ao longo da narração, se tem um novo retorno ao passado. Na introdução desses retornos, parte-se sempre de uma foto do acervo particular da protagonista, primeiramente em tamanho natural, e depois, ampliado para a dimensão da tela, onde se justapõe a protagonista se locomovendo, enquanto o restante das figuras na foto permanece estático.

Enfim, um filme de interesse para vários profissionais – filósofos, psicanalistas, literatos, historiadores, feministas, etc – mas, não sei se do interesse do espectador comum. Para estes talvez faltem aqueles lances dramáticos que tornam qualquer estória apetitosa, lances, como se sabe, nem sempre efetivos em narrativas que se esforçam em resumir toda uma existência humana em duas horas de projeção.

Lou Andreas-Salomé em foto da época.

A cura pela conversa

12 jun

Em grave crise nervosa, gritando e se contorcendo com violência incontrolável, chega ao Hospital de Zurique, Suíça, em 1904, essa jovem histérica que atende pelo nome de Sabina Spielrein. Quem a toma como paciente é o Dr Carl Jung, que, fugindo à atrasada tradição da medicina mental da época, trata a moça com o moderno método da “cura pela conversa”, proposta recém-aventada pelo seu mestre admirado, o austríaco Sigmund Freud.

“Conversando”, a moça revela coisas chocantes: na infância e adolescência era espancada pelo pai dominador e o espancamento a deixava sempre molhada de excitação, de modo que o seu desejo sexual, quase sempre à flor da pele, estava atrelado à ideia de dor.

Logo Jung percebe que o enorme potencial sexual de Sabina era diretamente proporcional ao seu potencial intelectual, e não só isso: do mesmo tamanho era a vocação da moça para a profissão que ele mesmo tinha, a de psiquiatra. Em relativamente pouco tempo, Sabina supera os seus traumas e se torna uma fervorosa e bem sucedida discípula de Jung.

Um passo adiante da mera “conversa”, a relação discípula-professor toma contorno sexual, o que, aparentemente, teria completado a cura de Sabina. O problema é que, casado, pai de duas meninas e bom marido, Jung começa a se sentir culpado em estar levando essa vida dupla.

Assim se inicia o filme “Um método perigoso” (“A dangerous method”, 2011), de David Cronenberg, e, convenhamos, esse início já é suficiente para deixar o espectador interessado; mais ainda se ele sabe quem foi Carl Jung, e se está ciente da importância de sua obra para o pensamento científico do século XX.

Não vem ao caso contar o enredo inteiro, mas, digamos apenas que, a partir desse ponto crucial de sua existência, Jung se aproxima de Freud, os dois se tornam amigos confidentes, que passam horas, às vezes dias, trocando ideias, tanto sobre pontos chave da ciência da alma, quanto sobre o particular problema amoroso de Jung – seu caso com Sabina e os perigos, os práticos e os conceituais, do envolvimento médico-paciente.

Qual a função do psiquiatra? Desreprimir o paciente para uma liberdade selvagem e anti-social, ou, fazê-lo reconhecer o seu caso e lhe sugerir contenção e dignidade? Estimulante é acompanhar a querela entre os dois pensadores, com Freud defendendo o rigor de suas teorias sobre o papel destruidor da sexualidade no ser humano, e Jung rebatendo com a necessidade de se sair da materialidade negativa para um âmbito mais aberto, mais livre, e mais criativo, da imaginação – isto, percebe-se, com alguma contribuição conceitual da colega e amante, Sabina.

Com o avanço das divergências, tanto no terreno científico quanto pessoal, a amizade, inevitavelmente, vai desfazendo-se, até tornar-se antagonismo indisfarçado. Em dado momento, desabafa Freud: “nós judeus, não devíamos confiar em arianos como Jung”. O desabafo é feito a Sabina, como ele, também judia, a essa altura separada de Jung e sua discípula, e, no futuro, grande psiquiatra ela mesma.

É possível que os fãs de Cronenberg não gostem muito do filme, talvez asséptico demais para o conhecido estilo “horror venéreo” do cineasta canadense.

Isto à parte, um problema que o filme tem é mesmo o de ser biográfico e contar uma estória complexa que compreende quase dez anos. Por conta disso, está cheio de grandes elipses, suponho que incômodas para quem desconhece as vidas dos envolvidos e o seu contexto histórico. Alguns exemplos: depois da separação forçada entre Jung e Sabina, a cena da reconciliação já é a de Jung espancando a moça na cama, como ela gostava, isto sem quaisquer preâmbulos narrativos; no mementoem que Sabinadialoga com a esposa de Jung, nenhuma pista diegética conduzira, previamente, à sua nova situação, há muito casada e agora grávida; a cena finalem que Jungconta a Sabina o seu sonho de uma inundação em que a água vira sangue – “o sangue da Europa”, diz ele – é claramente a premonição do advento do nazismo, do qual Sabina seria futuramente vítima – porém, este dado não está no filme!

De minha parte, senti falta do que mais ficou de Jung enquanto pensador: o seu conceito de Inconsciente Coletivo, com os seus fundamentais Arquétipos. É fato que, ainda não suficientemente elaborados no período em que o filme recobre (até 1913), estes estão, contudo, nas entrelinhas de suas discussões com Freud, e, fico pensando em como o filme não teria crescido se essa dimensão imaginária tivesse lhe servido de ponto de fuga. Tudo bem, não precisam me dizer: seria outro filme.

De qualquer maneira, inteligente e elegante, “Um método perigoso” é um filme que interessa ver, afinal, sobre três gênios (Sabina Spielrein incluída) que deram passos decisivos no desvendamento desse mistério que é a mente humana.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Ronaldo Monte.