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Uma rosa para o cinema

5 fev

Um filme que fosse uma declaração de amor ao cinema: eis algo que Hollywood, nem a clássica nem a moderna, estranhamente, nunca fez.

Nos Estados Unidos, essa declaração apaixonada teria que vir do Leste, na forma perfeita de “A rosa púrpura do Cairo” (“The purple rose of Cairo”, 1985, de Woody Allen), filme que, aliás, está completando agora trinta anos, boa ocasião para uma reprise caseira.

Nos anos trinta, em plena depressão americana, essa pobre dona de casa, Cecília (Mia Farrow), trabalha para sustentar a si mesma e um marido vagabundo, Monk (Danny Ayello), que, ao invés de procurar emprego, vive jogando com seus pareceiros nos becos da cidade.

a rosa 0

A coitada não sabe o que seria de si se não fosse o cinema. Vai todo dia, desacompanhada, mas vai, porque ali, naquela sala escura, está o seu único meio de sonhar e compensar as agruras da vida – principalmente agora que, para cumular, foi despedida da lanchonete onde trabalhava.

Cecília assiste tantas vezes ao filme em cartaz (e o filme em cartaz do momento se chama ´A rosa púrpura do Cairo´) que um dia o personagem principal sai da tela e vem estar com ela no mundo real. Pode? Claro que não, ou melhor, claro que pode, pois o filme de Allen tem a lógica dos contos de fada, aqueles para os quais o leitor/espectador é convidado a empreender – como propunha o velho poeta inglês Samuel Taylor Coleridge – uma suspensão da descrença. Sem essa suspensão, o filme não anda e, sem ela, seria melhor desligar o aparelho de dvd.

Ter Tom Baxter (Jeff Daniels), o belo protagonista ao seu lado, lhe falando de amor, é, para Cecília, um encantamento. Bem ao contrário do seu marido grosseiro, o cara é o homem perfeito, utópico, mítico. O problema é que, mítico como é, ele não tem condição de sobreviver na realidade. Seu dinheiro, por exemplo, é falso, para não dizer que nada na sua figura elegante e maravilhosa se encaixa na dureza que é a vida fora da tela.

Para complicar as coisas, aparece na cidade o ator que fez o papel de Tom. É que, preocupados com a fuga do personagem, os produtores de `A rosa` mandaram ao local do acidente, Gil Shepherd (o mesmo Jeff Daniels), o ator do filme, para tentar convencer o seu personagem a voltar à tela.

Cecília: o olhar dirigido à tela.

Cecília: o olhar dirigido à tela.

Cecília e Gil se conhecem e, inevitavelmente, os dois têm um certo envolvimento, e, de repente, fica ela dividida entre o mítico Tom e o Gil de carne e osso. O amor de Tom a levara para dentro da tela, o de Gil lhe promete talvez Hollywood. Para quem, até pouco tempo atrás, só tinha a grossura e a cafajestice de Monk, ser agora o centro da atenção de um personagem fílmico e de um ator hollywoodiano famoso… é muita coisa para a pobre Cecília, que, forçada a fazer a escolha entre os dois, escolhe Gil e, no final, fica sem ninguém.

E o filme termina como começou, com Cecília sentada numa poltrona do mesmo cinema local, agora deslumbrada com o bailado celestial (“Heaven, I´m in Heaven…”) de Fred Astaire e Ginger Rogers.

Para quem anda atrás de interpretações, o filme todo pode ser entendido como um devaneio de Cecília: sufocada pela dureza da vida, ela teria imaginado tudo e, portanto, tudo o que nós, espectadores, vemos seria de natureza onírica.

Na lanchonete, sonhando com outras coisas...

Na lanchonete, sonhando com outras coisas…

O limite dessa interpretação está nas cenas realistas em que Cecília, a suposta devaneante, não está presente. Os exemplos que inviabilizam a ideia de devaneio são mais numerosos do que se pensa, mas cito apenas três sintomáticos: a irônica e deliciosa visita de Tom Baxter ao prostíbulo local, onde as garotas lhe falam de sexo e ele lhes fala de amor; as negociações dos empresários em Hollywood para encontrar uma solução técnica para o problema de ´A rosa´; e, quase no final, a cena que mostra o ator Gil Shepherd dentro do avião, de volta à Meca do cinema, com aquela cara triste de quem está constrangido de haver passado a perna em Cecília.

A verdade é que, se o filme de Allen parte da lógica dos contos de fada, depois do ´milagre´ acontecido (um personagem sair da tela), o restante vai ter outra lógica, a saber, a de um conto de Kafka. Ou seja, aceita a primeira implausibilidade, o resto da estória decorre dentro de uma lógica que pode ser dada como “realista”.

Notar que parte do humor do filme vem dessas cenas “realistas” sem Cecília, por exemplo: dentro da sala de projeção do cinema, a querela verbal entre o povo da tela e o povo da platéia… Ao passo que todo o lado sério, patético, dramático do filme está contido nos ´tempos de tela´ de Cecília.

Antípodas ou não, sonho e realidade se confundem e a confusão é o melhor de “A rosa púrpura do Cairo”. Cecília foge da realidade para o cinema, Tom Baxter foge do cinema para a realidade: num meio termo qualquer entre esses dois extremos está a verdade de um filme que é, antes de tudo, uma bela declaração de amor ao cinema…

Dividida entre dois "mitos"...

Dividida entre dois “mitos”…

 

 

Trágico amanhecer

22 fev

Já me perguntaram quantos filmes vejo por ano. São muitos, mas a maior parte são clássicos do passado, revistos ou vistos com um interesse que, confesso, não alimento pelo cinema atual.

Esta semana foi a vez de “Trágico amanhecer” (“Le jour se lève”, 1939), o comovente drama da dupla Marcel Carné e Jacques Prévert, considerado pela crítica um representante especial do chamado ´realismo poético francês´.

Se não chegou a ser um movimento cinematográfico, o ´realismo poético´ foi ao menos um estilo de época, com caracterísitcas bem definidas e que teve enorme influência sobre cinéfilos e cineastas do mundo inteiro. Como o nome sugere, eram filmes que privilegiavam a verossimilhança, mas que, por trás dela, escondiam uma atmosfera lírica bem particular. O crítico francês André Bazin assim o definiu: ´ é tudo em verso, ou pelo menos numa prosa invisivelmente poética´.

le jour 1

De qualquer forma, realismo e poesia são palavras antagônicas e a melhor maneira de entender essa corrente estilística do cinema francês é conhecendo os filmes, em especial os da dupla Carné e Prévert, sem coincidência, o primeiro, cineasta, e o segundo, poeta. Além de “Trágico amanhecer”, “Cais das brumas” (38), “O boulevard do crime” (45) e “As portas da noite” (46).

Eram melodramas envolvendo crime e polícia, e, contudo, não devem ser confundidos com o cinema noir. Seu realismo podia ser sombrio e trágico, mas seus protagonistas – geralmente vencidos pelas circunstâncias – nunca eram vilões por essência e sonhavam com a felicidade, ainda que não a pudessem ter.

Caso, em “Trágico amanhecer”, desse modesto e bem intencionado operário François (Jean Gabin), que se apaixona por essa ingênua florista Françoise (Jacqueline Laurent) e logo descobre que ela tinha um compromisso escuso com um ardiloso homem de teatro, capaz de enfeitiçar cães e gente (Jules Berry).

Lutando contra o feitiço de Valentin, François o mata, e o corpo rola pela escadaria da pensão onde o operário reside. Trancado em seu quarto, François vai passar a noite acuado pela polícia, relembrando a estória que o transformou em assassino – uma estória que só nos chega em uma série de flashbacks cronológicos. Como o belo título original ironicamente sugere, o desenlace só ocorrerá ao fim da noite, quando “le jour se lève” / ´o dia se levanta´.

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Refiro-me ao título original porque, em alguns países, esse título contrastivo ao drama foi estragado. Se o brasileiro não o estragou, o estrago foi grande em Portugal, que, com seu mau costume de apontar e explicar o desenlace, reintitulou o filme de “Foi uma mulher que o perdeu”.

Lançado no início da Segunda Guerra, “Trágico amanhecer” recebeu reação negativa e o Governo francês chegou a bani-lo das telas, alegando estímulo ao derrotismo. Mais tarde, finda a guerra, toda a filmografia de Carné do período 38 a 46 seria interpretada pela crítica sociológica como uma espécie de premonição da derrota francesa junto ao nazismo.

Por falar em premonição, um movimento que, de fato, esteve na formação artística de Carné foi o Expressionismo alemão, embora ele não o tenha seguido ao pé da letra. Ao invés das alegorias e simbolismos explícitos alemães, Carné optou pela retratação fiel do real, ainda que essa retratação não elimine a existência de elementos simbólicos menos explícitos e, no caso, visceralmente integrados à estória narrada.

Jean Gabin é o operário acossado

Jean Gabin é o operário acossado

Em “Trágico amanhecer” há várias instâncias disso, por exemplo: as flores em close no primeiro encontro do casal, ou a imagem recorrente do espelho no quarto de François, quebrado em momento decisivo, quebra que, por sua vez, é uma prolepse do desenlace. Uma instância bem efetiva, para a dimensão metafísica do drama, é a figura daquele cego – espécie de Tirésias urbano – que encontra o cadáver do malfeitor nas escadarias da pensão, logo na abertura do filme.

Uma curiosidade en passant: Hollywood chegou a fazer um remake do filme de Carné, que Anatole Litvak dirigiu para a RKO, com Henry Fonda no papel de Gabin, mas claro, “Noite eterna” (“The long night”, 1947) é, segundo os comentaristas, indigno do original.

Na opinião de críticos e historiadores, Marcel Carné teria decaído vertiginosamente depois de dispensar a participação de roteirista do poeta Jacques Prévert, vindo a demonstrar, nos seus filmes posteriores a esta fase realismo poético (pós-1946), uma superficialidade que só o associa aos aspectos mais pedantes e falsos da cultura francesa, mas, esta é outra estória que fica para outra ocasião.

Por enquanto, sugiro que curtamos “Le jour se leve”…

O cineasta Marcel Carné

O cineasta Marcel Carné

Dentro da casa

17 abr

Por razões de saúde, perdi a última mostra Varilux de Cinema Francês, mas os amigos não deixaram de, com certa insistência, me recomendar um dos filmes exibidos, “Dentro da Casa” (“Dans la maison”, 2012), que só agora, em formato eletrônico, tenho a oportunidade de ver, realmente um filme digno de nota.

De saco cheio com a mediocridade reinante entre seus alunos adolescentes, um professor de literatura do Ensino Médio descobre uma exceção – um cujas redações são animadoramente promissoras.

O aluno, Claude, escreve sobre um colega de classe, Rafa, a quem ajuda com matemática e, nessa ajuda, termina por fazer o que sempre desejou: adentrar a sua residência e conhecer a sua bela mãe. O professor Germain nota o talento literário do aluno e decide que vale a pena nele investir.

Claude (Ernst Umhauer e Mr Germain (Fabrice Luchini) espiam casas alheias

Claude (Ernst Umhauer e Mr Germain (Fabrice Luchini) espiam casas alheias

Não haveria nada demais nisso, se as redações de Claude – sempre a continuar – não fossem se tornando cada vez mais indiscretas, penetrando o seio da família de Rafa de uma forma voyeurista e nem sempre ética. Fascinado pela escrita do pupilo, o Prof Germain vê-se numa encruzilhada, entre ser facilitador da aprendizagem e conivente de um comportamento politicamente incorreto e eventualmente perigoso.

O que fazer? O fascínio é tal que o Prof Germain não hesita em estimular o voyeurismo do pupilo, lhe dando pistas sobre como escrever e como agir (duas coisas que se confundem em Claude!), e, quando a situação se coloca, ele próprio, no anseio de não interromper o andamento da escritura, comete um pequeno delito.

Trata-se, evidentemente, de um filme sobre linguagem, porém, o mais interessante é como ele narra a estória, elaborando o processo narrativo junto com os dois protagonistas – o escritor e o seu crítico.

Claude, o aluno promissor

Claude, o aluno promissor

Vejam que o nosso acesso às redações de Claude segue uma progressão – primeiramente, de modo oral, lidas por Germain para sua esposa e para nós; em seguida, a câmera vai aos poucos substituindo a oralidade, e passamos a ver o que acontece entre as quatro paredes da residência “invadida” – inclusive a “conquista” da mãe do colega.

Isto progride até não sermos mais capazes de saber até onde vão o realmente acontecido e o ficcional. Nem nós nem o Prof German. Por exemplo, quando, em crise, Rafa beija Claude na boca, isto foi criação literária do redator, ou de fato aconteceu? Só vamos ter uma delimitação entre fato e ficção no dia em que – segundo a narrativa de Claude e, claro, segundo a câmera! – Rafa teria se suicidado depois de ver a mãe com seu melhor amigo, e o Professor, na escola, telefona para sua casa e fica sabendo que ele não veio ao colégio apenas por estar gripado.

Conforme já sugerido, o melhor do filme é a impressão que passa de que os personagens – e não os roteiristas! – estão escrevendo o roteiro do filme enquanto ele é projetado. É delicioso acompanhar as discussões, teóricas e práticas, entre Germain e Claude sobre a arte de escrever, porém, mais delicioso ainda é constatar uma discussão inexplícita – a de como se faz um filme sobre escrever e sobre filmar.

Com uma vantagem – os dois protagonistas, embora escritores em ação, não são meros modelos intelectuais, mas gente de carne e osso. Uma das conclusões a que se chega, por exemplo (expressa em um dos textos de Claude e melancolicamente confirmada pelo seu leitor e mestre), é a de que Germain seria um romancista frustrado que se realiza no pupilo. A verdade é que a identificação entre esse idoso mestre e seu jovem pupilo é tamanha que a esposa do professor chega a falar de homossexualidade tardia, embora, com mais acerto talvez, o desenlace – que não vou contar – sugira uma relação paternal.

Ernst Umhauer e Emmanuelle Seigner em cena do filme

Ernst Umhauer e Emmanuelle Seigner em cena do filme

Um eco em “Dentro da Casa” vem claramente do clássico de Hitchcock “Janela indiscreta” (1954), que, quase sessenta anos atrás, abordara o voyeurismo domiciliar e seus perigos. Lá a coisa ocorria de apartamento para apartamento; aqui – como sugere um maldoso Claude no final do filme – de qualquer jardim se observa as casas alheias e, acrescenta, “há sempre um jeito de entrar”.

Autor de filmes instigantes como “Sit.com” (1998), “Oito mulheres” (2002), “Potiche” (2010) e tantos outros, o diretor François Ozon é um dos expoentes do cinema francês contemporâneo. Este “Dentro da casa” só faz confirmar o seu enorme talento e nos deixa na expectativa de ver mais.

Como se sabe, a cinematografia francesa é uma das mais ativas da atualidade e é muito reconfortante constatar o quanto, nela, parece ter ficado resolvido aquele velho e falso dilema nacional entre fazer filme de “autor” (“auteur” é a palavra que vem da Nouvelle Vague) e fazer filme que agrade a um grande público. Em Ozon pelo menos, o equilíbrio é perfeito e o lucro é inteiramente nosso. Bravo!

Em tempo: esta matéria é dedicada a Alessio Toni.

O prof. Germain (Luchini) e a esposa (Kristin Scott Thomas) em momento íntimo.

O prof. Germain (Luchini) e a esposa (Kristin Scott Thomas) em momento íntimo.