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“Aquarius”: a música ao redor

5 set

Afinal em cartaz o tão esperado “Aquarius” (2016), filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho que, se não ganhou a Palma de Ouro, de todo jeito fez bonito no Festival de Cannes.

Estamos mais uma vez em Boa Viagem, Recife, e o cenário é um determinado edifício. Digo mais uma vez porque tivemos isto no anterior “O som ao redor” (2012). Agora, porém, o prédio é antigo e está à venda. Ou estaria, se uma moradora não estivesse mantendo o firme propósito de não vender o seu apartamento, o único ainda habitado no prédio todo.

A rigor, o filme é a estória dessa brava mulher, viúva e sexagenária, e começa anos atrás, em 1980, quando ela, ainda jovem, fora acometida de um câncer de mama. Ao câncer ela resistiu e, parece, trinta anos depois, resistirá à venda do apartamento.

A moradoura e seu edifício Aquarius

A moradoura e seu edifício Aquarius

A pressão é grande e vem de toda parte, até dos filhos, mas Clara resiste e, parece, resistindo fica mais forte. Naturalmente, a poderosa firma compradora – que quer construir um espigão modernoso no lugar – tem meios de atacar… e ataca. Uma figura expressiva desse poder é o jovem executivo Diego, (´mestrado em business nos Estados Unidos´) em sua juventude e agressividade, o principal antagonista de Clara.

Clara vencerá ou não? Bem, quem mais torce por ela é o roteirista do filme, construindo-a como uma verdadeira heroína, na acepção ´heroica´ da palavra. Como se não bastasse, a câmera (leia-se: o diretor) está “apaixonada” por ela, e não a larga, lhe dando todo o tempo de tela. E, a gente sabe que neste caso, roteirista e diretor são a mesma pessoa.

Para completar, a atriz é Sônia Braga, e o filme parece ter sido concebido para ela, que, depois de tanto tempo ausente das telas, soube, de fato, responder ao papel – diga-se de passagem – um papel, apesar do heroísmo, nada simples.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

Com efeito, um dos pontos altos do filme está na sinuosidade dos diálogos, uma boa saída para evitar maniqueísmo nas caracterizações dos personagens. Em várias ocasiões, as falas contêm vai e vens intrigantes mas oportunos. Exemplos: ao amante gigolô Clara diz, quase ao mesmo tempo, ´vá embora´ e ´me coma´. Ao salva-vidas sugere uma atração e nega. O empregado que vem avisar sobre a devastação do prédio refere-se à beleza de Clara e recua, deixando-nos sem saber se era mesmo assédio ou não. Etc…

Essa boa recusa de ser retilíneo estende-se à estrutura do filme como um todo e deságua no desenlace. Mesmo vencendo a causa contra os empresários construtores, quem garante que Clara poderá permanecer residindo num edifício destruído pelos cupins?

Nesse ponto, o fotograma final é emblemático: os cupins em plena atividade, justificando o nome desta terceira – e não da primeira! – parte do filme, ´o câncer de Clara´. A sugestão, naturalmente, é que o câncer esteve para Clara, assim como o cupim está para o edifício Aquarius. Sugestão que, bem apropriadamente, iguala a personagem à sua residência. Clara é Aquarius. Aquarius é Clara. Aliás, a sua atitude de não sair do prédio é a única, no filme todo, que tem direito a ser retilínea.

Os comentaristas de “Aquarius” têm feito comparações com “O som ao redor, e quase todas vêm ao caso. Uma pertinente está no território da trilha sonora. Vejam bem, ou melhor, escutem bem. Antes o “som” era poluição sonora; agora ele é música, muita música. E esta é uma diferença fundamental entre os dois filmes. Sem coincidência nenhuma, a profissão da agora aposentada Clara é qual? Crítica de música! Seu apartamento está repleto de discos em vinil, e ela vive dando conselhos musicais aos parentes, como faz com o sobrinho, de namorada nova: “Leve Bethânia pra ela”.

Sônia Braga é Clara.

Sônia Braga é Clara.

O belo “Hoje” de Taiguara abre e fecha o filme, que está cortado por músicas brasileiras e internacionais em praticamente todas as sequências. E, não deixemos de notar, até no diálogo a música insinua-se. Lembro ao leitor/espectador aquele momento extremamente tenso em que mãe e filha discutem, e o tema da venda do apartamento conduz perigosamente a questões de natureza particular. No clímax da discussão, diante de uma tirada ferina da filha, Clara detém-se e começa a solfejar uma cançãozinha que diz assim: “Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração…” E ela mesma acrescenta: “É Lupicínio Rodrigues”.

Ainda a propósito de música, uma curiosidade minha: em “O som ao redor” os personagens de Mendonça cantam, para a aniversariante, não o comum “Parabéns pra você”, mas as “Canções de cordialidade” de Villa-Lobos e Manuel Bandeira, e fazem isso, todos juntos, na ponta da língua, como se em Recife isto fosse habitual, quando se sabe que não é. Aqui ele repete a dose e não é uma vez só.

Enfim, “Aquarius” é apenas o segundo longa de Kleber Mendonça, e, claro, deixa-nos na ansiosa expectativa de mais.

Kleber Mendonça dirigindo...

Kleber Mendonça dirigindo…

The gracious little daughter is back

10 set

Em cartaz “Que horas ela volta?” (2015), filme da diretora brasileira Anna Muylaert que já arrebanhou prêmios no Exterior, e agora vem tendo boa aceitação de público e crítica em território nacional. De minha parte, sou admirador de Muylaert desde o ótimo “Durval discos” (2002) e este seu filme atual só aumentou a minha admiração.

Em roteiro caprichado, trata da situação de Val, essa simplória empregada doméstica de origem nordestina que mora na residência dos patrões paulistanos, no chique Morumbi. Há 13 anos no emprego, Val é “uma pessoa da casa” que ajudou a criar o único filho da família, Fabinho, por quem nutre um carinho de mãe, e é plenamente correspondida.

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Conflitos de classe não os há, ou se há, nunca vieram à tona. Isto até o dia em que aparece Jéssica, a filha de Val, que crescera em Pernambuco, criada por parentes. Moça instruída e esclarecida, vem a São Paulo para prestar vestibular e – a contragosto – fica no local de trabalho da mãe. Inevitavelmente, a sua presença “diferente” (palavra da mãe) acorda todos os conflitos de classe, antes convenientemente adormecidos em berço de ouro.

Tudo já começa no dia de sua chegada, quando ao invés de acomodar-se no pequeno e desumano quartinho de empregada, ela se instala no quarto de hóspedes da casa. Depois vêm o acesso à mesa da família, o consumo do sorvete mais caro, o banho proibido na piscina, e um monte de outros pequenos detalhes que insuflam indignações: as da dona da casa, e as da própria Jéssica. Até a inevitável ruptura.

Um ponto crítico está bem sinalizado no dia em que, não conseguindo o apartamento onde pretendiam morar, mãe e filha retornam, desoladas, à chique residência dos patrões. “The gracious little daughter is back”: é com esta sarcástica frase em inglês (´a graciosa filhinha está de volta´) que, na presença de Val, Bárbara comunica ao marido o retorno da moça. Val não entende inglês, mas deve ter sentido que falar língua estrangeira na presença de quem não entende é uma atitude deliberadamente hostil.

A piscina proibida

A piscina proibida

Mas os conflitos de ordem social não são os únicos no filme de Muylaert. Também há os conflitos interiores, especialmente aquele relativo às relações maternas e filiais, expresso na pergunta que intitula o filme. Vejam que há dois momentos bem diferentes em que a tal pergunta é enunciada no diálogo entre os personagens e sempre sem resposta. Uma sequência inicial, retrospectiva, mostra Val cuidando de Fabinho, ainda pequeno, lhe dizendo que a mãe está fora, e ele, então, formula justamente a pergunta “Que horas ela volta?”. Depois disso, quase no final do filme, quando mãe e filha já estão acomodadas em seu novo e próprio lar, um modesto apartamento de periferia, uma Jéssica rancorosa relata à mãe que toda vez em que esta ia visitá-la em Recife, e imediatamente retornava a São Paulo, ela, pequena e chorosa, perguntava aos que dela cuidavam: “Que horas ela volta?”. São, portanto, duas mães que, por razões pessoais, deixaram os filhos a mercê de outrem: Bárbara, a rica patroa, e Val, a pobre empregada.

Tudo indica que a estória do abandono filial se repetiria pós-tela, com a própria Jéssica que – nós e Val ficamos sabendo no final do filme – deixara um filho pequeno em Pernambuco. Digo, se repetiria, porque o filme termina com a decisão heróica de Val de criar o neto – uma espécie de compensação pelo involuntário e doído “abandono” da filha.

A família paulistana à mesa.

A família paulistana à mesa.

De qualquer forma, não há dúvidas de que Val, a empregada doméstica, é o personagem central do filme, aliás, a única que cresce ao longo da estória. Bárbara, a patroa, permanece igual a si mesma do início ao fim, e Jéssica, idem. É Val quem aprende a lição que o filme contém: é ela quem, no final, pode se dizer revolucionariamente, mete os pés na piscina proibida, e é ela quem furta o conjunto de talheres com que um dia presenteara a patroa irreconhecida. Se porventura era a sua postura sempre indistinta entre cumprimento de dever e submissão o que fazia os melhores efeitos cômicos do filme (excelente interpretação de Regina Casé), é o seu definitivo crescimento moral que vai dar ao desenlace o tom mais dramático, expresso em sua auto-demissão.

Na verdade, o filme de Muylaert é rico e permite muitas leituras. Uma delas pode ser política, se você quiser. E há pistas muito claras para isto. Por exemplo: logo após a chegada de Jéssica à mansão do Morumbi, D. Bárbara, um pouco admirada com o nível de esclarecimento da filha da empregada nordestina (que mais tarde seria aprovada no vestibular, e seu filho paulistano, não) comenta, quase de si pra si: “é, parece que o país está mudando mesmo…”.

Deixo aos mais aptos que eu o desenvolvimento desta leitura.

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).

Cinema armorial

21 dez

Criação de Ariano Suassuna, o movimento armorial já encontrou expressão em modalidades diversas de arte, porém, em cinema, nunca tão bem como nesse “Brincante” (2014), filme que está em cartaz na cidade e no país.

Foi preciso que Antônio Nóbrega – personagem e assunto do filme – e Walter Carvalho, o diretor, entrassem em harmonia perfeita e encontrassem, os dois juntos, o “espírito da coisa”. E quem assiste a “Brincante” não tem dúvidas de que encontraram.

Nele, coreografia, trabalho de câmera, música, fotografia, montagem… tudo está tão caprichosamente combinado que o efeito é deslumbrante para os olhos, para os ouvidos e, sobretudo, para a sensibilidade.

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Ao invés de entrevistar o artista enfocado – como seria a praxe num documentário convencional – Carvalho, mui sabiamente, preferiu pô-lo em ação, performatizando alguns dos quadros de suas peças já encenadas, acrescentando outros que pudessem sugerir um caminho fabulatório, por tênue que fosse esse caminho.

Mas isto, sem se preocupar em ser linear, ou melhor, com o intuito explícito de não sê-lo. De modo que, no filme por inteiro, não é tanto a diegese que vale, mas, ao contrário, sua atmosfera, ou seja, o imaginário, o maravilhoso, o fantástico…

Um de seus méritos é, com certeza, haver tão bem desgarrado o folclore de sua imobilidade mítica e lhe concedido uma vitalidade criativa, aquela que, se já estava no trabalho teatral do protagonista, poderia, se não bem manuseada pela direção, não estar na tela. E está.

Um exemplo entre tantos: prestem atenção ao ritmo do filme, que não vem só do corpo elástico de Nóbrega mas também dos enquadramentos, movimentos de câmera e montagem criativa de Carvalho, uma lição de cinema que evoca as melhores ousadias plásticas dos velhos Busby Berkeley da vida.

Antônio Nóbrega e suas muitas personas.

Antônio Nóbrega e suas muitas personas.

Se porventura os quadros cênicos parecem independentes entre si, não o são no espírito e o espectador percebe e, se for o caso, aceita esse jogo desde o início, até porque o elo encantatório é a figura mesma de Antônio Nóbrega esse palhaço, fantoche, mágico, saltimbanco, e tantas coisas mais, que, o que quer que faça, habita sempre o mesmo universo fantasioso que encanta e estimula a imaginação do espectador. Um universo que é nordestino… e não é.

Com efeito, seja como o camelô miraculoso vendendo o elixir que tudo cura ou como o Romeu caipira que vence a morte no diálogo (“de que quero morrer? Eu quero morrer de rir”), a mesma morte que vitimara sua amada shakespeariana; seja o dançarino que – verdadeiro Gene Kelly nordestino – transforma em frevo o folclórico “Ó mana deixa eu, ó mana eu não vou só…”, ou o mestre da ciranda que rodeia o MASP em São Paulo; seja o biográfico professor de dança em atividade didática, ou o espantalho mascarado que corta os episódios do filme como um bruxo assombroso… Seja o que for, faça o que faça, esse Tonheta é, junto com sua companheira Rosalina (a atriz Rosane Almeida, esposa de Nóbrega na vida real) o fator mágico que, em consonância com a mis-en-scène, tudo liga e concede unidade ao espetáculo fílmico.

Rosane Almeida, um alterego de Nóbrega

Rosane Almeida, um alterego de Nóbrega

Sim, porque aqui espetáculo e filme se confundem – um caso peculiar de um gênero em que nós, brasileiros, nunca fomos muitos bons, o musical.

A propósito da música e da dança no filme (sobretudo, a cena final da ciranda, que une todos os dançarinos num mesmo espaço cênico), o espectador sofisticado pode pensar na troupe medieval de “O sétimo selo” (Bergman), ou nos muitos finais com música e dança em Fellini, porém, a apreciação não necessita desses intertextos, que podem ou não ter ocorrido à produção.

Enfim, um filme delicioso e estimulante, para se ver e rever muitas vezes, e, – um aviso para quem ainda não assistiu! -, não se levantem de suas poltronas antes dos créditos finais, pois estes são um verdadeiro show à parte, digno de uma antologia do gênero.

No momento, não imagino obra mais oportuna para, em qualquer circunstância que seja, oficial ou oficiosa, representar o Brasil lá fora. Sim, – por que não? – deixemos os gringos saberem que, por trás da seca, da fome e da miséria, existe um Nordeste feérico.

Não sei se Ariano Suassuna, falecido neste ano, teve tempo de ver “Brincante”, mas, de minha parte, saí do cinema imaginando, na minha cabeça de cinéfilo rendido, uma cena muito especial: imaginei Ariano, lá no seu céu armorial, assistindo ao filme e aplaudindo… de pé.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Aléssio Toni.

O diretor Walter Carvalho em ação.

O diretor Walter Carvalho em ação.