Tag Archives: revolução

Louis Malle em Maio

16 maio

Cinquenta anos depois, o que ainda temos a dizer sobre o Maio de 68? Por enquanto, e à guisa de exercício conceitual, vejamos os filmes que trataram do assunto.

Um dos mais curiosos é, com certeza, este “Loucuras de uma primavera” (“Milou en mai”, 1990) do mestre francês Louis Malle, que, aliás, não se passa em Paris, mas no campo. Da distante mansão burguesa dos Vieuzac, não muito longe de Bordeaux, é que se recebem os efeitos colaterais dessa revolução que virou o país de cabeça para baixo.

Coincidindo com o estouro de Maio, o filme começa com a morte da idosa matriarca Vieuzac, que deixa o filho, Milou (Michel Piccoli), ele também adiantado em anos, vivendo só com a empregada Adèle. Bem, por enquanto nem tão só, já que logo chegam os outros membros da família para o velório, e o resto do roteiro vai nos contar, com muita graça e ironia, os seus conflitos e afagos, isto ao meio de duas crises: a privada (por exemplo: como dividir a herança?) e a pública (a revolução).

Como mantém a intitulação original do filme, Milou é o protagonista, mas sua autonomia tem limites. Isso fica claro com a chegada dos parentes: o irmão, George, correspondente do Le Monde em Londres, que vem com sua sensual esposa inglesa Lilly; Camille, filha de Milou, com três crianças, dois garotos pequenos e uma garota maiorzinha Françoise; Claire, a sobrinha de Milou, moça homo que comparece com sua namorada. Mais tarde ainda vão aparecer o sobrinho Pierre-Alain, rapaz esquerdista e entusiasta de Maio, e um motorista de caminhão, Grimaldi, que lhe dera carona no caminho, e aceita acomodação na casa, pois seu caminhão, carregado de tomates, não pudera, ao meio do caos reinante, chegar ao seu destino.

Uma complicação a mais é que o enterro não pode ser efetuado, já que as mortuárias também estão em greve, e, lá adiante a família precisará decidir que medida tomar. Nisso Milou vencerá, ao sugerir que a mãe seja enterrada nas terras da propriedade, como se fazia nos velhos tempos.

O fato é que os efeitos da Revolução vão se fazendo cada vez mais presentes e mais fortes na mansão dos Vieuzac, ao ponto de serem todos obrigados a fugir.

Mas antes da fuga o encontro da família é mais ou menos eufórico e vira piquenique bucólico, com direito a insinuações eróticas, inspiradas pelos boatos que se ouviam sobre os acontecimentos parisienses – um deles, o de que, na ocupada Sorbonne, a libertinagem era tão grande que “as pessoas deslizavam no esperma espalhado no piso”. É curioso como a família vai puxar o sentido libertário da Revolução para o exclusivo lado erótico e faz o excitante piquenique findar com o grito, ensaiado por Milou, de “Vive la révolution!” – isto acompanhado (e não só neste momento) pela trilha sonora do filme, que faz variações melódicas em torno da “Internacional”, o hino comunista.

Pensando bem, insinuações eróticas são quase uma regra no ambiente familiar: vejam que, na mansão, praticamente todos têm um caso, ou uma queda, por um outro. Milou transa com a empregada Adèle, a sua filha Camille flerta com um amigo de infância; a cunhada inglesa flerta com Milou; as duas moças lésbicas deixam traços de sua prática sado-masoquista na cama onde dormem; o sobrinho Pierre-Alain flerta com a amiga de Claire,  e esta com o caminhoneiro, com quem por sinal ensaia, para alegria de todos, uma cena de nudez e sexo selvagem em plena sala, não muito distante do féretro da falecida, e na presença de uma criança de treze anos, a neta de Milou, Françoise, aliás, esta também objeto do desejo do avô, como se vê no momento em que ela sobe no féretro para beijar a bisavó morta e sua saia curta lhe expõe as coxas infantis, sob o olhar de um Milou perverso. É essa pequena Françoise quem faz – sempre ao avô – as perguntas mais hilárias do diálogo, toda vez que escuta uma palavra que não conhece ou vê algo que não entende: “o que é esperma”? “Por que tia Claire amarra sua amiga na cama?” “O que é sapatão?”… E não esquecer que desse clima libertino fará parte uma dança carnavalesca com letra obscena, com todos em fila, dentro da mansão, rodeando o féretro da matriarca.

A disforia vem com a notícia da proximidade dos revoltosos e, naturalmente, com a fuga, francamente patética, quando se confunde o trabalho de lenhadores locais com o ataque dos revolucionários, e aí a família, perdida no meio da floresta, vai penar com cansaço, sujeira e fome… Em certo momento de desespero e desorientação é Milou quem dará a direção: (sintam a ironia!) “Vamos dobrar à direita”.  Essa agonia coletiva vai terminar quando Adèle, a providencial empregada, dá as caras, com a notícia de que De Gaulle – antes desaparecido – reapareceu e que tudo voltou à ordem normal.

Não admira que a Revolução de Maio tenha sido dada, mais tarde, por pensadores maliciosos, como “a revolta que mudou tudo sem nada mudar”. Pelo menos é uma das impressões que pode ficar do filme de Malle, se o propósito for porventura interpretar o Maio francês. Por exemplo: a morte da matriarca dessa família burguesa poderia sugerir ao espectador um símbolo da suposta derrocada da burguesia pela Revolução. Alguns elementos corroboram esse simbolismo, a saber: (1) a observação de Camille ao chegar na mansão: “Talvez a Revolução a tenha matado; ela detestava desordem”, diz ela da avó; e (2) mais tarde, aquela tomada sintomática em que se avista uma passeata de revolucionários em marcha e o velho empregado da família cavando a cova da matriarca, as duas coisas num mesmo quadro…  Bem, com o detalhe mais que irônico de que, no final, ela, a matriarca, reaparece na tela, como se viva estivesse, tocando piano e dançando com o filho deslumbrado. Ah, burguesia teimosa!

Simbolismos à parte, na mansão dos Vieuzac tudo permanecerá (quase) como dantes – apenas com o detalhe de que um quarto da herança, de acordo com o testamento da defunta, ficará para a empregada Adèle, que agora nos acena com o seu noivo e seu final mais do que feliz. O único sinal (ainda que duvidoso), de uma possível melhora para as classes inferiores – isto, se se quiser insistir em simbolismos.

No seu comentário do filme, o crítico americano Roger Ebert se indaga sobre quais teriam sido as intenções de Malle e seu roteirista Jean-Claude Carrière. O que me fez lembrar uma boutade do próprio Malle sobre sua forma de trabalhar. Diz ele: “quanto mais vivo, menos confio em ideias, e mais confio em emoções”.

Sejam quais tenham sido as intenções autorais, “Loucuras de uma primavera” é um filme gostoso de ver, meio amargo e meio doce, despretensiosamente franco sobre uma classe social decadente e seu nem sempre discreto charme.

Visivelmente, seus antepassados são pelo menos dois: o remoto “A regra do jogo” de Jean Renoir (1939) e o menos remoto “Cerimônia de casamento”, de Robert Altman (1978), ambos tratando de uma numerosa família burguesa reunida numa mansão de campo, este último contando também com uma matriarca falecida.

Anúncios

Café Alvear

10 ago

Tarde fria de agosto. Vento forte lá fora e eventual neblina. A sesta já feita, na rede como sempre, vontade de ver um filme, ou ler um livro. Qual dos dois? Sem convicção, me levanto e, hesitante, espio em torno de minhas estantes, e o acaso decide por mim.

Bem na minha cara, cobrando leitura havia dias, o “Café Alvear” do mestre Gonzaga Rodrigues, a cujo lançamento compareci e deixei para ler em momento propício. Tarde fria de agosto: há momento mais propício para ler Gonzaga Rodrigues? Volto à rede, abro o livro e não paro mais.

De repente, estou na João Pessoa dos anos cinquenta, no antigo Café do Ponto de Cem Réis, em companhia de figuras que fizeram a vida jornalística, cultural, intelectual e política da Paraíba e/ou do Brasil, figuras que só conheci de nome, ou, alguns, sequer de nome.

Quase sempre (auto)descrito como modesto coadjuvante, Gonzaga está lá, ainda bem. Mas não só como personagem, digo, Gonzaga está lá, com seu estilo original, peculiar, elegante, atraente, saboroso, poético. O estilo, afinal de contas, a que estamos acostumados há tanto tempo, e que continuamos amando, como se ama, a vida inteira, um ente querido.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

Esforço de memorialista, o livro reconstitui uma época, com suas paisagens, seus episódios e seus vultos, tudo verídico e tudo sincero. Esse é um dos prazeres que nos proporciona. O outro é o de só chegarmos lá pelo viés poético do narrador/descritor. Mas não façamos rupturas: o conjunto das duas coisas é o que nos encanta, e o que dá personalidade a um livro de crônicas.

Autônomas, as crônicas podem ser lidas fora de ordem, porém, na organização do índice, chega a haver uma cronologia intencional que o leitor acompanha com interesse. Do governo de Getúlio à Ditadura de 64, do tempo local de José Américo governador da Paraíba à data de sua morte, segue-se um roteiro elástico e móvel que abrange tanto os acontecimentos históricos propriamente ditos, como os estritamente autobiográficos.

Na maior parte das vezes o histórico e o biográfico se fundem de forma inconsútil e tocante. Para dar um só exemplo, um caso assim é o da crônica “Brahms, Brahms, Brahms” em que Gonzaga magistralmente trata do suicídio do presidente Getúlio Vargas e sua repercussão local e bem pessoal, fechando o texto com a frase lapidar: “O sol daquela hora começava a incomodar. Era noite em todos nós.”

Como admitido pelo autor no capítulo inicial que explica o título, o livro foi montado a partir de crônicas que deviam refazer a memória política e cultural do próprio Gonzaga.

Sempre Gonzaga...

Sempre Gonzaga…

E, contudo, é tocante como o espaço concedido ao alheio é enorme – grande lição de alteridade. Com efeito, os muitos personagens da vida pessoense – políticos, empresários, funcionários públicos, militantes, colegas de trabalho, amigos ou meros conhecidos, até desafetos – tomam às vezes conta da diegese e como que “apagam” o nosso Gonzaga, na maior parte dos casos, humildemente posto em posição de mera testemunha. Apagariam, se – para o leitor – o estilo do narrador não o mantivesse em primeiríssimo plano.

Dentre os vultos locais recriados, confesso que o que mais me tocou foi o retrato de Juarez da Gama Batista, “o magro de olhos poderosos” que dirigiu o jornal “A União” ao tempo em que Gonzaga lá começava sua carreira de jornalista. Tocou-me particularmente porque esse eu conheci mais de perto, quando o tive como professor de literatura na UFPB. O que dele diz Gonzaga casa com o que presenciei no eventual convívio que tive com Juarez, não apenas grande professor, mas homem fino e atencioso que trocava figurinhas literárias comigo nos corredores da FAFI, onde falávamos dos autores que amávamos, um deles lembro bem, Aldous Huxley. Eu tinha lido “Time must have a stop” que Juarez, profundo conhecedor de Huxley, por acaso não conhecia e a conversa foi longe e abriu porteiras para outros assuntos.

Mesmo quando é protagonista da crônica, notem que Gonzaga nunca aparece como herói. Seus momentos de glória – que na vida os teve, sim – não aparecem. Nesse aspecto, uma crônica sintomática – aliás, bela crônica – narra o dia do Golpe Militar, que vai encontrar o comunista Gonzaga no Hospital havia quatro meses, acometido de tuberculose. “Da janela do hospital”, ele vê, ou melhor, ouve tudo acontecer, impotente, mas, ao mesmo tempo, protegido pela sua condição de paciente grave. Densa narração cheia de medos e culpas…

No lançamento de "Café Alvear", com o autor e amigos.

No lançamento de “Café Alvear”, com o autor e amigos.

Talvez no espírito do “poema em linha reta” de Fernando Pessoa, quase sempre os papéis a ele reservados por ele mesmo são problemáticos, tensos, sofridos, e mesmo patéticos, como naquele incidente em que, encarregado de, pela primeira vez, entrevistar um figurão em uma mansão da João Machado, ridiculamente vestido com paletó de tamanho maior que seu corpo então franzino, tomba do pufe onde estava sentado e espalha seus papéis pelo piso da sala, entre os sapatos dos visitantes – para quem visualiza seu relato, verdadeiro Carlitos, fazendo comédia sem querer.

Enfim, ao fechar as páginas de “Café Alvear” a noite tinha chegado e me espojei na rede, ainda saboreando a leitura, feliz de viver numa cidade em que Gonzaga Rodrigues, com seu enorme talento de cronista, escondido por trás de sua folclórica modéstia, pontifica.

O vento passara, mas a chuva persistia. Ergui-me da rede e fui tomar a minha habitual taça de vinho antes da janta… desta vez com um brinde a Gonzaga, claro.

gr 4 face

A viagem de Yoani

7 maio

 

A blogueira cubana Yoani Sanchez seria uma agente da CIA a serviço do imperialismo americano… ou uma heróica batalhadora pelo direito de expressão em seu país?

Em cartaz na cidade, o documentário “A viagem de Yoani” (2014) faz a pergunta e, claro, tem o cuidado de não insinuar respostas.

Respostas, não, mas interesse pelo caso Yoani existe, sim, e muito.

Não há nenhuma dúvida de que os diretores Raphael Bottino e Peppe Sifredi se entregaram com gosto à missão de acompanhar a blogueira cubana em sua visita ao Brasil, em 2013, o mais de perto possível, desde o desembarque no aeroporto de Salvador, passando por sua hospedagem em Feira de Santana, até o desastroso confronto com imprensa e público, na sede do Jornal do Estado, em São Paulo.

4 yoanni

Eis aí um exemplo de documentário de roteiro aberto, mais que isso, escancarado, para o que der e vier. Com certeza, os seus autores não previam o tamanho do tumulto que a presença de Yoani causaria em solo brasileiro. Previam o tumulto, mas não o tamanho.

Como se sabe, há muito a jovem cubana vem escrevendo, em seu já afamado blogue “Geração Y”, crônicas e artigos desfavoráveis à situação política em Cuba, o que a tornou uma persona non grata em seu país, mas, como se vê no documentário em questão, não só em seu país…

Divulgados virtualmente, traduzidos para dezenas de idiomas, os seus textos ganharam leitores no mundo todo, em muitos casos, tomando o formato de livros. E vieram os prêmios e, consequentemente, a fama internacional.

Como os escritos de Yoani enfatizam o lado negativo do regime castrista, quase sempre passando ao largo dos positivos, os simpatizantes desse regime se vêem na urgência de denunciar a escritora como traidora. E de traidora de Cuba para agente da CIA foi um pulo…

A blogueira Yoani no Brasil

A blogueira Yoani no Brasil

O fato é que chega a ser assustador o nível de violência verbal com que Yoani é agredida na recepção paulista, ela, e os promotores de sua visita, como o deputado Eduardo Suplicy. No caminho para a entrevista coletiva ela prevê que o que vai acontecer será (sic) “intenso”. O que não prevê é que a intensidade será tal ao ponto de inviabilizar a entrevista…

Com enquadramentos precários, fotografia casual e som pouco audível, o filme mostra o confronto todo, mas não faz só isso. Junta trechos dos escritos virtuais da autora, com textos alheiros sobre ela, mais imagens virtuais e/ou televisivas em que seu caso foi tratado – os estrangeiros e os cubanos – mistura tudo, dando ao conjunto um tratamento cibernético, cheio de recursos eletrônicos sofisticados, figuras e sons virtuais em jogo, que dão ao espectador a impressão de estar, não diante da tela cinematográfica, mas de um computador.

Esse recurso de “cibernetizar” ao extremo, eu sei, combina com o meio pelo qual a protagonista se comunica com o mundo, a internet, além de compensar a ostensiva precariedade das filmagens documentais, porém, há momentos em que a velocidade dos jogos cibernéticos cansa a vista e dá vontade de… desligar o computador.

Tumulto no debate...

Tumulto no debate…

Voltando a Yoani, com ela concordando ou dela discordando, um fato que impressiona, no documentário que a seguiu fisicamente tão de perto, é a sua tranquilidade, sempre mantida, mesmo nos momentos mais “intensos”. Como naquela ocasião limite em que, indagada sobre o assunto, revela o modo como os seus textos são traduzidos por uma jornalista americana, e, irada, a platéia, aos gritos, a impede de continuar falando… e, como já dito, a coletiva, sem condição de comunicabilidade, é encerrada.

Naturalmente, o que as pessoas pensam de Yoani está relacionado ao que as pessoas pensam de Cuba, e isso que pode, eventualmente, determinar a apreciação e o julgamento do filme, em detrimento de seu valor, se tem algum, estritamente cinematográfico.

O filme se fecha com a informação de que, no recente – e tão desejado – desbloqueio americano a Cuba, Yoani teria elogiado os irmãos Castro.

De minha parte, saí do cinema pensando no que sempre pensei, mesmo antes de ter visto o filme: qual será o futuro de Cuba, esse “país-ilha” em mais de uma acepção da expressão? E o que dirá de Yoani a posteridade? Ajudou? Desajudou? Não influiu?

Por enquanto estamos sem pistas, mas, com certeza, o filme de Bettino e Sifredi poderá vir a ser, no futuro, um pequeno documento histórico a considerar.

No momento de sua estreia, é só um filme “quente” sobre uma questão “quente”.

Yoani e seu computador.

Yoani e seu computador.