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Ida

24 mar

Um amigo polonês certa vez me contou que, na Polônia dos tempos comunistas, o ato mais revolucionariamente corajoso que os jovens cometiam era casar na Igreja, de véu e grinalda, com hino nupcial e tudo mais.

É que, sendo o país de tradição católica, o regime comunista lhe impunha, na força, um ateísmo mal vindo. Assim, enquanto, no mundo capitalista dos anos, digamos, cinquenta/sessenta, a rebeldia juvenil consistia em beber, fumar, dançar rock e fugir de casa, na Polônia de então casar na Igreja era o grande gesto de extrema coragem para jovens insatisfeitos com o status quo.

E por que estou falando disso?

É que acabei de ver “Ida” (2014), o filme polonês que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, e que, de alguma forma, tem a ver com a situação evocada por meu amigo.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

Em 1962, nesse convento afastado, vive a noviça Anna, que, junto com outras noviças, está prestes a receber os votos que a tornarão uma freira. Antes disso, ela é enviada pela madre superiora à cidade, para passar uns dias com uma tia que nunca vira, nem sabia que existia, pois, nos seus documentos de noviça do convento, constava que fosse órfã e sem parentes nem aderentes.

Meio alcoólica e de vida libertina, a tia Wanda mostra a uma Anna surpresa, fotos de seus pais, judeus exterminados pela guerra. Anna – agora identificada como Ida – termina sendo convencida pela tia a ir ao encalço do que restou da família, numa aldeia no campo, uma velha casa, onde hoje residem outras pessoas.

É no estábulo dessa casa que Anna vai ver os vitrais coloridos que, segundo a tia Wanda já lhe contara, a mãe colocara nas janelas, para as vacas se sentirem mais alegres. Um pequeno detalhe que dá à moça uma ideia de quem havia sido a sua genitora, uma figura certamente anti-convencional, criativa e cheia de vida. Indaga daqui, indaga dali, as duas mulheres são finalmente conduzidas, no meio de floresta densa e úmida, a uma verdade dolorosa, que prefiro não revelar ao leitor que ainda não viu o filme.

Tia e sobrinha partilhando dores

Tia e sobrinha partilhando dores

Deixem-me só dizer que retornando ao convento depois do choque, Anna dá-se conta de que não está preparada para os votos. Volta à cidade, para os funerais da tia, e decide que deve experimentar a vida como ela é. Põe os sapatos de salto e o vestido sensual da tia, fuma e se embriaga como ela fazia e se entrega sexualmente ao rapaz que conhecera no percurso.

Ainda na cama, o rapaz lhe sugere que fujam juntos, e ela pergunta “E depois?”. O rapaz responde que casariam e teriam filhos, e ela repete “E depois?”. E o rapaz, sem saber o que mais dizer, responde: “Sei lá, a vida”.

Cometidos todos os “pecados”, Ida repõe calmamente seus trajes de noviça e volta ao convento para toda uma existência de reclusão religiosa, e o filme se conclui com seu corpo em marcha e, bem frontal, seu rosto decidido a não ter “a vida” de que o rapaz falara…

Tirando o capuz de noviça

Tirando o capuz de noviça

Neste sentido, parece irônico – ou seria o contrário? – que o filme tenha recebido o título de “Ida”, e não de “Anna”.

De todo jeito, é bom frisar que estamos, neste filme, muito longe de qualquer esquema maniqueísta que, esquizofrenicamente, separe Anna de Ida. Por isso, no parágrafo anterior, tive o cuidado de por a palavra “pecados” entre aspas.

Acho que assistindo a “Ida” todo mundo vai lembrar-se de “Uma cruz à beira do abismo” (“The nun´s story”, 1959), filme que também narra a estória de uma freira (Audrey Hepburn), em certo momento, hesitante entre a fé e o mundo. No filme americano de Fred Zinneman, a freira escolhe o mundo; aqui a escolha é outra, mas, as semelhanças persistem.

Com exceção de Andrzej Wajda, Roman Polanski e krzysztof Kielowski, o cinema polonês é pouco conhecido entre nós. Sobre o primeiro escrevi, aqui, há pouco tempo, a respeito do seu filme “Walesa”, e quanto aos outros dois, como sabemos, são mais atuantes fora que dentro de seu país.

Na cama, mas...

Na cama, mas…

A direção de “Ida” é de Pawel Pawlikowski,  e a jovem atriz Agatha Trzebuchowska, que faz a personagem-título, o faz muito bem. Dou destaque, porém, à belíssima fotografia em preto-e-branco (Lucasz Zal), uma escolha cromática que, mui apropriadamente, faz o espectador recordar os muitos tons de cinza do cinema de arte europeu da época ficcional do filme em questão, final dos anos cinquenta, começo dos sessenta. Filmes como “Os incompreendidos”, “Acossado”, “Rocco e seus irmãos”, “A doce vida”, “Oito e meio”, “Os companheiros”, “Persona”, e tantos outros…

Esta matéria é dedicada a Jack Slosky, meu amigo polonês, hoje residente nos Estados Unidos. ida 1

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A história da eternidade

28 dez

Cenário de miséria e grandeza, desde há muito o sertão do Nordeste, esse locus nada amoenus, vem sendo fonte de inspiração para cineastas brasileiros, nordestinos ou não.

Pode ser um sertão pretérito, só lembrado, como em “O cangaceiro” e tantos outros filmes nacionais, ou um sertão de hoje em dia, como está no recente “A história da eternidade” (2014) do pernambucano Camilo Cavalcante.

Apesar do título, o filme de Cavalcante não conta uma história cosmológica ou metafísica. Conta apenas a estória de três mulheres de faixas etárias diferentes, que, num lugarejo qualquer do pobre interior nordestino, vivem dramas simultâneos, cada um deles com sua tragicidade particular, os três explodindo num mesmo momento diegético.

Cena de abertura de "A história da eternidade"

Cena de abertura de “A história da eternidade”

Dona Das Dores é uma senhora idosa, extremamente devota, que vive sozinha no seu casebre, e que é responsável pelos serviços religiosos do lugar. Um dia D. Das Dores recebe a visita do neto, advindo de São Paulo, um rapaz de cabelo pintado e de tatuagem nos ombros, cheio da ginga urbana que Das Dores desconhece.

Já Querência é uma mãe de meia idade que acabou de enterrar um filho pequeno e subsiste inconformada com a perda, deprimida e isolada entre quatro paredes. No seu luto escuro, não pensa em nada mais e até o cego sanfoneiro que todo dia lhe faz a corte, soa como algo inviável.

Quanto a Alfonsina, esta é uma adolescente que mora numa casa cheia de homens – o pai autoritário e muitos irmãos – mas que se sente atraída pelo tio vizinho, um artista tresloucado que choca o povoado com suas performances extravagantes. Com sua magia de artista, o tio chega um dia a fazer com que “o sertão vire mar” para a sobrinha imaginosa, porém, a moça parece querer mais que isso.

A atriz Débora Ingrid em cena do filme

A atriz Débora Ingrid em cena do filme

Como são três protagonistas, o filme se faz também tripartite. A apresentação da situação inicial dessas mulheres nos é dada numa primeira parte 1, chamada “pé de galinha”. Na parte 2 (“pé de bode”) os conflitos tomam forma, prometendo o beco sem saída da parte 3, esta mui apropriadamente chamada de “pé de urubu”.

O que acontece a essas mulheres? Não devo contar tudo, para não tirar o sabor a quem ainda não assistiu a esse filme intrigante e perturbador, e fico apenas com os elementos que apontam para o trágico desenlace.

Fuçando a bolsa do neto, D. Das Dores descobre revistas eróticas que mexem com seu velho corpo, o qual, apesar dos castigos aplicados por ela mesma, passa a desejar o corpo do neto. Querência, por sua vez, decide aceitar o amor do renitente sanfoneiro cego, porém, no dia seguinte desaparece do lugar. Já Alfonsina, depois de mais uma crise epiléptica do tio artista, a ele se entrega, em que pese a  relutância do amante… Notar que, em cada caso, o estopim que fará o desenlace explodir é um gesto de amor, bem simetricamente, o gesto de uma mulher que, sejam quais forem seus motivos de foro íntimo, se entrega a um homem.

A religiosa Dona Das Dores, na capela

A religiosa Dona Das Dores, na capela

Enquanto estamos na parte 1, o filme, de planos demorados e ações igualmente lentas, parece disperso, como se não estivesse sabendo como amarrar cenas tão diferentes entre si. É no “pé de bode” e, sobretudo no “pé de urubu” que o filme vai tomando conta do espectador e lhe fazendo crer estar diante de algo novo, pouco praticado no cinema brasileiro, quando a temática é Nordeste.

Sim, o filme nos prende pelo seu enredo, intricado, mas verossímil e convincente, principalmente por ser desenvolvido em um crescendo perfeito, que quase pode se dizer geométrico… até o final culminante. Prende-nos também pela verdade interior dos personagens, mas, um algo mais que o filme generosamente nos oferta é o seu simbolismo, sugerido nos animais que identificam suas partes, mas também em elementos que estão na diegese de modo aparentemente casual.

Zezita Mattos é a atriz brilhante que faz o papel de Das Dores

Zezita Mattos é a atriz brilhante que faz o papel de Das Dores

Um exemplo particularmente sintomático é o da tempestade que, no final, desaba sobre o lugarejo, como a liberar as forças – maléficas e/ou benévolas – contidas nos espíritos dos seus viventes, tantos os protagonistas como os coadjuvantes, inclusive os que nunca vemos, como os do automóvel que chega e parte, deixando no ar um disparo de revólver. Num filme convencional sobre a lida nordestina, a chuva torrencial seria necessariamente um fator de euforia: aqui sua ambiguidade (a mesma que está nos poemas recitados pelo tio artista) é fundamental.

Um dos pontos altos do filme está nas interpretações, todas ótimas, mas aqui ressalto o magnífico trio feminino que faz as protagonistas: Zezita Mattos (D. Das Dores), Marcélia Cartaxo (Querência) e Débora Ingrid (Alfonsina).

Enfim, um grande filme, destinado a ficar na história da eternidade do cinema brasileiro.

Em tempo: “A história da eternidade” foi exibido no Fest-Aruanda, na sessão de encerramento do festival.

A premiação de "A história da eternidade".

A premiação de “A história da eternidade”.

Futebol de Butão

26 jun

Atenção, caro leitor, antes de algum malentendido, o título deste artigo está gramaticalmente correto! “Butão” (com “u”) não é nome de objeto, e sim, de um país asiático, cenário do filme que aqui comento.

Pois é, sobre as altivas encostas do Himalaia, imprensado entre o norte da Índia e o sul do Tibete, está o reino de Butão, um país tão diminuto que o trocadilho de seu nome com o termo português de que é parônimo (‘botão’) não seria fora de propósito: sua área total é de 47 mil km quadrados, ou seja, nove a menos que o estado paraibano.

Tão pequeno que nem produção cinematográfica tem. Ou melhor, não tinha até algum tempo atrás, quando o monge Khyntse Norbu resolveu levantar fundos para rodar o que seria, e foi, o primeiro filme butanês da História, A copa (Phörpa, 1999). Com alguns contatos na longínqua Austrália (co-produção) e um orçamento mínimo, roteirizou uma estória verídica, por ele testemunhada num convento budista.

E o que pode acontecer num convento budista, se não, muita meditação e pouquíssima atividade?

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Nada disso. Os monges não são assim tão paradões como se poderia pensar. Às escondidas dos superiores adoram, por exemplo, bater uma peladinha nos arredores do convento e, como não dispõem de bola, uma lata vazia de coca-cola (!) resolve o problema. Para ser franco, adoram futebol e a estória verídica de Norbu acontece justamente durante a Copa do Mundo de 1998.

Alguns deles, mais fanáticos e mais corajosos, escapam do convento à noite para as vizinhanças onde assistem aos jogos da Copa num televisor coletivo. Quando isso não é mais possível, se desesperam, principalmente agora que se aproxima o dia do jogo final, entre França e Brasil. O jeito é se cotizar para alugar um aparelho de TV, com antena parabólica e tudo mais: só que, antes disso, precisam da autorização dos superiores, sobretudo a do Damai Lama.

De roteiro simples, para não dizer singelo, o filme desenvolve essas providências e seus inúmeros atrapalhos, passeando, sempre com humor, nas fronteiras entre devoção religiosa e paixão futebolística. Quando o abade, a pedido dos monges, vai solicitar ao velho Dalai Lama a autorização para o aluguel da TV, este pergunta o que vem a ser futebol. “Uma luta entre países por uma bola”, é a resposta. E ele, admirado, indaga: “Mas há violência? Há sexo?” Só depois disso o consentimento é dado, e no dia do jogo final, quando o próprio Dalai Lama se põe diante do vídeo de TV, o seu rosto curioso e estarrecido já é um show à parte.

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Naquele dia fatídico o Brasil perdeu para a França (vocês lembram!), mas no filme de Norbu seria o caso de se perguntar quem ganha a partida, se o budismo ou o futebol.

A considerar a estória privada do protagonista parece que a vitória vai mesmo para o primeiro. O jovem Orgyen (o ator Jamyang Lodro), autor da idéia do aluguel do aparelho televisivo, não consegue assistir ao jogo em paz, simplesmente porque forçara um novato a emprestar uma jóia de estimação, doada pelo pai, que no caso foi penhorada, e será vendida se a quantia total do aluguel não for arrecadada até o dia seguinte. Em dado momento, abandona, desesperado, a sala do jogo e vai cascavilhar, no seu quarto, os seus próprios pertences, em busca de algo que complete a despesa. Descoberto pelo abade, a quem tem que explicar o problema, ouve deste duas frases com uma conseqüência: “Você é um péssimo comerciante”. “Será um grande monge”.

Ao se pensar que todo o elenco é formado de monges amadores e que esta foi a primeira empreitada de Khyentse Norbu, não dá para não simpatizar imensamente com um filme em que futebol e budismo não são as únicas paixões: cinema também. No caso, um cinema (aparentemente?) inocente, com aquela delicadeza de gestos que só os asiáticos conseguem ter. Como o assunto é indiretamente o Tibete, o espectador pode lembrar de filmes recentes como Kundun (1997) e Sete anos no Tibete (idem), porém, o estilo parece menos com qualquer coisa feita em Hollywood e muito mais com essas películas de roteiro mínimo advindas, por exemplo, do Irã.

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Uma cena sintomática: durante o jogo falta energia elétrica e os monges, por falta de outra opção, se divertem contando estórias com sombras nas paredes. Um deles começa a contar a estória de um coelho, quando a energia volta e o jogo prossegue. No desenlace, passada a Copa e retomada a tranquilidade da vida no Convento, um dos monges pergunta como teria terminado a estória do coelho. “Não sei por que as pessoas são tão obcecadas por finais”, responde o seu interlocutor. “o final não conta: o que interessa é o processo”.

Como se vê, uma máxima budista, não sei até que ponto aplicável ao futebol. De todo jeito, aplicável ao filme.

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Tatuagem

4 fev

Nos anos setenta, um soldado do exército conhece, se envolve e é conquistado por uma turma de gente libertina e marginal que, com muito sexo, escândalo e música, contesta o status quo.

Não já vimos esse filme? Não se chama “Hair”?

Pois é, não sei até que ponto a equipe de “Tatuagem” (Hilton Lacerda, 2013) está consciente disso, mas, o filme pernambucano, que estreou esta semana em João Pessoa, tem um argumento semelhante.

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Por outro lado, o filme de Lacerda, que levou três prêmios em Gramado – inclusive o de melhor filme – talvez não precise de comparações. Conta a vida difícil da troupe ´Chão de Estrelas´ que, nos arredores de Recife, encena seus espetáculos debochados para uma platéia sempre fiel e incrivelmente participativa.

Clécio, o cabeça do grupo (Irandhir Santos), é descasado, com filho adolescente e, como quase todos na troupe, é gay. Sua vida toma novo alento ao ser apresentado a esse soldado raso, Fininha (Jesuíta Barbosa), cunhado de seu colega Paulete. É amor à primeira vista, e, depois de pouco papo, os dois já estão dançando, se beijando e fazendo amor, uma transa tórrida, da qual se permite que o espectador veja tudo.

Um ator gay e um soldado do exército brasileiro no tempo da ditadura, os dois apaixonados? É possível imaginar como as coisas vão se complicar, e mesmo, como as complicações serão previsíveis.

Não conto o resto da estória, mas devo dizer que as performances no ´Chão de Estrelas´ vão ficando cada vez mais ousadas, sexualmente e, por tabela, politicamente. O grande show sobre ´a democracia do ânus´ (a palavra usada, naturalmente, é a outra, aquela que começa com /c/ e termina com /u/) é o ápice do deboche, que leva a polícia a proibir o espetáculo, e, na ocasião de uma apresentação teimosa, fechar o recinto.

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Enquanto isso, para provar o seu amor – questionado pelo companheiro, em vista de seus compromissos militares – Fininha fizera uma tatuagem no peito com a letra “C” (de Clécio) e não só isso, passou a integrar o quadro de atores da troupe, dançando, como todos, despido e mostrando o – digamos – elemento democrático ao público.

Num filme onde o deboche é chave, tinha que haver um certo nível de caricaturização, tanto dos personagens como dos ambientes. Notem como a casa de Fininha é maldosamente brega e chapada, isto na proporção direta em que o Cabaré é desbundado e feérico. Um tom dissonante nessa dicotomia é mesmo a figura de Fininha (excelente desempenho do jovem Jesuíta Barbosa), que, sem ter o deboche da troupe, não se enquadra em casa, e muito menos no terceiro cenário do filme, o quartel.

As cenas finais não são tão drásticas quanto a de “Hair”, mas, são igualmente desiludidas: sem perspectivas profissionais, Clécio cuida da família, enquanto tem notícia de que, Fininha, agora em São Paulo, não consegue arranjar emprego… por causa da tatuagem no peito.

Como dá para perceber, o roteiro é simples e pode ser resumido na fórmula tradicional ´X conhece Y´, porém, o interessante em “Tatuagem” é, além da construção dos personagens, a criação e manutenção da atmosfera, grande parte da qual advém do palco, o que concede ao filme um jeito indisfarçado de musical. Com efeito, sem os seguidos shows dos dançarinos e cantores, “Tatuagem” seria um curta… e, suponho, de menor qualidade.

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Resta lembrar que “Tatuagem” não saiu do nada; é – digamos assim – “um filme de contexto”, e o contexto é o efervescente atual cinema Pernambuco, do qual Hilton Lacerda vem sendo um partícipe fundamental, até então na condição de roteirista. Produções significativas como “Baile Perfumado”, “Amarelo manga”, Árido movie”, “Baixio da bestas”, “A festa da menina morta” e “A febre do rato” foram roteirizadas por ele e, inevitavelmente, trazem seus traços.

Só para ilustrar, um exemplo pode ser dado com um certo lance brincalhão de pregação ideológica, que vem claramente de “A febre do rato”, filme sobre um ideólogo epifânico, conscientizando o povo nas ruas de Recife através de um jornaleco e de seus discursos poético-filosóficos. Em “Tatuagem”, o correspondente é aquele personagem que, no início da estória, fazia apenas parte da platéia do cabaré, mas que é depois chamado ao palco para suas recitações e que, no desenlace, se revela – a nós e à imprensa – o cineasta que vai fazer o filme metalinguístico sobre tudo o que aconteceu até agora…

A respeito das cenas de sexo explícito, não nos escandalizemos: em salas vizinhas, elas também estão acontecendo, no dinamarquês “Ninfomaníaca” e no americano “O lobo de Wall Street”.

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Relembrando D. H. Lawrence

4 fev

A televisão paga exibe “Filhos e amantes” (“Sons and lovers”, 1960, de Jack Cardiff) e, vendo o filme, me divirto, recordando os meus primeiros contatos com D. H. Lawrence, o autor adaptado.

Meados dos anos setenta eu fazia o curso de Letras – habilitação Inglês – e a professora de literatura inglesa era uma entusiasta de Lawrence, embora, como boa feminista, não deixasse de denunciar a sua disfarçada misoginia.

Engraçado, na época não me ocorria, mas hoje me dou conta de que as idéias da força do instinto sobre o espírito e da liberação do corpo em Lawrence vinham a calhar com as práticas do momento, digo, o movimento hippie em curso. Só que – não esqueçamos – o romance “Sons and lovers” era muito mais antigo, escrito e publicado em 1913, numa Inglaterra ferrenhamente conservadora. Aliás, toda a literatura de Lawrence bateu corajosamente contra o conservadorismo inglês. Veja os seus outros romances, “O arco iris” (1915), “Mulheres apaixonadas” (1920) e o mais popular “O amante de Lady Chatterley” (1928)

"Filhos e amantes": conflitos familiares.

“Filhos e amantes”: conflitos familiares.

Quanto ao filme do também inglês Jack Cardiff, confesso que não o conhecia. Deve ter sido exibido localmente, pois concorreu ao Oscar do ano de 1960 (perdeu para “Se meu apartamento falasse”): eu é que fiquei de fora, talvez por causa da censura.

Não sei na época, mas, visto hoje, “Filhos e amantes” parece inofensivo. Não tem mais – e não sei se teve na estréia – o ardor que os leitores de Lawrence um dia encontraram em suas páginas. De qualquer forma, é a adaptação de um grande romance, um dos maiores do seu século, e merece atenção.

No enredo não acontece muito e a coisa toda é uma espécie de ´iniciação´ do jovem Paul Morel, sua relação doentia com a mãe, suas tentativas de superar a pobreza e encontrar um caminho profissional na pintura, e suas primeiras e frustrantes aventuras amorosas. Se essa escassez de estória no romance não incomoda, em cinema, sim.

Creio que o que mais nos prende ao filme de Cardiff são as excelentes interpretações e a bela fotografia em preto e branco de Freddie Francis, aliás, o único Oscar ganho. A propósito da fotografia, as ruas feias do lugarejo, os interiores pobres, a paisagem rural, o caminho para as minas, e – uma cena marcante – a explosão de uma delas, com o povo se dirigindo ao local do acidente, cada um com medo de encontrar um parente morto: visto em ângulos angustiantes, tudo isso parece documentário, daqueles que os ingleses, na tradição de um Grierson e de um Cavalcanti, sabiam fazer tão bem.

Dean Stockwell, semelhança física com James Dean

Dean Stockwell, semelhança física com James Dean

No elenco notemos o jovem e charmoso Dean Stockwell, que lembrava James Dean, embora nunca tenha alcançado a fama. Na estória, o seu grande antagonista é o pai, mineiro sem instrução que despreza as intenções artísticas do filho – desempenho estupendo do veterano Trevor Howard, aliás, indicado ao Oscar.

Enredo escasso e excesso de plástica, devemos dizer que isso tinha a ver com o diretor Jack Cardiff, já na época considerado um dos melhores fotógrafos (e não cineasta) de todos os tempos, aplaudido pela fotografia de filmes como: “Narciso Negro” (Michael Power e Emeric Pressburger, 1947) “Sapatinhos Vermelhos” (Power e Pressburger, 1948), “Sob o signo de Capricórnio” (Alfred Hitchcock, 1949)“Pandora” (Albert Lewin, 1951), “Uma aventura na África” (John Huston, 1951), “A condessa descalça” (Joseph Mankiewicz, 1954) e “Guerra e paz” (King Vidor, 1956). Quando passou a dirigir (“Filhos e amantes” é o seu terceiro filme), parece que Cardiff não conseguiu se livrar da primazia da plástica sobre a fabulação.

A cena do acidente na mina: como se fosse documentário.

A cena do acidente na mina: como se fosse documentário.

Com razão, a crítica aponta, em sua filmografia, a obsessão com a composição dos enquadramentos, por vezes subestimando a natureza essencialmente narrativa do cinema.

De minha parte, em “Filhos e amantes” notei uma certa esquematização do drama, que torna o diálogo por vezes duvidoso. Refiro-me, por exemplo, àquele momento dramático em que o Sr Morel, dentro de casa, acusa a esposa de ter estragado o filho com sua possessividade e seu ciúme, o que é verdade para quem acompanha a estória, porém, são verdades complexas que não se espera sair, formulada em palavras difíceis, da boca de uma mente pouco perceptiva como a desse mineiro, bronco e raso. Este é um defeito de roteirização, ou vem do romance? Não tenho condição de dizer.

Teria sido bom ver “Filhos e amantes” ao tempo de seu lançamento, começo dos anos 60, época do ousado Free Cinema inglês, do qual, aliás, o filme de Cardiff, produção da Fox, nada tem. Melhor ainda, (re)vê-lo em 1975 e tê-lo confrontado com o livro estudado em classe. Vê-lo hoje vale pela evocação de Lawrence.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Maria das Vitórias Lima Rocha.

O escritor D. H. Lawrence

O escritor D. H. Lawrence

Antes da televisão

20 out

O rádio foi sempre um elemento presente no cinema, mas, duvido que homenagem maior lhe tenha sido feita do que a que recebe no filme de Woody Allen, “Radio Days” (1987), no Brasil chamado de “A era do rádio”.

Entre saudosista e irônico, biográfico e imaginativo, o filme conta, não tanto uma estória, mas um apanhado de episódios que giram em torno de uma família pobre do bairro judeu de Rockaway, Nova York, mais ou menos num périplo que vai de 38 a 44. Todo narrado em voz over pelo próprio Allen, “Radio Days” tem estatuto de flashback, e um roteiro que é todo cerzido pelas muitas canções da época. De Cole Porter a Glenn Miller, passando por Ary Barroso e Carmem Miranda, a trilha, sempre diegética e determinante dos episódios narrados, concede ao filme um certo jeitão de musical.

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 Mas, claro, nem só de música vive o filme – uma força decisiva vem da capacidade de persuasão da palavra oral, no caso, aquela que se escuta no rádio caseiro, seja o assunto as incríveis aventuras do Vingador Mascarado, ou o diário show do café da manhã das socialites, ou porventura a reportagem sobre uma catástrofe local, como aquela da menina soterrada. O personagem central é esse garoto (de 8 a 12 anos), filho único, cuja mãe abomina a vida que leva, cujo pai esconde a profissão que tem, e há ainda uma tia solteirona especialmente infeliz nas relações amorosas. Aliás, os dois únicos personagens a ganharem um relativo desenvolvimento narrativo são essa Tia Bea (Dianne Wiest), com seus inúmeros pretendentes, e Sally, a vendedora de cigarro (Mia Farrow) que, depois de quebradas de cara, alcança, por vias improváveis, um certo estrelado no rádio. Os episódios narrados teriam sido testemunhados pelo garoto,- uma espécie de alterego de Allen – que os viu de perto, dentro de casa, ou no bairro, ou que simplesmente deles ouviu falar, ou melhor ainda, com a ajuda de Allen, os inventou, caso bem óbvio da narração radiofônica do jogador de beisebol que, por acidente, foi perdendo partes do corpo.

Em muitos casos esses “episódios” estão possuídos de uma certa autonomia narrativa, como se valessem por “curtas” dentro de um longa, como se dá com o acidente que abre o filme: dois ladrões em ação atendem o telefone e – surpresa – tratava-se de um programa de rádio para os ouvintes dizerem qual música está sendo executada no momento: o ladrão conhece as três músicas, dá as respostas e deixa o enorme prêmio para a família roubada. Outro episódio completo que vem ao caso é o dos garotos que espiam a vizinha nua, e na semana seguinte, a belezona lhes aparece como professora da escola, e um deles, acometido de culpa judaica, deduz que eles e seus colegas vão todos para o inferno.

Patéticos ou líricos, alguns desses episódios também servem para demarcar a época, como o incidente com o namorado de Bea (a tia solteirona), que a abandona dentro do carro num lugar ermo, com medo da invasão de ETs, transmitida pelo rádio – a gente sabe – na voz fake de Orson Welles em 1938. Outra marcação evidente é a do anúncio radiofônico do ataque a Pearl Harbor, interrompendo um número musical. Vejam que o filme termina com a comemoração do ano novo de 1944, e o faz muito bem, pois – também sabemos – logo depois disso um novo meio, a televisão, começaria a tomar conta dos lares americanos, empurrando o rádio para uma posição secundária.

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Um mérito especial está no modo como, na concepção dos episódios, o roteiro combina o público e o privado; é o caso da surra que o pai está dando no garoto, no exato momento em que uma rádio local transmite o triste caso da menina que caiu numa cratera e, depois de muitos esforços dos bombeiros, não pôde ser salva e morreu: é a comoção com o fato que vai transformando aos poucos as pancadas paternas no corpo do menino em gestos de extremo carinho.

Uma coisa a notar é como, sendo o rádio o tema, o filme tem o cuidado de não tratar de cinema, quando se sabe que a época enfocada era também a áurea da sétima arte. Para não misturar as bolas, os personagens quase não falam de cinema, uma das poucas exceções sendo aquela cena na praia em que os três garotos, falando de suas musas da tela, ouvem um deles mencionar Dana Andrews, como se se tratasse de uma mulher. Resta observar a força da imagem num filme sobre uma mídia oral como o rádio, com o detalhe de, às vezes, a imagem chegar a substituir a oralidade desse meio, conforme acontece no relato do jogador de beisebol, por exemplo. No mais, a fotografia em si mesma, tanto fiel à época quanto criativa, é um item todo especial, com os tons frios (tendentes a azul) escolhidos para a paisagem e os quentes (inclinados ao vermelho) para os interiores.

Enfim, “A era do rádio” pode não ser um Woody Allen maior, mas, com certeza, é um dos mais saborosos.

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