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“Vidas Amargas” com amigos

18 abr

Fui recentemente convidado por um grupo de amigos para conversar sobre cinema, e o filme escolhido foi “Vidas amargas” (1955). Esta matéria contém as anotações do meu comentário sobre esse clássico de Elia Kazan, que considero um dos filmes mais importantes do seu século.

Acho que há várias maneiras de ler “Vidas amargas”, e aqui não faço mais do que imaginar e sugerir algumas – quatro, na verdade, cada uma delas tendo a ver com as outras três.

Uma primeira sugestão de leitura seria colocá-lo no contexto de sua década, como um daqueles filmes que empreenderam os primeiros bombardeios ao “bom” conceito de família.  Até então esse conceito sagrado era salvaguardado pelo Código Hays de Censura, e pouca gente em Hollywood tinha a coragem de problematizá-lo. Creio que o símbolo mais concreto dessa condição intocável da família estava na imagem da cama de casal que aparecia nos filmes hollywoodianos até então: sempre dupla, uma em um lado do quarto, a outra, no outro lado, como se papai e mamãe não fizessem sexo. De repente, uma certa Hollywood, mais ousada e corajosa, começou a quebrar tabus, com filmes que, não apenas passaram a falar de sexo doméstico, mas a mostrar a roupa suja nos bastidores familiares.

Na segunda metade dos anos cinquenta, muitos filmes fizeram isto: com maior ou menor consequência recepcional, ou estética, entrariam nesse rol, por exemplo, “A caldeira do diabo” “Férias de amor”, “Imitação da vida”, “Amores clandestinos”, “Juventude transviada”, e outros mais. E “Vidas amargas” foi um dos primeiros a ter essa coragem.

Relembremos o grosso do seu enredo: supostamente viúvo, o fazendeiro Adam Trask (Raymond Massey) é pai do consciencioso e sensato, Aaron (Dick Davalos), filho predileto, e do rebelde e inconsequente Cal (James Dean). Acontece que este último detém um segredo que partilha conosco: ao contrário do que sustenta o honrado fazendeiro, não longe dali vive Kate (Jo van Fleet), a mãe dos dois rapazes, uma mulher estranha, dona de bordéis e bares, altamente respeitada na esfera mundana, que, sufocada um dia pelo moralismo do marido, abandonara o lar. Quando o fazendeiro cai em dificuldades financeiras, Cal procura essa mãe marginal e lhe pede uma grana para, sem que o pai saiba, plantar feijão, aproveitando a subida de preços, decorrente da Guerra Mundial. No dia do aniversário do pai, um Cal ansioso para agradar oferece a quantia ganha com os feijões como presente e é rechaçado pela indignação paterna, que só vê desonestidade no ato de se lucrar com a morte de soldados americanos. Confuso e em crise, Cal conduz Aaron ao bordel onde vive a mãe maldita e o resultado é a fuga do irmão e uma trombose do pai.

James Dean e Raymond Massey em cena final.

Uma outra forma de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de James Dean. De modo trágico, o jovem ator faleceu no ano de sua estreia e o mito, ajudado por seus dois outros filmes (“Juventude transviada” e “Assim caminha a humanidade”), logo tomou forma e cresceu. Nos três filmes, Dean fazia o papel de um jovem rebelde e/ou incompreendido, com quem uma parcela enorme de espectadores jovens passou a identificar-se. Os estudos de sociologia do cinema têm confirmando as mudanças comportamentais ocorridas na época em função dessa identificação. Por outro lado, vale lembrar que Dean foi o típico ator kazaniano. Veio do Actors Studio (que Kazan fundou) e foi descoberto para o cinema por Kazan. Por ter conseguido um primeiro lugar em teste para o Actors, foi contratado para os palcos da Broadway, onde protagonizou a peça “O imoralista”, baseada no livro de André Gide. Nessa peça, Dean interpretava o homossexual que afirmava sua homossexualidade de forma ostensiva, quase cruel, quase misógina. Kazan assistiu à peça e o solicitou para o papel de Cal em “Vidas Amargas”. Em entrevista, o próprio Kazan conta, com certa ironia maldosa, o quanto gostou do fato de que a relação de Dean com o pai era difícil, do mesmo modo que, durante as filmagens, foi difícil a relação de Dean com o ator veterano Raymond Massey (Adam Trask, o pai) que o detestava: tudo isso foi assumidamente usado como “laboratório” para o filme – era parte do “Método” de Kazan.

O presente recusado: conflitos entre pai e filho

Uma terceira e inevitável maneira de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de Kazan. Se comparado aos outros dezoito filmes do autor, vamos notar o quanto ele é característico de seu estilo, ao desenvolver o tema que foi o mais central em Kazan, a saber, o do outsider – outsider no grupo social, na família, ou no mundo, tanto faz. Trata-se de uma adaptação do livro de John Steinbeck, porém, Kazan cortou o que não interessava aos seus propósitos e centrou na figura do inadaptado Cal. Como nos seus filmes mais marcantes, há dois tipos de conflito, um externo (aqui, um pai puritano e uma mãe prostituta), outro, interno (o de Cal, que não consegue se fazer compreender, nem dentro, nem fora da família). O conflito interno é sempre o mais importante, porque é o que demarca o protagonista como essencialmente outsider – condição que parece ter sido a do próprio Kazan, aliás, confirmada em entrevista por ele mesmo – um eterno imigrante nos Estados Unidos, e, como se não bastasse, malquisto em vista de sua delação na Comissão de Atividades Anti-americanas.

É verdade que o personagem de Cal é, no desenlace, redimido pelo perdão paterno, mas, o que fica para o espectador é a sua condição marginal e ambígua, aliás, sugerida pela óbvia remissão bíblica, expressa já nos nomes do trio masculino: Adão (Adam), Abel (Aaron) e Caim (Cal).

Cal na roda gigante com a cunhada Abra.

Resta ler “Vidas amargas” em si mesmo, enquanto realização cinematográfica que atinge um nível de qualidade inquestionável. Para tanto, seria o caso de observar o quanto a sua forma expressa o seu conteúdo de modo estético e efetivo. Esse fato se dá em todos os aspectos do filme, da música à montagem, da fotografia às interpretações, mas, para efeito de análise chamo apenas a atenção para o modo sistemático e impressionantemente eficaz como a câmera efetua os enquadramentos, sobretudo nos momentos mais dramáticos, como: (1) na primeira visita de Cal ao bordel que a mãe administra, do qual ele, aos protestos, é expulso à força: (2) em casa, no aniversário do pai, quando o dinheiro do feijão plantado é impiedosamente recusado, o filho, em prantos, abraçado ao corpo paterno; (3) na trágica terceira e última visita ao bordel materno, agora com o irmão sendo literalmente empurrado para os braços de uma mãe indesejada. Na ocasião, com apenas dois anos de emprego, a técnica do cinemascope era novidade e, em vista de sua extensão horizontal, havia o preconceito quanto a sua possibilidade de expressar os desvãos da alma humana: Kazan é o primeiro a, na prática, derrubar o preconceito.

Como disse acima, estas quatro alternativas de leitura de “Vidas amargas”, só estão separadas para efeito de análise, quando, na verdade, elas se imbricam em um conjunto coeso, possivelmente mais pertinente do que suas partes.

Em tempo: esta matéria é, com carinho e admiração, dedicada a Zezita Matos.

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