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Fazendo (melo)drama

4 ago

Como se faz um melodrama? Hoje em dia não sei, mas nos velhos tempos da Hollywood clássica havia uma fórmula corriqueira e… eficaz. Ou fórmulas que se combinavam.

O tema, obviamente, tinha que ser o amor, e, claro, amor com conflito. Quanto mais intenso o amor, melhor; quanto mais ameaçador e intransponível o conflito, melhor.

A estória funcionava bem se fosse assim: os dois, homem e mulher, se conheciam por acaso, ficavam amigos e, dentro de pouco tempo, apaixonavam-se perdidamente. Depois de apaixonados é que o conflito ia se intrometendo – por exemplo: ela era solteira, porém, ele era casado.

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama...

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama…

O cenário ideal era um lugar romântico, se possível no exterior; a Itália, por exemplo. Mas, o que fariam na Itália esses dois americanos? Estavam de férias, livres de compromissos e rotinas, e por isso, mais abertos a novas experiências, ora.

Até aqui, todos estes itens estão dentro do roteiro de um monte de filmes que você já viu…

Mas, atenção: os roteiristas mais tarimbados tinham o direito de ampliar os contornos da fórmula e, por vezes, metiam desdobramentos narrativos mais complicados e mais ousados.

Suponhamos, portanto, que no dia do retorno à América – o dia do adeus – o casalzinho apaixonado, entre beijos, drinques e passeios turísticos, chegasse atrasado ao aeroporto e… perdesse o avião.

Elaboremos mais: suponhamos que no dia seguinte, os dois, tomando o seu café da manhã na pousada, lesse no jornal, abismados, que o avião sofrera um acidente do qual ninguém, ninguém mesmo, escapara.

Roma, cenário romântico de muitos melodramas...

Roma, cenário romântico de muitos melodramas…

Vejam só: de repente, os dois davam-se contas de que estavam “mortos” (entre aspas) para os seus respectivos familiares nos Estados Unidos e – assim quis o destino – vivinhos da silva na bela Itália, apaixonados e dispostos a viver um grande amor.

Pois é, vamos supor que ousassem fazer o gesto supremo de assumir novas identidades e nova vida, bem longe dos proibitivos grilhões domésticos. E assim, vão ser felizes para sempre, nesse paraíso romântico que é a bela e acolhedora Itália.

Como se trata de melodrama, naturalmente não serão felizes para sempre. E é aqui que entrará a parte mais grossa do conflito.

Que tal se, algum tempo depois de curtir o luto, a esposa dele – digo, a pseudo viúva – decidisse, junto com o filho adolescente, conhecer o país que o marido havia escolhido para gozar suas férias solitárias? E, evidentemente, por maior que seja a Itália, os roteiristas darão um jeito de perpetrar o desastroso encontro.

Não será muito legal que a “viúva” encontre o marido. Será bem mais efetivo que ela, por algum acaso, venha a conhecer a sua rival, a qual, por sua vez, depois do encontro, vai sofrer com a culpa e providenciar, para o filme, o desenlace melodramático que ele requer.

Um trabalho adicional da produção de um filme desses vai ter a ver com a música. Sim, terá que haver uma trilha sonora bem romântica, falando de perda, saudade e dor, alguma coisa assim como “September Song”, ou como o segundo concerto para piano de Rachmaninoff. Ou os dois juntos, combinados em arranjo perfeito.

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco...

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco…

Um lance interessante será dar à amante a profissão de pianista, de modo que isto facilite a intromissão da música no enredo.

O elenco terá que ser também bem especial, para agradar ao público pagante. Que tal Joan Fontaine e Joseph Cotten para o casal fujão e Jessica Tandy para a esposa chorosa? Acho que daria certo.

Não sei se, a essa altura dos acontecimentos, você identificou, mas o melodramático enredo aqui construído, com música, elenco e tudo mais, é de um filme existente. Talvez seja muito pedir a identificação do filme, mas, com certeza, os cinéfilos de carteirinha, já chegaram lá.

La vai: o filme é “Paraíso proibido” (“September affair”), uma produção em preto-e-branco da Paramount que o mestre William Dieterle dirigiu em 1950.

O interessante não é tanto que “Paraíso proibido” caiba, inteiro, dentro de fórmulas. O interessante é que, do jeito que está feito, as fórmulas funcionam. E muito bem.

Revi há pouco, e confirmo.

Na abertura desta matéria, digo que não sei como se fazem melodramas hoje. Na verdade, desconfio que não se fazem mais.

O cartaz original de "Paraíso Proibido".

O cartaz original de “Paraíso Proibido”.

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Setenta anos de “Desencanto”

12 nov

Em 26 de novembro de 1945, setenta anos atrás, estreava em Londres, a obra prima de David Lean “Brief encounter” (´breve encontro´), filme que mais tarde seria conhecido no Brasil como  “Desencanto”.

Setenta anos de “Desencanto”, e, contudo, não faz nem trinta que o conheço. Nasci em 46 e perdi sua estréia e reprises locais; não tenho culpa. Vi-o pela primeira vez quando saiu em VHS, nos anos oitenta, uma cópia mal cuidada e sem charme, mas, para mim foi amor à primeira vista, uma vista que se repetiu muitas vezes e ainda hoje se repete.

“Desencanto”: o nome eu conhecia de longa data, desde os anos sessenta, tempo em que vivia devorando livros de cinema, todos os que me aparecessem à frente. E quase todos citavam o filme de Lean. Um deles, a famosa “História do cinema mundial” de Georges Sadoul.

1 poster

Na infância e adolescência, nem o nome de David Lean eu conhecia. Não tive idade para ir ao cinema quando estreou, no recém fundado Cine Sto Antônio, em Jaguaribe, o seu “Summertime” (“Quando o coração floresce”, 1955). Neste cinema ainda vi “A ponte do rio Kwai” (1957), mas foi com “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr Jivago” (1965) que me familiarizei com seu nome. Era o Lean das grandes produções, dos épicos, que – para quem conhecia a história toda – abafava suas pequenas fitas intimistas da primeira fase de sua carreira.

No meu caso, os termos ficaram cronologicamente trocados, já que a sua fase intimista só me chegou depois da épica, fase intimista da qual fazem parte outras preciosidades como “Grandes esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Nunca esqueci a primeira vez que vi “Desencanto”. Que emoção! Não sei o que mais me tocou, se a tragédia amorosa que contava ou a perfeição formal com que o fazia. Acho que as duas coisas juntas me levaram às lágrimas.

Loquei a fita várias vezes, e, logo que pude, comprei minha própria cópia original. Em 1995, ao bolar o clip “Imagens Amadas” para o lançamento do meu livro e celebração do centenário do cinema, no Hotel Globo, uma das primeiras cenas que pus no roteiro foi de “Desencanto”. Aquela em que o casal apaixonado, devastado pela culpa, se despede na Estação de trem, prometendo que se veriam mais uma vez na próxima quinta-feira. “Thursday!” grita ele do piso da estação “Thursday”, responde ela da janela do trem que parte.

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Depois disso, sem qualquer planejamento, passei a fazer uma espécie de campanha de divulgação do filme de Lean.

É que, conversando informalmente com amigos, ou em palestras sobre cinema, sempre metia “Desencanto” no meio da fala, e isso foi se repetindo… até se tornar sistemático, consciente e proposital. Tanto é que hoje em dia, muitos de meus amigos já me confessaram que só conhecem “Desencanto” por causa e através de mim. E, como vocês estão vendo, a propaganda continua.

Tenho inveja de quem pôde ver “Desencanto” em tela grande. O saudoso professor Rafael de Menezes, por exemplo. Leio no livro de Wills Leal que o filme de Lean esteve no programa da primeira sessão do “Cineclube de João Pessoa”, em 1951. E, cá com meus botões, fico pensando qual teria sido a reação daqueles padres todos, os fundadores do cineclube que Pe Fragoso coordenava. Que debate, pós-sessão, terá suscitado? Afinal de contas, o tema do filme é o adultério, em princípio algo condenado pela Igreja. A rigor, sua temática deriva do grande romance universal do Século XIX, que explorou ao extremo o motivo da “mulher casada apaixonada fora do casamento” (Karenina, Bovary, Hester Prynne, Luísa, Capitu, etc).

5 uma dona de casa

Já escrevi várias vezes sobre “Desencanto” e não vou me repetir. Na ocasião de seus setenta anos, deixem-me apenas dizer que se trata de uma das mais belas estórias de amor que a sétima arte já foi capaz de contar. Não hesito em afirmar que “Desencanto” é o “Casablanca” britânico.

Foi rodado numa Londres ainda arrasada pela guerra, nos Denham Studios, e não tem a logística de Hollywood, nem o elenco de estrelas.

Porém, o texto primoroso de Noel Coward (de sua peça “Still life”: ´natureza morta´ ou ´vida calma´), as interpretações estupendas de Trevor Howard e Celia Johnson, a fotografia impressiva de Robert Krasker e a direção genial de David Lean o tornam o que é – uma obra prima. Fiz de conta que esqueci o melhor, mas não esqueci: a música, no caso, o soberbo emprego do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninof, perpassando o filme inteiro, e, em momentos chave, acentuando suas subidas e descidas dramáticas.

Enfim, se porventura você não conhece “Desencanto”, dê logo um jeitinho de corrigir essa falha grave.

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Por causa de Rachmaninoff

27 nov

Programa imperdível foi o de quinta-feira passada, a apresentação da Orquestra Sinfônica da Paraíba, no Bangüê, que se abriu com Juliana Steinbach executando, com extremo virtuosismo e muita paixão, o “concerto número dois para piano” de Sergei Rachmaninoff – execução que – não tenho vergonha de dizer – quase me levou às lágrimas.

 O concerto para piano de Rachmaninoff é perfeito, sublime, arrebatador, mas, no meu caso, possuo motivos a mais para me emocionar com ele. Ocorre que, nada por acaso, a composição é a trilha sonora de um dos filmes que mais amo, o “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945), de David Lean, filme que revisito regular e ritualisticamente, e que considero uma das mais belas estórias de amor que o Século XX foi capaz de contar.

Resultado inevitável: ouvindo a estupenda execução de Juliana Steinbach com a OSPB revi, na minha cabeça de cinéfilo apaixonado, o filme inteiro, do começo ao fim.

De repente, lá estava eu sofrendo com Laura, essa modesta e pacata dona de casa, sensata mãe de família, a quem ocorre o infortúnio de viver uma avassaladora e selvagem paixão fora do casamento – tudo deflagrado por causa de um cisco no olho. Com o andamento da música de Rachmaninoff, passei – mais uma vez – por toda a sua fugaz alegria, encantamento, desespero agonia e desilusão… Revivi todo o seu processo de envolvimento com esse estranho, um senhor também casado; a súbita consciência de que estava perdendo o controle emocional; a dor de ter de esconder os sentimentos; a culpa de fingir perante os filhos e o esposo; a vergonha de ser pega como uma criminosa em um apartamento alheio; a corrida louca, aos prantos, pelas ruas desertas e escuras da cidade, debaixo da chuva; a tentativa frustrada de se jogar aos trilhos do trem expresso; a dolorida despedida num prosaico salão de lanchonete, atrapalhada por uma amiga bisbilhoteira; e o inferno de voltar aos braços, sempre acolhedores e compreensivos, do marido…

No terreno da música clássica, Rachmaninoff  (1873-1943) é considerado pelos especialistas do assunto o último dos românticos. Pois David Lean não foi também, de alguma maneira, o último dos cineastas românticos? Basta lembrar a sua saga – desde “Desencanto” até “A filha de Ryan”, passando por “Dr Jivago” – de mulheres apaixonadas fora do casamento, sim, naquele antigo modelo que vinha da ficção literária do Século XIX…

“Desencanto” é de 1945, mas muito antes disso, Lean já vinha de olho na peça teatral de Noel Coward, com sucesso encenada nos palcos de Londres, lutando, junto com o autor, para lhe dar uma forma cinematográfica. Em pleno processo de elaboração do roteiro, ao ter notícia da morte de Rachmaninoff, em 43, Coward sugeriu a trilha sonora do compositor russo para o filme e Lean não hesitou em fazer casar o romantismo desesperado de seu concerto para piano com o igualmente desesperado romantismo da peça teatral de Coward.

No original, a peça chamava-se “Still life”, expressão técnica do mundo da pintura, o equivalente ao nosso ´natureza morta´ – obviamente, uma referência ao casamento sem brilho de Laura – mas, claro, também podia ser lida como ´vida parada´ (onde ´still´ é um adjetivo), e, contraditória e ironicamente, também como: ´ainda vida´ (onde ´still´ é um advérbio). E quem conhece o drama de Laura se dá conta da pertinência dessa polissemia – ainda que a produção inglesa tenha preferido um título mais óbvio para o filme, o “Brief encounter” (´breve encontro´) que veio a ficar.

Naturalmente, o espectador do filme nem nota que a fonte foi uma peça de teatro, com sua unidade de espaço e de tempo. O centro da ação é de fato uma lanchonete de estação ferroviária, porém, com que maestria Lean, re-contando a estória de Laura em flashback de primeira pessoal verbal, vai multiplicando os instantes e diversificando o cenário, e mesmo quando se restringe à Estação, vai transformando o vai-e-vem dos trens em uma forte metáfora visual e auditiva da conturbada vida interior da protagonista. O dramático close do rosto de Laura naquele momento em que o trem-expresso corta, célere, a estação e a deixa, trêmula e desequilibrada, a meio metro dos trilhos, se interrogando por que não se jogara, é uma das mais belas cenas que a sétima arte já chegou a engendrar.

Entre os estudiosos do fenômeno da trilha sonora, um consenso é o de que a música é um dos fatores primordiais para dar efetividade estética a um filme. Concordo, mas, depois de ter estado no Bangüê quinta-feira passada, fico pensando se a recíproca também não poderia ser verdadeira: se um filme não pode porventura redimensionar os efeitos da música…

Outra coisa que não consigo deixar de me indagar é se Juliana Steinbach conhece “Desencanto”, e se gosta do filme… Tomara que sim.