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JACKSON E GLENN

30 jul

Nunca fiz isso, pois não sou da área, mas se um dia ousasse elencar minhas preferências musicais, a lista iria ter brasileiros e americanos, sempre intercalados, um ao lado do outro, sempre assim, e isto seguindo a cronologia do século XX inteiro. Mesmo que um nada tivesse a ver com o outro – como aparentemente não têm. A única justificava para os pares seria que me encantaram mais ou menos na mesma época da minha vida, e, inevitavelmente ficaram misturados no meu espírito.

Se for para dar exemplos, eis um fragmento dessa lista imaginária: Noel Rosa, Cole Porter, Luiz Gonzaga, The Platters, Lupicínio Rodrigues, Ella Fitzgerald, Jackson no Pandeiro, Glenn Miller… e por aí iria…

Jackson no Pandeiro e Glenn Miller? Pois qual não foi a minha surpresa ao constatar que o nosso ritmista de Alagoa Grande era um ouvinte admirador dos arranjos do maestro e compositor americano. O meu “par” estava longe de ser gratuito e fiquei sabendo desse dado – e vibrei com ele – ao assistir ao belo documentário “Jackson – na batida do pandeiro” (2019), de Marcus Vilar e Cacá Teixeira. Dado enfatizado pelo maestro Carlos Anísio no debate sobre o filme.

Tudo bem, as relações culturais e musicais entre Brasil e Estados Unidos estariam, mais tarde, no irônico “Chiclete com banana” de Jackson, mas nada como ter em mãos o dado biográfico de um caso mais remoto e bem específico: Jackson vs Glenn.

Saí do cinema catando as semelhanças entre os dois itens do meu par e não demorei a encontrar. O “Moonlight Serenade” de Miller podia ser lento demais para ter a ver com o nosso ritmista maior, mas em compensação o swing desbragado de composições como “Pensylvania 6-5000”, “Chatanooga choo choo”, “Tuxedo Junction” e outras mais, iniludivelmente, amarrava esse “par” da minha lista imaginária. E, convenhamos, à parte o meu interesse pessoal pelo caso, ele só faz apontar a enorme envergadura (maior do que se pensa) do nosso pandeirista paraibano.

O maestro e compositor americano Glenn Miller

Mas não foi só isso que o documentário em questão me trouxe. Em uma hora e quarenta minutos de deleite, ele me trouxe – a mim e à plateia que lotou o Cine Bangue na noite de 27 de julho – a vida e a obra de um dos maiores talentos que a Paraíba já deu ao mundo. E o fez em grande estilo.

Começando pelo fim, o filme nos arrasta na ambulância pelas ruas de Brasília para um hospital onde vai agonizar o nosso herói. Quando a câmera, ao som da sirene atordoante da ambulância, penetra o túnel escuro, oportunamente corta-se para uma paisagem física e humana bem diversa, aquela onde tudo começou.

E aí, o espectador vai acompanhar, em ordem mais ou menos cronológica, a trajetória de José Gomes Filho, depois Jack, e finalmente, Jackson do Pandeiro. Primeiro, Alagoa Grande, depois Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro, e finalmente, Brasília. Primeiro, o coco de roda, os cabarés, os palcos das rádios, e finalmente, os grandes estúdios e o estrondoso sucesso de público e de crítica. Isso para não falar das participações nas Chanchadas da época.

Além de mitos da MPB, parentes, amigos e especialistas da área dão depoimentos esclarecedores sobre Jackson, porém, um longo e impagável depoimento quem dá é o próprio Jackson, tão autêntico e tão de perto (em close do rosto, o tempo quase todo, em repetidas tomadas) que até parece ter sido gravado especialmente para o filme.

O cineasta paraibano Marcus Vilar

Resultado de pesquisa exaustiva de muitos anos, o filme faz justiça estética à grandeza do biografado e, com ou sem coincidência, chega no momento oportuno de seu centenário.

Vi o filme ainda em pré-estreia, em sessão especial, com a presença de seus realizadores e oportuno debate mediado pelo pesquisador e crítico André Dib, porém, como enfatizou um dos presentes, o que se espera é que as devidas providências sejam tomadas no sentido de uma distribuição de “Jackson – na batida do bandeiro” que atinja um público maior do que o quase sempre o mesmo dos festivais de cinema da vida.

Abri esta matéria de modo pessoal e não resisto em fechá-la do mesmo modo.

Se coloquei Jackson do Pandeiro na minha lista imaginária de preferidos, não preciso mais dizer o quanto sua música foi marcante para mim. Nas rádios da infância eu o ouvia com frequência – a propósito, tanto quanto ouvia Glenn Miller – e, sem querer, solfejava baixinho, sempre com vontade de dançar, o que só não fazia impedido pelo medo de ser ridicularizado.

Enfim, fosse eu dançarino, acho que um pé seria de Jackson do Pandeiro, o outro de Glenn Miller. E daria tudo incrivelmente certo. Agora eu sei disso, e tenho provas.

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GODARD E SEU TRISTE FIM

28 maio

Não. Não é do cineasta francês de “Acossado” que vou tratar, mas de um outro “Godard” que visitou o Brasil e aqui morreu, um pouco antes de o cinema ser inventado.

Sim, Arsênio Godard morreu em 1894, no Rio de Janeiro, mas é hoje personagem de cinema. Está no telefilme de Adolfo Rosenthal “O triste fim de Arsênio Godard” (2011), há pouco exibido no Canal Futura.

A estória é a seguinte. Estamos nas águas da Baía da Guanabara, entre 1893 e 1894, em plena “Revolta da Armada”. Se vocês ainda lembram as aulas de História do Brasil, o presidente da época era Floriano Peixoto, ditador militar, conhecido como “o Marechal de ferro”. Ainda monarquista, a Marinha se revolta contra seu governo, considerado ilegítimo, e vários couraçados e outros navios de guerra estão a postos na Baía, prontos para atacar e, se for o caso, retomar o poder.

A um desses navios, onde o filme inteiro decorrerá, chega a notícia de que alguns espiões estão por perto, rondando a armada. Sob as ordens do comandante, sai uma tropa, cortando a Baía à noite, para a captura. Não encontram um grupo de espiões, mas um só: no caso, o nosso Arsênio Godard, um mercenário francês que os marinheiros trazem amarrado feito um saco de batatas e depositam aos pés do Comandante do navio. Na condição de estrangeiro, Godard exige os seus direitos de cidadão, mas, segundo as duras palavras do intransigente Comandante, não tem direito algum, e é levado à solitária onde deve passar a noite, imaginando que terríveis castigos receberá na manhã seguinte.

Fuzilamento? Forca? Afogamento? Que nada! O castigo foi mais sutil e mais cruel. Sob determinação do Comandante, o mercenário francês podia circular dentro das dependências do navio onde quisesse, sempre acompanhado de um vigilante pessoal; podia dormir no mesmo compartimento dos marinheiros; podia fazer refeições com o corpo diretor e, num tempo de escassez, podia beber e comer tudo o que fosse servido à mesa. Com um pequeno detalhe, e este terrível detalhe era o castigo: ninguém no navio podia lhe dirigir a palavra.

Depois de inúmeras tentativas inúteis de estabelecer um diálogo com a tripulação, essa “tortura do silêncio” vai minando o espírito de Godard e, meses depois, o mercenário francês enfraquece e começa a apresentar sintomas de insanidade.

Até que um dia perde o controle, toma a arma do vigilante de plantão e o ameaça de morte. A tripulação acorre ao local, só para assistir ao suicídio do triste Arsênio Gordard, que corta o pescoço com a baioneta e expira, ensanguentado, na frente de todos, inclusive do irado Comandante que friamente lamenta o fato de prisioneiro ter, pelo suicídio, escapado à punição que lhe fora imposta.

O filme de Adolfo Rosenthal é, na verdade, a adaptação cinematográfica de um belo conto do nosso João do Rio. Quase homônimo ao conto (“O fim de Arsênio Godard”), o filme lhe foi fiel o quanto pôde.

Para quem não lembra, João Paulo Emílio Cristovão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), também conhecido como Paulo Barreto, e João do Rio, foi um cronista talentoso, além de jornalista, tradutor e teatrólogo criativo. Seu mérito de escritor foi publicamente reconhecido ao ser, em 1910, eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Negro e homossexual, sofreu reprimendas públicas que o levaram a polêmicas infrutíferas. Lima Barreto o acusava de não assumir a questão negra, e Humberto de Campos, o ridicularizou pela homossexualidade. Ao traduzir a obra do escritor inglês Oscar Wilde, foi visto, à imagem de Wilde no seu país, como um dândi efeminado que devia ser subestimado pelo seu comportamento amoral.

Na verdade, João do Rio foi um grande escritor, hoje pouco conhecido, mesmo dos que transitam nos meios literários. O seu conto “O Fim de Arsênio Godard” é um bom exemplo do seu talento. Não tenho espaço para mais, porém, cito a genial estratégia de escolher, para a focalização (o ponto de vista da narração), não um narrador particular (por exemplo, o protagonista Godard, ou o Comandante do navio, ou, um dos marinheiros), mas a voz coletiva da tripulação inteira, o que tem um efeito dramático especial, se considerarmos o castigo do protagonista – nunca ouvir esta voz coletiva.

No filme “O triste fim de Arsênio Godard”, nota-se que o diretor Adolfo Rosenthal tenta manter essa estratégia dramática. Se consegue, é algo ainda a investigar…

O Cronista João do Rio

Divinas divas e o Fest Aruanda

17 dez

De 8 a 14 deste mês tivemos, em João Pessoa, a décima primeira versão do Fest Aruanda, festival de cinema e vídeo que divulga e celebra a atividade cinematográfica, local e nacional.

Com longas, médias e curtas, documentais e/ou ficcionais, concorrendo em mostras competitivas, ou não, a programação do festival foi, como sempre, extensa, e aqui não cabe repassá-la.

Registro apenas as homenagens, duas delas póstumas: a Péricles Leal e ao recém falecido cineasta Manfredo Caldas. Sobre aquele primeiro, foi reprisado o documentário de João de Lima “Péricles Leal – o criador esquecido”, e mais que isso: o personagem de gibi Falcão Negro, criação de Péricles, foi adotado como a logomarca desta edição do festival. Daquele segundo foi reapresentado o longa “Romance do vaqueiro voador”.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Já o mais que vivo Wills Leal recebeu o Troféu Aruanda e a Comenda da Academia Paraibana de Cinema, pela compleição de seus bem curtidos oitenta anos de idade. Além disso, foi exibido o filme “Wills Leal, mais que oitenta – La dolce vita” homenagem especial e afetiva do cineasta Mirabeau Dias.

Debates, workshops e lançamentos de livros completaram o programa desse festival que já se impôs como o grande evento cinematográfico do Estado.

A versão deste ano teve dois aditivos oportunos: o completo ineditismo dos filmes a serem exibidos nas Mostras competitivas, e mesmo daqueles exibidos fora da Mostra, no caso o da abertura “Axé – canto do povo de um lugar” e o do fechamento do festival “Pitanga”. O segundo aditivo foi a introdução de uma interessante rubrica, de nome ´Sob o céu nordestino´, exclusiva para a exibição alternativa de produções realizadas nesta ou sobre esta região do país. Um dos filmes mostrado dentro desta rubrica foi “Cícero Dias – o compadre de Picasso”, documentário do cineasta paraibano Vladimir Carvalho.

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Meu modesto contributo foi estar entre os co-autores do livro “100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), livro organizado pela ABRACCINE (Associação brasileira de críticos de cinema) que foi lançado no festival, na tarde de sábado, dia 10 deste mês.

Não tive a oportunidade de assistir a todos os filmes exibidos no Fest Aruanda, mas, na Mostra Competitiva de Longas, um que me chamou a atenção foi esse “Divinas Divas” (2016) da estreante diretora Leandra Leal.

Com leveza, simplicidade, descontração e bom humor, o filme (re)agrupa oito artistas que fizeram estrondosos sucessos nos palcos do Rio de Janeiro dos anos sessenta e setenta, cada um a seu modo, mas todos quebrando tabus e driblando a rigorosa censura da ditadura militar. Hoje idosos, os travestis Rogéria, Jane di Castro, Valéria, Fujica de Holliday, Camille K, Eloína, Brigitte de Búzios e Marquesa nos contam suas histórias pessoais, relatando, sem papas na língua, seus casos privados, seus episódios mais pitorescos, mas, sobretudo, a difícil luta para a afirmação profissional.

Ao roteiro foi dada uma estrutura bem definida, com prólogo e epílogo formalmente estabelecidos: a narração propriamente dita decorre no entremeio destes dois momentos, e nela acompanhamos os ensaios para um show que o grupo todo fará no desenlace. Ao longo desse processo preparatório, intercalam-se os depoimentos dos artistas, sempre somados a uma performance individual de cada um dos depoentes.

As protagonistas de "Divinas Divas".

As protagonistas de “Divinas Divas”.

Só no fechamento – ou seja, no epílogo – o grupo atuará junto, no palco, em grande estilo, cantando e dançando a marchinha carnavalesta de Braguinha e Alberto Ribeiro “Yes nós temos banana”, com plumas e paetês, comme il faut. O contraponto desse grand finale já estava na abertura do filme – o prólogo -, quando, ao som da voz potente de Nelson Gonçalves, ouvimos a canção “Escultura” de Adelino Moreira, ao mesmo tempo em que vemos – por sobreimpressão de imagem – cada rosto masculino de cada artista transformar-se aos poucos no seu respectivo personagem feminino.

Originária de família desde sempre ligada ao mundo do show business (o seu avô, Américo Leal foi o criador e dono do teatro Rival), a atriz e diretora Leandra Leal teve lá suas razões sentimentais para conceber e realizar um filme desses, porém, isto, para o espectador não importa. Importa o resultado, que está aí e que é bom.

Descontraído como os seus personagens, mas ao mesmo tempo, intenso, o filme de Leandra Leal arrebatou o público presente na Sala 6 do Cinépolis, e recebeu aplausos calorosos que, visivelmente, não eram aqueles apenas formais, que são praxe em todo festival de cinema.

E para fechar, parabéns mais uma vez ao coordenador do Fest Aruanda, o incansável batalhador Lúcio Vilar, por mais esta.

A atriz e diretora Leandra Leal.

A atriz e diretora Leandra Leal.

Quatro homens em uma jangada

10 dez

 

Esta semana o Canal Brasil mostrou uma raridade cinematográfica: “É tudo verdade”, documentário sobre o filme que, em 1942, o cineasta americano Orson Welles veio rodar em solo brasileiro.

Já escrevi várias vezes sobre o assunto, mas, creio que vale a pena relembrar o caso dessa filmagem conturbada e seu resultado surpreendente.

Sob os auspícios do governo americano, o autor de “Cidadão Kane” (1941) é enviado ao país do carnaval, para, de alguma forma, influir na política da boa vizinhança: na ocasião, Getúlio Vargas pendia para o lado nazista e isso precisava ser evitado.

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A idéia era filmar o carnaval carioca, e o Wonder Boy recebeu apoio de muita gente boa do meio cultural carioca, entre outros, Vinicius de Moraes, Grande Otelo, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, e até o então criança Pery Ribeiro, filho do casal citado, participou das filmagens.

Filmagens à parte, porém, o jovem Welles meteu-se em farras homéricas no Rio de Janeiro e comeu, entre outras coisas, o orçamento do projeto. Somente depois de pressionado pela Fundação Rockfeller (fomentadora do projeto) é que Welles resolveu dar uma trégua a suas farras cariocas e trabalhar. De repente, como um náufrago desesperado, agarrou-se à ideia de recontar a viagem verídica, noticiada em jornal, que quatro jangadeiros cearenses haviam feito, do Ceará ao Rio, para exigir do presidente os direitos trabalhistas que não tinham.

Welles mandou-se para o Ceará e, com um roteiro improvisado, poucos recursos técnicos, e atores não profissionais, rodou o filme possível, que chamou de “Four men on a raft” (´quatro homens em uma jangada´). Por azar, ao chegar ao mar bravio de Copacabana, um dos jangadeiros, o “Jacaré”, morre afogado… A morte de Jacaré termina de consumar o desastre que foi a estada de Welles entre nós. O filme é engavetado pela RKO e fica o assunto encerrado.

A jangada cearense e sua viagem

A jangada cearense e sua viagem

Muito tempo depois, anos noventa, o cineasta já falecido, três pesquisadores americanos, Richard Wilson, Myron Meisel e Bill Khron, vasculham os arquivos hollywoodianos e encontram os rolos do trabalho brasileiro de Welles. Acrescentam filmagens documentais de sua aventura brasileira, e montam o filme a que dão o mesmo título do projeto original “It´s all true” (1993).

Mas, claro, o mais interessante no filme do trio Wilson, Meisel e Khron é o filme que Welles conseguiu fazer com os jangadeiros cearenses, em si mesmo inteiro e autônomo.

Em belo preto-e-branco, a estória começa em uma aldeia de pescadores, numa praia do litoral cearense. Nessa aldeia, dois jovens – ela, filha de pescador, ele, também pescador – iniciam uma amizade que se transforma em amor e, com o consentimento dos pais, decidem casar. Toda a cerimônia de casamento é mostrada, da qual, naturalmente, participa a aldeia inteira, todos habitantes do lugar que, como os dois protagonistas, desempenham papéis ficcionais.

Welles em ação

Welles em ação

Pouco tempo após a lua de mel, vem o desastre. Pescando em alto mar, o rapaz desaparece, e mais tarde, à beira-mar, entre pedras, areia e ondas fortes, uma garotinha encontra o cadáver.

Belíssimas são as tomadas que mostram o cortejo do enterro, subindo, em fila, as dunas, até o cemitério. Belíssimos são os closes que mostram os rostos enrugados dos habitantes do lugar, entristecidos com a morte do jangadeiro e com a situação da jovem viúva que, sem direitos legais, nada tem a herdar, só a dor e a solidão.

É então que a comunidade decide que quatro jangadeiros deveriam navegar mar afora até a capital federal, para exigir de Getúlio o direito à pensão e à aposentadoria. E mais beleza se tem com a encenação da viagem por mar, a precária jangada com sua vela ao vento contornando a costa brasileira.

Rostos brasileiros na tela de Welles

Rostos brasileiros na tela de Welles

Se o projeto como um todo, digo, o da estada de Orson Welles no Brasil, foi um fracasso, o mesmo não pode ser dito de “Quatro homens em uma jangada”, filme emocionante que atesta o talento de um gênio do cinema.

A propósito de fracasso, em “É tudo verdade” está incluído um depoimento curioso de Orson Welles. Conta ele que, já estourado o orçamento do projeto, recebe a visita de um grupo de favelados que trabalhavam com “Voodoo” (ele quis dizer ´umbanda´), a quem ele havia prometido uma ampla participação no filme a ser feito. Explica-lhes que não havia mais dinheiro para a produção, quando o telefone toca. Vai atender e ao retornar à sala, o pessoal da umbanda, irritadíssimo, tinha ido embora, mas não sem antes perfurar com agulhas o roteiro do filme, que estava sobre a mesa. Segundo Welles, amaldiçoado pelo “voodoo” brasileiro, o projeto jamais poderia ter dado certo.

Ora, é o gênio do cinema fazendo ficção. Mais uma…

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.

 

Viagem aos seios de Duília, o filme.

7 ago

A cinefilia doméstica costuma associar os anos sessenta ao movimento do Cinema Novo Brasileiro, como se, nessa década, nada mais no país, em termos de atividade cinematográfica, tivesse sido feito.

E não é o caso. Para se ter uma idéia, a década de sessenta inteira produziu nada menos que 404 películas, das quais duvido que 40 possam ser caracterizadas como realizações do Cinema Novo.  E ainda que possam, sobram 364 realizações fora do esquema do famoso movimento.

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Uma dessas “sobras” é “Viagem aos seios de Duília”, película de 1965 de Carlos Hugo Christensen, cineasta oriundo da Argentina que ninguém de bom senso enquadraria na turma de Glauber Rocha, Rui Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Não porque fosse argentino, mas porque, desde sua chegada ao Brasil, vinha cometendo filmes com fins visivelmente comerciais, como “Matemática zero, amor dez” (1958) e “Meus amores no Rio” (1959), comédias românticas completamente antagônicas ao espírito vanguardista e político dos cinemanovistas.

Em 65 Christensen resolveu adaptar o antológico conto de Anibal Machado e se deu bem, mas não creio que isso o torne um cinemanovista. Como o conto, o filme narra a desventura desse senhor idoso, solteirão recém aposentado, que decide empreender uma viagem ao passado, em busca de uma miragem: a visão deslumbrante dos seios da jovem Duília, que nunca lhe saíra da memória. Na remota Pouso Triste de sua infância e adolescência, um dia, a moça lhe abrira a blusa e…

Agora a aposentadoria o angustia e José Maria, para surpresa de sua velha empregada, arruma as malas e se entrega a uma viagem penosa que, lamentavelmente, tem um final mais penoso ainda: professora primária e viúva idosa, a Duília de seus sonhos eróticos não tem mais nada a ver com a imagem que dela guardava, e o encontro dos dois é puro desencanto.

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Mesmo sem a perfeição do conto – considerado a obra prima de Anibal Machado – o filme de Christensen tem qualidade e merece uma espiada.

Evidentemente, o primeiro problema da adaptação foi a pouca extensão do texto. Em sua inteireza, o conto daria um curta, ou talvez um média metragem, mas dificilmente um filme de duração padrão. O problema foi resolvido com um relativamente longo preenchimento diegético, onde se narra o que não está no conto, mas, aristotelicamente falando, poderia estar: as primeiras semanas de vida aposentada de José Maria e a crise existencial dela decorrente.

Na ocasião de sua despedida da repartição, os colegas oferecem uma festa a José Maria, mas isso é tudo. O que vem depois é frieza e indiferença. Nas próximas tentativas de contato, José Maria começa a se dar conta do que é ser considerado velho, e, portanto, descartável. Vários incidentes lhe revelam a dureza de ser idoso entre os mais jovens, e aos poucos ele vai aprendendo a se manter no seu lugar de inativo e inútil.

Uma dessas decepções ocorre na noite em que aceita o convite de um dos colegas a ir a uma boate da cidade, na companhia de duas moças, amigas do ex-colega – e a cidade, não esqueçamos, é o Rio de Janeiro – e se vê passado para trás pela companheira de noitada, além de ser conduzido a pagar a conta, e depois, deixado na rua, porque, dali, os dois casais, formados na boate, iam para outras paradas, mais íntimas.

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Todo esse preenchimento diegético poderia estragar a imagem que se tem do conto de Anibal Machado, e, no entanto, não é bem assim. Não apenas ele não macula o conto, como vem a contento para o filme, ajudando a incrementar o conflito central do personagem: o seu enfrentamento da velhice.

Depois de ver o filme (eu não o vira na época de sua estréia), fiquei curioso em checar a autoria de um roteiro tão eficiente, e não tive surpresa em constatar que era de ninguém menos que o escritor Orígenes Lessa.

Um outro ponto nevrálgico da adaptação é o desenlace. Como fazer para expressar em imagens a desolação do protagonista, no encontro com Duília? A voz em off, repetindo as palavras do texto, seria um recurso manjado que, se consolaria os apreciadores do conto, não soaria satisfatório para os espectadores do filme. Sensata e criativamente, Christensen optou praticamente pelo contrário: ao invés de qualquer verbalidade, encheu a tela de imagens onde se vê uma sequência de cenários vazios, digo, sem a presença física do ator/personagem, sequência que simbolicamente refaz a vida triste de um personagem que, sem saída, se entrega à tristeza de sua condição.

Um comovente filme sobre a ´terceira idade´, rodado numa época em que sequer se conhecia a expressão.

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“O homem do Rio” embaça as lentes Varilux

17 jun

Mais um ano de Festival Varilux de Cinema Francês, coisa boa para arejar o clima cinematográfico local, normalmente sufocado pela hegemonia americana.

Comédias, dramas ou policiais, alguns muito bons, outros nem tanto, os filmes franceses da atualidade lotam, em cada versão do Festival, as salas brasileiras de espectadores ávidos de novidade. Por sorte, João Pessoa é uma das 45 cidades no país que sediam o festival.

Quando de melhor qualidade ou apelo popular, alguns desses filmes chegam a ultrapassar o âmbito do Festival e entram para o circuito comercial numa boa. Numa das últimas versões do festival, por exemplo, foi o caso da comédia “Intocáveis” (2011). Na versão deste ano talvez – quem sabe? – seja o caso desse engraçadíssimo e muito bem transado “Que mal eu fiz a Deus” (2014).

Este ano, porém, o Festival Varilux sofreu um abalo que pode comprometer o seu conceito já tão firmado junto ao público e à crítica.

Aventura estabanada de Belmondo na cidade maravilhosa

Aventura estabanada de Belmondo na cidade maravilhosa

Vejam bem, desde a versão do ano passado que passou a valer a sensata medida de se incluir, na programação, um clássico do cinema francês, que foi “Os incompreendidos” de François Truffaut, 1959. Beleza!

Neste ano os organizadores do Festival decidiram mostrar o filme de Phillippe de Broca, de 1964, “O homem do Rio” (“L´homme de Rio”). Segundo os folhetos de divulgação, a escolha foi feita para homenagear a cidade do Rio de Janeiro, mas duvido que os cariocas – pelo menos os que amam o cinema – tenham se sentido homenageados.

O problema é muito simples: o filme de Broca é muito, muito ruim. Já devia ser na época de sua estreia, e piorou com o tempo. Sua exibição embaçou as lentes Varilux. Consta que foi um sucesso de bilheteria na França dos anos sessenta, mas não lembro que tenha sido no Brasil. Os espectadores franceses, principalmente os fãs do exótico, devem ter adorado ver as paisagens do Rio de Janeiro, da recém fundada Brasília e da selva amazônica, mas, quem foi que disse que paisagem faz cinema?

A mirabolante e completamente inverossímil estória é a aventura tresloucada de um pracinha francês (Jean-Paul Belmondo) que, no curto périplo de uma semana de folga, recobre o território brasileiro nas circunstâncias mais desbaratadas. De avião a barco, passando por bicicleta e trem, não há um meio de transporte de que ele não tenha feito uso – geralmente indevido – tudo isso para salvar sua amada Agnès (Françoise Dorléac) do perigo e da morte.

Samba no morro: mais um clichê

Samba no morro: mais um clichê

O manjado “macguffin” da estória toda é a busca de um totem malteco que, enterrado em alguma gruta da Amazônia, esconderia um tesouro inestimável, e Agnès, filha de um cientista que conhecia o segredo, é sequestrada para ajudar no desvendamento da pista que conduziria ao tesouro. O autor do plano é o fingido e ambicioso Prof. Catalan, (papel do veterano Jean Servais) que, como esperado, morre perante as joias.

O enredo inteiro é um amontoado de clichês e cada episódio é uma encenação extremamente cansativa para o espectador que, ao longo da vida, já viu todos os filmes de aventura do mundo. Ou se for o caso, todos os filmes sobre estrangeiros que chegam ao Rio e, ao som de samba, fazem amizade com um engraxate que mora nas favelas. Como sintomaticamente diz a versão francesa de uma canção brasileira dos anos cinquenta, “si tu vas à Rio, n´oublie pas de monter lá haut…”. Adrien, o estabanado pracinha, não esquece.

Supostamente, “O homem do Rio” pretendeu ser uma sátira ao “filme de aventura”, porém, para satirizar um gênero, você precisa ser melhor que ele, e, decididamente, “O homem do Rio” não é, ou, melhor dizendo, é bem pior.

Paisagem para turista ver...

Paisagem para turista ver…

Junto com uma multidão de espectadores decepcionados, saí da Sala 3 do Cinespaço, naquele domingo, pensando cá com meus botões: se era para continuar incluindo clássicos do cinema francês na programação de Festival Varilux, por que não pensaram em, digamos, “L´Atalante”, ou “A nous la liberté”, ou “Les jeux interdits” (“Brinquedo proibido”), ou “Le salaire de La peur” (“O salário do medo), ou “La règle du jeu” (“A regra do jogo”), ou “Porte de Lilàs” (“Por ternura também se mata”), ou…

E enquanto caminhava para casa, não conseguia estancar o rol de grandes clássicos franceses que desfilavam na minha memória…

Com certeza, qualquer um desses filmes teria deixado os cinéfilos cariocas (e os brasileiros) bem mais satisfeitos.

Se era para mostrar um clássico, por que não escolheram "Porte de Lilas" (1957)?

Se era para mostrar um clássico, por que não escolheram “Porte de Lilas” (1957)?

 

Últimas conversas

27 maio

Quando, em fevereiro do ano passado, soube da morte de Eduardo Coutinho, lembrei-me logo de seu último filme, “As canções” (2011), ao qual dediquei texto comovido que chamei de “Músicas e lágrimas”.

E claro, senti-me bem em haver homenageado, em sua derradeira realização, o maior documentarista brasileiro de todos os tempos e lugares.

Agora, me deparo com a novidade: “As canções” não foi exatamente o último filme de Eduardo Coutinho. Antes da tragédia que o levou, o cineasta estava rodando um documentário com estudantes do ensino médio de uma escola pública do Rio de Janeiro.

O cineasta Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho

Embora com 32 horas de gravação já feitas com 28 estudantes, o filme ficara incompleto. Ou melhor, teria ficado, se amigos de Coutinho não tivessem decidido que a metragem gravada merecia uma compleição – um filme póstumo que seria uma homenagem.

E assim fizeram o cineasta João Moreira Salles e a montadora Jordana Berg, que tinham a vantagem de possuir filmagens dos bastidores da produção, onde o próprio Coutinho falava do filme que estava rodando e dos problemas que estava enfrentando. Juntaram esse material autobiográfico com as gravações de nove estudantes que Coutinho já escolhera como definitivas e editaram o documentário “Últimas conversas” (2015), no momento em cartaz na cidade, e no país.

O crédito de direção é de Eduardo Coutinho, porém, o espectador familiarizado com sua obra pode se indagar até que ponto “Últimas conversas” é um filme seu. Sim, porque há diferenças entre este filme e a obra de Coutinho, pequenas mas marcantes.

A primeira é que nele Coutinho desfruta de um bom tempo de tela, coisa inexistente em seus filmes anteriores. E, nesse tempo de tela, aparece falando de si mesmo. Aliás, no filme todo, ele fala muito mais do que o habitual, interferindo nos depoimentos dos entrevistados, como nunca fizera antes. Cheio de tempos mortos e cortes bruscos, o filme não possui o seu conhecido cuidado de edição. Em alguns casos, são demorados os trajetos da porta à cadeira em que os depoentes se acomodam, em outros, o depoente já aparece em close, sem trajeto. A rigor, foram à tela vários elementos dos bastidores, alguns acidentais, como aquele momento em que o fotógrafo pergunta a Coutinho se ele está fumando, e ele responde que está terminando o cigarro.

jovens depoentes: revelações comovidas

jovens depoentes: revelações comovidas

Mas, atenção: não entendamos isso como defeito. Apenas estamos diante do filme póstumo possível, e a dupla Salles e Berg foi sábia em manter o equilíbrio entre o estilo Coutinho e um Coutinho inventado ad hoc, e à revelia de si mesmo. Nisso “Últimas conversas” é um filme que mostra suas entranhas, em vários sentidos da palavra.

“É melhor não fazer do que fazer um filme de 70 minutos em que você não acredita”: a fala de Coutinho é toda pessimista e passa a ideia de estar trabalhando por obrigação, sem inspiração e sem garra. Foi bom que essa fala desencantada tenha sido posta no início do filme, pois, o que se vê em seguida nega as palavras do autor e comove o espectador, tanto quanto – ouso dizer – nos comoveram outros filmes de Coutinho.

Escolhidos a dedo, os jovens entrevistados dão depoimentos fortes que, se for o caso, fazem o espectador revisar seu conceito de juventude.

jovens depoentes: racismo e outros males

jovens depoentes: racismo e outros males

Vejam o caso daquela jovem que, contando sua difícil relação com a família, perde o controle e chora diante da câmera, ao tratar da frieza da mãe, que a vida toda a sustentara com bens materiais, mas nunca manifestou qualquer expressão de afeto. Essa mesma mãe que preferiu acreditar no companheiro, quando soube, da boca da filha, que este costumava assediá-la sexualmente.

Ou daquela aluna negra que diz não acreditar em preconceito racial e, no entanto, relata que os irmãos, mais alvos que ela, a rejeitavam na presença dos amigos. E, mais grave ainda, no dia em que vai estudar em colégio particular, as alunas da turma, lhe pregam uma peça de mau gosto em que ela, a única negra da classe, é comprada como se fosse um objeto.

Se o espectador habitual de Coutinho por acaso surpreendeu-se com a cena inicial em que ele é entrevistado, uma segunda surpresa é deixada para o final. Quebrando a regra do projeto (entrevistas com estudantes de Ensino Médio), a última entrevistada é uma garotinha de seis anos de idade – faixa etária inédita em Coutinho! – com quem o cineasta parece estar bem mais à vontade do que com os outros depoentes.

Tão à vontade que sai do foco repetindo a frase da menina “Deus é um homem morto” e confessando, animado, que o que devia fazer era um filme só com crianças.

Quem sabe? Talvez fosse o próximo.

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Em tempo: você encontra a minha matéria sobre o filme “As canções” neste blogue: é só digitar acima, no setor de BUSCA, o seu título MÚSICAS E LÁGRIMAS.

Estudantes do Ensino Médio contam suas estórias

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