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O assalto ao trem pagador

29 maio

Como esperado, o Canal Brasil está fazendo uma homenagem ao cineasta recém falecido Roberto Farias (1932-2018) e esta semana pude rever o seu filme de que mais gosto: “O assalto ao trem pagador” (1962).

Aliás, este não é só o filme dele de que mais gosto. É também um dos filmes do Cinema Novo de que mais gosto. Sem o peso ideologizante dos demais, “O assalto” conta uma estória empolgante e o faz de modo a atrair e prender o espectador. Sem abrir mão da qualidade, o cineasta pensa no público pagante e não se envergonha de querer atrair bilheteria. E sabe-se que atraiu.

Baseado nos fatos reais, o filme tem a estrutura de um “filme de roubo”, mas só até certo ponto. Ao contrário de clássicos do gênero, como os americanos “O segredo das jóias”, “O grande golpe” ou “Homens em fúria”, começa in media res e sua primeira cena já é o assalto acontecendo, sem que o espectador tenha tido acesso ao surgimento da ideia e seu planejamento.

A rigor, o filme é sobre as consequências do assalto e a forma como elas acentuam as diferenças sociais entre os envolvidos – de um lado, os favelados, do outro, os residentes da Zona Sul. Encabeçando esta dicotomia estão Tião Medonho (Eliezer Gomes), o chefe da gangue no morro, e Grilo Peru (Reginaldo Faria), o mentor do projeto, rapaz branco, bonitão e de olhos azuis, que não é rico mas mora na Zona Sul.

Feita a partilha do dinheiro do assalto, fica decidido que cada um só poderá gastar dez por cento de sua parte, e um ameaçador Tião deixa claro que os infratores dessa lei interna serão punidos com execução sumária. Mas que nada! Grilo, que não tem perfil de favelado, e, portanto, pensa não estar sujeito a tal lei interna, logo começa a esbanjar grana, comprando roupa, sapatos e carro novo. Não dá outra, Tião vem a saber e o inevitável acontece. A cena do confronto é uma das mais fortes do filme e uma das inesquecíveis do cinema brasileiro. “Eu posso gastar porque sou branco de olhos azuis; e você Tião, você é feio, você é um macaco” grita Grilo, já todo amarrado para a devida execução. “Joga o corpo dele no rio, pros peixes comer os olhos azuis dele”, ordena Tião, depois de disparar várias vezes.

As consequências do assalto também acentuam diferenças pessoais, psicológicas, não apenas as sociais. Tião é forte, seguro e age conforme o planejado, porém, nem todo mundo é Tião. Mesmo no espaço da favela, uns vão gastar além do permitido, e outros não saberão guardar o segredo obrigatório. Sem se falar nas companheiras, umas aprovando o assalto, outras, reprovando e sugerindo dar fim à grana maldita, que vai trazer a polícia e a prisão. Os casos são diferentes, mas, em cada um deles os corolários serão drásticos e Tião será o punidor implacável que prometera. Isso, até a polícia desconfiar de tudo, e, claro, para a desconfiança virar certeza, vai aparecer a figura de um Judas, o delator.

Perseguido, ferido, e finalmente capturado, Tião é conduzido a um hospital onde, agonizante, roga à esposa que não revele o esconderijo onde colocara a sua parte do dinheiro roubado, uma herança para os três filhos pequenos. Zulmira promete, porém, no dia em que os policiais revistam a sua casa, derrubando e quebrando tudo em sua volta, num barulho infernal, ela não resiste… e neste momento, vamos ter mais uma cena forte e inesquecível. Tomando de um machado, ela, em pranto incontido, destrói a porta do pobre guarda-roupa, deixando à vista os pacotes de dinheiro que dariam, no futuro, a educação de seus filhos.

Eu tinha visto “O assalto ao trem pagador” na sua estreia local, e agora, que o revejo depois de tanto tempo, fico feliz em constatar que a boa impressão guardada perdura. Tudo bem, ele tem lá os seus defeitos, aliás, bem típicos da época, sobretudo os relativos à direção de atores. Um deles é a representação caricaturesca das crianças do morro, sempre ajuntadas e sempre frenéticas e barulhentas (mesmo em casa), azucrinando os adultos como aves de rapina em bando – um estereótipo manjado e desagradável. O outro está na dicção dos atores, artificial quando pronunciam qualquer palavra terminada em /r/, como “senhor” ou “pagador”, e o fazem com aquele fonema rolado, do tipo ´português para turista ouvir´. Acho que uma herança das canções da primeira metade do século XX, que, graças a Deus a Bossa Nova corrigiu.

No livro “Cem melhores filmes brasileiros” (Letramento, 2016) a ABRACCINE (Associação brasileira de críticos cinematográficos) coloca “O assalto ao trem pagador” entre os vinte melhores filmes nacionais de todos os tempos. O que endosso com esta matéria.

Assassinato no Expresso Oriente

12 dez

Não gosto de remakes de clássicos, mas a curiosidade foi maior que meu desgosto e fui ver esse “Assassinato no Expresso Oriente” (Kenneth Branagh, 2017), em cartaz na cidade.

A versão original de Sidney Lumet (1974) eu a tinha revisto havia pouco. É que faço parte de um Cineclube de amigos que assistem a mostras de filmes por temática, e o tema em vigor, no momento, é, por coincidência, justamente “trem”. Sim, trem. Vimos, primeiro, “O trem” (John Frankenheimer, 1964) e em seguida o filme de Lumet que adapta Agatha Christie. Falta ver um terceiro, que será exibido e discutido num próximo encontro.

Fui, portanto, ao filme de Branagh com o de Lumet na cabeça.

Kenneth Branagh dirige e atua em Assassinato no Expresso Oriente.

Apesar do reconhecido talento de Branagh – como diretor e ator – e do excelente elenco do filme, não esperei grande coisa… e não tive. Parece-me que a diferença entre as duas versões não é propriamente qualitativa: dois filmes bem feitos, e só, cada um tratando o livro adaptado a seu modo, mas sem grandes consequências.

Branagh faz alguns acréscimos, que não sei se melhoram ou pioram Lumet. O primeiro está no início do filme, quando se exibe, ainda no Oriente Médio e antes de qualquer referência a viagens de trem, os dotes detetivescos do protagonista Poirot, para que o espectador saiba com quem vai estar lidando – dica dispensada por Lumet, que certamente apostou na popularidade de Agatha Christie.

O filme de Branagh tem mais ação (pancadas, quedas, correrias, armas apontadas e tiros), porém, a maior diferença mesmo vai aparecer numa figura inexistente em Lumet. Refiro-me à amada de Poirot. Num diálogo inicial, em que o comandante do trem cobra de Poirot algum sentimento, ele lhe responde com uma frase enigmática, que parece valer mais para crimes do que para um caso amoroso: “Romance nunca fica sem punição”.

Judi Dench e um grande elenco…

Pois essa frase – seja lá o que for que ela esconda – vai justificar a recorrente aparição da figura da amada de Poirot, a quem ele sempre apela, não apenas com saudade, mas com o desespero de um fiel que precisa do auxílio de uma santa protetora. Um exemplo bem sintomático está naquele momento decisivo em que o famoso detetive, diante de tantas pistas confusas para a solução de um crime praticado a poucos metros de seu leito, vê-se impotente para dar um resultado satisfatório… E então, é à imagem dessa mulher misteriosa que ele interiormente recorre – imagem que sempre nos é mostrada em saudoso e carinhoso preto e branco.

O desenlace também contém uma pequena diferença a ser marcada. O filme de Branagh termina com uma breve referência oral a um crime no Nilo, comunicada a Poirot depois de tudo findo no Expresso Oriente. E é claro que o espectador, ouvindo isso, vai lembrar a próxima aventura de Poirot, também trazida ao cinema, no caso pelo diretor John Guillermin, “Morte no Nilo” (1978).

Referência que se torna irônica quando se consideram as opiniões do próprio Poirot, anteriormente formuladas por ele mesmo, em termos bem enfáticos. “Há o certo e o errado – explicara ele, com inabalável convicção, a um de seus interlocutores no início da viagem – e nada no meio. Fora disso, seria o desequilíbrio”. Agora, depois do múltiplo assassinato desvendado (assassinatos cometidos aparentemente por uma causa “justa”), ele, desapontado e meio perplexo, opta pelo “desequilíbrio”, como se dando a entender que iria desistir da profissão. Por isso, a referência ao Nilo (sua próxima empreitada) é irônica. O velho detetive não resiste a uma boa trama criminosa…

Willem Dafoe é um dos muitos suspeitos…

Mas, uma diferença entre os dois filmes que eu aponto como sendo grave, do ponto de vista estético, está na imagem mesma do trem. Não tenho aqui espaço para comprovação em detalhes, mas suponho que quem compara os dois filmes com atenção constatará que no filme de Lumet o trem possui muito mais protagonismo. Em Branagh o trem é só o cenário onde as coisas ocorrem; em Lumet, ele é, decididamente, um personagem; sua força plástica impressiona e encanta – e vejam que nos anos setenta, os recursos técnicos para se conseguir um efeito desses (doar personalidade a um meio de transporte) eram bem mais precários que os de hoje em dia.

A esse propósito, se não for exigir demais dos meus leitores, remeto-os a um ensaio meu em que tento demonstrar a impressionante qualidade cinematográfica (ou ´cinegênica´) desse meio de transporte chamado trem, ensaio a que dei o título intertextual e brincalhão de “Um trem para as estrelas” e que está disponível neste meu blogue.

Pois é essa qualidade cinegênica que está inteligentemente aproveitada no filme de Sidney Lumet e nem tanto neste de Kenneth Branagh.

Filosofia e crime

3 set

Aos 79 anos de idade, o cineasta americano Woody Allen não para de filmar. Depois de longa peregrinação europeia, volta aos Estados Unidos e comete este “O homem irracional”, com algumas idéias e situações requentadas de filmes anteriores, seus ou alheios.

Recém contratado para o departamento de filosofia em uma universidade de Rhode Island, o professor Abe Lucas (Joaquin Phoenix) vive entediado e, em sala de aula, passa aos alunos o seu tédio. Filosofia, segundo ele, seria masturbação intelectual, e Kant, com sua noção de um mundo sem mentiras, seria um grande mentiroso, desmascarado todo dia pela realidade mais banal. Encantadas com o seu tédio e seu charme as mulheres se entregam fácil, mas, ele, depressivo, prefere roleta russa. Até o dia em que descobre a saída, e a saída é o crime perfeito… e útil. O turning point de sua vida também vai ser o turning point do filme, que, no momento dessa descoberta, passa de drama existencial a thriller.

0 o poster

Um dia ele está numa lanchonete com uma aluna, e, por acaso, entreouve a conversa na mesa vizinha: uma mãe está sofrendo horrores por causa de um juiz de má fé que não lhe concede a guarda dos filhos. Pronto: nesse momento Abe decide que o mundo será melhor sem o juiz Spangling, e ele mesmo – um completo desconhecido de todos os envolvidos no caso – será o autor de um crime, não apenas perfeito, mas também ético. É claro que o fato de a vítima vir a ser um representante da justiça tem significação especial, que não lhe ocorre, mas ocorre ao espectador.

Praticado exatamente como planejado, o crime deixa o professor Abe de bem com a vida e o tédio vai embora, como se nunca tivesse existido. Até o dia em que… E o exercício de fazer thriller prossegue.

Com certeza os comentaristas de “O homem irracional” vão apontar o seu pano de fundo literário (Dostoievski, aliás, referido no diálogo), porém, a mim chamou-me a atenção a dívida do filme para com o gênero noir, em especial para com três filmes antigos que Allen com certeza conhece muito bem, embora deles possa não ter lembrado no gesto de confeccionar o roteiro.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Vejam bem. Há, no filme em questão, três situações dramáticas bem particulares, já construídas em três clássicos noir do passado, a saber:

(1) A disposição de praticar um assassinato baseada no fato de que o seu autor jamais será descoberto porque a vítima lhe é desconhecida, além de não ter ele interesse pessoal em sua morte (o álibi dos álibis, já que não existe o chamado “motivo”!). Tal situação já estava em “Pacto sinistro” (Alfred Hitchcock, 1951).

(2) Depois do assassinato praticado, a situação em que o autor vai se achar entre amigos que com ele fazem suposições sobre o modo como o assassino teria agido, e ele próprio, querendo ou não, é levado pela conversa a ajudar nas pistas que conduzem à solução do caso. Se vocês lembrarem bem, essa mesma situação já estava no noir “Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944).

(3) No decorrer das investigações, a polícia chega, erroneamente, a um outro suspeito – este com motivos para o crime – que, tudo indica, será condenado e pagará por um crime não cometido, livrando assim o verdadeiro culpado da prisão perpétua ou da pena de morte. Mais uma vez, esta situação também já esteve em um dos grandes noir do passado, “Dúvida” (Robert Siodmak, 1944).

Além desses intertextos alheios, há os próprios, por exemplo, a idéia de que tudo na vida depende do acaso, explicitamente formulada em “Match Point”. Vejam que o que vai condenar Abe à morte não será algum processo judicial, e sim, um flashlight ganho no tiro ao alvo.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Já afirmei alhures que Allen é um desses cineastas de estilo forte, onde as redundâncias, formais ou temáticas, são coisas positivas. Mas ora, repetições sempre trazem riscos, principalmente quando soam viciosas, ou mesmo preguiçosas.

É o caso neste “O homem irracional”, por exemplo, com as entregas amorosas entre os personagens, todas fáceis demais, como se fosse para não perder tempo de tela; como se o cineasta estivesse nos dizendo: ´vocês já viram isso em outros filmes meus e, portanto, pulemos detalhes e vamos ao que interessa´. O resultado é que os relacionamentos entre os personagens soam esquemáticos, para não dizer que o ´tédio´ da parte inicial também já soara esquemático, manjadamente woodyalliano.

No mais, é só mais um Woody Allen em nossas telas, para chatear os antipatizantes e satisfazer os fãs. Um filme mediano que nem melhora nem piora a brilhante carreira do autor.

Em tempo: “O homem irracional” (“Irrational man”, 2015) está em cartaz na cidade e no país.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.