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GODARD E SEU TRISTE FIM

28 maio

Não. Não é do cineasta francês de “Acossado” que vou tratar, mas de um outro “Godard” que visitou o Brasil e aqui morreu, um pouco antes de o cinema ser inventado.

Sim, Arsênio Godard morreu em 1894, no Rio de Janeiro, mas é hoje personagem de cinema. Está no telefilme de Adolfo Rosenthal “O triste fim de Arsênio Godard” (2011), há pouco exibido no Canal Futura.

A estória é a seguinte. Estamos nas águas da Baía da Guanabara, entre 1893 e 1894, em plena “Revolta da Armada”. Se vocês ainda lembram as aulas de História do Brasil, o presidente da época era Floriano Peixoto, ditador militar, conhecido como “o Marechal de ferro”. Ainda monarquista, a Marinha se revolta contra seu governo, considerado ilegítimo, e vários couraçados e outros navios de guerra estão a postos na Baía, prontos para atacar e, se for o caso, retomar o poder.

A um desses navios, onde o filme inteiro decorrerá, chega a notícia de que alguns espiões estão por perto, rondando a armada. Sob as ordens do comandante, sai uma tropa, cortando a Baía à noite, para a captura. Não encontram um grupo de espiões, mas um só: no caso, o nosso Arsênio Godard, um mercenário francês que os marinheiros trazem amarrado feito um saco de batatas e depositam aos pés do Comandante do navio. Na condição de estrangeiro, Godard exige os seus direitos de cidadão, mas, segundo as duras palavras do intransigente Comandante, não tem direito algum, e é levado à solitária onde deve passar a noite, imaginando que terríveis castigos receberá na manhã seguinte.

Fuzilamento? Forca? Afogamento? Que nada! O castigo foi mais sutil e mais cruel. Sob determinação do Comandante, o mercenário francês podia circular dentro das dependências do navio onde quisesse, sempre acompanhado de um vigilante pessoal; podia dormir no mesmo compartimento dos marinheiros; podia fazer refeições com o corpo diretor e, num tempo de escassez, podia beber e comer tudo o que fosse servido à mesa. Com um pequeno detalhe, e este terrível detalhe era o castigo: ninguém no navio podia lhe dirigir a palavra.

Depois de inúmeras tentativas inúteis de estabelecer um diálogo com a tripulação, essa “tortura do silêncio” vai minando o espírito de Godard e, meses depois, o mercenário francês enfraquece e começa a apresentar sintomas de insanidade.

Até que um dia perde o controle, toma a arma do vigilante de plantão e o ameaça de morte. A tripulação acorre ao local, só para assistir ao suicídio do triste Arsênio Gordard, que corta o pescoço com a baioneta e expira, ensanguentado, na frente de todos, inclusive do irado Comandante que friamente lamenta o fato de prisioneiro ter, pelo suicídio, escapado à punição que lhe fora imposta.

O filme de Adolfo Rosenthal é, na verdade, a adaptação cinematográfica de um belo conto do nosso João do Rio. Quase homônimo ao conto (“O fim de Arsênio Godard”), o filme lhe foi fiel o quanto pôde.

Para quem não lembra, João Paulo Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), também conhecido como Paulo Barreto, e João do Rio, foi um cronista talentoso, além de jornalista, tradutor e teatrólogo criativo. Seu mérito de escritor foi publicamente reconhecido ao ser, em 1910, eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Negro e homossexual, sofreu reprimendas públicas que o levaram a polêmicas infrutíferas. Lima Barreto o acusava de não assumir a questão negra, e Humberto de Campos, o ridicularizou pela homossexualidade. Ao traduzir a obra do escritor inglês Oscar Wilde, foi visto, à imagem de Wilde no seu país, como um dândi efeminado que devia ser subestimado pelo seu comportamento amoral.

Na verdade, João do Rio foi um grande escritor, hoje pouco conhecido, mesmo dos que transitam nos meios literários. O seu conto “O Fim de Arsênio Godard” é um bom exemplo do seu talento. Não tenho espaço para mais, porém, cito a genial estratégia de escolher, para a focalização (o ponto de vista da narração), não um narrador particular (por exemplo, o protagonista Godard, ou o Comandante do navio, ou, um dos marinheiros), mas a voz coletiva da tripulação inteira, o que tem um efeito dramático especial, se considerarmos o castigo do protagonista – nunca ouvir esta voz coletiva.

No filme “O triste fim de Arsênio Godard”, nota-se que o diretor Adolfo Rosenthal tenta manter essa estratégia dramática. Se consegue, é algo ainda a investigar…

O Cronista João do Rio

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“Relatos selvagens”: o superego que se dane!

28 nov

Só agora me chega às mãos e aos olhos este “Relatos selvagens” do argentino Damian Szifron (2014). Perdi-o, quando foi exibido por aqui, embora, na ocasião, não tenha escapado dos muitos comentários – aliás, extremamente favoráveis – de amigos que o haviam visto e curtido.

De fato, o filme de Szifron é empolgante e faz jus à fama que já detém, há muito tempo, a boa – para não dizer, excelente – cinematografia argentina. Conta seis estórias, cada uma independente das outras, salvo pelo fato do que está sugerido no título: a selvageria que, em instantes de crise, faz os personagens agirem de modo inesperado para as convenções socialmente recomendadas. Se pensarmos em Freud, algo assim como ´mandar o superego para a p que pariu´…

Na primeira estória, “Pasternak”, um aviador que foi um dia um músico frustrado decide pôr no mesmo voo, todos os seus desafetos, para, a turma toda junta, espatifar-se lá embaixo numa espetacular queda suicida. Vejam que um dos desafortunados passageiros é o psiquiatra de Pasternak, de forma que não estou chutando quando, acima, me refiro a Freud.

Na segunda estória, “Os ratos”, uma garçonete se vinga de um freguês que, no passado, arruinara sua família e o procedimento é um eficiente envenenamento… Em “O mais forte”, terceira estória, dois motoristas se digladiam na estrada, dois duelistas insanos que ganham o mesmo fim ensanguentado. Já “Bombinha”, quarta estória, relata os pormenores de como um engenheiro de demolições, é moral e psicologicamente “demolido” pela burocracia… e revida com moeda própria. O quinto episódio, “A proposta”, trata o caso de um filhinho do papai que, em acidente de automóvel, mata uma mulher grávida: os pais acertam que o jardineiro da família, assumiria o crime, com a compensação de 500 mil dólares, mas, o problema é que contrapropostas vão surgindo e o pai do rapaz decide tomar uma decisão inesperada.

Embora sempre dentro de um mesmo cenário – uma festa de casamento – a última estória é a mais longa e envolve um número maior de personagens, embora, claro, o centro sejam os noivos. Em “Até que a morte nos separe” ela, a noiva, descobre que está sendo traída e, enfurecida, opta pelo menos esperado: um radical, penoso e constrangedor “barraco”.

Em cada estória está tudo perfeito: do roteiro à direção de atores – passando por fotografia, música e montagem – está tudo bem equilibrado e o filme demonstra como se faz cinema com talento e criatividade. Em todas elas, estão bem dosadas as pitadas de drama e humor. Os personagens parecem reais, mesmo quando vão perdendo o controle de seus respectivos egos. E mesmo nos auges caricatos, assim permanecem: reais. Vejam o caso da última estória. Considerem que encenar “um barraco” não é nada fácil, sobretudo com a duração que este tem. O perigo de cair no ridículo (o mesmo ridículo que está sendo encenado) é grande. Szifron consegue esse milagre, e o faz com perfeição. A imagem final, em close, dos bonecos do bolo, no chão, recebendo os efeitos colaterais da selvagem cópula do casal… merece palmas do espectador. Em suma: quanto mais desequilibrados os personagens, mais equilibrado o filme.

No geral, o filme parece fazer a pergunta: até onde o ser humano vai quando sua sobrevivência (psicológica, moral, física, seja qual for) se vê ameaçada? O que ainda temos dos animais, aqueles que aparecem na tela, ao lado dos nomes de cada integrante da equipe de filmagens? O argumento inicial, que deu origem ao roteiro, pode ter sido só uma brincadeira, mas, que deu certo, deu.

Um lugar comum da crítica é que o melhor do bom cinema argentino de atualmente está nos roteiros. “Relatos selvagens” confirma esta verdade. As estórias são inventivas e originais, o que, no entanto, não impede que nelas encontremos ecos de outros filmes e outros autores.

Por exemplo: “Os ratos” nos lembra, de modo bem direto, aqueles filmes curtos que Alfred Hitchcock fez para a televisão americana nos anos 50 e 60, dentro da série “Hitchcock Apresenta”. Sintam como a cozinheira que, à revelia de sua colega medrosa, se empolga com a ideia de pôr o veneno na comida do freguês – e o faz – é um tipo hitchcockiano bem óbvio. Na verdade, no grosso, o filme tem o espírito desesperado (e a temática) de “Um dia de fúria” (Joel Schumacher, 1993), mas talvez o seu eco particular mais ostensivo para o cinéfilo seja o da estória dos dois duelistas na estrada, remontando, desde o primeiro fotograma, ao delicioso “Encurralado” de Steven Spielberg (1971).

Enfim, o filme de Szifron me chegou tardiamente, mas isto não tem importância alguma. Alguns filmes que me chegaram em tempo eu já os esqueci. Este, eu vou demorar a esquecer, ou, quem sabe, talvez não esqueça nunca.