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CORINGA

16 out

Fui ver “Coringa” (2019) domingo à tarde, sessão lotada. Na saída, ouvi uma senhora comentando, indignada: “… feito pra justificar a violência”.

Saí pensando em quantos espectadores acharão isso. De qualquer forma, uma pequena injustiça que, certamente, vai se perder ao meio da aclamação, mais que justa, que o filme de Todd Phillips vem recebendo e, seguramente, receberá.

Não tenho formação em quadrinhos, mas é possível sentir o quanto essa história de Gotham City reinventa, ou mesmo recusa, as conhecidas.

A minha primeira anotação é que não “adapta” uma história conhecida, nem dos quadrinhos nem de lugar nenhum. Se há uma adaptação dos comics ela está no nível exclusivamente actancial, ou seja, relativo aos personagens – no caso, a um personagem só: o Joker. E a adaptação feita é, no mínimo, original, genial, estupenda.

O que temos aqui? Não um personagem maligno, ambicioso, e poderoso que queira dominar o universo, ou destruí-lo. O “coringa” do nosso filme é um pobre coitado que vive sofrendo um bullying atrás do outro, mais que isso, um doente mental espancado por uma sociedade cruel.

Palhaço terceirizado, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) vive modestamente com a mãe idosa e doente, de quem cuida. Quer ser comediante stand up, mas não possui o humor para tanto, embora, ironicamente, um dos sintomas de sua patologia sejam risadas nervosas incontroláveis.

Um dia descobre que poderia ser filho de uma figura importante, Thomas Wayne, o prefeito de Gotham, em cuja mansão a mãe fora, no passado, empregada doméstica. Vai em busca dessa pequena vantagem e, mais uma pancada da vida, quebra a cara.

É quando começa a revidar e o revide vai ser, inevitavelmente, violento. Descontrolado, já revidara um dia, no metrô, quando mata dois agressores, mas a partir de agora, o revide tem a cara pintada da vingança e o mesmo cinismo de seus adversários.

Um ingrediente fundamental nessa fase-vingança de Arthur Fleck está na dança. Muita gente vai lembrar o desempenho de Joaquin Phoenix pelas gargalhadas nervosas, mas acho que mais memorável que isso é a sua bela coreografia, ao som de uma certa canção de Frank Sinatra.

Aliás, mais que os comics da vida, o filme parece uma adaptação cinematográfica da recorrente canção de Sinatra “That´s life”. Com efeito, a letra da canção “biografa” o Coringa como uma luva. Dela cito só o refrão: “I´ve been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king…” (´Já fui um fantoche, um mendigo, um pirata, um poeta, um peão e um rei…`). Com exceção do último termo, tudo dá certo com o universo semântico do atormentado protagonista, com seus altos e baixos, seus delírios e suas quedas, e, pensando bem, mesmo o termo “rei” cabe, já que seu sonho era ser um dia o rei dos comediantes. Nem quero lembrar – e lembro – que, condizente com o desenlace do filme, o final da letra é uma afirmação suicida: “I´m gonna roll myself up in a big ball and die” – ´vou me enrolar numa grande bola e morrer´.

Suicida ou não, a vingança do coringa tem, sim, uma apoteose. É quando os palhaços profissionais da cidade se revoltam contra uma certa afirmação do prefeito (que um dia usara o termo “clown” / ´palhaço´ no sentido pejorativo) e empreendem um levante estrondoso que desarruma Gotham City.

Nesse levante, Arthur Fleck é alçado a “rei” (!) e uma das cenas mais emblemáticas de sua desesperada resiliência é aquela em que, depois de acidentado no carro da polícia, fragilizado e tombante, sente o calor do sangue na boca e, com um gesto sagaz, puxa o sangue para os lados e para cima e, assim, desenha um sorriso – o mesmo da sua máscara de palhaço. E nesse momento, o espectador recupera um remoto intertexto do filme, o romance do escritor francês Victor Hugo “O homem que ri”, também a estória sofrida de um miserável com uma deformação bucal que sugere sorriso, mas é dor.

Porém, penso eu, a mais memorável de todas as belas e cruéis imagens do filme é a seguinte a este sorriso ensanguentado: é – repito – a figura desse palhaço enlouquecido, maleável e elegante em sua extrema magreza, executando a sua desesperada e cativante coreografia em cima da lataria de um automóvel de polícia – claro, ao som de “That´s life

A propósito, acho o filme magnífico, mas, penso que seria mais artisticamente efetivo se tivesse se encerrado com esse fotograma. A cena seguinte, com Fleck na sala branca e fechada de um hospital psiquiátrico, sendo interrogado por uma médica, me soou como água na fervura – lembrando aliás, outro final choco, o do hitchcockiano “Psicose”.

Dizer o que mais? Um filme único, como não se fazia havia décadas. Um filme para ser mais sentido do que conceitualizado: gostaria que a senhora que o viu na minha sessão de domingo à tarde entendesse isso.

“STAN & OLLIE” – O Gordo e o Magro

16 abr

Acho que, na minha infância, vi mais o Gordo e o Magro do que Carlitos. Eram filmezinhos curtos, que passavam antes da película principal, nas matinées dos cinemas de João Pessoa – alguns, suponho, da fase muda da dupla – mas o pouco tempo das projeções era suficiente para fazer a sala estrondar com as gargalhadas da plateia.

Era o aperitivo para o longa a ser visto, e nunca me preocupei com os créditos,  nem sei se eram mostrados. Sequer os nomes dos personagens interessavam: para mim – e para a garotada toda, acho – tratava-se de “o gordo e o magro” e isso bastava. Só muito tempo depois, já um cinéfilo em formação, é que ouvi falar, ou li sobre, Stanley Laurel e Oliver Hardy – os Stan & Ollie das plateias americanas, sempre nesta ordem (o magro e o gordo), contrária à nossa.

Steve Coogan e John C Reilley no papel da dupla famosa

Pois foi com os olhos alegres da infância (mas também com um pouco de desconfiança) que fui assistir a esse “Stan & Ollie – o Gordo e o Magro” (2018), produção anglo-americana-canadense sobre essa dupla imortal, possivelmente a mais famosa e a mais querida da sétima arte. Imagino o trabalho que deve ter tido a produção para localizar atores que exibissem os respectivos “physiques du rôle”. Steve Coogan e John C Reilley foram os escolhidos, e acho que funcionou bem, apesar de o nariz de Reilly ser bem maior que o de Hardy.

Com direção de Jon S. Baird e roteiro do escritor Jeff Pope, o filme começa em 1937, fase áurea da dupla, quando estavam rodando um dos seus maiores sucessos, “Dois caipiras ladinos” (“Way out West”), um faroeste musical em que, na rua, de frente a um saloon, eles performatizam um número de dança engraçadíssimo.

Mas, logo logo pula o filme para 1953, quando o prestígio comercial e artístico da dupla já não era mais o mesmo. Aliás, estava longe de ser. A cena em que, passando por acaso na frente de um cinema, Laurel vê o cartaz de um filme com Abbot e Costello é um sintoma bem claro de que a concorrência os afetava, como nunca afetara antes, mesmo no tempo do cinema mudo com, por exemplo, Chaplin e Buster Keaton.

Agora, digo, no começo dos anos cinquenta, com meia década fora das telas, Stan e Oliver vivem de apresentações em palcos de teatros que nem sempre lotam suas cadeiras. É nessa época de decadência franca que fazem uma turnê pelo Reino Unido, porém, o peso da idade, as dificuldades com os produtores e a eventual indiferença dos espectadores vão minando sua disposição, e pior, vão alimentando um inoportuno clima de hostilidade entre os dois que, num momento de crise, desabafam e se ferem mutuamente.

Para piorar, no meio da turnê, Hardy sofre um ataque cardíaco, enquanto Laurel se envolve num projeto à parte, fazendo par com um comediante novato. Quando a separação entre os dois parece coisa definitiva, Laurel desiste do novo projeto e procura “Babe”, que era o seu apelido carinhoso para Hardy: quase entre lágrimas, os dois refazem as pazes e, se não fazem mais filmes, nunca mais se separam, mesmo sabendo que a carreira da dupla estava inevitavelmente no fim. Ou por isso mesmo. Com exceção dos seus primeiros filmes, antes da formação da dupla, Laurel nunca filmou sem Hardy, que veio a falecer logo depois, em 1957. E ele, oito anos depois, em 1965. Como muito bem disse em verso o poeta Sérgio de Castro Pinto: “do gordo é o magro / continuação intensa / um ponto dentro / de uma circunferência”.

Entre curtas e longas, mudos e sonoros, num período de 36 anos – de 17 a 53 – a dupla rodou 106 filmes que encantaram o planeta, infantil e adulto, e que, ainda hoje, de alguma maneira, encanta.

Dessa filmografia, destaco um aspecto que só notei em retrospecto, a partir de reflexões próprias sobre a história do cinema e dos movimentos cinematográficos: é que ela foi quase toda surrealista no sentido próprio da palavra, em alguns casos, bem mais que os filmes assim chamados, com a vantagem de – ao contrário dos filmes assim chamados – fazer rir.

O palhaço

3 out

Houve risos? Com que frequência e em que proporção? Lamento não ter assistido a “O palhaço” (Selton Mello, 2011) em um cinema da cidade e não ter podido constatar a reação do público local a uma comédia que, afinal, já teve três milhões de espectadores no país…

Eu que o vi em ambiente privado me indago sobre a sua recepção, pois o palhaço Pangaré – o protagonista de quem o filme trata – tem menos de engraçado e mais de triste. O que, aliás, por tabela também vale para o filme.

No palco ou no picadeiro do mambembe “Circo Esperança”, Pangaré comete as suas performances com a competência esperada, porém, fora daí, o pobrezinho vive ´sem graça´ (palavras suas), cada vez mais melancólico. E mesmo no palco, a sua ´graça´, que tanto diverte o respeitável público, sai – para ele, pelo menos – sem gosto.

Qual o problema com Pangaré (interpretação excelente de Selton Mello)? Com certeza não é só por que lhe falte um ventilador – o que lhe insufla ao pé do ouvido essa maldosa Lola (Giselle Motta), namorada desonesta do seu pai, o também palhaço Puro Sangue (Paulo José), seu companheiro de palhaçadas circenses.

É verdade que imagens de ventiladores vão perseguir Pangaré filme afora, mas, esse objeto eletrodoméstico parece coisa menos concreta, algum símbolo vago de uma insatisfação indefinida. A busca de novos ares? A rigor, Pangaré parece buscar algo mais íntimo, mais fundo, como, por exemplo, a sua identidade, e aqui a palavra tem, inevitavelmente dois sentidos: um concreto, o RG que o tornaria cidadão com endereço, e o outro, mais importante, abstrato, a essência mesma de sua personalidade.

Seja o que for, Pangaré não está satisfeito consigo mesmo e, por isso, lhe ocorre a ideia, ao mesmo tempo temerosa e tentadora, de afastar-se das lonas do “Esperança”  e – quem sabe? – virar um cidadão normal, com CPF e comprovante de residência…

Vertiginoso e rápido, o afastamento acontece somente para provar ao próprio Pangaré que sua vocação é ser clown mesmo, e a estória desse palhaço triste se fecha circularmente com ele, em pleno picadeiro, em desempenho epifânico, agora piscando o olho para uma moça da platéia, uma cortadora de cana que ele conheceu no caminho de sua queda, e que, nós, antes dele, conhecemos no primeiro fotograma do filme.

E o ventilador, afinal comprado, vai ter outro endereço… que não revelo a quem ainda não viu o filme.

O roteiro, como se vê, é simples, mas o filme todo é uma pequena obra prima de mise-en-scène, com tudo o que a expressão implica, inclusive o extremo capricho do cenário, da coreografia, da fotografia, da trilha sonora, da montagem, das interpretações, e tudo mais.

Lírico, requintado, ritmado, fluente, “O palhaço” é um filme “de personagem”, e o personagem é Pangaré. Mas não apenas Pangaré: também a trupe inteira do “Esperança”, junto com os habitantes das cidades visitadas, uma galeria de tipos originais onde realismo, caricatura e kitsch se misturam de modo perfeito. Para dar apenas dois exemplos: o “homem magro” que vive sonhando com cabras é uma figura impressionante, para assombrar a imaginação de qualquer frequentador de circo, ou de cinema, assim como, noutra escala, o é o casal formado pelo Prefeito e a esposa, com seu filho prodígio e seus poeminhas infames.

Embora possa lembrar certa tradição cômica do cinema brasileiro (Oscarito, Didi Mocó, etc) “O palhaço” possui um charme sofisticado que nos faz pensar em Chaplin, Tati, Fellini, e, sem dúvida, no Ettore Scola de “A viagem do capitão Tornado”. Sim, imaginário, feérico, fantasioso, não é somente um filme “de personagens” – é também, com muita propriedade, um filme “de atmosfera”.

Construído com empenho autoral, esmero, delicadeza, e sentido poético, o que se observa de fato é que, sem o deboche desbundado a que estamos acostumados nas nossas comédias nacionais, “O palhaço” não tem propriamente tradição no cinema brasileiro.

Disse acima que gostaria de ter testemunhado a reação das platéias a “O palhaço” numa sala de cinema. Uma coisa é certa: decididamente o filme de Selton Mello não foi feito para arrancar gargalhadas. Talvez um risinho no canto da boca, suave, complacente, tristonho… e encantado.

Não deixa de ser sintomático, e talvez instrutivo, o fato de que tenha sido o filme selecionado pela equipe do MEC para representar o Brasil na disputa ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013.

Suas chances de entrar na lista final não sei quais são, mas, já vale o prazer de, no cinema ou em casa, tê-lo apreciado.