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LANA TURNER: esquecer nunca

26 dez

Reprises fílmicas não se fazem mais. Nos cinemas, não, mas nos canais pagos de televisão, sim. No Canal CURTA, por exemplo, já tive o prazer de ver duas ou três vezes o documentário sobre a vida da grande atriz do período clássico do cinema, Lana Turner (1921-1995).

E cada vez gosto mais. A duração é só sessenta minutos e, portanto, não se perdeu tempo com muitos detalhes irrisórios. Assim, a infância e adolescência são abreviadas para que se passe logo ao que interessa: a carreira e a vida dessa que foi uma das mais brilhantes estrelas da constelação clássica.

Nascida na pequena Wallace, estado de Idaho em 1921, logo a família pobre se muda para São Francisco em busca de trabalho, e em seguida, para Los Angeles. Um dia, tomando um refrigerante numa lanchonete, um figurão de Hollywood se aproxima dela e, encantado com seu charme de adolescente, lhe pergunta se ela não gostaria de trabalhar em cinema. “Tenho que perguntar a mamãe” – é a resposta sincera dessa mocinha interiorana e ingênua.

Bem, mamãe consente e o resto da estória a gente mais ou menos conhece. Com 16 anos de idade, roda o seu primeiro filme, em 1937, “Esquecer, nunca”, um drama leve dirigido pelo também produtor Melvyn LeRoy, para quem trabalha em outros filmes mais ou menos obscuros, até ser comprada pela MGM. Aí a coisa pega. Depois de seu ousado papel da amante criminosa em “O destino bate a sua porta” (“The postman always rings twice”, 1946), sua imagem na tela passa a ser familiar para o mundo inteiro.

Entre filmes de aventura (“Os três mosqueteiros, 1948) e melodramas (“É proibido amar”, 1951), vai moldando seu perfil de ´golden blonde´ de acordo com os preceitos da MGM, mas, chamará  mesmo a atenção da crítica ao fazer o dramático papel de uma atriz hollywoodiana em “Assim estava escrito” (“The bad and the beautiful”, 1952), grande filme do grande Vincente Minnelli.

No papel da imperiosa Constance McKenzy em “A caldeira do diabo” (“Peyton Place”, 1957) desperta a atenção da academia e recebe uma indicação ao Oscar. Outro desempenho que seus fãs lembram com carinho é o da mulher batalhadora de “Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959). Já madura, seu último grande desempenho foi como a mãe torturada pelo destino, no melodrama “Madame X”. Já a sua derradeira aparição nas telas, “A poção mágica” não significa nada, salvo decadência.

Mas claro, o documentário abrange a vida privada de Lana Turner, até porque, nela, carreira profissional e coisas pessoais estão inevitavelmente interligadas. Nisso ajuda o longo e sentido depoimento de sua única filha, hoje madura, Cheryl Crane, que relata, sem reservas mas também sem alarde, as questões mais intramuros.

E aí passamos a conhecer as relações amorosas de Lana.

Ao longo da vida a atriz famosa teve vários casamentos, quase todos desastrosos, e, no entanto, dentre os homens com que se envolveu, não houve ninguém mais amado que o ator Tyrone Power, com quem nunca casou. Ocorre que, quando estava o casal de namorados no auge da paixão, ele viaja para a Europa para filmar “O sol também se levanta” e, por lá mesmo, contrai matrimônio com outra pessoa. Depois ela viria a saber que tudo não passara de uma trama da MGM com a Fox (companhia de Tyrone Power), companhias rivais que não queriam que seus respectivos empregados mais famosos contraíssem matrimônio entre si, e assim, assumissem um poder de barganha perigoso para ambas as companhias. O fato é que, segundo sua filha, Lana nunca esqueceu Tyrone.

Um dos casamentos turbulentos da atriz foi com Lex Baxter, de quem Lana, quando interrogada, dizia que “gosto de ficar olhando para ele”. Mas certamente não estava olhando no dia em que o ex-Tarzan assediou sexualmente sua filha de 14 anos. E o resultado foi, mais um escândalo e mais um divórcio.

Ainda mais grave foi sua relação com o mafioso Johnny Stampanato, relação cheia de violência que terminou em crime. Vendo um dia a mãe sendo espancada pelo amante dentro de casa, a filha Cheryl nos seus 16 anos – sim, a mesma que depõe no documentário – agarra a faca de cozinha mais próxima e o perfura no abdômen: a morte é instantânea. Caso escandaloso, ocorrido em 1958, que quase encerra a carreira da atriz, só restabelecida pela sua aplaudida participação em “Imitação da vida”.

Enfim, como esta matéria saudosista é também uma homenagem, fecho-a com o título, já mencionado, do primeiro filme de Lana Turner: ESQUECER NUNCA.

Não é o que diríamos dela?

Com Kirk Douglas, em ASSIM ESTAVA ESCRITO

Livre

29 abr

Aos vinte e quatro anos de idade, Cheryl Strayed estava à beira de um ataque de nervos: seu casamento acabara, sua mãe falecera e ela estava entregue a uma promiscuidade meio suicida.

Como sair da crise?

Ao invés de procurar o divã, ela decidiu que caminhar seria a solução. Botou nas costas o matulão e foi fazer o percurso do Pacific Crest Trail, a famosa trilha americana dos picos do Pacífico.

Caminhar é bom, se você está perto de casa. Acontece que a trilha do Pacific Crest recobre mais de quatro mil e duzentos quilômetros, começando no extremo sul dos Estados Unidos (limite com o México), até o extremo norte (limite com o Canadá), tudo isso através de área selvagem, entre desertos, montanhas, rios e florestas. Na geografia brasileira seria mais ou menos como você ir, a pé, de Porto Alegre até Boa Vista, em Roraima.

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Para completar, Cheryl não era nenhuma atleta: não tinha conhecimento da técnica de caminhar, nem qualquer treino físico. Por exemplo: o matulão que levava, com vários elementos supérfluos, pesava tanto que seu corpo franzino mal conseguia se equilibrar na vertical.

Mas foi, viu e venceu. Venceu a distância e a crise existencial. Tanto que juntou seus dotes literários e descreveu a experiência num livro que logo virou bestseller.

Inevitavelmente, o livro virou filme. Concorrendo ao Oscar em duas categorias, “Wild” (2014) foi denominado no Brasil de “Livre”, e já está disponível em DVD.

São quase cem dias de marcha e, naturalmente, fez-se necessário, na roteirização do percurso, uma seleção. Tentando ser fiel ao livro, o diretor Jean-Marc Vallée descreve a caminhada de Cheryl nos seus momentos mais dramáticos, que são de duas ordens: os problemas práticos, pertinentes à marcha em si, e os problemas emotivos, relativos a sua crise pessoal.

Citando exemplos ao leu: um deles é uma temida possibilidade de estupro por dois caminhantes de má fé que ela encontra na floresta; outro, é a lembrança dos maltratos que a mãe recebia do marido. Evidentemente, o roteiro tenta, quando pode, estabelecer algum tipo de relação entre as duas ordens.

Reese Witherspoon no papel de Cheryl Strayed.

Reese Witherspoon no papel de Cheryl Strayed.

Para dizer a verdade, ouso imaginar que “Livre”, a depender do tipo de espectador que o vê, permite duas leituras: como um filme de aventura e como um filme psicológico.

Na primeira hipótese, ele lembra – espero não estar sendo maldoso – uma gincana escolar, árdua e difícil, mas de todo jeito gincana; e aí, os muitos flashbacks mnemônicos da jovem viajante funcionariam como interrupções que retardam e põem em perigo o cumprimento da tarefa.

Na outra hipótese, são as relações familiares e suas dores o que mais interessa, ou mais que isso, a tentativa de superação e de crescimento pessoal da protagonista, tudo isso “interrompido” pelos muitos episódios da aventura pedestre, esta sempre duvidosa no seu suposto efeito de sanar os sofrimentos da alma.

Naturalmente, o grande lance é supor que aventura e psicologia se tocam e que, no toque, operam o milagre desejado – missão para um terceiro tipo de espectador, mais sutil e mais exigente.

Escolhida pela própria autora do livro, a atriz Reese Witherspoon faz muito bem a jovem desesperada que, ao meio de muitas dúvidas e ímpetos de desistir, no fundo acredita na “terapia Pacific Crest Trail” e – para sua própria surpresa – tem a coragem suprema de testá-la até o fim. Também convincente é Laura Dern no papel da mãe lembrada, só vista em flashbacks, mas de imagem marcante. Como atrizes, principal e coadjuvante, as duas tiveram indicação ao Oscar 2015.

Laura Dern faz a mãe de Cheryl.

Laura Dern faz a mãe de Cheryl.

Há, contudo, algo em “Livre” que o faz não funcionar bem, e que deixa o espectador, finda a projeção, um tanto e quanto insatisfeito.

O que seria? me pergunto. Ao drama familiar faltou força? A associação aventura versus psicologia não funcionou a contento? Ou o problema estaria no desenlace – digo, a breve e lacônica cena do término da jornada e do filme, não suficientemente expressiva em seu papel de simbolizar a redenção da personagem, aquela que, entre muitas outras coisas, justificaria, por exemplo, a interpretativa intitulação brasileira: “Livre”?

Enfim, mais um filme baseado em fatos reais, esse filão temático que o cinema anglo-americano atual descobriu, tão visível na lista dos indicados ao Oscar deste ano.

Realidade e ficção lado a lado: Cheryl e Reese.

Realidade e ficção lado a lado: Cheryl e Reese.