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Marilyn

26 set

Melancólico esse documentário que a televisão paga tem mostrado, “Marilyn Monroe à venda”, sobre um leilão em Los Angeles onde se negociaram objetos que pertenceram à estrela hollywoodiana.

Joias, vestidos, sapatos são vendidos a quem der mais, com, antes, uma explicação retroativa sobre por que, onde e quando a atriz fez uso do objeto. O leilão parece uma festa, mas, para o fã de Marilyn traz aquele cheiro desagradável de invasão tardia de privacidade. Confesso que nem assisti até o fim.

De minha parte, prefiro ficar com a Marilyn da tela. Não conheço todos os seus 29 filmes, mas vi os principais. Para seguir a cronologia, lembro seu começo de carreira em papéis secundários, ou mesmo em pontas, às vezes sequer creditada. “Idade perigosa”, de 1947, é o primeiro desses filmes obscuros, geralmente comédias de segunda categoria.

Sua primeira participação numa produção de peso está em “O segredo das joias” (John Huston, 1950). Mas, seu papel aí é pequeno como pequeno será no superpremiado “A malvada”, do mesmo ano, com direção do grande Joseph Mankiewicz.

Mais um punhado de filmezinhos irrisórios, até fazer, em papel ainda secundário, a Peggy de “Só a mulher peca” (“Clash by night”) que Fritz Lang dirigiu para o casal Robert Ryan e Barbara Stanwyck. Na ótima comédia de Howard Hawks “O inventor da mocidade” (1952) Marilyn já tem um certo charme especial, porém, nada que a destaque.

A rigor, seu primeiro protagonismo aconteceu em um filme ainda hoje pouco conhecido, e, aliás, bastante atípico do estilo Marilyn. Refiro-me a “Almas desesperadas” (1952, Roy Baker) onde ela faz Nell Forbes, essa moça mentalmente desequilibrada que confunde sonho e realidade, e quando frustrada, não hesita em ser violenta. Não é um grande filme, mas é um bom exemplo de Marilyn dramática do começo ao fim. Papel mais visível para o grande público ela vai ter no ano seguinte, em “Torrente de paixão” (1953), ao lado do astro Joseph Cotten, com as cataratas de Niágara como cenário.

 

Com “Os homens preferem as louras e “Como agarrar um milionário” (1953) veio a consagração definitiva. Quando, em 1954, os cinemas do mundo exibiram o faroeste “O rio das almas perdidas”, todo mundo já sabia quem era aquela loura sensual que dividia uma jangada com Robert Mitchum. No mesmo ano ela está deslumbrante como a dançarina de “O mundo da fantasia”, porém, mais que isso, em “O pecado mora ao lado” (1955), ela já era o próprio pecado do título. E, partir de então, era a estrela admirada e cultuada que garantia bilheteria, mesmo quando os filmes não estivessem a sua altura, como “Nunca fui santa” (1956) e “O príncipe encantado” (1957).

Mas é justamente nesse tempo de glória, meados dos anos cinquenta, que começam as suas crises, e, ligado a isso, seu empenho em superar sua imagem de “loura sensual e ingênua” para afirmar-se como a atriz que acreditava ser. Ao rodar “Quanto mais quente melhor” (1959) já era, havia tempos, uma seguidora do “Método”, técnica interpretativa do Actors Studio, a maior escola de atores do mundo, com sede em Nova Iorque.

Foi também esse o tempo do seu casamento com o dramaturgo Arthur Miller, e dos flertes com os Kennedy, John e Robert. Em 1960, com Yves Montand, fez a comédia romântica “Adorável pecadora”, e em seguida (1961) aquele que seria seu último filme “Os desajustados”, direção de John Huston, com roteiro de Miller – um filme melancólico que não era só sobre cavalos selvagens em extinção, mas sobre outras extinções…

“Something´s got give” (sem título em português) poderia ter sido sua última fita, mas não foi. Em crise, a Fox a demite no meio da produção e o filme nunca foi concluído. O resto da história vocês conhecem. Em 05 de agosto daquele ano, 1962, a imprensa divulgava o suicídio de Marilyn Monroe.

Pois é, ao invés do incômodo documentário da televisão paga, fico com a Marilyn cinematográfica que amamos. E não preciso de leilões para saber o quanto valeu a vida de uma criança de nome Norma Jeane Mortenson, nascida nunca casa humilde nos arrabaldes de Los Angeles, em 1926, nunca reconhecida pelo pai biológico, mais tarde relegada pela mãe, e criada entre parentes hostis, orfanatos e pensões.

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Frases fílmicas

4 jul

Quem foi que disse que cinema é só imagem? Na verdade, a palavra desempenha um papel importante na complexa estrutura de significação que é o filme. Até nos tempos mudos era assim, com os desajeitados letreiros, postos entre uma cena e outra.

Pois há palavras nos diálogos de certos filmes – com mais frequência, frases – que, de tão bem escolhidas, os transcendem, e ganham autonomia semântica, algumas, fama própria, e passam a ser lembradas bem longe das salas de projeção.

Sim, nos meios cinéfilos pelo menos, basta alguém, por alguma razão, pronunciar o termo “rosebud” para todo mundo lembrar o filme de Orson Welles, “Cidadão Kane” (1941). Se a frase for “Ninguém é perfeito”, quem é que não vai lembrar “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1958) e seu hilário desenlace? Se for “Nós sempre teremos Paris”, a lembrança imediata vai ser o final de “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), ou não vai?

Pois aqui sugiro ao leitor uma brincadeira. Selecionei vinte e duas frases de filmes clássicos – dos anos trinta aos sessenta – que cito numeradas e em ordem cronológica, para que você tente identificar os filmes em que elas foram articuladas. Para facilitar, incluo o ano de produção do filme e o nome – quando há – do ator ou atriz que a pronunciou. Notar que nem sempre a frase famosa foi dita pelo ator ou atriz principal. Pode ter saído da boca de um coadjuvante, ou mesmo de algum extra.

Vamos lá?

 

1 “Está vivo! Está vivo!” (1931, Colin Clive)

2 “Que Deus seja testemunha: nunca mais passarei fome.” (1939, Vivien Leigh)

3 “Não existe lugar como o lar.” (1939, Judy Garland)

4 “Não vamos pedir a Lua, quando podemos ter as estrelas.” (1942, Bette Davis)

5 “Como é que eu podia adivinhar que assassinato pode às vezes ter cheiro de flor?” (1944, Fred MacMurray)

6 “O trem para Ketchworth, chegando agora na plataforma três.” (1945, voz do microfone da Estação Ferroviária)

7 “A vida de um homem toca tantas outras vidas…” (1946, Henry Travers)

8 “Sim, posso ser muito cruel: eu fui educada por mestres.” (1949, Olivia de Havilland)

9 “Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências.” (1950, Bette Davis)

10 “Eu sou grande: os filmes é que ficaram pequenos.” (1950, Gloria Swanson)

11 “Sempre dependi da bondade de estranhos.” (1951, Vivien Leigh)

12 “Isto é o elevador?” (1953, Audrey Hepburn)

13 “O que você quer de mim?” (1954, Raymond Burr)

14 “Eu poderia ter tido classe. Poderia ter sido um grande lutador.” (1954, Marlon Brando)

15 “Estou cansada de ouvir me dizerem que sou bonita.” (1955, Kim Novak)

16 “Só Deus sabe, Sr Allison.” (1958, Deborah Kerr)

17 “O melhor amigo de um rapaz é sua mãe.” (1960, Anthony Perkins)

18 “Cale a boca e jogue.” (1960, Shirley MacLane)

19 “Nós somos iguais, eu e gato. Dois pobres patetas sem nome.” (1961, Audrey Hepburn)

20 “Quando a lenda supera a história, imprima-se a lenda.” (1962, Carleton Young)

21 “Eles me chamam Sr Tibbs!” (1967, Sidney Poitier)

22 “A senhora está tentando me seduzir, Sra Robinson?” (1967, Dustin Hoffman)

Falando de “Se meu apartamento falasse”

26 mar

 

Não sei dizer ao certo quantas vezes vi “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, Billy Wilder, 1960), mas sei que toda vez que o revejo, ou falo dele, o faço com uma pitada de melancolia. É um dos filmes mais importantes do Século XX, e, pessoalmente, está entre os meus dez mais amados.

Ainda hoje recordo sua estreia em João Pessoa, começo dos anos sessenta, no extinto Cine Rex. Aliás, antes disso, lembro-me do trailer, fazendo ênfase nos cinco Oscars que ganhara, e, mostrando aquela cena em que Jack Lemmon, sozinho no seu apartamento de solteiro, vê televisão, aborrecido, mudando de canal o tempo todo porque a tv só mostrava faroeste, hoje a gente sabe, gênero detestado por Billy Wilder que, irônico, dizia ter medo de cavalos.

Mas, a impressão de melancolia não é apenas pessoal. Ela também é histórica.

Shirley MacLaine e Jack Lemmon no filme de Billy Wilder.

Sim, “Se meu apartamento falasse” representa o fim de uma época dourada, aquela do chamado cinema clássico americano, que os historiadores colocam nas três décadas, de trinta, quarenta e cinquenta. Estreou em 60, mas na década em que estreou, Hollywood já não seria mais a mesma. Os estúdios se esfacelavam e a produção caía vertiginosamente, em quantidade e qualidade. Mais tarde, começo dos anos setenta, Hollywood ressurgiria das cinzas, mas não mais a mesma. Bem mais explícita, bem mais mórbida, bem mais escatológica, a Hollywood renascida vinha para chocar o espectador clássico.

Vejam que o filme de Wilder é a estória de um sujeito que cede seu apartamento para fins escusos, como se um motel fosse, ou mesmo um bordel, e, contudo, não há, em todo o filme, uma só cena explícita, nenhuma coxa à mostra, nenhum seio, sequer um beijo, nada.

O Código Hays de Censura vigorou até 64, mas, não é por causa dele que o filme é inexplícito. Em 1960, o Código já estava caduco, quando a gente lembra, por exemplo, o escandaloso beijo com pouca roupa, nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Deborah Kerr, no filme de Fred Zinnemann “A um passo da eternidade”, e isto em 1953. O próprio Wilder já fora suficientemente malicioso dois anos atrás, em “Quanto mais quente melhor”, vestindo marmanjos com roupa de mulher e findando o filme com uma frase mais que picante, que, tanto tempo atrás, já sugeriria a alternativa do casamento gay: “Ninguém é perfeito”.

Embora nessa empresa em que o protagonista trabalha, todo mundo transe com todo mundo, “Se meu apartamento falasse” não tem cenas explícitas, e não tem porque Billy Wilder não quis, e pronto.

Para ficarmos mais à vontade na análise do filme, façamos uma breve e parcial reconstituição de seu enredo.

C. C. Baxter subindo de posição na Empresa de Seguros.

O filme conta a estória de C. C. Baxter (Jack Lemmon), esse funcionário de uma grande Companhia de Seguros nova-iorquina, que vem tendo ascensão funcional de modo pouco convencional. Com fins escusos, seu apartamento vem sendo usado, à noite, por altos funcionários da Companhia, que “pagam” o uso com generosas promoções ao funcionário. Pois Baxter termina sendo chamado à direção geral, não para ser admoestado ou coisa parecida, mas porque o Chefão de todos, o Sr Sheldrake (Fred MacMurray) quer entrar no jogo. E qual não é a surpresa de Baxter, já devidamente promovido a Executivo Assistente, no dia em que descobre que a amante do Chefão é a simplória ascensorista do prédio, a Srta Fran Kubelik (Shirley Maclaine) por quem ele tem uma queda que dá na vista. Mas, ora, Sheldrake é casado e Fran está apaixonada… O complicado caso entre os dois vai dar em tentativa de suicídio, que, para o azar de Baxter, acontecerá, onde? Sim, no seu apartamento… Esticando uma farra de Ano Novo com uma companheira casual, de repente Baxter vai deparar-se com um corpo inerte em sua cama, e mais grave, o corpo da mulher que ama.

A temática em “Se meu apartamento falasse” é recorrente na filmografia de Wilder, a crítica ao ´american way of life´: de um lado, a busca da ascensão social, e do outro, a ética, o confronto gerando a crise. Como outros tantos personagens em outros filmes de Wilder, esse empregado da Companhia de Seguros busca – ou “aceita” – promoções até o momento em que o sucesso profissional fere os seus princípios morais. Nesse momento ele muda, e, para usar termos da teoria narrativa, passa a ser um “personagem redondo”, aquele que se transforma no decorrer da fabulação. Nisso ele faz contraste com todos os outros personagens (exceção para Fran Kubelic), que continuam iguais a si mesmos até o último fotograma.

É um filme sobre aprendizado, na acepção ontológica da palavra – em outros termos, sobre a aquisição do auto-conhecimento. Esse auto-conhecimento ocorre a Baxter de modo epifânico naquele momento em que entra em crise, ao dar-se conta de que o preço a pagar pelo sucesso profissional não compensa do ponto de vista emocional. Transformado, já havendo recusado entregar ao Chefe a chave do seu apartamento, ele lembra e usa uma palavra que o seu vizinho, o Dr Dreyfuss – que cuidara da suicida Fran Kubelic – lhe jogara na cara: “Mensch”, e esse termo, que em alemão significa ´humano´, é o que ele pretende ser de agora em diante: desempregado, solitário, sem planos futuros, mas humano. De alguma forma a palavra “Mensch” contém, se vocês quiserem, a mensagem do filme.

Para uma análise mais atenta, gostaria de me debruçar sobre a estrutura narrativa do filme, no caso, destacando três turning points particularmente importantes. E destaco-os não apenas por serem momentos de mudança no enredo, mas porque consistem em instâncias em que o icônico fala mais que o verbal, como deve ser no cinema. A eles dou os nomes de: (1) uma cédula de cem dólares; (2) espelho quebrado; e (3) a chave errada.

Aquele primeiro ocorre no momento – Noite de Natal – em que a jovem ascensorista Fran Kubelic fora deixada sozinha pelo amante nesse apartamento, dela desconhecido. Sem ter tido tempo – ou disposição – de comprar presentes, o amante, antes de ir embora, para o seio da família, lhe dera uma nota de cem dólares. Ela, naturalmente, se sentira ofendida. Neste instante a que me refiro, a vemos no banheiro do apartamento, desiludida e depressiva, quando divisa, no armário, um frasco de soníferos. Segura o frasco, pensativa, e o devolve à prateleira. Em seguida, abre a bolsa para tirar o batom e o que vê? A nota de cem dólares. Aí, sim, pega de volta o frasco de soníferos… e espectador já advinha o que vai acontecer. E acontece. Notar que não há, em toda a cena, uma só palavra enunciada, e, no entanto, tudo é extremamente eloquente.

A Srta Fran Kubilic e seu drama de amor…

O segundo turning point que destaco ocorre na nova sala de trabalho do laborioso Baxter, recém promovido a executivo assistente. Ele comprara um chapéu novo, cabível com o novo posto, e pergunta a Sra Kubelic se está bem. Ela lhe entrega o seu espelho, para que ele se veja, e é nesse momento que o ingênuo Baxter descobre que a amante do Chefão é ela, a moça com quem pensava que paquerava. Ocorre que ele já vira aquele espelho, uma vez esquecido no seu apartamento e devolvido pelo próprio Chefe. Reconhece-o porque esse espelho está quebrado. Observem que, se há palavras trocadas entre os dois personagens, nada na cena, tem a força da imagem do espelho quebrado, mostrado em close.

A terceira mudança no enredo que menciono é o momento mesmo em que Baxter toma a decisão mais fatal: demitir-se. Agora divorciado, o Chefão quer retomar o caso com a Srta Kubelic e, chamando Baxter a sua sala, lhe pede, de novo, a chave do seu apartamento. Este parece aceder, lhe entregando uma cópia de chave e se retirando para o compartimento vizinho. O Chefão vai atrás, lhe dizendo que ele lhe dera a chave errada, a do banheiro dos executivos, e não a do apartamento… e Baxter responde, decidido, que lhe dera a chave certa – a do banheiro mesmo. Considerem que, embora a chave seja um objeto pequeno, é em torno dela que a cena gira, e é ela, a chave, que determina os movimentos físicos dos personagens.

Por outro lado, as palavras também são decisivas em “Se meu apartamento falasse”. Já citei o caso de “Mensch”, mas há uma expressão, pronunciada duas vezes, que não pode deixar de ser mencionada. Trata-se de uma expressão idiomática que perde o seu sabor metafórico na tradução para o português, aquela que se lê nas legendas. Em certo momento da conversa entre a Srta Kubelic e Baxter (pós tentativa de suicídio), ela se indaga por que é que não se apaixonou por um cara legal como ele. E ele, sem saber o que responder, comenta apenas que: “That´s the way it crumbles: cookiewise”. Como o pronome “it” não existe em português, uma tradução possível seria, mais ou menos: “É assim que a coisa se esfacela: feito biscoito”. A ideia é que ´a vida é assim mesmo´ (como está na legenda brasileira), só que a força da construção linguística é muito maior no original, o que fará com que a expressão – junto com a sua circunstância – seja lembrada pelo espectador na ocasião (quase final do filme) em que ela for repetida, desta feita, pela própria Srta Kubelic.

“That´s the way it crumbles: cookiewise”

Sim, em plena comemoração de Ano Novo, quando vem a saber, da boca do Sr Sheldrake, que Baxter pedira demissão por causa dela, a Srta Kubelic repete a expressão e, indagada pelo amante sobre o sentido da frase, alega apenas que lhe diria se soubesse soletrar, mas não sabe. Vejam bem: se a chave errada fora o turning point pessoal de Baxter, este agora é o da Srta Kubelic que, vocês lembram, corre desabalada pelas ruas em direção ao apartamento de Baxter onde os dois, sentados ao meio da mobília desarrumada para a mudança, vão jogar baralho.

“Eu simplesmente a adoro, Srta Kubelic” lhe confessa ele, emocionado. E ela, bem serena: “Cale a boca, e jogue”.

Final perfeito.

Uma curiosidade sobre o filme de Billy Wilder que cabe referir tem a ver com sua trilha sonora. Quatro músicas compõem essa trilha, sendo uma delas, brasileira. A principal é a música romântica que acompanha a personagem da Srta Kubelic, tanto no seu caso confuso com o Sr Sheldrake, como, no desenlace, com Baxter. Uma segunda música pode ser chamada de ´marcha do trabalho´, tocada toda vez que se sugere o suposto ímpeto de ascensão funcional de Baxter. Uma outra, também pertinente a Baxter, tem tom melancólico, e o pega sempre solitário, em casa ou na rua. Finalmente, há essa trilha erótica, quase obscena, executada para indiciar as aventuras sexuais dos muitos furtivos visitantes do apartamento de Baxter. Pois, sem registro nos créditos do filme, essa quarta composição é, na verdade, a orquestração da canção de nome “Madalena”, dos compositores brasileiros Airton Amorim e Ari Macedo, sucesso do carnaval de 1951, cantada por Linda Batista, cuja primeira estrofe dizia assim: “Amar como eu amei / Ninguém deve amar / Chorar como eu chorei / Ninguém deve chorar / Chorava que dava pena / Por amor a Madalena…”

Só não me perguntem como foi que a canção brasileira foi desaguar no filme de Billy Wilder, que não sei…

Em tempo: esta matéria é dedicada a Hildeberto Barbosa Filho.

Página desta matéria, como publicada no Correio das Artes, em 26 de março de 2017.

 

Para lembrar Marilyn

13 fev

Símbolo sexual ou grande atriz? Não seria possível ser as duas coisas? Hoje e há muito ninguém tem dúvidas de que Marilyn Monroe (1926-1962) equacionou esta antítese, e, de sobra, sua imagem virou um ícone do Século XX, desses que se imprimem nas páginas da vida, para representar toda uma época – no seu caso, a época áurea do cinema.

Filha de mãe solteira, a menina Norma Jeanne Mortesen passou a infância e adolescência entre orfanatos e casas de parentes, e, aos 16 anos, para fugir dessa carência afetiva, casou com o primeiro namorado que apareceu.

Logo o jovem marido se mandaria para a Marinha e ela, para sobreviver, foi ser operária numa fábrica. Foi quando, por puro acaso, foi descoberta por um fotógrafo e, de repente, virou o que nunca pensara ser: “pin-up girl”, aquele tipo de sub-modelo que posa seminua para posters a serem afixados em paredes de oficinas e derivados.

Acontece que a 20th Century Fox descobriu a pin-up girl e daí a pouco Norma (agora com o nome artístico de Marilyn Monroe) estava fazendo pontas no cinema. De ponta em ponta (Conferir “O segredo das jóias”, “A malvada”, “Páginas da vida”, “Só a mulher peca”, “Travessuras de casados”…) terminou ganhando a condição de protagonista no drama de Henry Hathaway “Torrentes de paixão” (1953), ao lado de Joseph Cotten. Todo decorrido nas cataratas de Niágara, o filme não era grande coisa, mas serviu para deslanchar sua carreira de “bombshell”.

E logo os espectadores masculinos do mundo começaram a ficar irresistivelmente atraídos por essa loira manhosa, delicada e sensual que, com trejeitos eróticos, estava em películas excitantes como “Os homens preferem as louras” (1953), “Como agarrar um milionário” (1953), “O rio das almas perdidas” (1954), “O pecado mora ao lado” (1955). Neste último, a cena em que o vento do metrô levanta a sua saia tornou-se uma das imagens amadas de muita gente boa.

Casada e logo divorciada do jogador de beisebol Joe DiMaggio, e eansada de, para o público, ser apenas “sex appeal”, Marilyn deixou então Hollywood e mandou-se para Nova York, para estudar interpretação com o renomado Lee Strasberg, do Actors Studio. Lá fundou a sua própria companhia cinematográfica, a MM Productions, que produziu duas comédias que dariam o que falar: “Nunca fui santa” (Bus stop”, Joshua Logan, 1956) e “O príncipe encantado”, Laurence Olivier, 1957).

Ao fazer a Sugar Kane de “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1958) Marilyn já era uma estrela de primeira grandeza e estava casada, desde 1956, com um intelectual sério e homem de teatro, Arthur Miller. Mas já era também uma personalidade em crise, frágil, insegura e descontrolada, que precisava tomar pílulas para dormir e outras para, de dia, se manter acordada; que nunca chegava em tempo ao set; que, nas filmagens, esquecia os trechos dos diálogos e atrasava a produção. O diretor Billy Wilder teve tanto problema com ela que, maldosamente, chegou a lhe fazer uma caricatura em “Se meu apartamento falasse” (1960): não sei se vocês lembram – é uma das garotas de programa levadas pelos colegas de trabalho ao apartamento do personagem de Jack Lemmon, uma loura cheia de requebros e manhas imitativos dos de Marilyn.

Com todos os problemas, Marilyn ainda foi a “Adorável pecadora” de George Cukor (1960), e, mais significativamente, Rosalyn, a sensível garota divorciada de um filme que foi especialmente escrito – pelo marido – para ela: dirigido pelo mestre John Huston, “Os desajustados” (“The misfits”, 1961) tinha Clark Gable e Montgomery Clift no elenco – filme sintomaticamente melancólico, sobre a caça de cavalos selvagens em extinção nas desoladas planícies de Nevada.

Com suposta overdose de barbitúricos, Marilyn foi, no dia 5 de agosto de 1962, encontrada morta em seu apartamento e sua última participação em cinema ficou inconclusa: “Something is got to give”, de George Cukor.

Em sua biografia, Tony Curtis conta que engravidou Marilyn durante as filmagens de “Quanto mais quente melhor” (ela, já casada com Miller, abortou), e este não foi o único escândalo na vida da atriz que, hoje todo mundo sabe, foi amante do presidente John F. Kennedy, caso alcovitado pelo ator e amigo comum, Peter Lawford, cuja residência foi, na ocasião, “grampeada” pelo temido diretor do FBI, J. Edgar Hoover. Personagem do atual filme de Clint Eastwood (Conferir “J. Edgar”, em cartaz) Hoover usou o grampo como trunfo para livrar-se de uma intenção de demissão por parte de Kennedy.

Enfim, uma vida repleta de escândalos, mas quem lembra isso? Hoje e sempre, para fãs de cinema no mundo todo, Marilyn Monroe é um mito cinematográfico, um dos maiores.

Em tempo: esta matéria foi escrita enquanto se aguarda a estreia local de “Sete dias com Marilyn” (“My week with Marilyn”), filme que narra os bastidores do citado “O príncipe encantado” (1957).

Graças a Deus

24 jan

Hoje não, mas nos velhos tempos quase todo espectador tinha o seu cinema preferido, aquele que mais frequentava e onde, por razões privadas, melhor se sentia.

O meu “cinema de estimação” foi o Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe. Não era só o mais perto de casa, mas também o que mais alimentou o meu imaginário de cinéfilo, num tempo em que a palavra ´cinéfilo´ nem existia. Passei parte da minha infância e adolescência entre suas paredes e ainda hoje tenho sonhos com ele. Fui também aos outros cinemas de João Pessoa, porém, nenhum foi tão importante para a minha formação cinematográfica quanto o Sto Antônio.

Pois bem, o que eu não sabia na época, mas sei hoje, é que minha formação cinematográfica parcialmente se deveu a um Papa que já era falecido quando nasci, o Pio XI, autor de uma encíclica fundamental para a história do cinema nos países católicos do mundo.

Promulgada em1936, aencíclica se chamou “Vigilanti Cura” e, à parte o tom de censura, chamava a atenção do mundo para a importância do cinema, e mais que isso, estimulava as paróquias a fundarem casas de exibição, para o cultivo da arte cinematográfica. Numa expressão feliz, Pio XI definia o efeito do cinema sobre as platéias, conceituando o filme como uma lição de coisas. “O poder do cinema consiste no fato de que ele fala por meio de vívidas e concretas imagens, as quais a mente recebe com alegria e sem fadiga – explicava Pio XI, e continuava: “o cinema é na realidade uma “lição de coisas” (“rerum schola” no latim original). que, para o bem ou para o mal, ensina a maioria das criaturas muito mais efetivamente do que o faz o pensamento abstrato.” E este deslumbramento papal com a sétima arte se estendia à bula inteira. (Com certeza, foi daí que o poeta Drummond retirou o título do seu bem conhecido livro de 1962).

Pio XI faleceu em 39, mas o seu sucessor, Pio II, deu continuidade a esse interesse pelo cinema e, claro, dentro do mesmo espírito cristão, prosseguiu incentivando, com novas encíclicas, a reflexão sobre o cinema e a construção de novas casas de exibição. Sua encíclica de 1957 sintomaticamente se chamava “Miranda Prorsus”, em bom latim, “coisas absolutamente maravilhosas”, e uma dessas coisas maravilhosas era o cinema.

Ora, foi justamente dentro dessa orientação do Vaticano que os padres da paróquia da Igreja do Rosário tiveram a iniciativa de construir o “meu” Cine Sto Antônio, inaugurado em 1955.

Nessa época eu era garoto e cursava o primário no Grupo Escolar Sto Antônio, vizinho ao recém-surgido cinema, e, claro, não tive idade para a exibição do filme inaugural, que foi, segundo os residentes do bairro, “Romeu e Julieta”, certamente a versão de 1954, de Renato Castellani, com Laureence Harvey e Susan Shentall, que vi depois. Como se percebe, embora projeto do Vaticano, o Sto Antônio não limitou sua programação a filmes de conteúdo religioso.

O primeiro filme que vi no Sto Antônio foi um documentário colorido sobre a vida agrícola na Tailândia, que os padres do Rosário julgaram ser instrutivo para os alunos do Grupo: as aulas foram, assim, interrompidas e fomos, em fila, todos fardados, assistir a essa sessão matinal.

Acho que foi nessa sessão matinal que descobri o que a gente chama de prazer do escurinho.

Logo logo, descobri também que não precisava dos padres do Rosário para ir ao Sto Antônio. Para meu deslumbramento, qualquer criatura podia entrar naquele templo de imagens: era só ter o dinheiro do ingresso, e, claro, o consentimento dos pais. Para mim, essa descoberta era a própria epifania – o paraíso estava ali, do meu lado, e custava pouco.

Comecei com as matinais de domingo, sessão das nove e meia, depois de devidamente purificado pela missa no Rosário: Tarzan, as comédias (em reprise) de Chaplin e do Gordo e o Magro, ou as mais recentes, de Bob Hope ou Jerry Lewis, ou os filmes de aventura, como “As minas do rei Salomão”, “Aliança de aço”, “A volta ao mundo em oitenta dias”, ou os faroestes da vida, como “Gatilho relâmpago”, “Duelo de titãs” e “O passado não perdoa”… O cardápio era enorme e variado.

Depois, mais crescidinho, me meti nas sessões noturnas, agora assistindo a películas mais adultas, que não poderia arrolar, em vista da extensão. Cito apenas alguns exemplos ao acaso de filmes com que o Sto Antônio me presenteou e que marcariam minha formação, a maior parte deles tendo pouco a ver com religião: “Um corpo que cai”, “Meu tio”, “A fonte da donzela”, “A balada do soldado”, “Quanto mais quente melhor”, “O último hurra”, “Duas mulheres”…

Se eu puder dizer que o Cine Sto Antônio me fez espectador, quem me fez crítico? Pois é, o papel da Igreja na minha formação cinematográfica poderia ter ficado por aí, no Sto Antônio. Mas, a rigor, não ficou.

Acompanhem-me. Lembrem que a orientação do Vaticano junto às paróquias, como já dito, não foi apenas para a construção de salas de exibição, mas também, para a instituição e difusão de Associações locais que pensassem e discutissem cinema, sua linguagem, sua temática, sua ética, e que dessem às platéias do mundo parâmetros de apreciação e avaliação. Os parâmetros eram os católicos, sim, mas já eram um primeiro esforço de análise fílmica – coisa na época chamada de “filmologia”.

Ora,em João Pessoauma Associação desse tipo já havia surgido, no início dos anos cinqüenta, um pouco antes da criação do Cine Sto Antônio. Foi o primeiro cineclube da cidade, chamado justamente de “Cineclube de João Pessoa”, fundado por um grupo de pessoas religiosas, uns laicos como o prof. José Rafael de Menezes, outros do clero, como os padres Antônio Fragoso e Luis Gonzaga Fernandes – mas todos orientados pelos desígnios papais. Em depoimento, o historiador Wills Leal me relata o quanto foi decisivo para os cinéfilos de então – católicos ou não – o acesso a toda uma rica bibliografia sobre cinema, trazida da Itália e da França pelos padres que encabeçavam esses estudos fílmicos. “Padre Fragoso – conta Leal – era dono de uma enorme biblioteca privada de cinema, que líamos com voracidade.”

Que essa orientação católica sobre o estudo da sétima arte não era propriamente castradora comprova o programa da primeira mostra do “Cineclube de João Pessoa”, acontecida nas dependências da Rádio Tabajara, em outubro de 1953: desse programa fazia parte, por exemplo, o filme “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945), como se sabe, um pesado e – para a época – ousado melodrama sobre relações conjugais em que uma mulher casada se apaixonava por um homem também casado. (Para o programa inteiro da mostra, consultar o livro de Leal. “Cinema da/na Paraíba, Vol 1).

Obviamente, não tive acesso ao Cineclube de João Pessoa, já que era criança nessa época, mas, foi ele que deslanchou todo o movimento cineclubista pessoense que viria em seguida, e que, algum tempo depois, iria fazer minha cabeça, mudando-a da mera espectação passiva para a apreciação ativa, crítica e analítica.

Para dar um exemplo da importância desse cineclube católico, foi dele que indiretamente saiu o primeiro livro de autor paraibano sobre cinema, o precioso “Caminhos do cinema” (Editora Agir, 1958) do saudoso Prof. Rafael de Menezes, um livro com distribuição nacional, que li com admiração no começo dos anos sessenta e nunca esqueci. Sua investigação da psicologia do espectador, por exemplo, já era um estudo de Teoria da Recepção quando esta disciplina, esboçada no âmbito literário, nem havia sido cogitada para o âmbito fílmico.

Sim, do bojo do Cineclube de João Pessoa sairia um grupo dissidente que, mais tarde e junto com outros, formaria a ACCP (Associação de críticos cinematográficos da Paraíba), porém, de todo jeito, não há como escapar: a semente da militância critico-cinematográfica pessoense foi plantada por mentalidades ligadas à Igreja. No meu caso particular, via ACCP ou não, foi essa semente cinéfila que brotou.

Não sei por quê (na verdade, sei), os intelectuais que atuaram na imprensa e na cultura nos anos sessentaem João Pessoa, quase todos situados na faixa etária entre eu e o grupo de Rafael de Menezes, e quase todos de forte formação marxista, fizeram o que puderam para sonegar a influência da igreja católica na formação da cinefilia local. Como não podiam negar, calaram. Tolice…

De minha parte posso, portanto, afirmar que, por incrível que possa parecer, devo, indiretamente que seja, à Igreja Católica, não apenas a minha condição de espectador, mas também a de crítico.

O que mais posso dizer sobre o assunto, se não “Graças a Deus”?